Apresentações na URSS

Muito se especulou sobre como foi a experiência de Darcy Villa Verde na URSS em plena época da ‘cortina de ferro’ em que passou alguns meses se apresentando naquele aglomerado de repúblicas e centros culturais extremamente exigentes sob todos os aspectos. Tal curiosidade se dava por dois motivos basicamente.

Era de conhecimento o quanto Villa Verde levava a sério suas interpretações da música clássica, e a disciplina de estudo extremamente rigorosa a qual se submetia para o execução desse repertório no violão. 
Diante disso, primeiramente, todos queriam saber como ele viu o interesse dos russos, representantes da Goskoncert, ao convidarem-no para tocar na URSS. 

Depois queriam saber, dele, como via o interesse dos russos numa 2ª parte de seu recital com um repertório ‘erudito popular’ (como chamaram). Isso, porque o tinham assistido e “ficado, musicalmente, muito surpreendidos com tudo aquilo”. 
Não entendiam como um músico conseguia tocar clássico daquele jeito, e depois fazer no violão o que fazia com um repertório popular. 
Tomaram conhecimento do porque fazia isso mais exclusivamente no Brasil; acharam a iniciativa maravilhosa e se encantaram tanto com as interpretações que perguntaram se aceitaria fazê-lo, na ‘tournée’ para a qual tinha sido convidado; mesmo que em algumas poucas cidades.
A ‘
tournée’ na URSS seria longa; muitas cidades e mais de 20 centros culturais, em praticamente 4 meses. 

As especulações e a curiosidade, nesse caso, se davam em função de já saberem que quando Villa Verde era chamado para tocar em grandes teatros de importantes centros culturais na presença de um público mais erudito, só se permitia tocar repertório clássico.

O segundo motivo era como ele via a necessidade de imprimir e manter um ritmo de muitas horas de estudo diário – acima de 8 horas – para apresentações deste nível de importância e grandeza, e se de fato isso fazia diferença para um músico com o nível já alcançado por ele.

Quando entrevistado numa coletiva em Washington DC, a respeito do assunto, Darcy Villa Verde respondeu como foi poder se apresentar na União Soviética e o quanto todo esse seu preparo teve de relevância, nessas apresentações:

“Até aquele momento, tinha tocado em grandes teatros e salas de concerto que me impressionaram muito por diversos motivos. Pela importância de terem sido palco para os maiores músicos e intérpretes do mundo, pelo fato de terem testemunhados os maiores compositores de todas as épocas da história da música erudita, e por terem feito parte da minha história de construção musical. 

A relevância não se dava apenas por eu ter tocado neles, mas por eu ter feito neles, o que eu fiz.
Me sentia muito preparado, e cada apresentação que fiz ‘marcou’ o público presente com algo diferente, autoral.
A consciência de que deixei algo meu, da minha música, ali no coração do público que me recepcionou e me aprovou de forma tão calorosa e espontânea naquele ‘teatro’, naquela ‘sala’, transformou cada local desses em uma experiência muito marcante na minha memória emocional. Me senti parte da história da música, entende? E não de um grupo de músicos que tiveram a oportunidade de se apresentar em um ou outro lugar importante.
O que os meus concertos causavam no público me definia como músico e justificava o valor de ter estado onde estive, de tocar onde toquei. E isso sempre me fez muito bem.

Mas houveram lugares que quando eu entrava, era impactado de outra forma. 
Na URSS, os teatros que fui chamado a tocar traziam uma atmosfera diferente.
O peso da ‘impressão emocional’ que você sente dentro desses ambientes, encerra como que uma espécie de silêncio histórico 
dramático. E isso, somado a um público que carrega uma espécie de ‘conformação’ social, que só quem vive lá pode entender, torna o ambiente um tanto denso. 
Como eu me conecto muito com o público, e isso para mim é muito importante para o desempenho interpretativo das música que vou tocar, eu ressinto na hora e busco equilibrar isso com a minha arte, com a minha música e comunicação.

Foi aí, então, que eu percebi, que nunca foi tão importante trazer em meu repertório, o gênero de música popular trabalhada com a mesma erudição que dou às músicas clássicas. E do porquê de me terem solicitado incluí-las em meus programas.
Após as apresentações dos clássicos em que fui muito aplaudido, e que vi pessoas emocionadas após a execução das peças de Bach e Scarlatti, me revesti da mais alta sensibilidade para expressar o que eles denominaram como o popular erudito. O que para mim era uma bobagem de uma época de jovem, que desenvolvi de ‘curtição’ sem esforço algum e sem noção da importância do que podia representar musicalmente dentro de cada um, para eles ali era um bálsamo, uma alegria, eram emoções boas.
Era um povo feliz mas sofrido.
Não tinha dimensão do que esses arranjos e harmonizações que fiz nessas melodias de espírito livre e informal, podiam impactar numa atmosfera como aquela, milenar e tão militarmente austera. Foi um grande aprendizado, pra mim.

Entendam, não estou me atentando a nenhum tipo de crítica, mas sim de sentimentos e emoções de um povo, de pessoas que me receberam, assim como a inúmeros outros músicos, muito bem, de forma envolvente e respeitosa.
São seres humanos, merecem de um artista e músico o que ele possa oferecer de melhor.

Então, na segunda parte dos meus recitais, me revesti de muita sensibilidade e toquei transferindo para as cordas todos os recursos que a minha habilidade técnica consegue transmitir do que sinto musicalmente; do que essas músicas representam da minha história. E oferecer isso, naquele momento, foi tão gratificante quanto tocar um clássico.
Não sei explicar o que é, e o que se deu, mas as pessoas surtaram, enlouqueceram e aplaudiam descontroladas. Sorriam! Parecia que aquele repertório tinha quebrado as correntes de um protocolo histórico e profundamente rígido.
Muito assustador e muito emocionante, ao mesmo tempo. 
Começar com as peças de Bach e terminar com a música brasileira foi muito marcante para mim.

Então respondendo a sua pergunta, quando estavam de pé me aplaudindo nestes teatros enormes e imponentes, pela execução do meu repertório clássico, me senti profundamente músico.
Mas quando estavam de pé me aplaudindo pelo que oferecia de emoção com as músicas populares brasileiras, me senti profundamente humano.

Para mim, tocar na URSS foi uma experiência inigualável e muito rica.

Outros músicos chegam, tocam e se vão. Mas eu não sou assim.

Com relação a escolher alguns centros culturais na URSS em que me apresentaria com uma segunda parte de músicas populares, atendi o pedido prontamente, e o que acabei de explicar me certificou de ter agido certo.
De início, não me dei conta da importância de incluí-lo, mas se eles estavam pedindo e eram tão rigorosos e exigentes culturalmente, deviam ter um sólido motivo para isso, então concordei.

Já estava mais maduro e consciente de minha musicalidade. Já tinha me firmado como concertista clássico, e diante do interesse legítimo dos executivos da Goskoncert em querer que eu apresentasse este outro lado do meu trabalho, que eles chamaram de ‘erudição popular’, ao povo soviético, resolvi atender em quase metade dos recitais que daria. 
E para surpresa deles, incluí nessa lista, 3 dos principais centros culturais de toda a Russia para tocar com este repertório: Moscow, Leningrado e Tallinn. 
Neles, encontram-se salas e teatros 
que figuram, até hoje, entre os mais importantes santuários da música clássica de toda a Rússia.
É o solo sagrado deles. 

Inicialmente, não me ocorrera tocar popular, mas uma vez que me pediram e me deram carta branca para escolher em qual cidade fazê-lo, resolvi incluir estas 3 na lista.
O mais interessante é que em um desses, antes de começar o recital fui informado da presença na plateia do Chefe ou Secretário do Partido, e que, em função disso, seria melhor permanecer com um programa exclusivamente de clássicos em todo o recital.

Fui pego de surpresa e não respondi nem que sim, nem que não, o que deixou todo mundo muito tenso e nervoso. 
Realmente não entendi; é que esse pedido ia totalmente na contramão do discurso do que havíamos conversado, até então.

O representante diplomático e o meu empresário não me largavam, e ficaram me cobrando uma resposta até o momento de entrar no palco.
O motivo exato disso não sei e nem queria saber àquela altura! Estava concentrado como sempre fico antes de grandes apresentações, e, agora, tenso com isso. E além do mais, isso não fazia nenhum sentido, os programas estavam impressos e na mão de todo o público.

