Pensando as futuras gerações

ESCOLA DE MÚSICA

 

Pergunta feita por uma jovem estudante de violão, após uma audição de Darcy Villa Verde em um auditório,  frente a uma plateia de músicos e violonistas numa aula-apresentação. [Entrevista concedida em meados dos anos 2000]

– Sr. Villa Verde, tendo em vista o atual contexto musical que vivemos, como um músico em início de carreira pode desenvolver atualmente uma formação como concertista de violão solista no Brasil? O senhor podia falar um pouquinho de sua visão sobre este tema?
 

Esta é uma questão de difícil compreensão para quem está começando na profissão, pois exige muito amadurecimento e clareza quanto ao cenário que vivemos e quanto a iniciativas de difícil aplicação, uma vez que a maioria dos músicos se sentem abatidos com a atual realidade.

A resposta à sua pergunta exige uma grande visão e revisão geral na compreensão de toda uma tendência musical que se apresenta em transformação. Uma tendência que vai permanecer causando quebras de expectativas e até de paradigmas; exige também uma visão e revisão de toda uma cultura no que se refere ao violão erudito, que começa a dar sinais de falta de direção; e que também exige uma visão e revisão de todo um processo de aprendizado que vigora nas faculdades e escolas de música, principalmente porque lidam com uma disciplina cheia de teoristas graduados, mas carentes de bons executores e intérpretes. Isso é muito grave.

O atual cenário porém, na minha opinião indica, ao contrário do que muitos possam achar, um sinal de cansaço dessa tendência social musical mais centrada no ritmo e oferece espaço e oportunidade para o surgimento de uma nova era da música e das artes, uma época mais ‘senior’ psicológica, social e emocional.
Muitos dados refletem esta direção e esta é a visão que tenho do futuro.
Como um respiro do tempo, haverá um intenso desgaste que definhará toda essa falta de perturbação e refinamento musical, dando lugar a uma eclosão de erudição e prodígios, e sinalizando uma nova era musical em nosso tempo.

Desta forma, penso que podemos trabalhar a partir de uma base e revisão geral do que já foi conquistado, ou seja, partir do que já temos de registros em termos de cultura do violão, de música e de interpretação. 

Digo isso, porque muitas mudanças ocorreram e continuarão a ocorrer no mundo do violão. A qualidade dos instrumentos, o acesso e compartilhamento das informações, os avanços em termos de amplificação sonora e de facilidade de ensino, certas mudanças de técnica, inclusive; acredito que, exponencialmente, cada vez mais essas transformações irão acelerar.
Essa é a tendência.
Contudo, em termos de técnica e amadurecimento da musicalidade e da sonoridade, da intenção e expressão musical e da exploração do violão como instrumento de potencialidades orquestrais, o que o lança a patamares mais competitivos frente a outros instrumentos solo, pouquíssimo foi feito.
Principalmente no que diz respeito ao violão erudito. 

Você ouve os jovens violonistas e, com raras excessões, tudo parece um tanto igual, sem identidade musical, se é que me entende. Como se fossem variações de um mesmo tema. Há diferenças, o som é bom, mas soa tudo muito próximo.
Isso se dá pelo pouco amadurecimento técnico e musical interpretativo e pela pouca aquisição de técnicas de sonoridade.
Percebe-se que o instrumento é pouquíssimo explorado nas suas potencialidades tímbricas, tonais e de ‘cores’, na construção de uma intenção musical.

Tocam violão, mas não fazem música.

– Sr. Villa Verde, o senhor poderia abrir um pouco mais essa questão para ajudar a entender o que fazer? Porque isso que o senhor falou me parece bem difícil de resolver, o senhor não acha?

 [Darcy Villa Verde pede tempo e faz algumas anotações]
 
 

Penso que a noção atual de ‘música’ e ‘musicalidade’ precisa ser revista pelas novas gerações. 
 
Essa questão é complexa, porque trata de ressignificar música e musicalidade no universo do violão. E a coisa complica porque alguns dos pontos a serem revistos precisam ser revistos naqueles que estão ensinando, atualmente. E admitirmos isso, não é uma tarefa nada fácil de se obter resultado.
Não vejo muito os violonistas que querem seguir carreira profissional, estudando por horas e buscando fazer pesquisas e  ‘benchmarking’ como no meu tempo; e olha que nunca o acesso à informação foi tão fácil quanto hoje.

O que eu estou falando não tem nada a ver com ficar assistindo videos na internet.

Vemos até hoje, apesar de toda a informação, muitos violonistas apresentarem dificuldades básicas de execução e de conceito que inferem direta e negativamente no resultado musical de seu trabalho, e nem se dão conta disso.

. Música é a sequências de sons que eu produzo com o meu instrumento em acordo com as marcações de uma pauta, ou é a forma como interpreto uma obra?

. Interpretação é a forma como eu consigo tocar o que leio numa partitura, ou é a habilidade de sonorizar o que eu sinto do que leio sem ‘ferir’ estilo, estrutura e as marcações de uma peça?

. Musicalidade é amar a música, saber tocar desde pequeno e me envolver inteiramente com ela ao longo da vida ou é a capacidade de um concertista exsudar a música através de uma interpretação que alcance dimensões próprias, envolvendo e sensibilizando a plateia?

Estas questões deveriam ser respondidas com o fatídico ‘É um pouco de cada coisa’, ou deveriam ser considerada por profissionais realmente capacitados e sérios?

Neste campo há muito a se fazer, e em se tratando de concerto de violão clássico, a coisa toda se torna um desafio enorme. Principalmente porque é um instrumento em que quase todo mundo acha que toca bem, e na verdade pouquíssimos sabem que não. [risos]

Dominar o instrumento em todos os seus espectros de sonoridade [saber extrair diferentes sons], de timbres [saber trabalhar diferentes modulações nesses sons] e de potencialidades orquestrais [saber simular instrumentos e grupos desses instrumentos nas cordas, modulando-os], é obrigatório para quem quer ser concertista; saber fazer isso em tempo real, debaixo de uma visão interpretativa, regida pela intenção musical e espírito do momento que o intérprete define de maneira própria, é tarefa essencial e fundamental para o que se chama ‘alta interpretação’ no violão. Caso contrário, fica tudo muito parecido.
 
A ideia de cultura musical precisa ser revista
 
Este assunto dá livro. Estamos vivendo um momento em que o diapasão do bom-senso e do critério musical buscam se afinar mais aos interesses comerciais, imediatistas e políticos do que aos verdadeiros talentos que merecem grande investimento para o seu adiantamento musical e cultural na sociedade. 

A noção de violão como instrumento de concerto, e alguns conceitos que afetam a forma de tocar precisam ser reavaliadas. 
 
