"A importância do artista no mundo vai muito além do entretenimento e transpassa a 'mise en scene' do marketing pessoal.
Seu papel é fundamental para o desenvolvimento intelectual, formação de opinião, inclusão social, assim como é essencial para a educação de uma nação.

Ser um artista é ser único, é surpreender, é levar as pessoas a enxergar o mundo sob um novo ponto de vista, estimulando a sensibilidade e a vontade de viver. Com este propósito, através de sua arte e personalidade, ele pode se conectar de maneira poderosa com o seu público e imprimir a sua identidade, por meio de sua mensagem, de sua história, de sua emoção e de sua visão de mundo."

O Artista

Algo que sempre chamou a atenção a respeito de Darcy Villa Verde foi o grande impacto que suas apresentações causaram no público e na mídia especializada e geral.
Tratam-se de declarações que chamam muito à atenção pela forma como são descritas.
Declarações que transparecem até um certo exagero pela intensidade com que são narradas e que vão transbordando da memória daqueles que assistiram seus recitais e concertos uma impressão e experiência emocional muito diferenciada.
São declarações do público, que se somam a depoimentos de músicos, de críticos, de  matérias, de títulos, de entrevistas, de programas de rádio e TV, e que refletem sempre reações de grande admiração.

Segundo relatos, seu domínio instrumental e sua técnica, adquiridos desde muito cedo, somado a um temperamento muito intenso e a toda uma preparação cuidadosamente elaborada por ele, se comunicavam com o público de uma tal maneira que tornava cada apresentação sua, algo muito envolvente e marcante.

Para isso, havia toda uma preparação que ele mesmo cuidava de elaborar e participar. Se iniciava na montagem de toda uma infraestrutura para divulgação e suporte de cada uma das apresentações; no trabalho de marketing desenvolvido para divulgação de sua marca; nos depoimentos e entrevistas que dava antes e depois de suas apresentações; nas coletivas com a imprensa nos hotéis e aeroportos; nas visitas que fazia às redações dos jornais e rádios; nos programas que conseguia nas emissoras de TVs e Rádios; na criação de um repertório que atingisse o maior perfil de público possível; no cuidado com a sua apresentação pessoal – condicionamento físico, descanso planejado, alimentação adequada e vestuário –; na quantidade de horas de estudo e de aquecimento que antecediam cada recital e concerto; nos comentários que antecediam e apresentavam cada uma das peças tocadas – comentários informativos e ilustrativos -; nas histórias que contava sempre ajudando a quem o assistisse ou o entrevistasse, a adentrar seu mundo pessoal, musical e artístico.

Seu carisma e magnetismo em público, e sua capacidade de exprimir as próprias emoções em música, com a expectativa do público em cada apresentação que fazia, chamava a atenção e virava assunto entre os músicos e concertistas que o assistiam. 
Violonistas amigos sorriam admirados diante do que presenciavam, comentando que estavam diante de algo realmente inusitado. Já outros, pela fidelidade que mantinham aos protocolos e parâmetros da época, não entendiam o que tinham acabado de presenciar.

Para Darcy Villa Verde, cada apresentação deveria se justificar pela capacidade de envolver e impactar intelectual e emocionalmente o público; de proporcionar uma experiência ao vivo de interpretação, musicalidade e domínio técnico que reunissem em cada peça, música, músico e público.

Para Darcy, se o músico não tivesse devidamente preparado, não deveria aceitar nenhum compromisso para não incorrer no risco de decepcionar a si próprio e ao público. Ambas, as circunstâncias, com consequências lamentáveis e bem difíceis de administrar.

