Carnegie hall
Alice tully hall
Hall of Nations
tournées EUA
"Assisti a uma coisa fantástica acontecer no Carnegie Hall. Um gênio apareceu por lá tocando um violão divino. Foi o Brasileiro Darcy Villa Verde."
Duke Ellington
ESTADOS UNIDOS
O segundo momento que foi um marco na carreira artística do violonista concertista Darcy Villa Verde, foi o seu primeiro recital no Carnegie Recital Hall, em Nova York.
Quando Harry Belafonte – embaixador da UNICEF, produtor musical, ganhador de um Emmy Award e seis Grammy Awards – assistiu Darcy Villa Verde pela primeira vez, o que se deu numa apresentação de Darcy na casa de Antônio Carlos Jobim, no Rio de janeiro, se impressionou de tal forma com o talento e a musicalidade de Darcy que o convidou imediatamente a ingressar no mercado americano, possibilitando a chance de um contrato com a William Morris Agency.
Mais tarde, essa relação foi mediada por alguns produtores musicais, músicos e artistas e também por amigos que fez, como Miriam Maazel, esposa do renomado maestro Lorin Maazel que passou a atuar com Darcy de maneira muito próxima, uma vez que se tornaram amigos .
Desse encontro surgiram diversas oportunidades que abriram cada vez mais as portas para Darcy nos EUA, levando-o a fixar residência, inicialmente, em NY.
Desde o retorno da Europa para o Brasil, Darcy Villa Verde já idealizava se mudar para os Estados Unidos. Todo o reconhecimento que tinha alcançado na Europa pesava a favor, possibilitando novos ares e um retorno financeiro e profissional que o Brasil ainda não podia oferecer naquele momento, a um curto prazo.
Para que esse retorno ocorresse no Brasil seria preciso continuar seu trabalho de aquecimento do público brasileiro com relação a concertos de violão clássico e de um preparo sólido, bem planejado e de construção contínua por todo o país em termos de desmistificação da música clássica. Um trabalho de aculturamento que já vinha sendo feito por Villa Verde desde a década de 60, mas que demandaria mais investimento e tempo para alcançar os resultados esperados por ele no Brasil.
Os Estados Unidos acenava com ótimas perspectivas e Darcy considerava que podia conquistar este mercado, se estabilizar economicamente e ao mesmo tempo, com uma agenda bem planejada, conciliar retornos periódicos mais rápidos, em termos de reconhecimento como um músico internacional consolidado, não só na Europa mas também nos EUA. Isso seria muito positivo como um pré-aquecimento no trabalho de divulgação e desmitificação do violão clássico no Brasil, o que de fato ocorreu conforme o planejado e com ótimos resultados.
Toda essa ideia ganha mais razão de ser, quando em 1968, Radamés Gnatalli aproveita a presença no Rio de Janeiro de Laurindo Almeida, que estava a mais de 20 anos radicado nos EUA, em Los Angeles, para promover um encontro dele com Darcy Villa Verde que acabara de retornar da Europa.
Laurindo que viera fazer uma apresentação retornaria logo em seguida, mas diante do insistente convite de Radamés que não se conformava de Darcy não ter ainda se apresentado nos EUA com a qualidade de entrega musical rara e sofisticada que tinha, decidiu recebê-lo.
A exemplo de Jacob do Bandolim, Laurindo Almeida já conhecia Darcy quando, este, ainda criança surpreendia a todos com seu virtuosismo. Mas não fazia ideia, depois de tantos anos, do alcance que Darcy atingira como músico e violonista.
O encontro se deu com a presença de inúmeros músicos e quando Laurindo Almeida ouviu Darcy tocar por mais de uma hora, ficou sem palavras.
O estado de perplexidade de Laurindo Almeida com o nível de virtuosismo dinâmico e interpretativo de Darcy Villa Verde, somado a qualidade sonora que extraía do violão no clássico, no jazz e na música popular brasileira – samba e bossa-nova -, era tão grande que tão logo Villa Verde parou de tocar, lhe disse:
“Mas o que é que você está fazendo aqui no Brasil rapaz?! Por que só pensa na Europa?! Só com isso que você me mostrou hoje, você fica famoso e milionário nos Estados Unidos!! Você não faz ideia do quanto os americanos valorizam música clássica e popular brasileira! E você toca as duas num nível que eu nunca vi!