Não se pode querer ignorar todo um passado já construído ao longo de anos em termos de técnica, alterando toda uma escola de violão, como vem ocorrendo, e quando descobrimos que aquilo que está sendo desenvolvido não é suficiente para elevar o violonista a patamares maiores, tomamos a decisão de tentar enxertar algumas técnicas de escolas do ‘passado’ para melhorar algo que não está funcionando bem. E aí que começam os problemas, porque todo mundo começa a procurar por ‘dica’.
Dica de como melhorar o som, dica de como consertar digitação, dica de como fazer o som soar envolvente ou bonito, e por aí vai.
Se o violonista não sabe o que fazer, como teriam critério para avaliar e validar do que saem ouvindo, por aí?
De acordo com a forma de tocar, determinada dica pode funcionar pra um e não pra outro.

As coisas precisam se complementar, e para isso uma base sólida e ‘experimentada’ por grandes mestres, é fundamental.

Vejo muita gente formada se referindo às escolas de Tárrega, Llobet, Segovia ou Ida Presti como escolas do passado, e ao mesmo tempo trazendo dificuldades execucionais nas próprias interpretações, e me perguntando se posso ajudar a resolver problemas que são de má formação técnica.
São violonistas que já ouviram até falar a respeito desses grandes mestres do passado, mas que nunca as estudaram. 

Deveriam conhecê-las e trabalhá-las profundamente.

Nada contra evoluir e modernizar métodos e processos de ensino; mas vamos evoluir a partir de uma base que seja sólida e coerente com os potenciais que o violão oferece, que, como costumo dizer, ensine a fazer música e não apenas a tocar violão.

Vez ou outra assisto com o meu filho algumas ‘masterclasses’ no Brasil, de violonistas ativos profissionalmente que sequer conseguem tocar a peça que corrigem de seus alunos. Ou então, de alunos que nem conseguem tocar o que será ensinado! 

O pressuposto, que seria de violonistas profissionais experimentados aperfeiçoando suas interpretações com profissionais renomados, se transforma numa audição de alunos muito ‘crus’ que sequer conseguem fluir o que está na pauta.
Isso não é uma masterclass! Será que só eu vejo isso?!

Outra coisa que não faz sentido algum, é alguém entregar a sua própria formação a um profissional que estudou teoria mas que desconhece as bases de formação da execução e da interpretação que sedimentaram todo um acervo histórico e prático no violão de concerto.
Ou, então, como já mencionei, que não sabe tocar direito a própria peça que ensina; violonistas que se dizem professores e que erram digitação, confundem ‘marcações de pauta’ bem feita com ‘alta interpretação’ e que desconhece o trabalho de produção e formação técnica que respondam à uma intenção sonora necessária ou desejada pelo músico.

Há uma carência muito grande de bons músicos para ensinar atualmente. O mercado está cheio de violonistas que não conseguem se estabelecer e que recorrem às aulas como recurso para compor renda. Sem ‘estrada’ e formação maior de violão, sem experiência de palco e sem técnica de acabamento sonoro. São profissionais que deveriam estar tendo uma chance de crescer e amadurecer, mas estão ensinando!
Imagina! Tem até quem se passa de ‘autoridade’ ou ‘expert’ em violão só por ter tido aulas ou conversas privadas com algum violonista conhecido! Se outorgam um valor e uma grandeza que não vira música num palco profissional.
E as pessoas aceitam isso! E aceitam porque esse alguém tem muitos seguidores na internet. É tudo uma fantasia, uma ilusão.

Os bons músicos hoje estão tocando. A necessidade de se manter e a concorrência do mercado exigem demais deles, e eles não dispõem de tempo para a cátedra. Estes, só vão abrir um espaço para ensinar, se for em ‘masterclasses’ pontuais. 
Assumir salas e classes de formação profissional como Segovia, Ida Presti e outros já fizeram, e muito poucos ainda fazem, é raro.
Os bons mesmos só vão considerar instituir um processo próprio de ensino quando estiverem mais velhos e muito estabilizados. 
Hoje um bom músico se predispor a dividir seu tempo com ensino e ter perfil para esse tipo de atividade como um Turíbio Santos, por exemplo, é muito raro. Pessoas como ele não são só violonistas, representam uma ‘escola’ de aprendizagem. São oportunidades que não podem ser desperdiçadas por quem deseja se tornar um violonista sério. 

A noção de currículo precisa ser revista. 

Esta questão tem dois enfoques.
Se estamos falando de um curriculum de uma aula em universidade ou se estamos falando de um currículo direcionado à formação de um estudante isolado.
Em ambos os casos um currículo precisa ter uma estrutura com a capacidade de se moldar à necessidade de um aluno.
O currículo, de fato, será construído durante as aulas de violão. Se não for assim, o resultado é uma massificação pasteurizada de teorias sem repercussão em termos práticos no resultado musical e interpretativo do violonista. 

Em música, diferentemente de outras disciplinas, as coisas ficam mais complexas porque um estudante já entra com uma formação prévia, o que pode demandar necessidades diferentes de um estudante para o outro; desde reformatar o aluno por inteiro criando uma nova direção e formação, até ter que suprir ou reconstruir o que ele precisa para poder se desenvolver e permanecer interessado e produtivo no que desenvolve em função do que aprende.

Como alguém pode montar um currículo focando toda uma turma se não sabe como este irá funcionar com cada aluno em uma mesma classe, por exemplo?
O mundo acadêmico está cheio de ideias e teorias que nem sempre se aplicam ao músico e, principalmente, ao violão. 

Outra coisa, não entendo como alguém pode ensinar algo que não sabe demonstrar e fazer com perfeição. Não me refiro a um profissional que já fez muito e que pela idade e tempo não consegue mais executar, isso é diferente! Esse, pode não conseguir mais fazer, mas sabe levar o aluno a fazer porque já fez, conhece o caminho. Me refiro a como alguém pode se acreditar ‘mestre’ em algo, só porque tomou aulas, fez alguns exercícios, passou numa prova e ganhou um diploma?
É o que mais se vê, atualmente.

Outro enfoque de currículo, que é o reflexo do que acabo de dizer, é o currículo de um estudante de violão como validação do que ele representa como músico ou concertista. 
Muitos já me procuraram apresentando currículos enormes, cheios de graduação mas que quando tocavam, nada daquilo virava música.
Já outros, tinham uma formação simples mas quando tocavam impressionavam! Dava para ver a música.
Sabiam um monte de coisas, mesmo sem terem tido uma trajetória acadêmica. Já imaginou um jovem violonista desses entrando em uma universidade e tendo que cumprir um currículo que desconsidera o que ele já sabe e faz?

Um estudante de violão hoje, precisa ter clareza quanto ao que fazer e como fazer, para que não embarque em uma condução de formação solta e desestruturada, ou descontinuada no que diz respeito a própria musicalidade e sonoridade no violão.
Um estudante precisa conscientizar e amadurecer a ideia de sua própria construção como músico.
Nada muito diferente do que já acontecia antes.

Formação acadêmica é essencial e isso não se discute, mas ela precisa se ajustar à realidade do instrumento – violão – e da construção de ‘alta interpretação’ através do domínio absoluto do instrumento, de suas potencialidades sonoras.
A maioria desses violonistas não alcança sequer a metade do que o violão, musicalmente, tem condições de oferecer; menos ainda alcançam o que o próprio instrumento potencialmente oferece.