Tais características o fizeram ser muito requisitado por um público mais seletivo de sua época, levando-o a se apresentar em reuniões privadas que podiam variar de 10 a 50 ou 100 pessoas. Todos desses grupos, formados por apreciadoras da arte e da música; um público mais intelectualizado e extremamente criterioso com relação a música clássica e erudita. 
Não importa onde estivesse, Darcy sempre era convidado a se apresentar nessa reuniões que passaram, de uma certa forma, a influenciá-lo na forma de ver e explorar um recital de violão. 
Esses recitais dirigidos para um público mais fechado, assumia um formato de apresentação que Darcy apreciava muito.  Os ambientes, sempre escolhidos em locais de boa acústica, eram os salões principais das casas, apropriados para recitais e eventos, muito espaçosos, o que permitia dispor as cadeiras em formato italiano semi-circular, dando uma boa proximidade e visibilidade do artista em sua apresentação.  
Eram apresentações que o a levavam a vivenciar o que ele mais gostava; se apresentar sob olhos mais aguçados e críticos quanto ao repertório que apresentava.

A conexão, dizia ele, era total!

Isso lhe dava uma nova ótica de valoração a respeito de como vinha desenvolvendo o seu trabalho.

A diferença, frente ao que estava acostumado a fazer no Brasil quando jovem, era que estas apresentações mais reservadas, as quais começaram a se dar em Paris e na Europa, ocorriam em ambientes de um público que fazia questão de testemunhar de perto uma quebra de paradigma no mundo da apresentação da música clássica.

Valorizavam mais a música e a musicalidade do artista do que os protocolos que aprisionavam os recitais e concertos a conceitos austeros, frios e prepotentes.

Eram recitais que davam sequência a reuniões importantes em ambientes solenes, exibindo trajes formais – casaca, fraque, tuxedo – , com a presença de membros da alta sociedade, de personalidades da política e da arte, de importantes empreendedores e artistas, mas que se deixavam envolver pela descontração, simpatia e por uma certa informalidade da qual conversava muito bem com o espírito de Darcy Villa Verde. 
Era sabido que seu carisma e personalidade contagiava a todos trazendo uma atmosfera leve e divertida a esses eventos musicais, apesar da seriedade e compenetração mantidas nas apresentações. 

Alguns desses encontros eram promovidos por instituições e organizações internacionais; financiadas por grupos de empresas e de grandes empresários como Monsieur Gerard, diretor geral da ‘Editeur Hachette’ ou até pela realeza de algumas nações, entre outros tantos apreciadores e patrocinadores da cultura e da boa música que se reuniam para assisti-lo. Um hábito vigente da sociedade francesa e europeia da época, muito comum na década de 50 e 60, e que se conserva até os dias de hoje, apesar de só ocorrerem em ‘círculos’ privados.

Participaram de algumas delas, o presidente francês Charlles de Gaule; a princesa marroquina Lalla Fatima Zohra, filha do Rei Mohammed V; o virtuose do violino David Oistrakh, que declarou ser Darcy Villa Verde o ‘Paganini’ da guitarra; o diplomata, poeta, compositor e músico Vinicius de Morais que chamava sempre Darcy a se apresentar em seus círculos de relacionamento; os famosos e ainda jovens Jean Paul Belmondo e Allain Dellon, dois dos mais proeminentes atores de seu tempo; o célebre Jean-Pierre Rampal, conhecido por resgatar a flauta ao universo da música clássica solo; Maurice Chevalier, considerado na época um dos mais famosos cantores do mundo, além de renomado ator; Mireille Mathieu, famosa cantora da época, condecorada com a ‘Légion d’Honneur’; a empresária e cantora Régine Zylberberg que criou o conceito de ‘discotheque’ lançando em Paris o ‘nightclub’ mais famoso do mundo o ‘Chez Régine’ reunindo a nata da High Society internacional, aliás, uma das responsáveis por introduzir Darcy Villa Verde nas rodas VIPs mais importantes da Europa; a compositora, cantora e empresária Renée Lebbas que passou a empresariar Darcy Villa Verde, aliás, responsável por convencê-lo a assinar um contrato com a gravadora francesa ‘Pathé-Marconi’, para lançamento de 3 LPs de musica clássica; entre muitos outras personalidades que o assistiam nessas ocasiões tão especiais e raras quanto disputadas, e que passaram a fazer parte de seu universo de apresentações e relacionamentos.

