Darcy Villa Verde foi o único músico e violonista brasileiro a ter feito o curso de alta interpretação de violão clássico com a lendária violonista Ida Presti que o convidou, após assisti-lo tocar na Salle Pleyel, em paris, a seguir com ela em um aprimoramento ainda maior de sua arte.

Considerada por grandes compositores e músicos de renome como a mais impressionante violonista do séc. XX, Ida Presti se encanta com a musicalidade e as interpretações de Darcy, e a admiração que passa a nutrir por ele o leva a aulas extracurriculares e a um convite para acompanhar o duo, Ida Presti-Lagoya, à algumas de suas apresentações DE VERÃO.

 

Académie D’Été – Ida Presti e Lagoya 

 

“O virtuosismo é muito confundido com talento, destreza, velocidade, domínio técnico e estilístico; mas isso é só uma parte do que um músico precisa alcançar. A outra parte que poucos conseguem adentrar é a expressão musical, e isso por falta de musicalidade e de técnica capaz de produzir sonoridade adequada. 
Quando o músico passa a dominar esse estágio, todo o restante fica a serviço de um propósito maior que é levar a sua forma de sentir a música ao público e conseguir fazê-lo participar do seu universo musical. Essa é a diferença, entre sair de um concerto impactado com a técnica e a destreza de um instrumentista, e sair 
deslumbrado pela emoção de uma interpretação que nos ‘tocou’ através de um grande músico e artista.”

Em sua primeira conversa com Ida Presti na Académie D’Été, disse ela a Darcy: 

“O que nos fez convidá-lo a participar de nosso curso foi a qualidade da sua musicalidade e a sua destreza instrumental. Você, além de excelente guitarrista – violonista -, é um verdadeiro músico e artista.
Nosso interesse por você aqui na Academia é ajudá-lo a amadurecer algumas questões para você poder se expressar sonoramente e musicalmente, ainda melhor. Vimos que você traz os recursos técnicos necessários sob domínio, o que nos possibilita alçar níveis mais altos de sonoridade.
Iremos trabalhar conjuntamente para que adquira uma propriedade técnica que facilitará sua musicalidade se expressar ainda melhor nas peças de seu repertório.
Faremos isso sonoramente e como o tempo disponível de curso é curto, as aulas, no seu caso, poderão exceder a carga horária e o período do curso.
Exigiremos comprometimento de estudo com muitas horas de exercício. 

Também te convidamos, caso aceite, a nos acompanhar durante nossos recitais e apresentações que já temos agendados durante a temporada de verão, para que possas acompanhar de perto certos apontamentos com relação às apresentações e à condução em um palco. Você nos observará e depois falaremos a respeito em aula.”

Apesar de vir atendendo a convites e à solicitações de apresentações e recitais que já estavam programados e que continuavam surgindo para Villa Verde depois do concurso, além de toda uma programação de bolsas de estudo que lhe foram oferecidas, Darcy enxergou naquele momento a raríssima oportunidade de se elevar musicalmente em níveis maiores, e atendendo ao convite e às orientações de Ida Presti, resolveu dedicar-se totalmente ao curso e às infindáveis horas de estudo de técnica e refinamento sonoro nos meses seguintes.
Dessa forma, a maioria dos seus compromissos foram adiados.

O convite feito de acompanhar o duo Ida Presti e Lagoya em alguns de seus recitais, era sempre narrado por Darcy lembrando uma dessas apresentações feita na própria Academie D’Été, ao cair da tarde, nos jardins do ‘Monastère Du Cimiez’.
No meio do recital que Ida Presti e Lagoya davam, uma rajada de vento esvoaçara algumas páginas do suporte de partituras pelo jardim do claustro do Monastério diante da grande plateia, levando Darcy a correr atrás delas, que com o vento se esquivavam dele, sob os olhares do público e do sorriso de Ida Presti e Lagoya, enquanto tocavam.

Segundo as palavras de Darcy e de outros alunos, o curso de Ida Presti e Lagoya era o máximo em termos de excelência, mas exigia muito de cada aluno no que diz respeito à dedicação, esforço, determinação e criatividade. Tratava-se de ‘remodelar’ a forma de tocar e de conseguir fazer isso no menor tempo possível.
Quem viu Darcy Villa Verde tocar antes de ir a Paris e depois, percebeu uma grande diferença e não conseguia entender como foi possível tanta aquisição de sonoridade e qualidade interpretativa, em tão pouco tempo. 

Oferecemos, inclusive, uma rara oportunidade ao leitor de poder conferir esse auto entendimento de Darcy com relação a forma de sonorizar e interpretar as peças que tocava, através de uma carta em que descreve, para o seu tio Geraldo Villa Verde no Brasil, suas impressões a respeito do assunto.
O internauta também poderá verificar essa diferença através de suas interpretações, em momentos diferentes de sua carreira. Escolhemos para isso, uma mesma peça de J.S. Bach,  a Courante from Cello Suite No. 3 in C Major, BWV 1009, Arr. Segovia Guitar. 
A primeira versão dela, interpretada antes de Paris, na casa de Jacob do Bandolim e gravada pelo próprio Jacob em 1963, enquanto ainda a estava estudando; a segunda versão dela em um outro momento num concerto em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1973, numa gravação de fita K7; a terceira versão, aos 75 anos de idade, em uma gravação feita em 2005. 