Concluindo este tópico, penso que inicialmente a ideia de ‘currículo’ para violão precisa ser revista e repensada nas universidades. E ser revista e repensada por alguém que não só entenda profundamente de violão, mas que o toque ou já tenha tocado eximiamente.

Depois, penso que os melhores violonistas do mundo, tanto os já aposentados como aqueles em atividade, deveriam se unir em torno do propósito de constituir uma escola moderna – presencial e virtual – de formação profissional internacional, ajudando a complementar a formação de alunos que se destacam pelo grande potencial de talento, de técnica e de musicalidade que trazem.  

Uma espécie de Academia, um Instituto virtual de refinamento e graduação superior, em que cada professor ou mentor dessa Academia – violonistas profissionais em atividade ou aposentados – em seu próprio país, se incumbissem de receber e complementar a formação de determinados alunos que se destacam ‘realmente’, ajudando-os a amadurecer musical, instrumental e sonoramente em suas interpretações. 

Desta forma o aluno poderia tramitar entre esses ‘cobras’ apreendendo o que cada um oferece de melhor, e ganhando a possibilidade de até poderem se apresentar junto a alguns desses músicos. Isso, no caso dos mestres que ainda estiverem tocando profissionalmente.
Isso permitiria os alunos a adquirir, de cada um desses profissionais experientes, material técnico e musical prático que o auxiliassem a se profissionalizar no intuito de virem a ser reconhecidos mundialmente.

Cada um desses profissionais poderia assumir uma parte da formação [em um perfil de atuação que se destaque] desses jovens violonistas e ir complementando o trabalho de formação, dando ao aluno a possibilidade de imergir em diferentes universos técnicos e de sonoridade, e de descobrir o seu próprio universo musical.
Não precisa ser um grupo formado exclusivamente de violonistas, não. Podem ser músicos, concertistas e até maestros renomados.
Desta forma o aluno aprende a como se expressar musicalmente com mais maturidade e com interpretações mais autorais, o que o torna mais interessante como músico.

Essa foi a minha formação e de muitos outros, e posso garantir que funciona. 
Esse Instituto ou Academia Masterclass, poderia cuidar, também, de trabalhar em prol da divulgação do violão como instrumento de concerto promovendo um maior aculturamento, através de concertos e recitais que funcionassem como apresentações-aulas para o público, nos moldes do que cheguei a fazer. O público gosta muito quando é feito numa medida certa e por pessoas talentosas e musicais.

Outra coisa que essa espécie de Academia Masterclass poderia fazer é dignificar o violão com um Concurso Internacional de interpretação. Que premiasse quem tocasse mais ‘música’; quem realmente soubesse ‘interpretar musicalmente’ uma peça musical, que valorizasse quem soubesse potencializar mais os recursos tímbricos, tonais e orquestrais do violão, se é que me entendem.

É uma ideia que precisa de um trabalho enorme de organização e planejamento com relação a patrocinadores, a logística de seleção desses violonistas que fariam parte do corpo docente, e também com relação ao critério de seleção desses potenciais alunos, assim como de tantas outras coisas não menos importantes.  
Uma iniciativa séria que não desse margem ou porta de entrada a conchavos e mediocridades do tipo “Dá uma forcinha aí pro meu sobrinho, ele não foi classificado mas é muito talentoso e esforçado!” Esse tipo de mesquinharia que se vê muito por aí.

E o mais importante, todos devem ser muito bem pagos para fazê-lo. Dos violonistas participantes aos alunos; dos organizadores aos gestores.
E a mídia, em nome da cultura que tanto preza e alardeia, deveria ajudar assumindo o financiamento de toda a propagação massiva desta iniciativa.
Esta é uma oportunidade de reescrever a história do violão erudito – clássico, moderno e popular – no Brasil, e até no mundo.
Uma oportunidade para quem tem vontade e garra de realizar o ideal de ser um concertista de violão num país em que o violão de concerto cada vez mais assume um protagonismo maior na história da música brasileira e internacional.

A necessidade de aperfeiçoamento destes futuros e promissores violonistas, aliada à própria ‘garra’ em querer aprender de verdade com os melhores, merece uma oportunidade de destaque e depende apenas da determinação de cada um em buscar realizar o que deseja.
Cada um de vocês precisa ser o artesão da sua própria escola. Foi assim comigo e com todo grande violonista de um lado ao outro do mundo. Do espanhol Andrés Segovia ao ucraniano Marek Sokolowsky; do inglês Julian Bream ao paraguaio Agustín Barrios. Da francesa Ida Presti a argentina Monina Távora; do espanhol Miguel Llobet ao australiano John Williams.
Todos foram artífices da própria formação, determinando o que fazer, com quem e como.

Existem pessoas, escolas, organizações, instituições, patrocinadores e, quem sabe, até investidores para ajudar, mas em se tratando do violão, cada um precisa saber o quanto está disposto a se sacrificar para poder se tornar um profissional de alto nível neste instrumento tão difícil de ser dominado. Porque se for a sério, a estrada é longa, muito longa. 

Me lembro de um jovem que me abordou no meio de uma tournée pedindo uma audição comigo e eu terminei não dando, por conta de uma agenda apertada.
Pois não é que o cara descobriu o hotel onde eu estava hospedado, entrou como se fosse um hóspede, sentou no corredor em frente a porta do meu quarto num banquinho, às 07H00 da manhã, e começou a tocar uma suite de Bach?
Eu não abri a porta de imediato e fiquei ouvindo. O rapaz tocou o Prelúdio, passou para a Allemande e continuou.
O rapaz era muito bom, muito musical e tocava bem.
A segurança chegou, pediu para ele parar dizendo que ali não era lugar e nem hora, que era cedo demais, perguntou em qual quarto estava hospedado, e quando descobriram que ele não estava no hotel, o forçaram a se retirar. O rapaz reagiu, a confusão começou, eu abri a porta e vi que ele ‘encarou’ o segurança e se atracou com o cara no corredor. 
Manobrei a situação, dispensei o segurança, convidei-o para entrar e pedi para ele tocar. Ele nervoso, muito emocionado, tremia e tocava sem parar. 

Sua música era bonita, um tanto ‘presa’ mas bonita.
Aquilo me emocionou e decidi ajudá-lo.
Confesso que ele me conquistou quando saiu na mão com o segurança. [risos]

A reclamação dele era que nenhum professor conseguia fazê-lo ultrapassar o limite que tinha alcançado musicalmente, e ele tinha consciência de que alcançara muito pouco.
Largou a faculdade no último ano, não se via evoluindo.
Sabia tocar mas não conseguia fazer a música que sentia.

Dei aulas esporádicas a esse rapaz que viajava da cidade dele [não lembra] ao Rio de Janeiro para me encontrar quando eu retornava ao Brasil. Reservava uma manhã inteira para ele. Cada vez que voltava estava melhor e ‘maior’. Um talento em termos musicais e interpretativo.