Darcy, você precisa ir pra lá imediatamente, e para Los Angeles!!
Vá para Los Angeles que eu vou te receber e fazer de tudo pra te ajudar!”– Laurindo Almeida
A julgar pela quantidade de violonistas que obtiveram êxito, frente a tantos que tentaram, o pai de Darcy não estava longe de ter razão.
Nesta época, Darcy Villa Verde estudava uma média de 8 horas por dia quando não estava em tournée, e levando em conta que o violão, segundo Villa Verde, é um instrumento que não dá para se passar uma semana sem estudar, fez as escolhas certas e o violão retribuiu.
Lembrando sempre o nosso Oswaldo Soares que “estudar não é tocar”.
Quando Darcy Villa Verde, já sediado nos Estados Unidos, foi convidado a se apresentar no tão ambicionado e icônico Carnegie Recital Hall, em Nova York, pelo seu promotor musical Norman J. Seaman, Darcy passou a estudar uma média de 14 horas por dia, até a sua estréia que se deu em meados do primeiro semestre de 1971.
As pessoas achavam que ele tinha perdido o bom senso, tamanha quantidade de horas empregadas na sua preparação.
Seu empresário não entendia o por que de se submeter a um esforço tão grande e de forma tão obstinada e espartana se já tocava da forma como tocava.
Disse Darcy ao seu empresário:
“Não vou me apresentar no Carnegie Hall para tocar algo que já sei, vou me apresentar lá para oferecer algo novo.
As oportunidades que nos são dadas, são as mãos de Deus em nossas vidas. Você acha que diante de um convite desses para tocar numa das salas mais importantes do mundo, entregues por mãos tão importantes, não devo buscar me superar?”
A verdade é que o fato de Darcy ter começado sua carreira de concertista clássico depois dos 30 anos, o levou a manter um ritmo de dedicação e disciplina muito intenso. Um ritmo que o permitisse trazer a consciência tranquila de ter feito todo o possível para apresentar sempre algo inédito, – quanto à musicalidade – em cada compromisso que assumisse.
E o dia chegou.
Darcy abriria o recital fazendo uma primeira parte solo, se apresentando com peças do barroco e do classicismo alemão e espanhol, e depois do intervalo, numa segunda parte, tocaria com Vanja Orico, todo um repertório clássico do modernismo brasileiro.
Um formato de recital mais contemporâneo e de conteúdo refinado, que ajudaria a diferenciar a apresentação meio a uma agenda lotada e concorrida como a do Carnegie Hall, e também a prestigiar os nossos compositores clássicos brasileiros.
Aliás, faremos, aqui, uma breve observação quanto a artista Vanja Orico, que também passou a maior parte de seu tempo no exterior e que encantou o mundo com sua arte e trabalho.
Mais conhecida pela valorização que deu ao repertório de músicas folclóricas brasileiras e com uma projeção internacional em sua época só equiparada a de Carmem Miranda, trazia em seu arsenal clássico, peças eruditas de grande valor musical e interpretativo, habilidosa que era em saber selecionar peças de grande apelo.
Se apresentou nas grandes salas e teatros da Europa e do mundo, além de somar o papel de atriz e de também ter encantado o cineasta Federico Fellini que a convidou para um de seus filmes.
Vanja Orico, outro nome que o tempo guardou da história musical e da cultura brasileira.
Tratam-se de músicos e artistas, como o próprio Laurindo Almeida que chegou a ganhar 6 Grammy Awards, e que deram a vida e se entregaram de alma em nome da arte que representavam.
Merecem ser lembrados e figurar respeitosamente na memória de nosso país, principalmente para a nova geração. São músicos que precisam ser apresentados e explicados aos futuros representantes e perpetuadores da nossa arte e cultura.