Após a execução da primeira parte, só de músicas clássicas, onde tudo transcorreu maravilhosamente bem, vi que todos estavam muito satisfeitos pelas expressões.
Então, me empolguei, e comecei a segunda parte dizendo ao público que estava encantado com a cidade e a União Soviética; com todo o povo por nos terem acolhidos com toda a sua simpatia e respeito; que a educação do povo se destacava pelo alto apreço que tinham pela musica e pela arte em geral. Que aprendera que cada país, cada cultura, forja a própria história com o sofrimento e a própria vida, e que a música, como a arte em geral, sempre procura contar essas histórias que com o tempo se tornam os grandes clássicos da atualidade; clássicos populares e clássicos da mais alta erudição. E que eu,
 como músico, gostaria de homenagear o público presente tocando uma dessas histórias pelo grande significado que tinha para todo o povo russo. E abri a segunda parte com uma arranjo que fiz de uma música folclórica Russa, ‘Os barqueiros do Volga’.

Do início ao fim o mais profundo silêncio.
Quando acabei a plateia desabou em palmas. Foi um sucesso, gostaram muito. Muito parecido com o que se deu em Paris com o arranjo que fiz para a ‘Marselhesa’. 
Dali pra frente, até o fim do recital, segui o programa e intermediei apenas o que me inspirava no momento, dentro do que temos de riqueza musical no Brasil e no mundo. Villa-Lobos, George Gershwin, Solovyov-Sedoy, Tom Jobim, Baden Powell, Ástor Piazolla, Luiz Bonfá, Chico Buarque, entre outros.

Com relação à necessidade de se impingir uma disciplina severa de estudo, treino e ensaio, mesmo sendo um profissional experiente, eu vou dizer o seguinte:

Para quem entende o tamanho da responsabilidade do que é ser músico e intérprete de violão, e se preparar séria e devidamente para tocar para um público que ‘sabe’ o que você faz ou deixa de fazer em termos de música clássica, é muito bom.  

Eu acho que essa pergunta acaba se cada um fechar os olhos e se imaginar no palco de um teatro desses com mais de 1000 pessoas sentadas, sérias, segurando as partituras do que você vai tocar e esperando que você os surpreenda não só com música, mas com a ‘sua’ música, porque é para isso que estão ali.
Lá existem muitos bons violonistas. E quando convidam alguém, querem ver algo novo, que enriqueça a cultura deles, não querem assistir alguém simplesmente por assistir, ou para vê-lo tocar bem e perfeito. Me disseram que para isso nem saem de casa.

Querem ver a música que o músico tem para oferecer.
Querem a mensagem do músico, querem a interpretação, a musicalidade dele.
Dessa forma, eles conseguem sentir a alma e a visão daquele músico, sentir sua terra, sua vida, sua história, sentir seu país naquela peça que os sensibiliza. É algo muito mais profundo, é o novo que querem, pois já conhecem a maioria das peças e os inúmeros bons intérpretes que as apresentaram, o que é fácil de compreender.

Me informaram que a consciência social e cultural deles é tão grande, que quando um músico é um tanto frio ou toca sem intensidade e expressão, a notícia corre às outras cidades.

Quando entendi, ainda jovem, que ser músico era pegar a minha musicalidade, ou seja, algo que eu tinha desde que nasci e que trabalhei, e dividi-la com o meu público através de grandes interpretações no violão, realizei, obviamente, que quanto mais eu dominasse a técnica do instrumento, mais ele não ofereceria obstáculo para que essas grandes interpretações se dessem. Ao contrário, um domínio maior permitiria que eu pudesse tocar como sinto a música. E quanto mais domínio, mais música e menos exibicionismo virtuosístico. Apenas virtuosismo, entende?
Compreendem isso?
O virtuosismo está na musicalidade, na intensidade e expressão musical que a interpretação comanda; na emoção criada, e não na parte dinâmica. Isso é música e visão de gente adulta e madura. 

Quando Horowitz que, aliás, me toca muito a alma, toca uma Ballade 4 de Chopin ou uma 2 de Liszt, quando interpreta as sonatas de Scarlatti, um Impromptu de Schubert, um Kinderszenen de Schumann ou até uma peça como a Consolation de Liszt,  você vê a diferença em relação a um Claudio Arrau ou a um Rubinstein. E todos, apesar de diferentes, são muito bons porque dominam absolutamente a partitura e a música. 

O que difere é o que cada um imprime de si mesmo quando interpreta a peça, e daí acontece! Cada um toca o que sente.
A música domina o músico e música e platéia se fundem. 

É indiscutível que a técnica que cada um desenvolveu ajuda a dar aquele resultado sonoro muito próprio. Principalmente em Horowitz que adentra os mais delicados e explosivos universos sonoros sem se afetar posturalmente.
A intensidade e expressividade, neste caso, advém de sua musicalidade e da alta interpretação que flui e transborda pela suas mãos nas teclas, e não numa simulação corporal! [risos]

Não riam. Há quem sofre catarses corporais e toca magnificamente.
Mas a emoção precisa de musicalidade, ‘dedos’ e técnica, e isso é indiscutível.

Minha professora e amiga, Ida Presti, que, aliás, tocou para os soviéticos antes de mim, já tinha me orientado com relação a isso.

Entrevistador: Compreendo perfeitamente, Sr. Villa Verde, aliás, trata-se de uma visão importantíssima da própria condição de músico que nos leva a reavaliar toda a questão da musicalidade, de fato.
Mas o senhor não acha exagerada essa quantidade de tempo de estudo? Tocando como já toca, não basta estudar umas três horas, aquecer e fazer o que já sabe? Há muitos músicos conhecidos que fazem assim.
A razão de nossa pergunta, visando estabelecer um posicionamento da revista quanto ao assunto, é achar um senso comum entre os músicos a respeito deste tema que, ao que tudo indica, traz pontos de vista bem divergentes entre os profissionais de nosso meio musical.

“Sua pergunta tem duas angulações: Se estudar muito faz diferença para um profissional já experiente e porque certos músicos não o fazem ou alegam não fazer.

Estudar muito faz muita diferença. Faz pra mim e pra todo músico ‘sério’ que conheci.

Não conheci um músico, por mais talentoso que fosse, que não precisasse estudar muitas horas por dia durante uma boa parte de sua vida profissional. Estou falando de Segovia, Julian Bream, Horowitz, Alicia de Larrocha, Arrau, Zabaleta, Casals, Rampal. Todos esses estudavam sim, absurdamente e muito. E sei que estudavam porque me disseram e alguns pude até acompanhar pessoalmente durante semanas.

Quando os músicos deixam de fazê-lo, correm riscos, podendo tropeçar terrivelmente em apresentações importantíssimas. Erram escalas, tropeçam na música, trocam ou pulam notas, largam a música e o concerto pela metade… Já vi acontecer, são casos conhecidíssimos no meio musical; principalmente no violão.

Só quem tem compromisso com a excelência, que estuda seriamente e não deixa a vaidade subir à cabeça, é que pode relaxar.

E antes que me pergunte, sim, já atravessei mau tempo. 
Mas acho importante deixar claro que jamais toquei em publico uma peça que não estivesse completamente preparada. 
Então quando me refiro a mal tempo, me refiro à circunstâncias que surpreendem como, por exemplo, um ‘blackout’ que pode acontecer por exaustão ou estresse e que às vezes pega o músico de surpresa. Ou, então, a um mal estar, que já vi acontecer com alguns.
Soube de uma situação em que Claudio Arrau teve um apagão numa nota de passagem e não conseguia evoluir a música precisando reiniciar por 3 vezes. E tocou todo o recital muito bem.

Já tive um, inclusive, quando mais jovem por excesso de tensão e emoção.

Segovia, por exemplo, estudava o tempo todo. A partir dos 60 anos passou, é verdade, a diminuir a quantidade de horas mas também selecionou diferente seu repertório, adequando-o. E o adequou porque precisou.

Essa é outra coisa que causa ‘tragédia nacional’ e, em alguns casos, ‘internacional’. [risos]
Tem concertista que não escolhe as peças de acordo com as suas condições, perfil e nível técnico, e sim com o que idealiza ou acha que consegue; com o que chama mais público e impressiona mais a crítica; e entra despreparado.
Já vi muitos casos assim! Nossa… [lembrando] 

Um profissional tem que reconhecer o próprio alcance e trabalhar a partir dele.

Tem violonista que é bom em música contemporânea, mas não toca música espanhola bem. Tem outros que tocam bem músicas renascentista mas que não se sentem à vontade com músicas do classicismo, que exigem outra espécie de virtuosismo nas interpretações; ou então com música impressionista, por não saberem evocar certos estados de espírito e impressões, por meio de harmonias, timbres e cores tonais. Não têm mão e nem domínio de ambiência sonora suficiente para elas. Acontece e é normal.

