A dura realidade social e cultural, o público e a música.

Com toda as suas tournées pelo Brasil, Darcy Villa Verde pôde observar de perto a triste realidade, os contrastes e as disparidades sociais que em seu tempo imperavam por quase todo o nosso país.
Suas viagens pelo interior dos estados, divulgando a música clássica e o violão como instrumento erudito, chegavam a pequenos municípios que muitas vezes invadiam o sertão, até pequenos vilarejos.
Todo este contraste, levando em conta os grandes e suntuosos teatros em que se apresentou, deram a Darcy Villa Verde uma rica experiência de trato com o público e uma radiografia social bem acurada do Brasil, desde o início da década de 60.
Ficou muito claro para ele a realidade que existia às margens e às sombras da sociedade.

Admirado e profundamente impactado por testemunhar tanta miséria e abandono social com a grande parte da população brasileira, aproveitava as suas apresentações para declarar de público, muitas vezes na presença de governadores, prefeitos e autoridades que vinham assisti-lo nos teatros, a sua inconformação com o tamanho descaso, abandono e falta de respeito.
Solicitava aos orgãos competentes e responsáveis, sempre que podia, providências que priorizassem a população e a dignidade humana, acima de tudo.

Educação e cultura eram para Darcy Villa Verde, até os seus últimos dias, fator essencial e fundamental a ser considerado e priorizado em qualquer sociedade, mas quando verificava que o seu país falhava como ‘estado’, no cumprimento de suas obrigações e deveres com a população, desprovendo-a de recursos por meio de iniciativas deliberados e injustificados de abandono e indignidade, se posicionava veementemente.

Tais comentários, feitos publicamente por Darcy Villa Verde de forma bastante objetiva e firme, e lançadas de forma direta aos responsáveis, muitas vezes não geraram represálias imediatas pelo fato dele ser visto como artista e, por conta disso, convenientemente excêntrico, pelas declarações que dava.
Mas circunstâncias houveram, que terminaram por lhe fechar muitas portas.

A mídia que, à época,  adorava declarações polêmicas que pressionam políticos e instituições, e que conflitam os interesses de uma minoria privilegiada, dava destaque à algumas dessas declarações. Daí, surgiam matérias enormes, e isso acentuava, ainda mais, o ressentimento de algumas dessas autoridades que partiam para retaliações que lhe eram dirigidas de maneira velada, mas bastante prejudicial.

Ele absorvia os golpes, mas mantinha posição.
O que presenciava, viajando por todo o interior do Brasil, não podia permanecer apagado. 

Quando questionado em um programa de TV sobre o assunto, comentou:.

… Mesmo sabendo que a gritante diferença de distribuição de renda está relacionada, em parte, a grandes competências e ao esforço de cada um, o pouco caso dos políticos e dos orgãos públicos com os setores da educação, da saúde, do transporte, da assistência social, do planejamento, dos direitos humanos e da cultura, e a corrupção patológica que cresce exponencialmente desde o início de nossa história, levou o Brasil a se tornar uma vitrine dos maiores horrores, abusos e desequilíbrios sociais.

É muito educativo esse meu trabalho.
Um dia estou me apresentando para ministros, principado e toda uma elite cultural e social dentro de um palácio; no outro dia, estou numa casa de pau a pique ou no sertão nordestino me apresentando ao relento, meio a miséria absoluta.
De alguma forma somos responsáveis pelo problema, então de alguma forma devemos ser parte da solução.

Atuar na divulgação da cultura através da minha arte, da música, é o que está ao meu alcance fazer neste momento. Isso para mim é um privilégio. Mas diante de cenários como esses tão carentes, confesso que quando dou meu último acorde nesses vilarejos e municípios, sinto que fiz muito pouco.

Podemos cada um continuar fazendo o que faz; podemos cada um fazer o que é pago pra fazer, mas penso que seria melhor todos nos reunirmos e buscar ajustar iniciativas sociais que acabem definitivamente com esses problemas já tão conhecidos de todos, ao invés de ficarmos correndo para apagar focos de incêndio que sempre imprimem na consciência da sociedade a nossa total falta de preparo, de competência, de respeito e de iniciativas de políticas públicas que amparem os desprestigiados. 