Essas experiências foram muito importantes para Darcy Villa Verde, por levá-lo a entender que a alta sociedade, uma das responsáveis na formação de tendências e opinião, cultuava a cultura e a educação de uma forma séria, mas inteligente, privilegiando a cultura e o conhecimento sem se tornar refém do que definem a respeito dela. Que a arte tinha esse poder.
Isso influenciou muito Darcy Villa Verde com relação a como conduziria seus recitais e concertos, a partir de então.

Darcy, inclusive, tomou conhecimento que muitos músicos consagrados preferiam essas apresentações privadas pelo quanto que remuneravam – bem mais que os teatros -, por ocorrerem em ambiente totalmente propício ao perfil de seus trabalhos – alto nível de interesse, de compreensão e de apreço -, e por conta das inúmeras personalidades presentes, que posteriormente terminavam comparecendo em seus recitais e concertos, aumentando a mídia expontânea. 
Uma espécie de confraria velada da qual Darcy Villa Verde passou a fazer parte e que o alavancou de forma muito rápida ao reconhecimento internacional, pelo qual lutou tanto por alcançar.

Essas reuniões se tornaram frequentes na vida profissional de Darcy Villa Verde e passaram a ser cada vez mais disputadas em função da sua capacidade de desenvolver interpretações ditas como memoráveis. Eram apresentações que ofereciam uma sofisticada diluição entre o clássico e o popular com o mesmo nível de erudição musical. 
Reuniões que de tão bem desenvolvidas, apreciadas e íntimas, nem transpareciam ser financiadas.

Após minhas apresentações nos recitais, era levado a conhecer todas essas personalidades que só conhecia da televisão, e que agora estavam ali, paradas me ouvindo admiradas com a minha arte, com a minha música.
Muito inusitada e emocionante a experiência de observar um músico como David Oistrakh, visivelmente admirado, pela interpretação que dei às peças de Bach e Albeniz.
Já o conhecia de nome, assim como a Jascha Heifetz. Meu pai sempre falava dos dois como duas lendas vivas do violino, principalmente de Heifetz.

Todas essas emoções que presenciei e vivi viravam música nas minhas mãos.
Não tenho como descrever essas impressões que passaram a fazer parte da minha vida e que foram abrindo portas para toda uma rede de relacionamento que me lançou como concertista e que ajudou a me consagrar profissionalmente.
Meu pai estava certo, o que o violão me concedeu de retorno, foi
 incomensurável.
Bastou sentar e forjar o meu talento a temperaturas muito altas de horas de estudo, de dor e de perdas, e do tempo.

O próprio Darcy Villa Verde confessou mais tarde, que tudo neste período de sua vida aconteceu de forma tão surpreendentemente rápida, grandiosa e extraordinária, que o pegou de surpresa.
Que 
se tivesse tido um pouco mais de visão, poderia ter potencializado ainda mais as oportunidades.
E após dar por concluída a entrevista, terminou suspirando esse pensamento:

“Pra quem saiu do Méier, chegar em Paris e fazer o que eu fiz, sem recurso e com o estado emocional destroçado por tanta tragédia que vivi, até que fui bem”, e sorriu.

Se dirigindo ao repórter que o olhava um tanto admirado e curioso, exclamou:

“Inacreditável, rapaz, te falo, inacreditável o que vivi e passei. Só de lembrar me emociono.

Villa Verde tocou em praticamente todo o Brasil, no Uruguai, no Paraguai, na Argentina, em grande parte do Estados Unidos, no Canadá, Portugal, Espanha, França, Bélgica, Itália, Suíça, Alemanha, Checoslováquia, Hungria, Turquia, Bulgaria, Grécia, Eslovaquia, Ucrânia, Lithuania, Bielorussia, Estonia, Letônia e em diversas cidades da atual Russia e de cada um desses países. Até a céu aberto no sertão nordestino tocou.
Morou nos Estados Unidos, na França, no Brasil e Espanha. E chegou a permanecer algumas temporadas em outros países como a Bélgica, Suíça, Italia e Argentina. Se apresentou em alguns dos mais importantes teatros desses países, como também em todo espaço reservado a promover a educação e a cultura. 