Tem música, por exemplo, que não dá para tocar a vida toda.
Muitos violinistas, por exemplo, quando adentram uma certa idade e condição de debilidade física, deixam de tocar as músicas de alto virtuosismo e as substituem por outras que ganham em maturidade interpretativa.
Eu, por exemplo, sei que não vou tocar dessa forma para sempre. Posso continuar tocando, diferentes gêneros até, mas vou sempre buscar conciliar o repertório com a minha condição.
***
Adequar repertório não é demérito, é maturidade. 

Perceba que aqueles que já tocaram a Chaconne de Bach, não permanecem com ela no repertório para sempre. E não é só porque estão mudando o repertório não, porque poderiam optar por permanecer com ela indefinidamente. É porque é uma peça que assombra todo mundo, exigindo o máximo o tempo todo do intérprete. E com o tempo isso se torna inviável.

As coisas têm o seu momento certo.

Numa ocasião, fui assistir um violonista conhecido, aqui mesmo – EUA – e quando olhei o programa vi que o repertório era bem ‘facinho’. [sic][risos]
Quer saber? Adorei!! Foram bonitas interpretações e saí do recital encantado e feliz, me sentindo bem, dá pra explicar?! Foi um aprendizado, rapaz…”

 

Entrevistador: Mas o senhor toca música Barroca, Clássica, Romântica, Impressionista, Moderna, Espanhola e popular. E aí? 

“Entenda bem, não estou dizendo que não dá para fazer!
Estou dizendo que quem não consegue, não deve se arriscar até ter as condições necessárias para fazê-lo, ou então buscar se concentrar naquilo que faz de melhor.

No meu caso, temos que considerar alguns fatores que me possibilitaram fazer o que faço.

Primeiro, é que nasci violonista, se é que posso me expressar dessa forma; o violão não me fez violonista, eu nasci violonista, entende a diferença? Quando abraçava o instrumento, ainda criança, não era para conhecê-lo, porque de certa forma já o conhecia. Quando o abraçava era para me expressar musicalmente.
E nasci com uma capacidade de me expressar naturalmente em diferentes gêneros e sensos rítmicos.
Desde criança tenho uma aptidão natural para me expressar emocionalmente em diferentes gêneros e estilos musicais, até porque esses tipos de músicas fazem parte de minha cultura e temperamento.
Música clássica, jazz, música espanhola, flamenco, valsa, bossa-nova, samba; minha musicalidade me permite isso. 
As pessoas até se admiravam e comentavam a respeito dessa habilidade quando jovem, mas eu não me dava conta do que isso significava.
Quem me chamou a atenção para essa minha realidade e característica foram os meus professores, e o fizeram para que eu me concentrasse no desenvolvimento técnico do gênero ‘clássico’ que eu decidira trabalhar, e que naquele momento me atraía mais.
Eu já dominava o popular e precisava dominar em níveis muito superiores, o clássico. 
Toda essa trajetória possibilitou isso! E quando me amadureci no clássico, por consequência, estendi esse amadurecimento e controle para os outros gêneros. Mas ‘espírito’ e disponibilidade para eles sempre tive.

Depois, é preciso levar em conta a minha educação musical; minha história no popular que começou aos 04 anos e foi até 25 anos, ou seja, tudo o que fiz no popular e que me deu ouvido e traquejo intuitivo de arranjador, acompanhador, improvisador e solista, tocando ao lado de todos aqueles ‘cobras’ que fizeram parte de minha formação musical.
Isso me fez adentrar o erudito com outra dimensão de consciência musical e sonora.

Terceiro, a quantidade de horas que eu estudei e continuo estudando de forma determinada e concentrada; uma média mínima de seis a oito horas por dia, somada a mais quatro ou cinco horas, quando tenho grandes apresentações, ou até mais, se achar necessário. Não há limite.
Isso, durante anos a fio, sem parar!
E estudei e estudo com essa intensidade para adquirir e amadurecer em poucos anos, uma alta performance num gênero musical que exige técnica muito sofisticada de acabamento em estilística e sonoridade muito difíceis e diferenciadas, uma da outra.

Por fim, o fato de meu repertório não ultrapassar 150 a 200 músicas. Se você olhar os meus programas você percebe isso. São as músicas que eu gosto. E gosto muito.
Não tenho aquele ‘frisson’ de tocar todo o repertório violonístico, ou de gravar todas as peças de um determinado compositor, porque tem peças que eu não gosto, outras que acho chatas e até fracas musicalmente.
E vou me forçar a fazer o que não gosto e não quero pra quê? Pra gravar e vender disco? Pra mim isso não faz sentido.
Então, eu pego as músicas que me atraem e agradam o público, mastigo ao longo de anos, até eu e elas sermos uma coisa só. Aí quando interpreto, ela sai com o meu universo musical e pessoal, entende?
Todo músico inteligente que ‘vive de público’ [acentua] faz isso! Frank Sinatra, por exemplo! Gravou centenas de música, mas o que o público pede e enlouquece quando ouve? As mesmas, sempre!
Mesmo sendo um músico clássico isso também acontece.
Ou o público vai assistir por causa do nome do concertista e aí assiste o que o programa determina, ou o músico mantém o repertório que o representa frente ao seu público, trazendo sempre algo novo, mas mantendo aquelas que são consideradas as mais icônicas. Os seus ‘cavalos de batalha’, compreende?

E outra coisa, eu não estudo essas horas todas pra saber tocar. Eu já sei tocar. Eu estudo pra poder conseguir me expressar numa determinada música como eu a sinto! Insisto na questão porque é importante! E se a música é difícil, este trabalho se intensifica e se estende.

Agora, muitos músicos carregam repertórios enormes e quando tocam ou vão gravar, termina ficando ‘morno’. Dentro da partitura, bem tocado, mas ‘morno’ musicalmente, um tanto inexpressivo.

Essa é uma condição que se vê com muita frequência, até nos músicos populares. Tocam uma infinidade de músicas, fazem shows, agradam muito, mas não são ‘concertistas’, e nem têm o objetivo de ser. Aí podem até errar, trastejar, esquecer, deixar o violão cair, que tá tudo bem; tudo isso vira palmas.
Mas esse não é o meu universo de trabalho.

Acredite, se o músico é muito bom e estuda muito, fica muito bom; mesmo ele sendo bom, se não estuda como precisa, corre risco; e a depender da dificuldade da peça, se não se prepara devidamente, a chance de ‘cair do cavalo’ é grande. Fora o fato, claro, de que há compositores que você não pode nem pensar em fazer isso; Bach, por exemplo, é um deles. 
Nem os maiores do mundo que focaram em Bach e tocaram Bach a vida toda, relaxavam. Sempre estudavam mais, precisavam de mais; mais tempo para trabalhar,
mais tempo de estudo para amadurecer ‘musicalmente’ a peça, para refinar cada detalhe, para melhorar o acabamento interpretativo; uma verdadeira manutenção.
E tudo isso para transbordar em emoção!
Isso leva tempo, muito tempo de estudo, nunca acaba.“

Entrevistador: Desculpa insistir no ponto, mas é que alguns músicos já disseram que nem sempre precisa ser assim; grandes músicos, inclusive.

Mas escuta, eu acabei de responder isso!
Depende do músico, do tipo de instrumentista que ele quer ser e do que ele mira como o objetivo dele.

Conheci Maya Plisetskaya no evento de comemoração do Jubileu de 85 anos de Pablo Picasso no Palais Des Sports em Paris.
Ela, como todos já devem saber, era uma das maiores bailarinas russas de todos os tempos, se não a maior.
Já assisti inúmeras bailarinas no mundo. Nenhuma para mim era igual a ela.
As outras dançavam o Cisne. Ela ‘era’ o Cisne.
Seus movimentos faziam dela o Cisne! Ela parecia um pássaro batendo asas em câmera lenta! A russa era incrível! Eu me arrepiei, me emocionei, chorei, sorri – sou muito emotivo – e fique atônito com aquela música e aquela dança.
Veja, estou falando de um ‘popular’ clássico, que toda hora se ouve na rádio ou TV. Fazer um ato desses se destacar é muito difícil. Tem que apresentar algo muito acima do que já tinha sido feito, entende? Ela, a dança dela, a performance dela, a música, tudo casava divinamente! Tudo fazia sentido na apresentação! Não era mais dança, não era mais música, era ‘arte’! Foi um momento mágico, único, nunca mais vou esquecer! Que energia, que vibração na platéia!