Como sabia muito e estudava sem parar, aprendia rápido.
Eu dava 5 horas de exercício a ele, ele estudava 8.
Disse a ele que se continuasse evoluindo daquele jeito, chegaria um momento que o convidaria a tocar duas ou três músicas em um recital meu. Seus olhos brilharam.

Infelizmente a vida tinha outros planos para ele. Depois de um inexplicável sumiço, soube circunstancialmente, através de uma parente sua, que ele falecera num desastre de automóvel. 
Uma tragédia. Me deixou muitas lembranças e saudades. 

Aquele, sim, era um violonista concertista clássico. 
Tinha ‘espírito’, seriedade e muita disposição. Com certeza, seria grande.

A forma de como apresentar um repertório ‘erudito’ à geração atual, precisa ser revista. 

Em meu tempo, me vali dos recursos que estavam disponíveis na época. 
Quando me determinei a conquistar público, todos só diziam que era impossível, que não dava, que até músico popular tinha dificuldade para conseguir espaço na mídia, imagina violão clássico, que era caminhar na contramão da tendência, que o preconceito era muito grande, que a população não tinha capacidade de absorver certos patamares da cultura, e etc.

Para isso, precisei de muito planejamento, determinação e foco.
Foram horas e mais horas de estudo de técnicas, de reinvenção de repertório, de ‘brainstorms’, de buscar me relacionar com as pessoas certas, de pesquisas de comportamento, de apresentações planejadas, de uma visão de marketing e relacionamento totalmente fora do convencional em termos de violão, como também de me utilizar dos recursos existentes, muitas vezes inacessíveis e indisponíveis, para poder conquistar o meu público. 

Precisei melhorar minha comunicação, entender melhor como falar com o público num teatro e num auditório na TV, adequar meu vestuário, minhas abordagens. 
Tive que pensar em cada coisa que fazia para que ela pudesse ajudar a construir o que eu queria; tudo precisava ser parte de um mesmo propósito. 
Muitos erros e acertos, mas o resultado veio. 
Depois, todos ficaram admirados como eu conseguia tanta mídia. 
É claro que minha musicalidade, habilidade e carisma, além das muitas horas de estudo e trabalho contribuíram para este resultado, mas foram muitas as adversidades e obstáculos.

Os tempos são outros, a forma de tocar mudou, a tecnologia mudou, os meios de comunicação mudaram, os hábitos e costumes mudaram, as gerações mudaram, as políticas e a economia mudaram, mas o público com seus valores, interesses e emoção, esse, permanece. 

É exatamente aí que cada um precisa ser criativo e saber atuar para engajar este novo público. E talvez, pela realidade atual, atuar em conjunto.
Esse espírito de competição de um violonista querer apagar o outro para ter um momento de brilho é infantil e uma grande perda de tempo. Quem é medíocre morre medíocre com esse pensamento.
A classe violonística precisa se ajudar. Tem que agir pelo violão, cada um se tornando melhor a cada dia para poder oferecer o que tem de melhor. E, acima de tudo, admirar o outro pelo o que o outro construiu e oferece. 

E o violão, ainda primo pobre, se ressente dessa desigualdade frente aos outros instrumentos exatamente por falta dessa visão e revisão. 

Compete a nós, os violonistas, tratar de resolver isso. Através de uma revolução que a meu ver ainda não aconteceu apesar dos avanços feitos e de tantos bons exemplos e referências na história deste instrumento.

Como se vê, não depende só do violonista, mas de toda uma nova convergência de fatores que precisa ser bem trabalhada pelo setor e por toda a classe violonística. 
Caso contrário, acorde cedo e faça o seu próprio caminho. É muito mais difícil, mas totalmente possível.

E se chegar aquele momento, porque chega, em que você começa a achar que não vais dar, que tá difícil demais pra continuar, tome um banho frio e recomece.
Porque na linha de frente, não há lugar pra frouxo.

 

A partir daqui, foram acrescentadas duas perguntas de uma outra entrevista concedida por Darcy no ano de 1985 a um caderno de jornal, falando sobre música erudita e violão clássico. Apenas pelo fato de ambas as entrevistas abordarem questões próximas, dando continuidade às ideias e pensamentos aqui apresentados. 

OBS: Fazemos aqui um aparte quanto à qualidade de certas pautas apresentadas a Darcy em suas entrevistas que o levava a se ressentir pela falta de preparo de alguns repórteres no Brasil. Apesar da mídia sempre o ter apoiado, alguns veículos pecavam quanto à qualidade da pauta nas entrevistas. A seguir, um tipo de pergunta que levava Darcy a encerrar uma entrevista, mas que no caso, respondeu.

 
Entrevistador:  Para encerrar a nossa entrevista, uma pergunta mais polêmica e uma curiosidade para os nosso assinantes. A primeira, é se o senhor enxerga atualmente bons violonistas e quais se destacam, e a curiosidade é buscar saber, em sua opinião, quais as músicas mais difíceis do seu repertório e do repertório violonístico?
 

[tempo]

A pergunta polêmica e mais controversa, na realidade, é a segunda, não a primeira.

Sim, existem, potencialmente, alguns violonistas muito bons. 

Mas são violonistas [Se referindo ao Brasil] que, percebo, estão administrando o próprio tempo com outras atividades; isso, acredito, por conta dessa ‘nova era’ que vivemos. Pela falta de reconhecimento do violão como instrumento nobre de concerto; por conta das políticas predatórias de baixa remuneração em troca da exposição oferecida pelos canais de mídia; por conta das mudanças na forma de consumo da cultura da música clássica, e de tantas outras circunstâncias que vão deixando o alto nível de compromisso com os estudos muito à margem, isso pela busca de atividades que remunerem melhor, mais facilmente, e a curto prazo.
Trata-se de uma realidade que, aos poucos, vai devolvendo o violão para o universo amador, e que vai comprometendo bons concertistas e a música erudita no violão, aqui no Brasil.  

Os músicos violonistas profissionais que conheço e que se resumem a bem poucos no Brasil, desde sempre precisaram na sua maioria ir para o exterior. Não há muito mercado aqui.
Os novos talentos que surgem atualmente, se deparam com uma realidade aqui, cada vez mais complicada.
Porque além de precisar recorrer a outras ocupações, o que os impede de alcançar a qualidade necessária para se tornar grandes expoentes, ainda se deparam com uma cultura de consumo musical mais comercial e pobre, o que enfraquece o mercado da música clássica e erudita. 
Não me refiro a ter recitais de músicas clássicas disponíveis para se assistir, isso tem. Me refiro a uma cultura de educação e preparo de consumo para esse gênero musical, como a que existe na Europa, por exemplo. 

É evidente que lá, eles tem uma herança histórica alcançada pelo tempo. Mas isso não impede que implementemos o mesmo aqui, mais rápido e tão eficiente quanto.