Afeito a conhecer o novo, e a viajar pelo mundo sem permanecer muito tempo em um único lugar, de espírito livre e cidadão do mundo, viajou pelo mundo e dele guardou as mais belas lembranças e aprendizados. A maioria deles, inusitados e surpreendentes pela forma com que se deram, e grandiosos pelas experiências que proporcionaram.
A constante presença de um público que, do interior do sertão aos teatros mais solenes, sempre o reverenciou e marcou presença, se tornou a sua marca.

Contudo, é importante ressaltar que para Darcy Villa Verde, três momentos de sua vida artística foram significativos e o marcaram para sempre. Momentos que o amadureceram ainda mais como concertista. 

O primeiro deles, Paris.

 

PARIS

 

A premiação de Darcy Villa Verde no VIII Concours International de Guitare em Paris, em 1966, abriu-lhe subitamente as portas para o mundo da música clássica internacional de uma maneira que jamais se poderia imaginar.
Isso porque, como veremos, o evento se converteu em um feito no qual o resultado assumiu uma proporção muito maior do que o próprio concurso, que a propósito era o mais importante do mundo, na época.

Contudo, para se abordar a questão do concurso de Paris, é preciso voltar três anos antes.

 

1962

Rua Comandante Rubens Silva, 62, Freguesia, Jacarepaguá, Rio de Janeiro. 

Tudo se deu de uma forma muito inesperada.

Atendendo a insistentes pedidos de Geraldo Villa Verde, tio de Darcy, Jacob do Bandolim concedeu uma oportunidade de Darcy Villa Verde se apresentar em um dos seus saraus musicais. Coisa raríssima de acontecer sem que Jacob tivesse ouvido o músico antes.
Geraldo era músico, violonista acompanhador e tido em grande conta por Jacob do Bandolim. Eram amigos e muito próximos. Jacob frequentara por anos os saraus na casa de Eugênio Villa Verde, pai de Geraldo e avô de Darcy.

Diante de sua insistência, e sabendo que Geraldo era sério com relação a música, resolveu abrir uma exceção e terminou autorizando-o a convidar o seu sobrinho Darcy a participar.
Isso se deu por volta de novembro de 1962.

No dia em questão, Jacob do Bandolim estava recepcionando em sua casa o violonista Oscar Cáceres.
Darcy chegou com o seu MG, adentrou o jardim da casa de Jacob quebrando o silêncio, estacionou, saiu do carro com seu violão e o volante na mão, e entrou acompanhado de seu tio que foi recebê-lo.
Jacob não reconheceu Darcy, de pronto, e estranhou a chegada um tanto eruptiva, em meio ao clima das apresentações de outros músicos; de alguém trazendo um violão e um volante de carro na mão – Darcy tinha receio que lhe roubassem o carro que tinha vindo da Inglaterra e automatizou o hábito de removê-lo, levando-o onde fosse.

Jacob, que todos já conhecemos pelas biografias feitas, era um homem sério e tradicional, e vendo Darcy chegando daquela maneira num carro esporte, conversível, ainda muito jovem, bronzeado, sorridente, temperamento forte e muito irreverente e confiante, destoando da formalidade que ele, Jacob, imprimia nas reuniões que promovia, foi pego de surpresa e podemos até dizer que não gostou muito – confessou mais tarde.