Essas comunidades são tão carentes de recursos e tão destituídas de consciência quanto aos seus direitos, que elas nem sabem como reclamar e a quem reclamar. 
Cabe a nós cobrarmos os responsáveis e investir numa busca definitiva de iniciativas que melhorem essa realidade, não com promessas, mas com soluções exequíveis, legítimas.

Realmente a miséria social e cultural é uma página triste da história de nosso país. Principalmente por expor a realidade daqueles que foram eleitos para fazer a diferença, mas que escolhem, muitas vezes, permanecer calados e não fazer nada.
Decidem por cuidar de si mesmo com os recursos públicos para permanecer onde estão como se fossem eternos, ou como se a vida, de alguma forma, não fosse exigir retorno disso.”

– Transcrição de uma declaração de Darcy Villa Verde em uma de suas aparições no programa do Flávio Cavalcanti, e que teve parte de seu texto transcrito e veiculado no Jornal do Commércio.

 

PÚBLICO

Darcy Villa Verde sempre foi muito grato ao público brasileiro.
Em toda a oportunidade que tinha, aproveitava para agradecer e ajudar a plateia a aproveitar melhor os seus recitais e concertos.

Tocou em centenas de cidades de quase todos os estados do país e teve a oportunidade de conhecer de perto como o nosso público é diversificado e o nosso leque sociocultural, incomensurável.
Conhecer uma tão grande variedade de públicos, teatros e salas de concerto, contribuiu para que ele redimensionasse a noção de realidade social e também reelaborasse conceitos que tinha sobre a música e a arte no Brasil. 

Em suas incursões, verificou que a arte e a sensibilidade do povo brasileiro é tão rica e presente que a encontrou gravada em todos os lugares; nos estucos das igrejas centenárias, nas pedras e mármores das antigas construções, nas imagens de barro seco do sertão, nas talhas silenciosas da madeira nortista, nas rendas coloridas das toalhas nordestinas, nas telas improvisadas dos ateliês, na cultura ribeirinha, nos poemas cantados do nosso folclore, no ritmo alegre dos xotes, frevos e maracatus, e, acima de tudo, na alma deste povo tão criativo e sensível. 
Este o motivo pelo qual decidiu contribuir gravando no espírito de cada um a sua 
música e a sua arte.

Nessa relação ‘público-músico’ se manteve por toda a vida, pois dependia artisticamente da autenticidade dessa relação para realizar o seu trabalho.

Numa ocasião, quando questionado se todo esse esforço de viajar o Brasil de carro compensava, enfrentando tantas intempéries e adversidades, superando as dificuldades e as condições de um país como o nosso só para divulgar a música clássica e o violão, mesmo não se remunerando à altura de como ocorria no exterior, respondeu: 

“Como músico e artista, sem dúvida. 

Quando estou parado, sentado em um palco, naqueles segundos silenciosos que antecedem o início de cada música, e vejo as expressões das pessoas aguardando o que tenho para oferecer, que é o fruto de toda a minha experiência de vida e de músico até ali, me alegro e me sensibilizo profundamente.
Neste hiato de tempo, não importa onde estou, se em um teatro em Paris ou no interior do sertão. É o meu público, e estão, todos, ali porque querem me ouvir tocar.
Isso para mim, ‘naquele momento’, é só o que importa.

E é nessa hora que começo a ouvir a música que vou tocar”

Com relação a esse público tão grande, variado e ainda desconhecedor de sua arte naqueles tempos, entendia que seu papel também cumpria a função de educar e aculturar. Este o motivo pelo qual sempre conversava e trazia abordagens sobre os compositores, as músicas que apresentava, e sobre a sua visão musical de cada uma.
Quanto mais simples e sem recursos o público, os teatros e as salas, mais cuidadosamente se empenhava para ilustrar o seu trabalho e favorecer que desfrutassem dele com maior consciência musical e cultural. E antes de tudo, cuidava sempre de fazê-lo de forma leve, simpática, extrovertida e informal, para não constranger ninguém, evidentemente.