Eu procuro ser isso para o meu público, compreende?

Ao término das apresentações, nos reunimos todos dali, e meio a conversas, perguntei a ela quantas horas se impunha de treinamento. Ela muito simpaticamente me respondeu: 

“O tempo todo. E existe outra forma de fazermos o que fazemos?”

Não poderia ser de outra forma. 
Só queria me certificar se o meu drama era o dela também. E era.

Darcy Villa Verde para de falar, olha para nós, pensa um pouco e diz:

“Já imaginaram um malabarista resolver treinar só duas horas por dia, porque já sabe dar mortal triplo há vinte anos? [risos]

Entrevistador: Finalize para nós.

“Não existe milagre. Se o cara toca bem, ele estuda muito. Se ele toca magistralmente, ele estuda o tempo todo. Aquele que diz o contrário, ou mente, ou não toca em nível profissional, ou não é violonista. [risos]
Ou então o sujeito realmente merece o título de ‘gênio’, e é exatamente por isso que não me considero um. [risos]

*** Na época desta entrevista, Darcy não sabia que desenvolveria uma neuropatia grave. Anos depois começou com os sintomas da síndrome do túnel do carpo, e que com o agravamentos das lesões por esforço repetitivo – LER, teria a sua habilidade comprometida e revogada definitivamente, forçando-se a se aposentar bem mais cedo do que pretendia. Esta a razão por ter afirmado que, como todo mundo, certamente chegaria o momento de ter que adequar o repertório com a chegada da idade. Não teve esta oportunidade. A doença avançou rápido e, antes mesmo de finalizar a década de 90, Villa Verde perdeu, por completo, a habilidade que o consagrara como um dos maiores violonistas de seu tempo. Sentia a música, mas com as mãos dormentes, não podia mais sentir as cordas, perdendo a capacidade de se expressar musicalmente como sempre o fez. Com o passar dos anos, a condição só piorou. As dores, dizia, eram excruciantes. Para gravar o CD em 2005, um registro endereçado a seu filho, precisou voltar a estudar por 5 anos, 8 horas por dia, à base de cortizona e morfina. Não sentia mais as cordas e nem podia mais tocar como antes, embora permanecesse o músico que sempre foi.

BRASIL

  

Rádio e Televisão

Darcy Villa Verde foi quem melhor soube usar os recursos da mídia no Brasil para o violão. Trabalhando seu marketing pessoal, com muita iniciativa, carisma, simpatia e disposição, comunicativo que era, procurava as rádios e televisões e vendia o seu produto adequando-o ao gosto popular.
E quando conseguia o espaço que almejava, sabia equilibrar o ‘clássico’ com o popular, o que era o seu grande objetivo. 

Seu reconhecimento, tanto por parte do público como das mídias, se deu com tamanha intensidade que chegou a ganhar ‘Especiais’ de apresentação em vários programas de televisão e rádio, pelo destaque que alcançou e pela qualidade e nível de aprovação que tinha por parte do público e da crítica quanto às suas interpretações; 

Eram recursos de mídia, utilizado apenas para grandes nomes nacionais e internacionais.
Um grande feito se considerarmos que era o início dos anos 60 e 70, que os programas tinham apelo popular, e que as apresentações desses seus ‘Especiais’ eram, em sua maioria, compostos de músicas clássicas.

A música popular era o chamariz, a música clássica, o destaque. A comunicação era a proximidade, sua apresentação era atração e entretenimento, e tudo junto virava um grande show. 

Para a época, a fórmula desenvolvida por Darcy Villa Verde, visando promover seus recitais, funcionou tão perfeitamente que chegou a disputar público com os maiores ícones da música popular brasileira.

Darcy Villa Verde iniciava seus recitais com músicas barrocas, clássicas, românticas, impressionistas e modernas, e terminava com algumas populares impactando o auditório com seu som cheio de efeitos percussivos e sucessões harmônicas que encantava os mais diferentes tipos de audiência. 

A depender da ocasião, quando oportuno, Darcy tinha por hábito ilustrar suas apresentações com comentários e histórias sobre as peças musicais do seu repertório.
Era comum em um programa de TV, dar exemplos de passagens de músicas clássicas que serviram de base e inspiraram cantos ou composições populares, inclusive da bossa-nova. A plateia gostava e as emissoras também porque tratava-se de um conteúdo cultural com um bom equilíbrio de informação e interação, e com um show musical de grande impacto ao final, trabalho este que começou a fazer na década de 60.
Tudo era conduzido com muita simpatia, leveza e descontração.
Seu temperamento, apesar de sério e forte, tinha um lado que se prestava muito bem a esse tipo de atuação. E isso é entretenimento de qualidade porque é educação com participação e aprovação do auditório. 

As televisões que nessa época não tinha por hábito chamar concertistas ou violonistas para tocar solo, – nem popular e muito menos clássico – chamavam-no com frequência e entregavam o bloco de tempo a ele.

Darcy planejava toda essa divulgação e exposição de sua marca, de uma forma muito bem calculada, buscando levantar público para os seus recitais e concertos.

Ele programava sua ‘tournée’ de tal maneira, que mais de um mês antes de cada importante apresentação, todos os jornais começavam a anunciar e dar destaque dos seus recitais quase que diariamente, principalmente os canais de rádio e TV.

Ele definia quem queria atingir como público, segmentava e lançava mão daquilo que impactaria o centro de interesse de cada um desses perfis. No fim, as salas de teatro estavam lotadas de gente ‘interessada’ em assisti-lo e decididas a não sairem da porta do teatro, caso não conseguissem entrar. 
Isso sinalizou a oportunidade de aumento no número de apresentações por teatro, dando abertura a temporadas que ele soube aproveitar, mudando o repertório.

Darcy fazia isso em todas as cidades que podia, principalmente no interior dos estados, adequando a iniciativa aos recursos de mídia existente ou disponível.

Em seu trabalho de divulgação cultural do violão e da música erudita, trabalho este extremamente exaustivo, embora o fizesse com muita dedicação e gosto, Darcy chegava a cobrir mais de 40 cidades por estado em cada temporada.
Considerando que a média de apresentações nessas cidades era, em parte, de dois ou três recitais, pode-se imaginar o esforço calculado que era empreendido por parte de Villa Verde e de seus empresários e secretários.

A chegada de Darcy em muitas dessas cidades era um acontecimento.
Os jornais noticiavam quando descobriam que ele estava para chegar na cidade, noticiavam quando ele chegava, faziam coletivas, entrevistas e matérias de capa ou de páginas, comunicavam as apresentações com notas diárias, e em todas as ocasiões o faziam com anúncios financiados pela própria mídia ou por patrocinadores que a equipe dele buscava.

Quando chegava nas cidades, Villa Verde planejava a agenda para conhecer os pontos mais importantes, para quando fosse dar as entrevistas poder falar com propriedade a respeito daquela cidade que muito o surpreendera e que o recebia com toda a cordialidade; visitava as rádios e as TVs para agradecer a mídia espontânea e ia, quando necessário, à prefeitura buscar autorização das autoridades competentes para a divulgação de suas apresentações através de cartazes e faixas a serem fixadas nas ruas principais, em zonas estratégicas e de maior tráfego.

Houve ocasiões em que ele percebia a dificuldade de acesso ao teatro e escolhia um ponto de venda de ingressos diferenciado, através de locais que eram os mais badalados, em troca de divulgar esses colaboradores na abertura de seus recitais. Uma iniciativa que funcionava muito bem. 
Cinemas, padarias, farmácias, postos de combustível, o que melhor estivesse posicionado.
Antes de entrar no palco, seu empresário ou equipe, anunciava os agradecimentos a todos esses patrocinadores e colaboradores. Aliás, não era incomum Villa Verde complementar os agradecimentos com um depoimento de como essas iniciativas eram de suma importância para a cultura.
Essa abordagem dele, dava mais razão de ser à iniciativa tomada junto aos patrocinadores – que citava nominalmente – no intuito de não não ficar uma coisa muito ‘forçada’. 

Darcy era um obstinado. Quando queria algo trabalhava até conseguir.
Nunca se incomodava de perguntar para aprender e muito menos de pedir o que queria.

Dessa forma conquistou seu espaço na mídia e nos maiores programas de televisão como Blota Jr, Flávio Cavalcanti, Jota Silvestre, Moacyr Franco, Ayrton Rodrigues, Silvio Santos, Fantástico e outros tantos. Todos eles, apresentadores líderes de audiência no ‘Ibope’ em seus respectivos programas; basta lembrar que o programa do Flavio Cavalcanti foi retirado do ar porque era reconhecido como o programa de maior ‘credibilidade’ da televisão brasileira e ultrapassava a liderança da Globo no ‘Ibope’.
Villa Verde, que era muito admirado e respeitado por eles todos, era sempre chamado para se apresentar em seus programas.
Sempre que era chamado ou que se oferecia a participar de algum programa, tinha muito material novo como pauta para oferecer.

