Дарси
Вилла
Верде
Московская консерватория
Санкт-Петербургская филармония
Мариинский театр
Эстонская национальная опера
URSS
Outro grande momento que Darcy Villa Verde considerou emblemático em sua trajetória profissional foi o convite para ir a União Soviética se apresentar em uma tournée, passando por inúmeros centros culturais daquelas repúblicas, inclusive na Rússia.
O resultado dessa tournée impressionou tanto o público e a crítica, que desencadeou um segundo convite para um retorno.
Encerrando uma de suas ‘tournées’ com um concerto em Brasília, em 1973, Darcy Villa Verde é abordado ao final de sua apresentação pelo adido cultural da União Soviética, Sr. Valentin Alioshin, que após assistir o recital e se encontrar visivelmente muito impressionado com a sua apresentação, perguntou-lhe se aceitaria um convite para tocar na União Soviética.
A possibilidade de um ingresso na URSS, que já vinha sendo considerado por Darcy, se efetiva poucos meses depois através da Embaixada Soviética e do Instituto Cultural Brasil-URSS para uma tournée, iniciando-se pelo Tchaikovsky Concert Hall em Moscow, passando por diversos centros culturais como, Leningrado(St Petersburg), Kiev, Riga, Kaunas, Minsk, Tallinn, Vilnius, Rostov, Yaroslavl, Alma-Ata, Tiblíssi, entre muitos outras cidades, para, só então, finalizar em Moscow.
Outros concertistas internacionais já tinham tocado na URSS.
Mas esse convite somava por volta de 30 centros culturais em um período de quatro meses e com agenda nos principais teatros dessas cidades. Algo inédito para o violão.
Após ser comunicado pelo seu empresário a respeito do telefonema da embaixada, Darcy Villa Verde que se encontrava no sul do Brasil em apresentações, e que já estava dando andamento junto a algumas secretarias da cultura para mais uma tournée pelo Nordeste, altera sua agenda e se reprograma para uma imersão de estudo de três meses, antes de viajar para a URSS.
A tournée que se estenderia pelos principais teatros e salas de todos os grandes centros culturais daquelas repúblicas, levou Darcy Villa Verde a iniciar uma rotina de estudos e apresentações ‘planejadas’, das mais intensas feitas por ele.
Uma preparação que se estendeu até no estudo da história de cada uma daquelas repúblicas, principalmente no que dizia respeito a música. Tudo no intento de preparar-se devidamente ao que estava por vir e que, segundo ele, o deixaria absolutamente maravilhado e, ao mesmo tempo, impactado pelos ares inclementes e frios dos ventos do norte.
Importante considerar quanto a seriedade de se apresentar em um país como a URSS, ainda mais em meados da década de 70.
Era uma época que apesar de um certo relaxamento das relações internacionais e de uma aparente menor tensão política que se manteve por alguns poucos anos, vivia-se o auge da temida ‘cortina de ferro’.
Leonid Brejnev tinha como prioridade maior, um sistema político que atendesse mais os interesses de seu país do que do próprio partido que representava.
E como a música clássica, pelo que se observa historicamente, é atemporal, sem fronteiras e com poucas restrições políticas e ideológicas, um idioma universal que tudo alcança e na qual todas as nações diante dela se curvam, Darcy decidiu por estudar e se preparar para esta tournée levando em conta toda uma nova realidade cultural que encontraria. Uma preparação que transcendia a própria arte e que se estendia à história, à geografia e aos costumes, enriquecendo-o com relação ao perfil de público que encontraria.
Esta era uma iniciativa que Darcy já implementava em sua forma de trabalho, independente de onde se apresentasse, ainda mais levando em conta uma nação como a URSS, na qual a cultura e tradição musical remonta aos primeiros séculos e se traz historicamente muito presente, principalmente a partir do início do segundo milênio, por meio da ortodoxia religiosa.
Diferente do Brasil que ainda estava se aculturando quanto ao consumo de músicas eruditas ou de concertos(*), a URSS nesta época, era um conglomerado de repúblicas, que a despeito de sua grande diversidade étnica e cultural, trazia a música clássica europeia bastante enraizada e disseminada em seu meio. Bastava verificar a quantidade de teatros e salas de concertos que já se somavam em grande número e com agendas lotadas. O povo consumia recitais de forma muito habitual e interessada.
Levando em conta o enfraquecimento da economia soviética que começou a se dar a partir de 1970, esses recitais, concertos e apresentações, eram oportunidades que a população tinha de se aculturar a custo acessível e que o governo cada vez mais promovia subsidiando apresentações que terminaram por trazer aos palcos grandes nomes e expressões da arte e da música internacional.
As apresentações e a viagem em si, foram repletas de situações inusitadas e tensas que, acreditamos, não são o foco do nosso interesse no momento.