Sou do pensamento que algumas empresas privadas poderiam patrocinar, através de políticas públicas – isenções fiscais – , músicos de talento, concedendo a eles recursos – bolsas – que permitam se dedicar mais profundamente aos estudos.
Em contrapartida, deveria haver uma obrigatoriedade, por parte do músico contemplado com a bolsa e o recurso, de prestar conta com relação a qualidade dos resultados alcançados. Isso, diante de uma banca examinadora.
Se houve evolução continua, se não houve perde o benefício.
Desta forma, presta-se seriedade e compromisso com a oportunidade dada.
Isso é tão importante, que valeria até uma possível parceria entre a empresa que investe o recurso, e o município ou estado, envolvendo cotas de benefício e patrocínio cultural para divulgação da marca de quem investe em nossa cultura.

Com relação a nova safra de violonistas fora do Brasil, vejo o surgimento de alguns muito bons, bastante dedicados, com excelentes instrumentos e som presente. Mas grande parte deles sem a preocupação de desenvolver a própria música; despreocupados em trabalhar o enriquecimento técnico de potencialidades que favoreçam uma identidade musical nas peças que apresenta. 

Não basta tocar bem violão. Tem que saber fazer música com ele. 

O violão precisa ser uma orquestra viva na mão de um violonista concertista, caso contrário ele se apequena diante de um público. 
É um instrumento que tem essa capacidade e poder, mas que exige um grande domínio para isso, e não são todos que conseguem.
Não saber explorar isso, e saber fazer isso com técnica devidamente apropriada, no tempo e com o senso rítmico certo, deixa o músico sempre à sombra como instrumentista e concertista. 

A sua segunda questão se torna delicada quando respondida sob o ponto de vista do que me tornei como músico e concertista.

Sou da opinião que quando um músico concertista atinge um certo nível de amadurecimento instrumental e interpretativo emocional, não existe música difícil para ele. Existe música mal estudada ou indevidamente escolhida, ou seja, inapropriada para o perfil dele.

Músicas como a ‘Chaconne’ de Bach, o ‘Prelude’ BWV 1006a’ ‘Astúrias’ de Albeniz’, ‘La Catedral’ de Barrios, ‘Introduction and Variations on a Theme by Mozart’ de Sor, ‘Gigue’ de Ponce, ‘Danza N.10’ de Granados, Bagatelles de Walton, que eu gosto muito e que são tidas como muito difíceis, só permaneceram difíceis para mim enquanto eu precisei me preparar para poder expressá-las como eu as sentia. 
Não se tratava de tocar. Eu já tocava todas.
Minhas interpretações exigiam, pela forma como via e sentia cada uma deslas, de uma ‘alta performance’ na execução e interpretação, que só poderia ser alcançada com muitos anos de trabalho, de estudo de técnica e de prática. E isso, para poder ‘traduzir’ sonoramente o que sentia. Uma ‘tradução’ cuja intensidade e expressividade, cujo vigor e emoção, não podem prescindir de uma ‘alta técnica’.

Em função do parâmetro de execução que estabeleci para mim, não toco música que não gosto, que acho chata e que não agrada ao público.
Não importa se é difícil ou se é fácil, se é famosa ou se não é, se a crítica valoriza ou não. 
Depois de estudar por anos e de dominar musicalmente um instrumento que eu já dominava dinamicamente, só preciso sentar e estudar as interpretações que crio.
É assim que entendo a dificuldade em minha seara de trabalho. 

Avaliando a dificuldade por outros ângulos, eu a vejo no concertista que insiste em tocar peças que não tem dedo e nem preparo técnico para elas; eu a vejo no concertista que seleciona peças que não conversam com o perfil do público que o assiste; a vejo também no instrumentista que resolve apresentar estilos e gêneros de música para os quais não tem espírito e nem cultura para tocar e muito menos ainda, para interpretar; a vejo na ousadia de alguns em querer apresentar músicas que não foram estudadas devidamente. Se um violonista vai tocar sem tirar os olhos da partitura por medo de errar, na minha opinião, não devia tocá-la.

Porém há músicos que não levam nada disso em conta, e aí sacam uma série de peças difíceis, e que ficam realmente muito mais difíceis por conta de estarem indevidamente selecionadas, ordenadas, ou por exigirem um domínio técnico e musical interpretativo que o violonista não tem. 

Mesmo que um concertista consiga tocar um estudo como o de N.2 de Villa-Lobos de forma ‘limpa’, sem trastejar ou ‘escorregar’ uma única nota e no andamento adequado, ainda fica devendo se não souber fazer o estudo fluir com graça e destaque na expressividade do entrelaço harmônico e melódico.

Se tudo não estiver perfeitamente equilibrado, fica evidente para quem assiste, a dificuldade de execução por parte do concertista. Ou rápido demais, ou perdendo andamento, ou soando tudo igual com o mesmo peso. É uma série de circunstâncias que tornam a apresentação da peça incômoda, chata de ouvir e sem razão musical de estar sendo apresentada.
A ‘música’ deste estudo só aparece quando este equilíbrio é encontrado, dando um espírito ‘animado’ e ‘fluido’ tecnicamente.
Este é uma típica peça que interessa mais a quem já a conhece, e que só se justifica como parte de um programa dirigido a todo tipo de público, se for executada com muita maturidade técnica e musical.

Mesmo jovem, eu ‘sabia’ o que era devido numa interpretação e execução musical de uma peça. E sabia, porque essa ideia interpretativa que eu apresentava sobre a peça vinha com o meu arsenal musical. E isso me dava segurança, me dava convicção.

Quando toquei para certos compositores, por exemplo, não toquei para ter aprovação deles. Toquei para que eles vissem como eu entendia e sentia a música deles. Para mostrar a eles o sentido que elas faziam para mim.
Pode soar arrogante, mas não é. Eu sou músico, faço música. 

Não entender isso é que é o problema.

 
Um tempo importante
 
Darcy Villa Verde tinha em mente parar de se apresentar quando chegasse ao auge de sua carreira.

Esta é uma questão difícil de se aquilatar, pois o auge pode estar em diversos momentos da vida de um músico e artista.

Poucos anos depois de ter retornado da URSS, Darcy pensou pela primeira vez em dar um tempo. Vinha numa intensidade de apresentações e realizações muito grande nos últimos 15 anos. 
Mesmo acostumado com um ritmo extremamente intenso de apresentações e, no caso dele, agravado por uma autoimposição obstinada de muitas horas de estudo diário, e de trazer todo esse histórico de comprometimento, potencializado pelas expectativas muito altas, por parte do público, quanto às suas interpretações, Darcy entendeu que era hora de repensar todo o processo. 

Neste período, de seu retorno da URSS, em que já somava anos de intensa atuação na Europa, na Ásia, nos EUA e no Brasil, Darcy Villa Verde foi convidado para tocar na abertura do Festival de San Remo; e neste dia, precisamente, Villa Verde decidiu por declinar do convite e dar uma parada. 
Não seria só San Remo, com certeza. Seu empresários, no Brasil e na Europa, já estavam providenciando uma tournée na sequência, e ele sabia.