Essa pauta, muitas vezes, era deixada por conta de Darcy Villa Verde que sempre surpreendia positivamente com abordagens voltadas ao entretenimento, à cultura e à conscientização social, como no caso de Jota Silvestre.
Mas haviam outros apresentadores que faziam verdadeiras reuniões de conteúdo com ele como no caso de Flávio Cavalcanti e Blota Júnior.
Conta um de seus filhos, que numa dessas reuniões ocorridas no prédio da TV Tupi na Urca, Flávio Cavalcanti estava numa espécie de estúdio com sua equipe de redação, em pé, olhando fixamente para Darcy Villa Verde, enquanto o ouvia dizer o que abordaria em sua apresentação.

Narra seu filho, que Flávio Cavalcanti orientou-o para que não amenizasse na crítica com relação a ausência de políticas públicas direcionadas à cultura e a total carência de infraestrutura social encontrados nas suas excursões pelo interior do Brasil. Que ele faria disso um gancho para disparar uma crítica direta ao governo, em nome daqueles sem voz e desfavorecidos. 
Seu filho complementa que, preocupado com o tempo de programa que isso iria tomar, Darcy informou que diminuiria o números de músicas, ao que Flávio reagiu:

” Não senhor! Não se preocupe com o tempo.  Você não é só um músico e artista aqui, você é um porta-voz de nossa cultura e será posicionado, ao vivo, pelo trabalho que vem fazendo. Isso é cultura, Villa-Verde, e é entretenimento de altíssima qualidade; muito importante para o Brasil e para este programa.
Não se preocupe com o tempo. Quantas músicas você quer tocar para sustentar o seu discurso e se promover, três, quatro? Pode tocar e explique o porque delas em um recital no sertão; do jeito que está acostumado a fazer.”

Então virou-se para a sua equipe e disse:

” Vocês entenderam o que está acontecendo? Temos um valor muito grande aqui; uma autoridade internacional como ele, num trabalho de divulgação cultural que ninguém se atreve a fazer, sendo obrigado a testemunhar um abandono social; uma total negligência com a vida do brasileiro. É disso que este programa é feito.”

Para Flávio Cavalcanti, Jota Silvestre, Blota Junior e tantos outros apresentadores de sua época, Darcy era uma das maiores expressões existentes da música clássica e popular no violão.
Foi Flavio Cavalcanti que, conhecedor do mundo artístico e musical, anunciava sempre em seu programa que considerava Darcy Villa Verde o ‘Monstro Sagrado do Violão’ parafraseando César Faria, – Pai de Paulinho da Viola – que o denominava um ‘Monstro’ no violão, desde que o viu tocar pela primeira vez na casa de Jacob do Bandolim.
Esta, a razão, por gostarem de de tê-lo em seus programas; viam suas apresentações como entretenimento cultural e de grande aceitação por parte do público. Avaliavam o seu carisma, empatia e poder de comunicação juntos às histórias que contava, como material de valor em termos de conteúdo.
Isso favoreceu, inclusive, a criação de alguns quadros especiais sobre ele nos programas de maior audiência.

Foram tantas as apresentações de Darcy Villa Verde nesses programas, que com a visibilidade que adquiriu nas emissoras TV Rio, TV Tupi, TV Gaúcha, TVRecord, TV Globo, e outras, tornou-se uma das personalidades da música mais reconhecidas e convidadas para apresentações em salas, teatros e TVs, no que diz respeito a violão e música clássica.

Importante lembrar que programas como os que Darcy Villa Verde se apresentava, além de passarem nos canais oficiais, eram transmitidos a outras 15 a 20 emissoras de TV, e centenas de estações de rádio. A cobertura era praticamente de todo o território nacional.

Não era raro os concertos de Darcy Villa Verde superavam em público os shows de algumas das grandes expressões da música popular brasileira, em sua época.

Como já dito, e reforçamos pela grandiosidade do feito, certas emissoras de TV decidiram por inserir em seus programas de maior audiência, “Especiais” de 20 a mais de 30 minutos sobre Darcy Villa Verde.
Eles aconteciam em cenários montados especialmente para ele, e era conduzido pelos apresentadores principais desses programas e canais.
Iniciava sendo apresentado, tocando de três a quatro músicas eruditas, o que não era pouco para um programa de música clássica em auditório, depois seguia com uma entrevista na qual exemplificava segredos e histórias de sua arte e de seu instrumento, sempre demonstrando com peças musicais os melhores exemplos, e finalizava com mais duas ou três músicas populares.

Sua seriedade e ‘expertise’ musical o lançou de forma prevista à mídia nacional e internacional, que por sua vez passou a convocá-lo para eventos de música ao redor do mundo, como o do Festival de San Remo e o de Montreaux, e até em festivais de música ‘flamenca’ em que gostava de participar na Espanha.

Importante salientar que Darcy era extremamente respeitado pela sua habilidade de improviso na guitarra flamenca. Um espírito cigano, com um toque técnico ‘limpo’ e extremamente rápido e ‘sonoro’ que agradava muito os guitarristas locais e que, inclusive, chegou a impressionar na França o famoso guitarrista flamenco Ricardo Balliardo, mais conhecido como ‘Manitas De Plata’, quando este o assistiu se apresentar em Nice. 
Após a apresentação de Darcy, Balliardo o procurou e o convidou para que o assistisse no dia seguinte, onde se apresentaria à beira-mar num grande evento, também em Nice.
Ao final da apresentação, Manitas chamou Darcy para tocar um improviso juntos. 

Foi Manitas de Plata quem incentivou Darcy a colocar peças flamenca em seu repertório e a não deixar de fazer uma incursão de agenda aberta no sul da Espanha. 
Realmente, fez grandes amigos nos meses que permaneceu por lá e que aprendeu, como dizia, muitos “macetes”. 

Talvez esse espírito de Villa Verde se deva à descendência e às reminicências familiares das antigas regiões de Valladolid, no noroeste da península Ibérica, de onde seus antepassados emigraram para o Brasil.
Mantinha, inclusive, em seu repertório algumas danças e cantos populares flamenco e mouro. Um deles, chamado ‘Ayres Famenco’ que elaborou posteriormente com um arranjo seu, contagiava o público do primeiro ao último rasgueado.

Seu repertório nesse estilo de música era vastíssimo, mas reservado a momentos muito próprios. Era comum, quando estava no Brasil, se reunir com amigos violonistas e apreciadores de violão na casa de um amigo, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, para encontros memoráveis de música.
Uma casa enorme de três andares, construída num declive de um morro que dava vista a toda a cidade do Rio de Janeiro, e que à noite no andar inferior, todo forrado de madeira e colunas de pedras, cercado por vidros de blindex, se tornava palco de seus elaborados arranjos que eram acompanhados por guitarristas flamenco e dançarinas da casa de Espanha, que sempre eram convidados para saraus musicais que se estendiam noite à dentro.

Já conhecido nacional e internacionalmente a partir da década de 70, Darcy Villa Verde começou a fazer parte de diversos júris em concursos de música no Brasil como já vinha acontecendo no exterior.

O fato é que Darcy Villa Verde, como muitos de seu tempo, precisou sair do Brasil para construir e consolidar carreira profissional, sendo muito valorizado e se remunerando devidamente.
Quando retornou, reconhecido pelos maiores nomes de sua época, o Brasil abriu-lhe definitivamente as portas e ganhou com o seu talento, compromisso e devoção, um grande representante do violão clássico internacional que trabalhou à serviço da nossa cultura e da divulgação do violão de concerto no Brasil.

No exterior, as grandes agências que empresariavam Darcy Villa Verde cuidavam da divulgação de seus concertos, dos programas, dos convites e dos recursos necessários às apresentações, o que era uma verdadeira escola para ele que, como já dito, gostava de acompanhar tudo e aprender. 

No Brasil, porém, a situação era diferente.

Seu trabalho de divulgação da música erudita – classica –  em associação com as secretarias da cultura em diversas cidades, exigia dele um plano de atuação mais estratégico, tático e pontual na divulgação de seus recitais, se pretendesse se tornar mais conhecido e se remunerar melhor.
As cidades no interior dos estados, cidades menores, com rádios de alcance local e canais televisivos com atuações mais restritas, demandava, a depender da estrutura de comunicação disponível do lugar, uma logística praticamente customizada. E evidentemente, Darcy não cuidava disso sozinho.