O que vale mencionar é que cada teatro e sala em que Darcy Villa Verde se apresentou, surpreendia pela dimensão do que se pode conceber em termos de arte, beleza, história, acústica e, acima de tudo, de público.
Eram locais extremamente suntuosos, verdadeiras obras de ostentação da beleza e da arte que foram edificados para acolher respeitosamente a música e a dança na sua mais profunda e delicada expressão.
Em algumas dessas renomadas salas de concertos, como a Tallin Philharmonic Concert Hall, o Teatro Mariinsky e o Shotakovitch St. Petersburg Academic Philharmonia, por exemplo, as partituras eram entregues junto ao programa da noite para que o público ouvinte pudesse acompanhar lendo-as enquanto ouviam o concertista tocar. Uma iniciativa que demonstra o nível de cultura e seriedade com relação à música erudita.
Depois de notificado a respeito, no camarim da Sala Shotakovitch, Darcy com seu espírito jovial e sempre humorado, perguntou ao público, antes de tocar determinada peça em que imprimiria grande velocidade, se os ouvintes tinham feito curso de leitura dinâmica.
O público sorriu descontraidamente e se deixou encantar pelo talento deste músico, já muito amadurecido.
“Era um público simpático, caloroso, culto, extremamente exigente mas sabidamente difícil de se deixar impressionar.
Muitos professores de música, muitos músicos profissionais, muitos críticos, violonistas, e sem falar no clima circunspecto dentro daqueles teatros imponentes que traziam no ar – dava para sentir – uma atmosfera de história sofrida, mas de grande intensidade cultural, ávida pelo novo.Diante de situações como essa, há profissionais muito preparados que chegam, sentam e tocam indiferentes ao lugar em que se encontram. Fazem o que sabem, fazem bem e se vão. Assisti a alguns desses, lá mesmo.
Já outros preferem não saber nada a respeito do local, do lugar, do perfil de público que o assistirá e do tamanho da plateia, porque ou não se importam ou ficam tão nervosos e desconfortáveis que sequer olham para o público. Conheci muitos.Eu já não sou assim! Sou um artista que vive da atmosfera ambiente. Eu quero saber quem vem, o perfil e o tamanho do público, se são exigentes, se são especialistas no que vou interpretar, se são extremamente críticos, porque para cada situação eu me preparo e atuo de um jeito. E quanto mais peculiar ou desafiadora a circunstância, mais me adapto, mais me emociono e mais gosto. “
Como artista, é importante entender que Darcy Villa Verde, mesmo respeitando sempre o gênero e o estilo de cada peça de seu repertório, buscava adequar musicalmente a sua forma de apresentá-lo ao perfil da ocasião e do público que o assistisse.
Não era o tipo de músico que preparava um programa e ia repetindo a execução dele igual em todos os lugares ou países em que tocava.
Em cada lugar que fosse se apresentar, planejava, montava, preparava e apresentava aquele repertório escolhido, levando em conta as características e o perfil do público.
Isto, não só é possível como faz muita diferença.
Muitas vezes, excursionando em uma das repúblicas em que se apresentou, alterava as peças musicais ou a ordem das mesmas, modulando a intensidade, a expressão, a intenção musical e a maneira como musicalmente narrava as sua versões interpretativas daquelas mesmas músicas.
Isso se verificou claramente nesta sua incursão à URSS.
Um violonista profissional russo, diretor e editor chefe de um jornal sobre música e guitarra clássica, com sede em Leningrado, tomando conhecimento que Darcy Villa Verde estava indo à União Soviética se apresentar, se interessou em acompanhá-lo por algumas das cidades de sua tournée que, iniciando em Moscow passaria por Leningrado, atual St. Petersburg, seguindo em direção ao norte da Rússia.
Seduzido pelo seu histórico, procurou também assisti-lo em diferentes recitais de uma mesma temporada de um teatro e nos ajudando, inclusive, com informações sobre algumas dessas apresentações que se deram na época.
Este violonista narrou que um mesmo programa de uma pequena temporada de 3 dias de um teatro, por exemplo, ofereciam apresentações totalmente distintas uma da outra.
Disse que mesmo se tratando de um único programa para os 3 dias, as músicas iam sendo conduzidas com diferentes intenções narrativas, oferecendo interpretações que chegavam a alterar, inclusive, as ‘transcrições’ dos peças eruditas apresentadas.
“A sensação que temos, é a de que a intensidade e a expressividade colocada, responde ao espírito do intérprete que dependendo de como sente a música no momento, altera a interpretação, o que impacta diretamente no efeito de sua sonoridade que é muito diferenciada.