Independente da maturidade musical presente em cada uma das três versões, e do que cada um de nós possa vir a preferir, podemos observar três universos interpretativos e sonoros diferentes e muito amadurecidos que ganham com o tempo dimensões muito próprias.

Ao final do curso de verão com Ida Presti, Darcy foi indicado por ela, entre todos os alunos da turma de 66, para fazer o recital de encerramento na Academie D’Été. Pediu que interpretasse a Chaconne e mais umas 4 ou 5 peças musicais, escolhidas por ela, que demonstrassem sua capacidade de interpretar bem diferentes períodos, gêneros e estilos musicais.
Villa Verde procurou devolver musicalmente em suas execuções tudo o que ela lhe ensinou, e comentou que transbordou, musicalmente, tanta emoção em suas interpretações que, ao término, Ida Presti lhe disse que ele não era apenas um brilhante guitarrista clássico, mas um grande músico. 
Narra Darcy que, aproveitando a ocasião e a presença da turma, Alexandre Lagoya complementou dizendo, em um tom descontraído:

“A partir de agora, se encerra a relação professor e aluno, e passamos a ser concorrentes no mercado.”

Ida Presti sorriu e comentou com Villa Verde: 

“Dizemos isso sempre. É para que você ingresse na sua carreira profissional seguro de que não deve temer mais nada em termos de música. Você está pronto. Basta nunca parar de estudar.

E foram todos, dali, comemorar a despedida em uma festa em frente a praia de Nice, na Promenade des Anglais, com muita música, dança, bons momentos e muitas saudades para guardar.

Poucos meses após Darcy Villa Verde ter se despedido de Ida Presti e Lagoya, e ter seguido para a Europa, ela veio a falecer.
Arrastada de maneira trágica e prematura ao absoluto silêncio. Um tumor no pulmão a consumia, havia tempo, em função do cigarro, e a selara musicalmente por definitivo.

Não fossem suas gravações, hoje muito raras, e poucos saberiam quem foi a lendária violonista que, segundo os mais importantes compositores e intérpretes da época, permaneceu como a maior violonista do séc. 20, fazendo o que gostava de fazer: se apresentando em recitais e ensinando.

Disse uma vez Ida Presti a Darcy. “A humanidade não sabe o que os horrores da guerra, a violência, a dor e o sofrimento juntos, podem causar ao ser humano.
A música é a porta de passagem, de transcendência para um mundo novo, no qual a emoção sonora é o idioma mais sagrado.
Saber se expressar nele é uma necessidade, e por meio do violão, uma arte.”

Recomendamos, para quem quiser ouvi-la em momentos de alta interpretação e sonoridade, um CD duplo, em duo com Alexandre Lagoya, seu esposo, da gravadora Philips intitulado: “Ida Presti & Alexandre Lagoya: Duo Extraordinaire.”
Para Darcy, a interpretação registrada no CD, da grande ‘Chaconne in G, de Georg Friedrich Händel’, que já a tinha assistido ao vivo, é um marco na história do violão clássico.
O projeção do destaque melódico do canto e de toda a dinâmica impressa na interpretação de Ida Presti e Lagoya, é algo para a posteridade do violão erudito.
Mesmo Darcy Villa Verde afirmando que a projeção sonora deles tocando ao vivo é muito mais rica, viva e envolvente do que a ouvida em gravação.
Segundo ele, ouvi-los tratava-se de uma experiência sensorial sem nada equivalente; o que levou Darcy Villa Verde a passar a vida buscando enobrecer cada vez mais o próprio som, motivado por aquela que foi a sua maior inspiração e mentora em termos de violão.

Emilio Pujol descreve Ida Presti como um milagre de talento e graça; John Duarte a considerou a melhor violonista do século XX, cujo equilíbrio de talento, toque, alma e inovação técnica, permaneceu incomparável; uma artista mágica.
Andrés Segóvia afirmou, quando ouviu-a pela primeira vez, ainda criança – 13 anos -, que não tinha absolutamente nada para ensiná-la e que ela jamais aceitasse qualquer orientação que viesse a mudar o seu jeito de tocar. 

Para Darcy Villa Verde a partida de Ida Presti foi devastadora.
Era como se tivesse perdido mais um membro de sua família.
Desde que se entendia por gente, todos que amava e admirava, partiam de forma abrupta e trágica.

Não é exagero dizer que foi com Ida Presti que Darcy Villa Verde amadureceu e se encontrou sonoramente. Até porque esta é uma afirmativa feita pelo ele próprio.
Com ela, seu domínio técnico e velocidade foram absorvidos pela própria musicalidade e por uma sonoridade e expressão interpretativa que, tanto no popular quanto no erudito, o levou a ser considerado pelos críticos e ouvidos mais exigentes da época como uma das melhores interpretações ao vivo no violão, das peças que trazia em seu repertório. 