Queria ficar quieto, passar mais tempo com sua família e refletir sobre o que faria dali pra frente.
Profissionalmente sentia-se gratificado, realizado pela grande ascensão e reconhecimento que alcançara, mas começava a achar o processo um tanto repetitivo. 
Queria um pouco de tranquilidade, olhar para o futuro de uma maneira planejada e mais de acordo com uma desaceleração, diferente do que vinha fazendo.

Tempos depois, Darcy resolveu retornar aos palcos e continuar dando recitais, mas desta vez, com uma agenda mais pontual. 
Foi exatamente neste período que Darcy Villa Verde, depois de muita recusa e negociação, aceitou fazer uma apresentação privada em casa de um mecenas muito importante no mundo político. Um recital em ‘petit comité’ para um grupo de empresários e políticos apreciadores e conhecedores de música erudita; personalidades importantes de diferentes setores de atuação. Todos eles, ilustres em seus campos de atuação e profundos apreciadores do violão e de seu trabalho.

Esta apresentação se deu no interior de Goiás e marcou uma nova fase de recitais privados que se deram a partir daí.
Darcy já tinha experiência com este tipo de apresentação desde sua incursão na Europa e posteriormente nos EUA.
Eram apresentações programadas que remuneravam mais. Não davam visibilidade na mídia mas faziam seu nome correr nas altas ‘rodas sociais’ formadas por apreciadores exclusivamente interessados em seu nível de alcance no violão.
Isso, o estigmatizou ainda mais como um concertista bem diferenciado.
Parte desses contratos remuneravam ainda mais quando estas apresentações se davam em meio as suas ‘tournées’.

Sempre preocupado com a manutenção de seu trabalho na memória do público brasileiro e internacional, mantinha apresentações pontuais tanto no Brasil quanto no exterior.
Esta foi uma época em que sua agenda se concentrou mais nos países da América do Sul, principalmente no Brasil, Agentina e Uruguai, levando o seu nome a permanecer na mídia, ainda por muitos anos.

Neste período, aceitou lecionar algumas poucas ‘masterclasses’ e seminários quando convidado por Institutos e Centros Culturais, ou pelas Secretarias da Cultura que lhe solicitavam presença frente a profissionais em início de carreira. 
Também chegou a ministrar palestras em escolas de música e a se apresentar em alguns teatros dando concertos educacionais e tendo a mídia como apoio nas transmissões.

Contudo, Darcy pelas características da forte personalidade que tinha e o precediam, e possuidor de uma herança de dramas e tragédias que o levaram a enfrentamentos de uma vida muito intensa, cheia de superações, era muito exigente e direto quando se tratava de avaliar talento, ministrar ensino e exigir resultados. E baseado na própria experiência de seriedade e compromisso em que se trazia, exigia dos alunos construções e estudos em níveis de retorno considerados incomuns para a época.

Isso restringiu seu universo de atuação em aulas abertas, direcionando-o a oportunidades mais seletivas de ensino, ou seja, para ‘masterclasses’ de profissionais muito dedicados e realmente comprometidos com a responsabilidade da aprendizagem e do estudo.

Para alguns músicos violonistas brasileiros que o procuravam em sua casa, neste período, e que ainda não se encontravam estabilizados economicamente, Darcy Villa Verde não cobrava. Contudo, exigia trabalho e resultados que, segundo seu filho, funcionava como um filtro ‘fino’ otimizando o tempo apenas para aqueles que levavam o violão realmente muito a sério. A esses, tinha prazer de ensinar, mesmo a iniciantes.

 

 

Um convite importante
 

Durante este período, – final dos anos 70 – que transpareceu à mídia uma interrupção profissional, em que algumas matérias sugeriam um momento de descanso e reflexão, e outras mais sensacionalistas lançavam a hipótese de Villa Verde ter parado em seu auge, como já havia anunciado que faria, em entrevistas anteriores, Darcy recebeu uma visita. 

Nesta época, provavelmente encorajada pelas falta de precisão dos fatos que veiculavam na mídia a respeito de Darcy Villa Verde, a Sra. Arminda Neves, companheira de Villa-Lobos, o procurou com uma proposta.
Queria que ele aceitasse o seu convite de 
dirigir o Museu Villa-Lobos.  
Dona Arminda, nutria profunda admiração pelo trabalho de Villa Verde e vinha acompanhando sua trajetória e histórico profissional por um longo tempo.

Informada de que Darcy Villa Verde havia diminuído o ritmo no intuito de se preservar mais, se convenceu de que Darcy er
a a pessoa certa para o cargo; se sentia cansada.

“Meu filho, você é jovem, talentoso, com uma musicalidade que toca a alma e com uma expressão viva e interpretativa do que a obra de Villa-Lobos deve assumir como música no coração de todo músico brasileiro. 
Precisamos, aqui, de um músico de grande maturidade e sensibilidade que entenda a importância de resguardar a memória e de difundir o patrimônio cultural musical do nosso Villa. Por que não? Soube que já está cansado dessa rotina de apresentações.” 

Disse ela a Darcy, que se incomodava por ver as obras e o trabalho de Villa-Lobos muitas vezes sem o grau de divulgação, importância e consideração que merecia, principalmente no Brasil; precisava de alguém que tivesse espírito, temperamento e, acima de tudo, musicalidade, conhecimento e talento musical maduro para representar um homem como Heitor Villa-Lobos. 

Apesar de gostar dela, e dos reiterados convites que surgiram a partir daí, Darcy Villa Verde gentilmente declinou de todos eles, dizendo que seu perfil não se adequava a esse tipo de função e encargo. Uma função que exigia uma pessoa mais política, tranquila, cordata e com aptidões e espírito para essa qualidade de atribuição. 

Villa Verde também pontuou que apesar de ser um cargo muito representativo e importante, não correspondia às expectativas dele; que dirigir um museu, a exemplo do que ele próprio vinha fazendo em termos de divulgação cultural da música erudita no Brasil, seria uma tarefa monumental.
Haveria-se de estabelecer um posicionamento, um planejamento e um plano de divulgação da marca ‘Villa-Lobos’ para as novas gerações e de tudo o que se determinasse com relação ao que esta marca deveria ser e representar ‘musical e culturalmente’ no país e no mundo. 
Sem considerar, complementou dizendo, de que esta função demandaria promover realização de cursos profissionais, concertos didáticos pelo país, implementação de escolas e cursos de formação musical e instrumental, acesso gratuito, entre tantas outras iniciativas.
Por fim, que este cargo exigia espírito próprio de confronto com a mediocridade cultural existente no trato com as ‘resistências’ que imputam vieses políticos muito grandes, exigindo ‘estômago’ para transitar e negociar politicamente nesses meandros, além, claro, de uma capacidade de reorganização e reeducação cultural brasileira que tomaria longos anos. 

Darcy pontuou que ainda estava ativo profissionalmente, com um outro perfil de agenda, e que para assumir tamanho compromisso não conseguiria mais estudar como precisava estudar, o que comprometeria sua performance.