Geraldo Villa Verde, seu tio, se aproximou e o apresentou formalmente a Jacob, que por sua vez percebeu em poucos segundos que aquele ar de playboy da zona sul praiana era precedido pelo mais profundo respeito e educação que sempre foi o cartão de visita de Darcy a todos que o conheciam.
Logo após, Jacob deu continuidade às apresentações musicais.
Darcy, que aguardava sentado e a tudo observava, acompanhava todo um protocolo de apresentação dos músicos que era conduzido pelo próprio anfitrião, esperando pelo momento de se apresentar, o que se deu logo à frente.

Os Saraus do Jacob ganharam notoriedade, até fora do Brasil, atraindo o interesse de inúmeros artistas e músicos que para ali eram trazidos e convidados.
A casa de Jacob nesse dia estava lotada, uma vez que o encontro se dava em homenagem ao violonista uruguaio Oscar Cáceres, que vindo ao Brasil para um concerto no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, fora convidado à casa de Jacob para tocar para todos os presentes.

Em determinado momento Jacob se dirige a Geraldo, convidando de maneira um tanto humorada e provocativa, o seu sobrinho a tocar. 

Disse ele: 

“Geraldo, vamos ver se esse seu sobrinho toca alguma coisa mesmo!”
Jacob se levanta, pega um violão que se encontrava sobre o piano da casa, e se dirige a Darcy que agradece de imediato, mas que recusa dizendo não ser necessário pois tinha trazido o dele.

Jacob, sorri enquanto recoloca o violão de volta sobre o piano, e comenta humorado: “Vejam só, e ainda prefere o dele… “

Entre os presentes, estavam Nicanor Teixeira, Jodacil Damasceno, Déo Rian, Turíbio Santos, Dino Sete Cordas, Pixinguinha, Oscar Belandi, Paulo César Faria, Carlinhos Leite, Oscar Cáceres, entre muitos outros músicos e artistas conhecidos e convidados. 
De alguns, temos depoimentos gravados.

Quando Darcy, devidamente autorizado por Jacob, pegou o violão e começou a tocar,, “surpreendeu a todos pela sua alta musicalidade, destreza técnica e criatividade em arranjos próprios de inúmeros choros e valsas conhecidas.”
Pelas palavras de Déo Rian, “Ninguém esperava aquilo que aconteceu.”

De imediato, Darcy Villa Verde abriu sua apresentação com a peça ‘Se Tu Soubesses’ de Jeorge Moram e Cristovão de Alencar, em um arranjo de sua autoria.

Jacob que era extremamente sensível, foi tomado por uma comoção tão profunda diante da interpretação de Darcy que começou a passar mal interrompendo a apresentação.
Darcy que estava concentrado, não percebendo o ocorrido é interrompido pelos participantes enquanto Jacob sai carregado pelos convidados e familiares em direção aos cômodos da casa.

A preocupação foi grande porque Jacob do Bandolim trazia problemas de coração e já tinha sido hospitalizado, anteriormente, por conta de um infarto.

Passado algum tempo, já restabelecido, Jacob mandou chamar Darcy na cozinha e, muito emocionado abraçou-o se desculpando pelo inconveniente, dizendo que era muito emotivo e que sua interpretação o tinha tocado de tal maneira que ele não aguentou.

Meia hora depois, Darcy é convidado mais uma vez por Jacob, já recomposto, a retornar à sua apresentação que se estende por mais de uma hora.

Dizem alguns biógrafos e participantes que Jacob se rendera ao talento de Darcy para sempre, e que viraram grandes amigos. De fato.
E no intuito de oficializar um registro, Jacob gravou Darcy algumas vezes em sua casa e insistiu muito para que ele gravasse um disco, o que se deu alguns anos depois. Hoje, um artigo raro de colecionador.

Ambas as gravações podem ser acessadas aqui no site.
As gravações feitas pelo Jacob em sua casa, que inclusive trazem peças clássicas, atualmente fazem parte do acervo do Instituto Jacob do Bandolim e foram gentilmente cedidas pela direção do Instituto a este projeto em nome da cultura e em homenagem a este memorial de Darcy Villa Verde.