De todos os empresários que agenciaram e secretariaram Darcy Villa Verde no Brasil, poucos conseguiram entendê-lo e se adequar às suas ideias e visão.

Darcy Villa Verde desembarcando no  Brasil e sendo recepcionado pela mídia e por um de seus empresários que o aguardavam para uma coletiva. 

 

MÍDIA E DIVULGAÇÃO

Darcy tinha claro para ele, que não podia prescindir de um planejamento de marketing, de uma excelente comunicação e divulgação, e de um excelente suporte de vendas. Todo um trabalho estrutural que feito profissionalmente da forma certa e com as pessoas certas, atingisse o público através de um alcance e frequência de mídia adequado. Acreditava que isso era fator essencial.

Quando planejavam e confirmavam as datas e os locais de uma tournée, sua equipe chegava com semanas de antecedência em cada uma das cidades e iniciavam um intenso trabalho de visitar todas as redações das rádios, jornais e TVs locais solicitando ajuda na divulgação das apresentações dos recitais que tinham por meta a difusão da cultura musical e do violão como instrumento de concerto.

Em cada redação, deixavam um Kit com ‘press release’, fotos grandes e de boa qualidade, além de vasto material bibliográfico.

Quando não podiam chegar com antecedência, postavam nos correios para as diversas redações de cada cidade todo esse material, acompanhado de uma carta de apresentação. 
Esta iniciativa, junto à imprensa, ajudava a estimular reportagens, coletivas, entrevistas e matérias sobre o músico e o perfil inusitado dos seus concertos.
Se o retorno na mídia fosse abaixo da expectativa, ao chegarem nas cidades a equipe agendava imediatamente visitas em todos esses meios.

Dessa mesma forma, conseguiam autorização da prefeitura para pendurar as faixas e colar os cartazes que enviavam ou mandavam produzir.

Como já dito, em muitas cidades a presença de Darcy Villa Verde terminava virando um acontecimento. Sua apresentação pessoal, simplicidade e simpatia, atraía o público que, do prefeito ao cidadão comum, todos apreciadores da boa música, tornava-se cativo de seus recitais.

Por tudo que já vimos, vamos lembrar que Darcy era um produto de altíssima qualidade e que entregava o que prometia acima das expectativas, e que entendendo a importância de saber se vender, sempre o fez muito bem.

Ressaltamos, mais uma vez, que nenhuma dessas matérias eram pagas. Todas gratuitas e espontâneas. O que reforça ainda mais a qualidade do trabalho feito pela sua equipe e que sempre contava com os agradecimentos de Darcy e de seu empresário, diante do público que costumava lotar todas as temporadas. 

Não foram raros os casos em que o teatro ampliava a agenda, disponibilizando mais dias de apresentações a Darcy Villa Verde, no intuito de atender a demanda do público.
Isso, muitas vezes para não complicar a tournée por conta de toda uma agenda já firmada em outras cidades, diminuía o seu tempo de descanso.

Cada apresentação exigia muito, física e emocionalmente, de Darcy Villa Verde.
Acostumado a passar o dia estudando e com uma agenda cheia, tinha pouco tempo para descansar.
Suas ‘tournées‘ dirigidas à divulgação de músicas clássicas pelo Brasil, de tão intensas que chegavam a ser em quantidade de apresentações, chegaram, em poucos anos, a ultrapassar os milhares.

As matérias dos jornais, aqui disponibilizadas no site, exemplificarão alguns desses casos.

A propósito, chamamos a atenção de que o intuito de expor as matérias e reportagens de Darcy neste site, cumpre três finalidades que caracterizam bem o perfil do trabalho desse músico e artista:

• Primeiro, mostrar a quantidade de mídia expontânea que era conseguida em uma única apresentação, o que levava os concertos a se tornarem um acontecimento na cidade e nos municípios próximos.
Casos houveram, que juntando as coletivas, as reportagens, as matérias, as notas de jornal, de revistas, os anúncios e as chamadas nas rádios e TVs, ultrapassa-se o número de 10 exposições na mídia, por uma temporada de três dias em um único teatro. 
Toda essa divulgação feita, também ajudava a reunir público nas cidades e municípios próximos.

• Segundo, demonstrar que muitas dessas reportagens refletiam o impacto emocional que as apresentações causavam na mídia e no público. A maioria delas, abordagens bem distintas do que se vê usualmente a respeito de um concertista. Tudo isso aumentava, ainda mais, a curiosidade do público em procurar assisti-lo.

• Terceiro, para demonstrar que Darcy alcançou uma notoriedade no Brasil como músico e divulgador do violão clássico, sem precedentes.
Isso foi fundamental no preparo do terreno de todo o país para aqueles que viriam depois dele, buscando trilhar o mesmo caminho.
Somam-se milhares de reportagens do que se conseguiu reunir até o momento. Parou-se de contar quando ultrapassou o número de 4000 – quatro mil.

Tamanho trabalho de divulgação cumpria diferentes propósitos nas cidades em que se apresentava em todo o país:

. Desmistificação e divulgação da música clássica por todo o Brasil;

. Apresentar o violão como instrumento de concerto, ou seja, de música clássica e erudita, o que era inimaginável para a maioria das pessoas naquela época; 

. Disseminar a ideia de concerto de violão como programa cultural e de entretenimento, por meio de recitais que unissem o repertório clássico ao popular, o que na época, para a maioria era totalmente novo e inusitado;

. Sedimentar a marca ‘Darcy Villa Verde’ como referência em violão clássico e também popular erudito, preparando o público para ‘reagir’ positivamente ao aviso de suas futuras apresentações;

. Fazer bilheteria.

. Abrir espaços para novos violonista que aquecendo o público com seus recitais, alimentavam a cultura do violão erudito como arte, e como produto de entretenimento.

Como podemos perceber, um trabalho de ampla cobertura e frequência que ajudou a consolidar o violão e Darcy Villa Verde de forma pioneira no Brasil.

Muitas das vezes, a pouca estrutura de mídia da cidade, exigia o trabalho de sair para colar muitos cartazes na rua e nos pontos de maior concentração de pessoas, visando atraí-las aos teatros, salas de concertos e auditórios.

Este trabalho, comumente feito por equipes contratadas terminou sendo conduzido, muitas das vezes, pela próprias equipe – empresários e secretários – em função da falta de discernimento desses grupos terceirizados em perceber os melhores pontos de tráfego e concentração de pessoas, ou em função da pouca estrutura disponível nas cidades para realizá-lo.

Darcy, esporadicamente, gostava de acompanhar o trabalho de sua equipe. Trabalho este, que muitas vezes  se tornava bem exaustivo, dependendo da cidade.

Vale narrar uma dessas ocasiões, para se ter uma ideia das dificuldades que esse tipo de tarefa oferecia:

Cumprindo a agenda do ano, Darcy e seus empresários foram para Santa Catarina numa  tournée.
Darcy ia se apresentar no Teatro Carlos Gomes na cidade de Blumenau que tinha como diretor do teatro, à época, o poeta Lindolf Bell.
O fato é que no ano em questão, o centro da cidade e alguns bairros ficaram completamente debaixo d’água e ilhados em função das cheias anuais já tão conhecidas dos blumenauenses, naquele período do ano.

O Hotel em que Darcy ficou hospedado com sua equipe ficava situada numa região baixa da cidade.

Chovia intensamente o dia todo.

Quando chegou de madrugada, na hora costumeira de sair para colar os cartazes e pendurarem as faixas que sempre levavam com eles, tiveram que sair de bote pela janela do primeiro andar do hotel, pois a água tinha subido mais de quatro metros.

E assim, chegando nos postes, de pé dentro do bote, colavam os cartazes e saíam remando para outro local. Tudo isso, uma semana antes dos concertos.

O que se deu é que dois dias depois, as águas desceram completamente e os cartazes ficaram colados a uns seis metros de altura.
O ocorrido, que chamou a atenção da população, gerou risos e mídia espontânea nos jornais, o que ajudou ainda mais na divulgação dos recitais.

No fim, o que impressionava era o respeito e admiração do público brasileiro com relação ao trabalho de Darcy Villa Verde no palco. Apesar de ser um músico internacional, de ser uma celebridade e ‘habitué’ das rodas sociais e culturais mais prestigiadas, Darcy sempre se fez acessível a todo mundo. Era simples, amigável, divertido e conquistava de forma natural o respeito e a seriedade de seu público na hora de apresentar o seu trabalho.