Já vi isso em jazz e música moderna, mas numa obra de Bach, sem alterar a composição e o estilo? Uma outra visão da música, com a mesma partitura, o mesmo intérprete e nada fora do lugar?
O mais impressionante, é que as interpretações fazem todo o ‘sentido’ em função das intenções que ele dá no momento, pelo sentimento que coloca.
Dava para ‘ver’ o sentimento dele na música.
Nas peças populares que deu, como peças extras – também haviam recitais só com clássicos e com clássicos e populares – essa propriedade também se acentuava muito bem.”
Fomos informados, inclusive, que quando isso foi percebido por alguns músicos e publicado na mídia, muitos corriam para tentar adquirir ingressos para o recital do dia seguinte, mas já haviam vendido tudo; eram muito difíceis de conseguir.
Este mesmo violonista narrou em seu depoimento que quando o procurou, após o recital, para cumprimentá-lo e perguntar como conseguia fazer isso e por que fazia, Darcy respondeu, meio a outras considerações que fez, que não se apresentava num concerto ou recital para ‘tocar músicas’, mas para ‘fazer música’.
Este senhor respondeu a Darcy Villa Verde que se não tivesse testemunhado, não acreditaria.
Que sua forma de ‘timbrar’ era tão diferenciada que lembrava a ele uma violonista francesa que assistira na própria União Soviética, em 1964, e que tinha encantado a todos com a sua sonoridade única: Ida Presti.
Desnecessário comentar a emoção e a tristeza que se abateu sobre Darcy.
No caso de Darcy Villa Verde, sua musicalidade e habilidade interpretativa, somadas à sua personalidade e capacidade de comunicação e interação com o público, funcionava tão bem que ao final dos concertos na URSS, todos de pé, batiam palmas e os pés no chão ao mesmo tempo. Uma cumprimento reservada para aclamações de grandes intérpretes.
O reconhecimento foi tão imediato e a resposta do público tão receptiva que a Goskoncert, firma estatal responsável pelas apresentações artísticas, convidou-o, sob sugestão de membro do Partido – presente na ocasião – a um retorno numa segunda tournée, imediato ao término de um de seus últimos recitais em St Petersburg.
Um fato que chamou sua atenção e achou divertido, era o de que ao término de seus concertos na URSS, as pessoas iam procurá-lo no camarim fazendo duas filas: uma para conhecê-lo de perto e parabenizá-lo, e a outra para ver de perto o violão.
A maioria, quando via se tratar de um ‘Do Souto’ brasileiro, se espantava e ficava curiosa. Esperavam nomes de luthiers famosos e se punham intrigados enquanto observavam de perto fotografando e até tirando as medidas.
Alguns chegavam até a ficar procurando se o violão teria uma espécie de captador para som tamanha a projeção que o som alcançava no ambiente.
Definitivamente a técnica empregada por Darcy e a sua própria musicalidade surpreendiam pelas interpretações que criava e extraía de seu violão, e que com certeza também pôde contar com as excelentes acústicas de cada um desses magníficos e reconhecidos teatros.
No intuito de honrar o Brasil, Darcy Villa Verde ofereceu um recital de despedida, em ‘Petit Comité’, na Embaixada, com direito ao corpo diplomático poder convidar quem quisesse.
Segundo seu empresário, o recital teve um calor todo especial que encantou a todos.

Shostakovitch St Petersburg Academic Philharmonia. Sala na qual Darcy Villa Verde se apresentou diante do chefe do partido e de parte do corpo de estado. Considerado pelo empresário de Darcy, Amarílio, como uma das apresentações mais marcantes e significativas nos 8 anos em que o acompanhou profissionalmente. Segundo o próprio, a comoção que tomou conta do ambiente completamente lotado, a intensidade interpretativa, a suntuosidade do local, a seriedade do público e o clima de importância e tensão de um recital em plena ‘cortina de ferro’ na presença do Secretário Geral e de sua comitiva, em contraste com a irreverência de Darcy Villa Verde, marcou uma experiência ímpar em sua vida. A título de curiosidade, por trás das colunas de mármore encontram-se dois andares de camarotes e de frisas.
Em Leningrado, após o recital, Darcy Villa Verde foi interrompido em uma entrevista pelo assessores do Secretário do Partido que buscavam saber em seu nome, para surpresa de Darcy e daqueles que ali se encontravam, o que exatamente movia Darcy, de forma a tocar como tocava.
Darcy, imediatamente, respondeu que era movido pelo poder da música, da arte e do público.
“Sou movido pelo poder que a música causa em mim, pela reação do meu público e pelo desafio de grandes apresentações.
Gosto de ver o público interagir, através da emoção, àquilo que ofereço.
Também gosto de fazer apresentações a públicos muito exigentes e selecionados. E, circunstancialmente, vem sendo assim em minha vida profissional.