Diante da seriedade desta apresentação em Nova York, e da proporção do alcance que o impacto deste recital poderia representar no meio musical, Darcy resolveu intensificar o aquecimento das mãos.
Após um leve almoço e um rápido descanso, Darcy se trancou no estúdio e ficou estudando sem parar até alguns minutos antes do recital; não atendia ninguém.
Seus empresários estavam entusiasmados com essa apresentação que contaria com a presença de alguns executivos do meio de produção musical.
Segundo informaram a Darcy, os grandes produtores e companhias musicais dão preferência a avaliar a performance de um músico e artista ao vivo e em grandes teatros e salas de concerto.
Contudo, seus empresários tinham receio de que Darcy, pela quantidade de horas de estudo a que se impunha, tivesse uma crise por estafa; já tinham visto isso acontecer com profissionais experientes.
Não podendo entrar, mas apenas permanecer do lado de fora ouvindo o som abafado de Darcy ao violão, que soava sem parar por horas, foram aos poucos sendo tomados por uma grande angústia e crise de ansiedade. Todos tinham investido muito recurso, tempo e trabalho para aquele momento.
Chegando a hora da apresentação, Darcy Villa Verde abriu a porta do estúdio e seus empresários justificaram mais uma vez o motivo de suas preocupações, ao que Darcy sorrindo sugeriu antes de se dirigir ao palco: “Sentem lá e assistam. Depois falamos a respeito da preocupação de vocês.”
Repórter: Como foi se apresentar no Carnegie Hall?
“Posso dizer que para a maioria dos músicos é assumir a consciência de que você chegou ao topo do que você deseja em termos de reconhecimento como músico. Porque ali, tocaram aqueles que lutaram para atingir o que a música pode oferecer de melhor em cada um.
Para mim é um santuário. Um templo onde ocorre uma verdadeira consagração por poder fazer parte da história da Música.
Poder imergir naquela atmosfera e dividir minha a música com músicos que me inspiraram, e que agora estão sentados diante de mim me aplaudindo admirados pela arte que ofereço, é o motivo de ser quem sou.
Não existe passado, presente ou futuro ali. Só existe música.Mesmo me sentindo totalmente apto e preparado, sentar no meio do palco de uma sala como a do Carnegie Hall, sozinho, olhar toda aquele público te observando e esperando de você o melhor que eles possam ver e que justifique terem ido lá te assistir, – é o que as palmas antes de você tocar, significam – cria um impacto emocional indescritível. O tempo para.
E é exatamente disso do que me alimento, e o que fez dessa experiência, uma das mais significativas para mim, assim como em Paris e em outros lugares da Europa e do mundo em que me apresentei.A música é a minha religião: expectativas muito altas e pura simbiose emocional através de uma experiência transcendente para todos ali reunidos, que procuram encontrar algo novo e surpreendente para se preencher.
Estão ali para verem o que há de melhor.
E nós, artistas, para oferecermos musicalmente o que sentimos mais profundamente.
“O violonista clássico brasileiro, Darcy Villa Verde, abriu a primeira parte do seu recital tocando peças como Ária com Variações de Haedel, Gavotte e Chaconne de Bach, o que causou um grande impacto no público pelo domínio técnico absoluto demonstrado em seu instrumento e pelas nuances de sonoridade e densidade interpretativa que criou diante de toda a expectação e admiração por parte do público, que a tudo acompanhou em profundo silêncio e conexão. Sua interpretação da Chaconne de Bach foi muito impressionante. O violonista finalizou a primeira parte do recital com Gaspar Sanz numa intensidade dada por Darcy à Canarios, que elevou a expectativa do público para um desfecho inesperado de grande demonstração técnica de brilhantismo virtuosístico que ficou gravada na memória da sala e de todos, pela interpretação que deu.”
The new York Times
A reação do público foi surpreendente e muito calorosa, e deu a Darcy Villa Verde, segundo palavras do próprio, uma dimensão do quanto alcançara como profissional.
Parado, diante de todo aquele público que o aplaudia de pé sem parar, lembrava e agradecia, como fazia sempre, a todos que o ajudaram a chegar até ali.