Toda a platéia em absoluto silêncio, ouvindo, aprendendo e se entretendo de uma maneira totalmente diferente do que estavam acostumados. E esse era o motivo de tudo.

EUA, anos 80. Entrevista, Roosevelt Hotel, New York. 

Entrevistador: Maestro, duas perguntas finais.
Sua vida foi muito notada pela genialidade no violão e na música, e pela notoriedade que alcançou. Afinal não é qualquer um que consegue se destacar em uma industria como a da música, ainda mais no violão clássico e de forma independente. São muito poucos na verdade, como a realidade tem demonstrado.
O senhor se incomodaria de falar um pouco sobre as dificuldades enfrentadas?

A outra questão é que o senhor há tempos atrás, aqui mesmo no EUA, deu a este jornal uma entrevista dizendo que era muito consciente com relação ao seu tamanho como músico e intérprete, e que encerraria sua carreira quando “estivesse no topo”, segundo suas próprias palavras “Que sua consciência musical e ‘vaidade’ o impediriam de envelhecer e comprometer o que vem construindo”.
O senhor mudaria de opinião quanto a isso, tendo em vista que inúmeros músicos chegam na maturidade, oferecendo sempre algo novo em termos de música? 

“Quantas páginas esta entrevista vai ter? [risos]

As respostas a essas duas perguntas estão meio que relacionadas. 

Há anos atrás eu era um jovem desbravador que se guiava pelos ideais e sonhos.
Hoje, posso dizer que, pela força das circunstâncias, me encontro mais centrado no impacto da minha atual realidade. 

Quero dizer, com isso, que o Darcy Villa Verde que vocês conhecem, não existe mais, ele já parou.
Me refiro ao músico concertista profissional de alta performance. 
Dizer isso, ainda na casa dos 50 anos é bem desanimador. 
Minha vida é música e violão.
Pensei que alcançaria, pelo menos, mais uns 15 anos.

No início dos anos 80 comecei a sentir uma fortes dores na mão direita que se estendeu para o cotovelo e depois para o ombro.
Os neurologistas diagnosticaram uma neuropatia severa, um comprometimento nas articulações e nos nervos; em parte, pela alta carga de horas de estudo aos quais me submeti, e em parte por uma herança genética – que ironia. (Família de violonistas). 

Desde então, comecei a perder a sensibilidade dos dedos indicador e médio e, posteriormente, a do polegar. 
Não disse isso a ninguém, mas com o passar dos anos, e foi rápido, momento chegou que passei a tocar mais com a memória muscular guiado apenas pelo retorno do som das cordas do meu violão.

Fiz um recital final na Sala Cecília Meireles há pouco tempo, e decidi dar por encerrada esta etapa da minha vida.

O que eu não queria era ficar com quase noventa anos insistindo em fazer apresentações, sem condições de tocar bem, só para manter uma imagem. Isso é decrepitude emocional. Não preciso disso, graças a Deus, e nem quero.
Mas não cheguei a correr esse risco porque, infelizmente, esse processo de lesão dos nervos interrompeu os meus recitais.

Quando comuniquei isso à mídia no Brasil, aos meus empresários e aos teatros, eles me criticaram intensamente dizendo que isso era um absurdo.
“Que minha vaidade desmedida não podia privar a arte e o mundo do meu trabalho.”
Não entendiam que eu estava sendo impedido de sentir o instrumento e que isso comprometia minha destreza, afetando minha técnica e comprometendo minhas interpretações. 
Respondi a eles, e repito a vocês aqui, que fui obrigado a ter que interromper a minha carreira, sem o desfecho que estava programando.
Um verdadeiro teste de humildade, se querem saber. Esta é a realidade.

Antes que me perguntem, isso não significa que vou parar de tocar definitivamente. Mas significa que não posso ser mais quem já fui. 

Se pensar bem, comecei mais tarde e acabei mais cedo.
Foram 25 anos de alta performance no erudito, de aprendizados, e agora que estou amadurecido e que, inclusive, 
vinha me preparando para transformar a minha forma de tocar, por me encontrar mais ‘senior’ musicalmente, perdi a capacidade de sentir as cordas.
A dor no cotovelo e no ombro até consigo suportar com as medicações fortes que tomo, mas a ausência de sensibilidade infelizmente é um curto-circuito na minha execução.

Agora, entendam que toda esta questão está diretamente relacionada de forma visceral com a profunda intensidade de dificuldades, sofrimento e dores emocionais e psicológicas, e até físicas às quais fui submetido diante da vida.
E também por toda uma inusitada
sequência de violências que se desencadearam ao longo de minha jornada de vida. 
As perdas de meus familiares e amigos, desastres, mortes, tragédias, crimes, tiros, facadas, agressões, brigas, tudo isso foram circunstâncias adversas e superadas até chegar onde cheguei.  
Tudo bem, que o meu temperamento, quando mais novo, avesso a não aceitar desaforo e mais nenhum tipo de agressão e desrespeito por parte de ninguém, não contribuiu muito para que as coisas se tranquilizassem, admito. Mas tudo é um aprendizado. 

A questão, é que todo esse sofrimento é o combustível propulsor que exige, uma perfeita condição física e técnica para lançar as interpretações em níveis de vibração intelectual, mental e emocional que caracterizam o meu trabalho. 
Esta doença que trago, compromete a mecânica da parte dinâmica da execução. Ela impede, pela falta de sensibilidade na mão, que eu modele a interpretação de uma peça musical de acordo com a intensidade de toda essa dor e sentimento que transborda na hora que eu toco.
Para interpretações assim, eu preciso de uma condição física e técnica ilibada de qualquer espécie de ressentimento psicomotor; cada timbre e modulação tonal responde diretamente a variações muito delicadas que minha atual condição impede de alcançar com a precisão necessária.

Hoje, com a consciência tranquila e lúcido com relação a quem fui profissionalmente, do que consegui alcançar como concertista e intérprete, posso encerrar este capítulo da minha vida feliz e realizado como homem, como músico e como artista.

Pode-se dizer que esta é a maior dificuldade enfrentada.
Porque com certeza, como nunca gravei, com o passar do tempo permanecerei lembrado pelo o que não consigo mais fazer, e não pelo que já fiz.

[Pensa um pouco]

Com relação a construção da minha carreira até à minha ascensão profissional, precisei superar muitas dificuldades e enfrentar uma quantidade muito grande de problemas e adversidades para me tornar o que me tornei.

No início de minha carreira no exterior, passei solidão, traição, agressão, desilusão, tristeza, fome, necessidades e tudo o que se possa imaginar. Considere que passar por isso com o meu histórico de perdas e tragédias pessoais, tornou tudo muito mais intenso do que o esperado; não foi nada fácil.
Nessas horas lembrava do meu pai diante de mim, no leito de morte, dizendo para nunca desistir.
Não fossem os amigos, não sei como teria feito. 

Dificuldades naturais, que decorrem da própria condição que cada um tem que enfrentar diante das próprias limitações que ainda traz, isso é normal. Você trabalha, estuda sem parar por horas, dias, meses, anos, no intuito de alcançar o que lhe falta em habilidade e experiência e alcança. Isso faz parte do crescimento de qualquer um. 

Agora, dificuldades diante daqueles que buscam atrasar quem toca a vida com garra, determinação e vontade; com iniciativa, disciplina e empenho, dificultando as suas conquistas, criando empecilhos, espalhando mentiras, sujando o seu nome, desmerecendo suas realizações e ressaltando apenas os defeitos ou limitações que você luta para superar e até supera algumas vezes, isso, são coisas da vida, que eu respondo é com música.

Cansei de ver pessoas que agiam assim e quando eu ia tocar, estavam lá sentados na primeira fila, você acredita? [risos] 
Eu achava uma graça.
Nessa hora é que eu respondia.
Dava uma afinada, uma piscadinha pra eles, e metia a mão na viola. [risos] 
A vida seria muito mais simples se o ser humano não se fizesse tão pequeno e tão embaraçado nas suas atitudes.
Mas isso faz parte do mundo.

Para cada 2 portas que se abriam, 40 se fechavam. Mas eu não desisti, não desisto nunca, e não permito que a opinião de ninguém defina o que eu vou ou não ser, aceitar ou fazer. 
Sou o senhor dos meus atos. Me tornei quem me tornei porque fui além, superei, inovei, improvisei, desafiei e fiz mais.