A propósito, faça-se aqui o importante apontamento de que Darcy também entendia Alexandre Lagoya como um grande mestre em termos musicais.

“Ele sabia tudo em termos de música e construía os arranjos sempre de forma a destacar e valorizar, na interpretação, a parte que ficava ao encargo de cada um do duo. Conhecedor profundo de música, do potencial sonoro do violão e de arranjo e harmonia, sabia desenvolver as transcrições para um amadurecimento execucional  interpretativo, de alto nível!
Ele casava perfeitamente com a sonoridade dela e a música com a interpretação deles, ganhava outra dimensão e se tornava única.
Isso, uma gravação não registra, pode acreditar! Eu vi e ouvi!

Da França para o mundo foi rápido. 

Durante sua permanência na Europa, Darcy Villa Verde passou por inúmeras capitais e centros culturais importantes, nos quais realizou recitais e, pontualmente, concertos e aulas-conferências.
Em cada um desses países permaneceu tempo suficiente para estudo e aculturação musical própria, como Espanha e Itália, retornando sempre ao Brasil, quando oportuno ou necessário.

Recorrendo à sua valiosa rede de contatos que fez em Paris, elevou a consideração de seu nome às agendas dos grandes teatros da França e da Europa.  

Com a ajuda de sua empresária iniciou grandes ‘tournées’ nos mesmos países que tinham sido impactados pela transmissão do ‘Concours International de Guitare Classique ORTF’, selecionando as mesmas cidades que estavam agendadas para as apresentações reservadas ao ganhador do concurso.

Isso era estratégia de mídia.

A decisão de recusar realizar os recitais que estavam reservados ao ganhador do concurso, em função de priorizar o curso com Ida Presti, em Nice; de amadurecer suas performances com mais meses de estudos, de inicialmente se reservar a concertos e recitais em Paris e a contratos musicais reservados à sociedade parisiense, só aumentou o interesse de todos em assisti-lo, e ele sabia disso. 
Dessa forma, com um grande diferencial de valor – menção ‘Hors Concours’ e o que isso representou – se transformou num produto extremamente desejado; num programa obrigatório na agenda cultural do repertório clássico. 
É evidente que todos alimentavam a curiosidade em assistir o violonista que ganhou um concurso de uma maneira tão inusitada e surpreendente. 

Além do mais, não tendo mais vínculo e compromisso com a ORTF de cumprir recitais como obrigação do concurso, poderia cobrar por esses recitais o valor que quisesse.

Como resultado, obteve teatros e salas lotadas, pois todos queriam ver o músico e artista que motivou todo um corpo de jurados a se arriscar em quebrar protocolos para preservar a música e o talento daquele que os impressionou e encantou com sua arte e interpretações; interpretações, estas, agora ainda mais transcendentes, com a técnica de sonoridade que aperfeiçoou com Ida Presti.

Nesta época, auxiliado por músicos e artistas amigos, assinou alguns contratos que o ajudaram a se lançar mais solidamente na Europa, o que contribuiu para consolidar, ainda mais, o seu nome nas principais agendas do mundo.

A questão, que importa muito abordar, é que todo esse caminho de grandes oportunidades e possibilidades que se abriram de forma imprevista e súbita, obrigava-o a seguir um rumo de vida que o absorvia completamente, e o subtraía da vida familiar que tinha em compromisso de sentimentos com a esposa e os filhos. E isso o dividia muito. 
Darcy era muito cuidadoso com a família e sabia que o rumo que as coisas assumiam o distanciava cada vez mais da esposa e dos filhos.
Não queria isso, definitivamente. 
Tanto que sempre atendeu aos impulsos desse sentimento, voltando ao Brasil toda vez que sentia necessidade de se reunir à sua família, mesmo que isso pudesse lhe atrasar ou comprometer seus planos de permanecer ampliando novos horizontes profissionais. Isso, inclusive, lhe custou a gravação de 3 discos LPs clássicos, com o selo de uma gravadora em Paris.

Como esperado de todo músico internacional, no início dos anos 70, foi para os Estados Unidos.
Contudo, apesar de permanecer por lá, voltava sempre ao Brasil para manutenção de seu nome e trabalho de divulgação e popularização do clássico e do violão como instrumento de concerto para, só então, retornar às suas apresentações e ‘tournées’ no exterior.

Jardins du Monastère, Academie D'Été, Nice, 1966. Local e ano em que foram ministradas as últimas aulas do 'Grand Cours D’Interprétation de Guitare Classique' por Ida Presti e Lagoya a Darcy Villa Verde. Algumas destas aulas ocorreram nos jardins acima, e dentro do claustro do Monastério, assim como alguns dos recitais e concertos no qual participou acompanhando sua tutora.
error: O conteúdo está protegido !!