Disse a ela que ainda não tinha se aposentado. Que seu desejo era, como músico e artista, continuar se apresentando até a hora que decidisse parar. E que por respeito à família Villa-Lobos que sempre foi muito próxima, amiga e presente na família Villa Verde, estaria disponível para conversar sobre o que ela precisasse, e que assumiria mais o compositor em seu repertório, o que de fato ocorreu.

Sugeriu um nome para o cargo e recomendou que ela o procurasse para conversar considerando que essa pessoa tinha peso e mérito, além de características muito importantes que no atual momento eram mais necessárias para o passo que ela pretendia dar, e dos quais ele não poderia dispor àquela altura. 
E recorrendo à simpatia, disse respeitosamente que sempre que fosse tocar Villa-Lobos, se ligaria mentalmente a ele e que deixaria sua musicalidade expressar todo o sentimento e o respeito que ele tinha por ela e por ele.

“Pode ouvir”, falou de forma carinhosa, “Soará na alma!” e sorriu.

Dna. Arminda permaneceu na direção do museu Villa-Lobos até que o mesmo foi assumido, anos mais tarde, pelas mãos certas do experiente e internacional violonista Turíbio Santos. Darcy ficou muito contente com o desfecho.

 

 

Gravação

 

Acometido, logo depois do início dos anos 80, por uma neuropatia na mão direita, que com o tempo evoluiu para o cotovelo e o ombro, foi aos poucos perdendo a destreza que amadureceu ao longo de tantos anos.

Convidado, 20 anos mais tarde, pelo filho, a deixar um legado para a história da música respondeu sucintamente que o fizera ao vivo.

Retrucado sobre o quanto poderia contribuir para as novas gerações, através de sua história, de toda a sua trajetória profissional, de seus aprendizados e ensinamentos, mesmo que pontuais, e através de algumas poucas gravações que materializassem toda essa experiência, refletiu e disse:

“Você não tem a menor noção do que está me pedindo, meu filho.
Reestudar tudo de novo, é reviver toda uma vida que decidi deixar para trás há anos e depois de mais de 30 anos de trabalho! Com dores muito acentuadas pela minha condição física! E tudo a base de medicações fortíssimas que me fazem mal. E isso por anos! E depois, reviver minhas dores emocionais na minha idade! Minha música é emoção! Não sou um violeiro que sai tocando por aí. Sou um concertista, e a esta altura recuperar isso é muito esforço e não faz o menor sentido! Eu toco 5 minutos e me encharco de suor. Estou com mais de 70 anos! Tudo isso vai ser muito difícil, você não entende? Além do mais, nunca vou tocar perto do que já toquei! 

[Pensando] Imagina! Nunca gravei e agora que tô velho, cheio de mazelas na mão e no braço, aposentado, há anos sem estudar e sem tocar seriamente, sem pique de palco, é que vou gravar? Você tá maluco, cê quer me infartar!
Não mesmo!”

Praticamente dois anos se passaram em que Darcy Villa Verde foi perseguido pelas insistentes solicitações de seu filho, até que cedesse ou, de fato o convencesse de que não tinha mais condições de fazê-lo.

Não convenceu.

De espírito determinado, numa manhã de outono, recolhido há meses numa fazenda no interior de Minas Gerais, Darcy, retirou o violão do estojo, colocou novo encordoamento, suspirou longamente enquanto olhava para o passado e pediu três anos ao seu filho.

Passado o tempo previsto, viajou para São Paulo, hospedou-se, na casa deste, aqueceu-se por um mês e dirigiu-se ao estúdio daquele que viria a se tornar um grande amigo. Desses, que toda vez que falava com seu filho, perguntava a respeito, e que com sinceridade de propósitos e sentimentos, só queria saber de boas notícias.

Chegado o tão esperado dia, entrou no estúdio, sentou, respirou profundamente e gravou uma ‘demo’.

Nesta sua gravação, foi utilizado um equipamento profissional com engenharia de gravação totalmente customizada; um equipamento produzido por encomenda e com tecnologia de engenharia sônica de alta precisão, visando uma captação e um registro tímbrico totalmente ‘flat’ e puro, ou seja, com alcance de registro – de amplo espectro – que gravasse fidedignamente o som produzido por Darcy Villa Verde; o mais real possível e exatamente o que Darcy Villa Verde sempre almejou: registrar todo o alcance e a amplitude – vibracional – de suas interpretações.

Ouviu o material, se admirou com a qualidade do registro, verificando que a reprodução traduzia muito da sua riqueza tímbrica no detalhe, sorriu, se empolgou, e mandou jogar tudo fora pedindo mais dois anos de estudo; estes últimos, hospedado na casa de seu filho, e segundo o próprio, com a mesma disciplina espartana que estava acostumado a ver na infância. Nada tinha mudado. Oito horas todos os dias, sete dias por semana, durante quase dois anos, ininterruptamente.

A diferença, claro, com 30 anos a mais, dificuldades mecânicas quase intransponíveis e doses enormes de cortizona e posteriormente de morfina para aplacar as muitas dores, realmente.

Conta seu filho, que ao fim do quarto ano de preparo, numa noite, acordou e viu seu pai sentado de madrugada na sala apagada. Ele tremia de dor com as palmas das mãos viradas para cima. Quando percebeu a presença de seu filho, confessou que as mãos queimavam como se estivessem em chamas. Dores insuportáveis. Uma cena, segundo ele, inesquecível.
Apesar de tudo, perseverou.

Chegado o dia, mais uma vez, Darcy adentra o estúdio de gravação.
 

A direção de produção de todo o processo e material, pediu Villa Verde que ficasse a encargo de seu filho, também de nome Darcy, que com o total apoio da estrutura disponibilizada, pôde atendê-lo. Disse, Darcy Villa Verde que tudo o que tinha ensinado a ele – seu filho – ao longo de tantos anos seria o suficiente para que ele se incumbisse desta tarefa.

Podemos afirmar, que diante de tantas adversidades físicas e emocionais enfrentadas para alcançar as condições mínimas de poder fazer esse registro, Villa Verde, com sua doença bastante avançada, se esforçou ao máximo e se entregou de alma por mais este projeto. Como era de seu feitio fazer; com determinação e muita persistência.

Quando Darcy Villa Verde deu o seu último acorde, exausto, suspirou profundamente e de forma humorada disse ser, este, o seu ‘canto do cisne’.

Após ouvir em silêncio e atentamente todo o material, disse meneando positivamente a cabeça: 

“É um milagre!
Não temos um Darcy Villa Verde de 30 anos atrás, com certeza, mas temos um Darcy musicalmente maduro de 76 anos!
Mesmo assim, mantenha esse material com você, meu filho, e nunca mostre isso a ninguém enquanto eu viver. É uma sombra do que já fui no violão.”

Chegando em casa, abraçou o filho e depois de um longo tempo em silêncio se desculpou profundamente desolado por não ter podido resgatar mais de si mesmo; respirou, colocou o violão no estojo e o silenciou para sempre.