A propósito, a música, em questão, que tanto o emocionou, consta nas gravações de Jacob e no compacto duplo de Darcy Villa Verde, feito sob insistentes pedidos do próprio Jacob do Bandolim. 

Como Darcy era movido por pura emoção, em função do envolvimento do ambiente e do próprio estado de espírito do momento, suas interpretações ao vivo ganhavam uma narrativa toda única, algo difícil de descrever.
Disse Jacob, depois de ouvir a gravação do disco, que a interpretação de Villa Verde estava perfeita, mas que a feita em sua casa, naquela noite era maior; ia na ‘alma’.

Em conversa com Déo Rian, seu amigo e aquele que viria a ser o seu sucessor assumindo a liderança do renomado conjunto ‘Época de Ouro’, Jacob do bandolim confessou que não esperava por aquilo. Que não fazia ideia do tamanho do talento de Darcy e de sua musicalidade. 
Chegou a comentar que Geraldo Villa Verde tinha pregado uma ‘peça’ nele.
Geraldo, posteriormente, justificou que queria apenas uma oportunidade para que seu sobrinho, de quem era profundo admirador, pudesse demonstrar o seu talento, a sua arte e o seu trabalho. E que graças ao próprio Jacob, isso se tornou possível.

Jacob convidou Darcy algumas vezes para poderem conversar, reservadamente, sobre música. Queria entender os conceitos que Darcy Villa Verde trazia sobre música e sobre as suas interpretações. Conversas, essas, que se deram ao longo do tempo e que foram, segundo Darcy, muito agradáveis e algumas delas até gravadas.

Importante considerar que Jacob do Bandolim já conhecia Darcy, da casa do avô dele, Eugênio Villa Verde, que foi um dos precursores dos grandes saraus e encontros musicais que se davam no Rio de Janeiro, antes mesmo do início do século XX.
Saraus, que vale registrar, foram iniciados pela sua mãe Eugênia, exímia pianista que chegara da Europa em meados do séc. XIX. 

Só que a lembrança que Jacob do Bandolim tinha de Darcy era a de uma criança prodígio tocando um extenso repertório, já aos dez anos. 

Jacob, não podia imaginar que Darcy tivesse amadurecido musicalmente daquela maneira.
Já homem feito, com 28 anos e estudando violão clássico com Oswaldo Soares, há um pouco mais de 3 anos, Darcy Villa Verde trazia um acervo e amadurecimento interpretativo musical, tanto no popular quanto no erudito, totalmente diferenciado e desconhecido para a maioria dos presentes, uma vez que seu professor, Oswaldo, tinha-lhe pedido que se afastasse de todo tipo de reuniões musicais, saraus e encontros boêmios que pudessem distraí-lo do seu objetivo de se tornar um concertista clássico de violão.

Em 1965, em um desses encontros na casa de Jacob, meio às conversas que deram sequência ao ocorrido três anos antes, Darcy foi incentivado pelos violonistas e músicos presentes, a participar do ‘Concours International de Guitare d’Interprétation’ ORTF, em Paris, ouvindo de Turíbio, que tinha ganho o concurso naquele ano – 1965 -, que com a sua técnica, qualidade musical e interpretação, Darcy teria ótimas chances de vencer no ano seguinte.

Seu professor Oswaldo Soares o aconselhou a esperar um pouco para poder amadurecer um pouco mais sua parte teórica, principalmente de leitura à primeira vista (tocar ao mesmo tempo em que lê uma partitura desconhecida), pois este quesito do concurso era obrigatório e eliminatório.

Darcy, que neste momento, já vinha estudando com Oswaldo Soares, a mais de 5 anos, e que já vinha dominando um repertório para violão clássico considerado dos mais difíceis, todas as peças escolhidas pelo próprio Darcy e selecionadas a partir do repertório de Andrés Segovia, se deixou levar pelo decurso de prazo – ter iniciado o violão clássico com quase 30 anos – e pela empolgação dos músicos e amigos que frequentavam a casa de Jacob, decidindo ir a Paris concorrer no ano seguinte, em 1966, no evento que o marcaria para sempre.