Na segunda parte, após o intervalo, deu continuidade tocando junto a Vanja Orico peças de Villa-Lobos e Francisco Mignone.
O Concerto, que foi um marco na carreira de Darcy Villa Verde, contou com a presença na plateia de grandes nomes da música internacional – do clássico ao jazz e soul – e de acordo com os depoimentos dados e veiculados na mídia, deixou todos visivelmente encantados com o alto nível de musicalidade e superioridade técnica alcançada.
Duke Ellington, ainda sob o impacto e a emoção da apresentação, declarou na mídia, dias depois:
“Assisti a uma coisa fantástica acontecer no Carnegie Hall. Um gênio apareceu por lá tocando um violão divino. Foi o brasileiro Darcy Villa Verde.”
Declarações como as dada por Duke Ellington, Ethel Smith, Sarah Vaughan e de produtores e empresários do meio musical foram se repetindo na carreira de Darcy Villa Verde, que apesar de ter sido muito reconhecido pelo nível de seu trabalho, nunca deixou de estudar e trabalhar com a seriedade de propósito que lhe era característico. Exatamente como aprendera desde criança; exatamente como lhe aconselharam Monina e Ida Presti.
Isso, porque sempre dizia que um título dos mais distorcidos da verdade que se pode adquirir é o de ‘gênio’.
“Gênio é um mito; um título perigoso, inclemente e irreal em muitos aspectos. Primeiro porque faz você acreditar que pode ser um; irreal porque leva os outros a desconsiderarem todo um esforço de horas e horas de estudos diário, e isso por anos, transformando o resultado de todo o seu trabalho em uma dádiva divina; perigoso porque leva os incautos a acharem que podem relaxar, e no violão isso não é possível porque quem o fizer assina a própria sentença; e inclemente porque todas às vezes que você se apresentar terá que superar o próprio título para continuar se fazendo merecedor dele.
O dom e o talento são uma dádiva divina. Mas o que cada um faz disso é resultado de muito trabalho, muito! Eu falo isso para a minha equipe de divulgação, mas depois que Duke Ellington escreveu o que escreveu, essa ‘coisa’ meio que colou. É o marketing! [risos]”
Logo após à sua apresentação ao Carnegie Hall, Darcy Villa Verde foi convidado pela ‘New York Society of The Classical Guitar*, através de seu fundador e presidente, Vladimir Bobri, para substituir Julian Bream em um concerto no Lincoln Center, no Alice Tully Hall.
Julian Bream não iria conseguir se apresentar conforme a programação de sua tournée, e em comum acordo com Vladimir Bobri, – decidiram por Darcy.
A apresentação surpreendeu. Primeiro por conta do sucesso anterior no Carnegie Hall, depois pela curiosidade de ver de perto o músico que tinha sido escolhido para ocupar o lugar de Julian Bream, e chancelado pelo próprio; por fim, movidos pela curiosidade de ver de perto o que o Brasil trazia e que era tão merecedor de espaço numa das agendas mais disputadas e importantes da música internacional.
O programa, todo clássico, contou com as peças mais difíceis e representativas do repertório barroco alemão e espanhol moderno para violão.
Contam os jornais que assim que entrou no palco Villa Verde foi recebido com muita expectativa e formalidade, mas que ao final do recital, depois do terceiro ‘bis’ e debaixo de aplausos e de insistentes pedidos de mais peças extras, parte do público começou a gritar “Bossa Nova, Mr Villa Verde”, Informados que estavam de que Darcy também as tocava.
Neste momento, atendendo a pedidos, Darcy sorriu, sentou-se e, pela primeira vez em uma apresentação erudita nos EUA, resolveu tocar alguns de seus arranjos feitos para músicas da bossa-nova que, debaixo de palmas ininterruptas, surpreendeu a todos os presentes e lhe garantiu um retorno quase que imediato ao Lincoln Center.
Mesmo admirados pela qualidade de sua performance “An artist capable of conveying transcendental interpretations through emotion, exceptional technique, and a unique tone and sonority“, alguns críticos de revistas especializadas, chegaram a comentar a quebra de protocolo ocorrida no ‘Alice Tully Hall’ com a inclusão das músicas populares como ‘encores’. Mas o renomado apresentador de TV, Ed Sullivan, posteriormente comentou em seu programa, enquanto o entrevistava, que tocando violão como tocava tudo ficava erudito.