Me apresentar em grandes teatros e conservatórios ou em reuniões privadas para músicos e anfitriões representantes da cultura, como já me aconteceu em Paris e em diversas cidades da Europa e dos Estados Unidos, e agora aqui, no ápice dessa sala maravilhosa e com toda essa ‘nata’ da cultura musical internacional, é uma realização.A expectativa de um público exigente diante do que vou apresentar, acompanhando musicalmente o que estou fazendo, me dá um grande prazer físico e emocional. É o retorno sobre o qual, o meu falecido pai me falou a respeito do violão. Sou um músico de público e é exatamente isso que me move.”
– “Nota-se, pela forma confiante como toca e se sente à vontade no palco. O senhor é possuidor de um talento que surpreenderia o próprio Sokolowski. O senhor é muito seguro e sua música ‘toca’ muito o nosso povo. Agradecemos por isso.”
Neste momento, o secretário, retirou o próprio relógio do pulso e o deu a Darcy que ficou sem entender o que ocorria e sem saber como agir.
“É nosso costume. E eu gostaria muito de que o senhor nos honrasse usando sempre que pudesse.”
O tradutor que buscava a tudo se antecipar, conhecendo razoavelmente Darcy Villa Verde e acompanhando sua expressão de aparente recusa, disse a ele que sequer pensasse em não aceitar, o que poderia causar um enorme embaraço diplomático.
Perguntado, posteriormente, como foi conhecer e ser presenteado pelo próprio líder do partido, Darcy respondeu:
” Denso, tenso e intenso. [risos]
Difícil estar diante daquelas pessoas, naquele período, no meio de todo aquele regime e policiamento, e toda aquela suntuosidade de ambiente e de protocolo, me sentir musicalmente venerado, mas, ao mesmo tempo consciente do que aquilo significava, apesar de me sentir preservado pelo fato de ser um cidadão internacional.
Pergunta difícil. Não dá para traduzir o sentimento disso isso em palavras.”
Esse relógio que Darcy colocou imediatamente no pulso e passou a usar, era de ouro e deu história. Assalto à mão armada, troca de tiros, transeuntes gritando, pessoas se jogando no chão e correndo pelas ruas à noite no meio de um bar completamente lotado à beira-mar, além de um delegado disparando tiros da janela de seu apartamento.
Mais uma das histórias inverossímeis, que fizeram parte da vida turbulenta e sensível deste músico, testemunhada e documentada através de uma pequena multidão, de um boletim de ocorrência no 14º Distrito, de uma nota no jornal O Globo, e de um convite para fazer parte de um corpo de delegados especiais.
A propósito, este hábito muito interessante que surpreendeu Darcy Villa Verde se estendeu pela maioria de suas apresentações. Ao receber receber flores ao final dos concertos e recitais, o que é normal, as mesmas vinham acompanhadas de muitos presentes que o público dava ao final Ia colocando no palco ou entregando pessoalmente no camarim. Quando gostam do artista e de sua música é costume presentear. Ao final, Darcy Villa Verde precisou comprar algumas malas para poder carregar e trazer uma quantidade enorme desses presentes.
Em contato recente com alguns representantes da área da cultura e da música na Rússia, tomamos conhecimento de que alguns conservatórios e institutos de música dos centros culturais em que Darcy Villa Verde se apresentou, podem ter registrado seus recitais na época, a pedido do regime do partido. Essas gravações estão sendo solicitadas, via orgãos competentes e responsáveis, e a resposta obtida é de que irão verificar a possível existência desses materiais e avaliar a possibilidade de disponibilizá-los.
(*) Mesmo considerando, que com a chegada de D. João VI, foram dados alguns impulsos à propagação de encontros musicais clássicos no país, foi a partir de Villa-Lobos que o Brasil começou a ganhar mais massa na produção de música erudita e de concerto, junto a talentos como Oscar Lorenzo Férnandez, Francisco Mignone, Radamés Gnattali, Camargo Guarnieri, César Guerra-Peixe, Cláudio Santoro e tantos outros que foram surgindo.
Com relação ao consumo da música erudita, podemos dizer que até hoje estamos com dificuldades, não de público propriamente, mas de desenvolvimento de uma cultura educacional musical que aumente a erudição e a frequência de um público mais preparado em recitais e concertos, estimulando um aumento de novos compositores, de intérpretes de qualidade e de um público mais consciente e exigente musicalmente.
Sim, nós os temos, e apesar de alguns asseverarem o contrário, estes ainda são em número bem reduzido.
Nos anos 70, podemos afirmar, os números, apesar de reduzidos, costumavam lotar as salas e os teatros deste músico que se destacava pela sua maioridade musical e artística, e pela sua habilidade de promover conhecimento e cultura em seus recitais e concertos.