O impacto que Darcy causou no Jacob e em todos os músicos, foi justamente o que o encorajou a participar do concurso. Até porque, apesar de ter comentado com todos a respeito de sua restrição em termos de leitura à primeira vista, foi informado de que esta etapa era algo bem ‘simples’ de resolver e que tinha um peso menor no concurso.

Um conhecido de Darcy que morava em Paris, foi quem inscreveu Darcy Villa Verde no concurso.

Quando Darcy foi selecionado entre os participantes de todo o mundo como um dos cinco finalistas a disputar o primeiro lugar no Concurso Internacional de Violão de Paris, duas circunstâncias se deram:

A primeira, que seu professor Oswaldo Soares tinha acabado de falecer, e partiu sem saber que o seu mais eminente aluno tinha sido classificado para a final do maior concurso de violão na época.

A segunda, é que enquanto os outros tiveram vários meses para estudar as peças de confronto para a primeira fase do concurso que se daria ao final de janeiro do ano em questão, Darcy só teve 4 semanas.
Por algum motivo, – segundo Darcy – a pessoa encarregada de mandar de Paris, as partituras das 4 músicas obrigatórias de confronto, só conseguiu fazê-las chegar às suas mãos 30 dias antes da data de gravação no consulado francês, para o devido envio da fita K7, à Paris.

Darcy chegou a reconsiderar sua participação.
Um mês para tirar e trabalhar quatro músicas para confronto num concurso internacional de violão, e ainda sem ter leitura à primeira vista, podia comprometê-lo.
Mas sua esposa, acima de tudo, e os músicos amigos o encorajaram dizendo que tanto esforço em prol de um ideal, alimentado com tantas horas de estudo e uma promessa no leito de morte de seu pai, de fazer render qualquer obstáculo para se realizar profissionalmente, não poderia ser prorrogado por uma circunstância que apesar de difícil poderia ser contornada com seu dom, força de vontade e determinação, que todos já conheciam.

Darcy, apesar de tudo, não ficou sem um tutor, pois a professora Adolfina Raitzin de Távora, mais conhecida por Monina Távora, a mesma responsável pela preparação do Duo Sérgio e Eduardo Abreu e mais tarde do duo Sergio e Odair Assad, se encantara com seu talento e depois de ouvi-lo em uma audição, aceitou ajudá-lo no amadurecimento de seu repertório erudito e das peças de confronto e  de livre escolha para o concurso antes mesmo do falecimento de Oswaldo Soares, uma vez que ele já não se encontrava bem de saúde.

Darcy sabia que Oswaldo o tinha preparado para tocar o repertório que escolhera, mas ainda faltava amadurecimento interpretativo que só um guitarrista profissional e internacional seria capaz de ensinar. Alguém com muita musicalidade e que ele julgasse à altura da tarefa.
Sabendo que Monina Távora tinha sido aluna de Segóvia, Darcy ainda aluno de Oswaldo Sores decidiu ir até ela pedir ajuda.

“Oswaldo Soares me deu o princípio, me deu ‘dedos’ para o a música clássica. Mas eu ainda não era tão forte no refinamento interpretativo do erudito, e foi Monina Távora, naquele ano, 3 vezes por semana, que me preparou, que me deu ‘maturidade’ para interpretar as peças que faltava, para tocar uma Chaconne de Bach, uma Sarabande de Händel, por exemplo, como precisam ser tocadas.”

Peças como a Courrante e Chaconne de Bach, Sarabande e Minuetto de Händel, Preludio, Allemande, Ballet e Gige de Ponce/Weiss, outras de Roncalli e Fernando Sor, entre tantas outras que já vinham sendo trabalhadas há anos por Darcy, receberam um apuro interpretativo, permitindo a Darcy dominá-las musicalmente de forma madura, montando um repertório de impacto internacional. 