Daí pra frente, coincidência ou não, com relação a Darcy Villa Verde, sua musicalidade sempre roubava a atenção do público e dos críticos, antes mesmo que eles pudessem aferir quais protocolos do universo clássico tinham sido, outra vez, ‘quebrados’.
Suas críticas, sempre favoráveis, destacando suas qualidades de músico e interpretações que fazia, lhe renderam acesso a agendas importantes que, com a ajuda dos empresários certos, o impulsionaram abrindo as principais salas de recitais e concertos, como as que ocorreram de seu retorno no ‘Gaston Hall’ na Georgetown University, seguido de outro na ‘Hall of Nation’ da mesma universidade e no Inter-American Center in Washington DC, por exemplo. Exatamente nos moldes do que aconteceu no Lincoln Center.
Darcy Villa Verde, por circunstâncias que não compete abordarmos no momento, também passou a preencher agendas de eventos envolvendo corpo de estado, membros de governo, corpo de diplomatas, de personalidades da arte, e inclusive de personalidades do pop e do jazz que buscavam assisti-lo nessas grandes solenidades e festividades.
Foram apresentações em Palácios, Embaixadas, Ministérios, Consulados, Orgãos Governamentais, Centros Culturais, Clubes Oficiais Militares, Ordens Filantrópicas, festivais e eventos musicais internacionais da época.
A maioria dessas apresentações, com auditórios para grande público e sempre com muito público. Uma ‘tônica’ – lotação – em suas apresentações, que desde Paris se repetiu pelos países em que tocou.
Certamente, tudo era pensado no detalhe.
Diferente do que ocorria no Brasil, Darcy Villa Verde, passou a planejar estrategicamente, tanto nos EUA como na Europa, cada recital, concerto e apresentação que dava.
Evitou sair tocando em todos os lugares aos quais era chamado. Achava que isso desgastaria muito sua imagem como músico e artista.
Inicialmente, preferiu selecionar aquelas apresentações que dariam mais retorno e que o colocaria mais em evidência, o que evidentemente ajudaria lançá-lo em um nível de consideração maior no universo da música erudita nos EUA.
Darcy fez centenas de recitais no exterior, e todos eles sempre tendo em conta esta visão mais planejada de como melhor se promover.
Isso, indiscutivelmente foi essencial para construir o nome que o consolidou profissionalmente.
“Começaram a surgir muitas oportunidades de concertos, recitais e apresentações, mas concluí que se me concentrasse em ser mais seletivo quanto aos teatros e salas que escolhesse para tocar, me valorizaria mais e me projetaria na mídia em um nível maior de consideração por parte dos produtores, empresários e diretores do ramo da música.
Daí, começaram a surgir relatos nos jornais com relação a ser difícil de conseguir ingresso para me assistir, e o motivo de fazermos mais de uma apresentação em cada teatro ou sala.Nos EUA a realidade cultural e econômica do público era outra, bem diferente do Brasil.
Com escolhas mais seletivas e um bom marketing, fui conseguindo o reconhecimento que precisava para me consolidar no meio musical sem ficar exausto e sem popularizar demais minhas apresentações.
Isso me dava mais tempo para estudar e descansar, já que não precisava ficar pulando de cidade em cidade a todo instante.Começamos a usar mais os canais de rádio e TV no exterior.
Bastava organizar bem cada grande apresentação e anunciar e promover adequadamente com um bom grupo de relações públicas e de mídia, e foi o que fiz.
Lá fora as coisas eram mais difíceis em termos de conseguir espaço nas TVs e rádios, mas consegui.Depois era só pegar este material e distribuir para as mídias no Brasil.
Quando eu chegava, a mídia já havia me anunciado e as pessoas vinham até do interior para me assistir nas capitais, o que me ajudou muito.