Esta é minha opinião de mim mesmo.
Quem discordar que discorde, tem o direito. Mas não me importo e nunca me importei com a crítica que se presta a desmerecer o trabalho de ninguém. Ainda mais vindo de alguém que não consegue conversar musical e nem instrumentalmente no mesmo nível em que eu converso.

Discorda? Então pega o violão e mostra pra mim.

Finalizando a questão, as maiores dificuldades para mim são as de foro íntimo, sem dúvida.

E diante delas, só nos resta enfrentar e lutar.

Entrevistador: Maestro, agradeço o seu tempo e peço desculpa pela delicadeza da pergunta, fazendo-o recordar de passagens tão caras e delicadas. Não fazia ideia de que o assunto lhe era sensível. Nossos sentimentos à sua dor. O senhor pretende se apresentar por agora, e se pretende, podemos ter acesso?

“Se desculpar pelo quê? Você não sabia e perguntou. Suas perguntas foram muito boas. 

Estou aqui porque fui contratado por um amigo pra tocar na casa de um músico daqui de Manhattan, em uns dias, um pianista. Algo informal, mas com muita gente importante do mundo da arte e da música.

Quer saber?! Podem vir todos vocês! [risos]

A casa não é minha mas tá todo mundo convidado! Boca livre, muito camarão, música e champagne pra todo mundo! Meu amigo é cheio da nota! [risos]”

Dias depois, a entrevista é veiculada, e encerrando a matéria, um pequeno desfecho bastante singular por parte do repórter que o entrevistou e da editora que assinou:

“…realmente, o senhor Darcy Villa Verde cumpriu com a palavra e fomos todos convidados à reunião que se deu em belíssima casa, cheia de personalidades do mundo da música e da arte, na qual o violonista em questão, apesar de toda a dificuldade narrada por ele, se apresentou por ‘mais de uma hora’. 

Caro leitor, podemos afirmar de forma convicta, dentro do conhecimento que temos, que diante do que testemunhamos, “a vaidade desmedida deste grande músico irá privar a arte e o mundo de seu inigualável talento.”
Apresentação irretocável no clássico e no popular.”

Quando Darcy Villa Verde estava em uma tournée no Nordeste, foi procurado em Fortaleza, após um recital no Teatro José de Alencar, por Aleardo Freitas, um grande admirador e amigo.
Aleardo ligou pedindo a ele que fizesse uma audição para um amigo violonista.
Darcy que vivia sendo procurado por diversos violonistas para uma oportunidade, estava em período de estudo e resolveu não receber ninguém naquele momento.

No dia seguinte, Aleardo foi ao hotel e insistiu por uma oportunidade a esse amigo.
Darcy, que não queria quebrar sua rotina de estudo se sentiu desconfortável e pressionado, e quando pensou em negar definitivamente, repensou, virou-se para o amigo e disse:

“Aleardo, voce me conhece. Sabe que se ele for fraco, eu vou dizer. Eu não engano as pessoas.”

Aleardo Freitas, disse que não tinha problemas e que assumiria a responsabilidade, e o violonista assumiria o risco de ouvir o que ele tivesse para falar.

Dia e hora marcado chega o jovem violonista junto a Aleardo; uns vinte e três anos, simpático, muito tímido, um tanto sem jeito, com o seu violão.

Darcy Villa Verde, interrompe seus estudos, os convida a entrar na suíte do hotel em que estava hospedado e já vai explicando:

“Presta atenção rapaz. Estou em ritmo de estudo, tenho apresentações mais à frente, pouco tempo, e será como eu expliquei ao nosso amigo: Se eu achar fraco, vou dizer e encerramos a audição, ok?”

Ele respondeu afirmativamente, sentou-se a convite de Darcy, pegou o violão, e Darcy perguntou o que ele ia tocar.
O rapaz, um tanto contido, respondeu que iria tocar algumas composições populares e regionais não muito conhecidas. Darcy ficou olhando, suspirou, achou melhor não dizer nada, sentou e pediu para ele começar.

O rapaz começou. Tocou a primeira, tocou a segunda, na terceira Darcy interrompeu e perguntou: “Espere um momento, me desculpe, mas de quem são essas músicas?!
– São minhas” respondeu o rapaz.
– Suas?! São suas?! Como suas?!
– São minhas, seu Villa Verde.
– Não é possível.
– Mas são minhas, de minha composição, insistiu o rapaz.
– Então você é um gênio, camarada!! comentou abismado, olhando pro Aleardo Freitas que sorria.

Darcy estava impressionado. Não era um concertista. Era um músico, um compositor de um talento extraordinário aos olhos de Darcy que se comoveu com cada peça de uma tal forma que, empolgado pelo o que vira, deixou ele tocar por mais de uma hora.

Pouco tempo depois, após ter refletido sobre o que testemunhara, ainda bastante impactado, fez um convite lotérico para o jovem:

Daquele momento em diante, se ele concordasse, iria conduzi-lo.
Mudaria o nome dele para ‘Nonato Luiz’, e o convidaria, para seguir com ele, do Ceará até o Sul do Brasil na tournée que vinha fazendo pelo país.
Cederia uma parte de seu recital deixando-o se apresentar com as músicas que o encantara.

O jovem Nonato não entendeu nada. De uma hora para outra, um novo momento de vida, e com a tutoria de alguém que ele admirava e respeitava muito.

Foi preciso que Darcy Villa Verde fosse conversar com o pai do Nonato, o Sr. Pedro Luiz, para pedir autorização de levá-lo na tournée. Uma família muito tradicional.

E assim, depois de sua apresentação no Teatro José de Alencar, Darcy Villa Verde e, agora, Nonato Luiz, partiram dando sequência a apresentações em diversas cidades e capitais do Nordeste até a região Sul, juntos ao empresário, que a tudo acompanhou.

Quando questionado porque fez isso, Darcy Villa Verde respondeu:

“Inicialmente foi um sentimento de querer compartilhar aquela experiência com o mundo da música, com todos que gosto. Além do mais, o mundo não poderia ficar privado de conhecer um talento como o de Nonato. Seria injusto para com o público e para com ele.

Podia acontecer de outra forma? Como saber?! Quantos talentos escondidos nesse Brasil sem uma oportunidade? E se eu estava ali e podia ajudá-lo, por que não?

Quando vejo algo bom, quero poder mostrar pro mundo, quero que todos sintam o que senti.

Nonato Luiz seguiu viajando com Darcy. Chegando no Rio de Janeiro, foi acolhido pela família de Villa Verde.
Logo depois, Darcy o convidou a tocar em um recital seu, que estava agendado para aquele ano na sala Cecília Meireles.
Fez isso buscando impulsioná-lo ao seu merecido destino. Uma iniciativa de Darcy que se repetiu por algumas vezes, inclusive, na própria Sala Cecília Meireles, numa segunda apresentação, em novembro de 1978.

Darcy o apresentou à sua rede de contatos pessoais, convidou-o a saraus de grandes músicos, acompanhou-o em concursos de violão e se manteve próximo até ele ganhar a projeção que lhe era de direito, o que não demorou.

Nas palavras de Darcy Villa Verde, Nonato Luiz é um “clássico brasileiro”. Um raro talento em termos de composição, que toca violão com habilidade singular e que vinha ganhando desenvoltura conforme apresentava suas músicas de qualidade erudita.

Disse a Nonato, inclusive, que ele faria sucesso, mas que, mesmo assim, demoraria a ser reconhecido pela qualidade de sua obra.
Complementou dizendo que a qualidade desta era tão diferenciada que não se preocupasse. E inseriu algumas delas em seu repertório, peças que considerava obras de muita maturidade musical como Mosaico, Choro Acadêmico, Baião Cigano, Mouro Blues e Micheline.

“Pensar a música de Nonato Luiz é sentir o futuro musical do Brasil na própria alma. Sua música oferece vasto terreno para universos sonoros e interpretativos indimensionáveis. Bom eu ser quem sou e poder tocar a música dele como a sinto.
Tenho por ele profunda admiração.
Sua musicalidade me toca muito, me emociona.
Deixará um grande legado e, no tempo certo, será devidamente muito estudado.”

E toda oportunidade que tinha, Darcy Villa Verde falava de quem o tinha encantado com uma música de qualidade tão rara que o marcara para sempre.

Darcy Villa Verde e Nonato Luiz aquecendo as mãos antes de entrarem no palco.

Darcy Villa Verde visitando as redações dos jornais, assim como fazia com as emissoras de televisão e rádio de todo o país, para pedir ajuda na divulgação de seus recitais e concertos. Intenso e extenso trabalho de desenvolvimento cultural ao qual se devotou em nome do violão clássico no Brasil. 

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