Quando mais tarde, informado de que aquele registro, junto à sua experiência profissional e relatos poderiam de alguma forma ajudar as futuras gerações do violão, respondeu:

“Se você acha isso possível meu filho, [Pensando] então no tempo certo, conte minha história e deixem que os jovens me ouçam. E se este trabalho puder ajudar um único violonista, onde quer que eu esteja, ficarei feliz e muito agradecido.”

Darcy retornou às suas atividades cotidianas e passou os seus últimos anos no exterior e, por fim, no Brasil.

Sobre música, mantinha contato com alguns amigos, mas elegeu um para poder falar especialmente; para poder não perder o endereço de si mesmo. 

Darcy era um violonista, um músico, um intérprete, sem nenhuma pretensão de ser mais do que aquilo que foi nos palcos a que pertenceu profissionalmente por mais de 30 anos.

Queria apenas fazer música, e a fez de maneira única.

Nunca ambicionou ser mais do que era, ou se preocupou em viver de gravações, de posições, cargos e nem em ficar registrado para a posteridade.

Viveu intensamente, tocou intensamente e ficou intensamente gravado na memória de todos aqueles que o assistiram.

Inúmeros músicos fizeram esta pergunta após ouvir a gravação feita por Darcy Villa Verde. Desta forma, resolvemos respondê-la, acreditando que tal questão também possa ser levantada na mente de alguns interessados.
 
 
O CD que Darcy Villa Verde gravou em 2005, teria o propósito de ser lançado comercialmente?
 
As gravações de Darcy Villa Verde, produzidas digitalmente, foram feitas com o único propósito de seu filho, também de nome Darcy, manter um registro do trabalho de seu pai em sua posse com a promessa de nunca levá-la a público enquanto vivesse. Pedido, este, feito pelo próprio Darcy Villa Verde a seu filho e que em acordo com a gravadora que cedeu todos os direitos e recursos. Caso contrário, o projeto não seria levado adiante. 
Desta forma, as gravações, mesmo sendo possuidoras de uma qualidade muito incomum e considerada por muitos como um material de raro valor, tinham por objetivo um registro reservado exclusivamente à relação de pai e filho, algo bem fácil de entender.
Se Darcy Villa Verde decidiu não gravar enquanto se encontrava no auge de sua carreira, não queria que essas gravações fossem a público por não representarem o que ela já tinha alcançado como violonista concertista profissional.
 
Fortuitamente, um encontro muito oportuno com produtores musicais representantes de um grupo estrangeiro ocorreu no Rio de Janeiro, e no interesse irresistível de obter uma opinião sobre o material desenvolvido, as gravações terminaram sendo apresentadas a alguns desses executivos, e posteriormente submetidas a um crivo de uma das gravadora desse grupo na Alemanha que, após ouvir todo o material, demonstrou um enorme interesse em trabalhá-lo para lançar ao mercado.
 
Impossível negar o efeito que esta notícia causou e que chegou a surpreender o próprio músico Darcy Villa Verde, mas que também o fez relembrar do que poderia acontecer com este material caso viesse a ser comercializado, e no intuito de preservar o projeto original, tudo se manteve conforme o acordado inicialmente.
 
Disse Darcy ao seu filho:
 

“Meu filho, quando eu morrer, você é livre para fazer o que quiser com todo este material, mas lembre-se de que eu me tornei ‘quem me tornei’, por nunca desistir dos meu sonhos.
Não quero que esse material vá para o ar porque não representa mais quem já fui.

Estou aposentado, esquecido profissionalmente, em fim de vida, mas construí um nome e uma carreira, e vivi o que prometi a mim mesmo. Não preciso de massagem no ego de ninguém. O meu autovalor foi alimentado pelo retorno do que acreditava e do que fiz ao vivo. 
O que cheguei a realizar no violão, acredite, poucos fizeram. 

Dê um destino bom a isso, ou então guarde-o com você, para que sempre possamos preservar nossa conexão através da minha música.”

 
Depois da ‘passagem’ de seu pai, o filho de Darcy, responsável pelos seus direitos, resolveu lançar este site e disponibilizar todo o material no único intuito de deixar um memorial e um registro de Darcy Villa Verde por tudo o que ele representou e fez pelo violão no Brasil e no mundo. 
Sem nenhuma maior pretensão, que não a de colaborar com os futuros violonistas concertistas no sentido de compreenderem o tamanho do esforço necessário para se atingir níveis superiores neste instrumento tão desafiador em termos de alta interpretação.
  
A decisão de não comercializar as gravações e de disponibilizá-las ao público sem o processo de masterização – que de certa forma terminaria por adulterar o material captado, adaptando-o para reprodução em diversas mídias e sistemas de áudio – foi o de preservar o modo ‘flat’, ou seja, exatamente o que foi captado em um momento único deste músico, com todas as nuances, respirações, timbres e modulações sonoras alcançadas e desenhadas nota a nota por Darcy Villa Verde, uma vez que que sempre resistiu em deixar registros, por acreditar que eles nunca fariam jus ao que produzia sonoramente. 
A única questão diante deste fato, é que esse tipo de reprodução de ambiência sonora criada pelo músico, em modo ‘flat’, é alcançada mais fielmente com a utilização de headphones high fidelity profissional ‘over-ear’, usados em estúdios profissionais de gravação.
Na época, foram utilizados os ‘AKG K240 MKII Semi-Open Studio Headphones’.
Atualmente sugerimos, da mesma marca, o modelo da série ‘AKG K701’ (De preferência o fabricado na Austria). Nada de outro mundo, a bem da verdade.
 
A propósito, que cada um ouça com o fone que lhe convir.
Apenas achamos conveniente informar, a quem se interessar, que a gravação de Darcy Villa Verde de 2005  traz esses ganhos de detalhes pela alta fidelidade do equipamento com relação a sua qualidade de captação.
 

A partir de agora, o internauta pode desfrutar deste material.
Mesmo com um Darcy Villa Verde septuagenário, aposentado dos palcos há mais de 15 anos e com todos os sintomas do avanço da doença que lhe comprometeram a mão, o cotovelo e o ombro direito, a partir de meados dos anos 80.
Porque apesar de tudo, trata-se de um registro muito raro e de grande valor para o violão.

Musicalmente falando, na opinião de alguns produtores musicais, músicos e violonistas que ouviram a sua gravação de 2005, todo este registro representa uma obra sem equivalência, uma verdadeira escola digna de ser ouvida e estudada, assim como as despretensiosas e sofridas fitas K7 que não só complementam e enriquecem muito este pequeno acervo, como também são uma prova irrefutável do motivo de Darcy Villa Verde ter sido considerado, pelas suas interpretações e brilhantismo técnico, como um gênio do violão clássico. Além, evidentemente, de seu pequeno compacto duplo, gravado em 1965, que nos traz um pouco de sua técnica e arranjos próprios no repertório de músicas populares que fazia para entretenimento do seu público.
 
O que este material representará no futuro, a quem servirá e como, depende única e exclusivamente do espírito com o qual ele for respeitosa e cuidadosamente utilizado. Que seja em nome da cultura. Isso o fará feliz, esteja o maestro Darcy Villa Verde, onde estiver.
 
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