Meus empresários me contavam que vinham pessoas de outros municípios e cidades, e às vezes de outros estados para poderem me assistir. Alguns, inclusive, chegaram a acompanhar algumas de minhas tournées.Meu filho sempre comentava a responsabilidade que isso remetia ao artista, diante do seu público, e é verdade. Por isso, como músico, sempre levei minha profissão a sério e nunca relaxei com relação a estudo e à pesquisa.
Darcy sabia se utilizar da própria imagem na mídia com grande habilidade.
Suas aparições nos programas de televisão e rádio nos EUA, como o do Ed Sullivan Show e A Voz da América ajudaram muito a promover suas tournées nos Estados Unidos, assim como os concertos em que foi convidado a dar em grandes eventos culturais e musicais. O mesmo ocorreu no Brasil durante longos anos.
Outra estratégia que Darcy utilizava é que sempre após um grande recital ou concerto nos EUA que repercutia na mídia americana, ele repassava esse material para os principais canais de mídia no Brasil – TVs, Radios e Jornais, aproveitando toda essa exposição internacional para aquecimento do público, impulsionando novos agendamentos de tournées nas principais cidades brasileiras.
Organizava tudo num ‘timing’ certo para conciliar, ambas as agendas.
Aliás, toda essa movimentação e divulgação aumentava o interesse sobre seus retornos, abrindo espaço para novas apresentações e inclusão de novos repertórios nos EUA conquistando cada vez mais o público que seduzido pelas suas performances no clássico e pontualmente no popular, o colocaram como um dos concertistas de maior prestígio na época.
Por algum motivo que não compete avaliar no momento, essa quebra de protocolo de Darcy em oferecer música popular ao final do recital como ‘bis’, considerada inaceitável por parte de alguns críticos mais puristas, era muito apreciada pela maior parte do público e dos apreciadores e amantes da música clássica.
Tal realidade, que se dava em diversos países, concedia a Villa Verde não só a possibilidade de estender essa erudição em diferentes gênero musicais, como também a possibilidade de fazê-lo em apresentações formais e de grande visibilidade.
Era muito procurado, claro, pela qualidade ímpar de sua entrega como músico concertista clássico, mas ao final do recital pediam pelos arranjos dos populares dele, que educadamente, no intuito de atender e fidelizar seu público, concedia simpaticamente.
Quando convidado a fazer a abertura do Festival de San Remo, o interesse dos produtores do festival era a de uma apresentação plural, combinando todos os gêneros e solicitando duas ou três execuções no estilo jazzista, o que ele, a propósito, gostava de fazer.
Alguns críticos e analistas na época escreveram que isso podia se dar pelo fato de sua musicalidade ter o poder de transformar, com sua técnica, erudição e habilidade, todo o repertório apresentado – clássico, moderno, flamenco e popular – em um grande espetáculo erudito.
Outros, ainda acrescentavam que toda essa visibilidade que ele criava, também era apoiada pela capacidade de comunicação e de marketing pessoal que ele sabia fazer muito bem.
Movido sempre pelo interesse de divulgação da música clássica e, posteriormente, da música popular brasileira nos EUA, participou de um movimento cultural, a exemplo do que já vinha fazendo no Brasil, dentro das ‘Universidades Americanas’ que teve seu início em Washington DC e que o levou a inúmeras outras salas importantes dos EUA.
Este era um trabalho que gostava muito de fazer. Tocar para jovens e jovens músicos em prol da cultura.
Aos poucos, conforme consolidava uma carreira bem sucedida como concertista em diversos países, Darcy passou a retornar com mais frequência ao Brasil e aos países da América do Sul visando estender o seu trabalho de divulgação e popularização da música clássica através do violão. Villa Verde sempre considerou os países latinos importantes centros culturais, merecedores de sua arte e de toda a sua atenção.
Sempre que o assunto da formação cultural e musical vinha a tona, não perdia a oportunidade de destacar o Brasil com toda a sua pluralidade, e países como a Argentina e o Uruguai que o maravilharam com a sua educação e riqueza cultural.
“São muito culturais e intelectualmente bem formados! Os concertos lotam e o público pede bis sem parar.”