As quatro peças obrigatórias para a segunda etapa da final do Concurso que ocorreria em maio, e que incluía o grande Prelúdio de Bach em Mi maior também precisaram ser memorizadas rapidamente, para serem amadurecidas.

Duas semanas antes de embarcar para Paris, Monina Távora repassou exaustivamente todas as quatro peças de confronto para a final do concurso, mais as peças de livre-escolha, dando-lhe direção segura, para a competição.

Para poder ir a Paris, Darcy Villa Verde precisou levantar recursos para a viagem, uma vez que o Ministério das Relações Exteriores alegou estar sem verba para mandá-lo à Paris.
Porém, com a ajuda de um grande amigo, importante escritor que o admirava e gozava de muito prestígio no Ministério das Relações Exteriores, Darcy conseguiu a passagem e a estadia em Paris, concedida pelo Itamaraty.

Mesmo com a questão parcialmente resolvida, antes de seguir viagem, Darcy resolveu dar um grande recital. O recital ajudaria a financiar sua viagem e ao mesmo tempo ajudaria a amadurecer sua performance em palco. Queria isso. 

A sugestão do local veio da própria Monina Távora: o Salão Leopoldo Miguez, na Escola Nacional de Música da UFRJ no Rio de Janeiro. O escolhera pela representatividade e pela acústica.
Disse
 Monina a ele, que este recital seria a consagração do trabalho deles dois juntos. 

O trabalho de divulgação deste recital que foi muito bem sucedido, recebeu o apoio e a ajuda da mídia, dos amigos e até dos familiares.
Completamente lotado, fazia fila do lado de fora.

Dia 13 de maio de 1966, 21H00.

O auditório do Salão Leopoldo Miguez se encontrava lotado e já tinha fila de pessoas do lado de fora que não conseguiam entrar. 
Oficialmente, tratava-se de s
eu primeiro grande recital de música clássica, para o qual encontrava-se totalmente preparado.
Aliás, confessou, sentia-se plenamente preparado e seguro para qualquer perfil de apresentação. 

O recital, que foi um marco musical e violonístico no Rio de Janeiro, contou, além do grande público, com a presença dos integrantes da ABV-Associação Brasileira de Violão, de diversos músicos e violonistas conhecidos, de algumas personalidades que passaram a fazer parte de seu convívio como Juscelino Kubitschek, a família Carlos Chagas, o Ministro Juarez Távora, a sua professora Monina Távora e seu esposo Elysiário Távora, e de muitos outros. A maioria, amigos e admiradores de Darcy.

Ao final do recital, de pé sob aplausos e pedidos de bis, Darcy, – segundo seu próprio depoimento – sentia-se definitivamente pronto para Paris.

Segundo Monina, Darcy nascera para o palco e o público. Magnetizava a plateia.
Era um músico e um artista nato.

Maiores detalhes a respeito deste recital se encontra no depoimento do músico, violonista e historiador, Genésio Nogueira, que com o seu acervo de memórias e farta documentação, relata a apresentação de Darcy Villa Verde no Salão Leopoldo Miguez na Escola Nacional de Música da UFRJ em 1966, e também do concerto dado por Darcy na Sala Cecília Meirelles, quando de seu retorno da primeira tournée dos EUA, em que acabara de se apresentar no Carnegie Recital Hall, em Nova York, no início da década de 70.
Tratam-se de relatos detalhados e precisos com relação a descrição de cada um dos recitais e de suas respectivas interpretações, uma vez que Genésio Nogueira estava presente em ambos e a tudo documentou e recorda.

Darcy Villa Verde sentado em seu carro na garagem da casa de Jacob do Bandolim. Foto do arquivo pessoal do Jacob, fotografada pelo próprio. Rio de janeiro, Jacarepaguá, 1962. Foto cedida pelo Instituto Jacob do Bandolim.
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