Darcy Villa Verde explicando as peças que irá tocar e a razão de cada uma delas fazerem parte de seu repertório.
No seu trabalho de divulgação e desmistificação da música clássica através do violão, Darcy Villa Verde teve a oportunidade de verificar o quanto os contrastes educacionais e econômicos de seu país desprestigiavam a maior parte da população em termos sociais e culturais. Sem recursos e estrutura a oferecer, que pudessem recepcionar ou estimular a presença de artistas e músicos de maior expressão, estes vilarejos perdidos e praticamente esquecidos no interior dos estados não acreditava quando um músico e artista do porte ‘dele’ aparecia para tocar oferecendo música, cultura e entretenimento da forma como ele fazia. Se apresentava com sobriedade mas com descontração, falando a respeito da música clássica e da popular regional. Falava do violão de forma que o público envolvido pela 
emoção de suas interpretações e histórias sempre se deixava levar. Este era um trabalho que Darcy Villa Verde fazia muito bem e adorava.
Um trabalho no qual comprovava a capacidade e o potencial infinito do ser humano de conseguir absorver cultura, independente da condição social e financeira. 
Este trabalho mudou Darcy Villa Verde para sempre. 

CULTURA OU SENSIBILIDADE?

Darcy Vila Verde, em certa ocasião, confessou que chegou a tocar em lugares tão simples e carentes de recursos que quando estava tendo o seu nome anunciado pelo apresentador que dissertava sobre os seus feitos e conquistas no mundo da música erudita, antes mesmo de subir ao tablado reservado como palco, chegava a se constranger por perceber que a maioria não parecia fazer ideia do que estava sendo dito; já outros, sorriam e não acreditavam que alguém tão reconhecido mundialmente poderia estar ali no que chamavam de ‘fim de mundo’, para simplesmente tocar para eles.

Com relação a como se sentia tocando para plateias tão distintas em teatros tão consagrados e célebres, e ao mesmo tempo em salas tão simples e despretensiosas, fez a seguinte observação: 

Ninguém nega que tocar ‘nesses’ teatros e salas do mundo para um público educado e preparado para ouvir, sentir e se conectar com a música e o músico através de suas interpretações, é incrivelmente realizador e significativo em termos pessoais e profissionais. 

Mas depois de um tempo nesse ‘métier’ você começa a perceber que todo esse status, dinheiro, boas roupas, títulos e protocolos de um mundo do qual, inclusive, faço parte e trafego, não garantem interesse, sensibilidade, erudição e cultura de compreensão técnica e musical ‘dentro’ do que apresento como músico e concertista.

A questão é complexa e delicada, e envolve muitas variáveis, mas devo dizer que chega uma hora que você procura um público capaz de compreender melhor o que você oferece, independente de sua classe social; porque se trata de sensibilidade emocional, e isso é o ápice da cultura para mim; uma cultura não teorizada e intelectualizada, mas viva na alma, pronta a ser ouvida e a te ouvir.

Como o que eu ofereço é música e o repertório serve a este propósito, quanto mais capacidade de compreensão, por parte do público, melhor, pois poderão aproveitar ainda mais o que está sendo oferecido. 
E isso, eu aprendi, pode ser encontrado em um membro da academia de letras, em um maestro, em um pajé ou em um simples serviçal, porque não tem a ver com status social ou dinheiro, tem a ver com a sensibilidade de absorver o espírito da música.

O público para Darcy Villa Verde definia tudo em seu trabalho; investia muito de seu esforço e dedicação para conquistá-lo.

Por conta deste espírito aberto, sempre foi solicitado para dar recitais a iniciativas beneficentes que o buscavam para levantar fundos ou recursos para escolas de música, para crianças com câncer, para reforma de alguma ala de hospital público, para asilos, orfanatos, instituições religiosas ou até carcerárias; Darcy, solícito, sempre atendia quando tinha agenda e enxergava sinceridade de propósito.

Mas se tinha uma coisa que lhe chamava a atenção, era porque os tributos arrecadados raramente apareciam para financiar a solução dos inúmeros problemas sociais existentes, se nunca deixavam de ser recolhidos.

Muitos episódios interessantíssimos e até divertidos surgiam nessas iniciativas de Darcy ajudar a levantar fundos e que, algumas das vezes, eram feitas de forma inusitada, irreverente, bem-humorada, criativa e, claro, com sua enorme rede de contato – investidores, empreendedores e políticos. 

Numa dessas ocasiões, Darcy foi convidado a estender a sua permanência numa importante cidade do Nordeste.
Uma senhora, responsável por um conselho diretivo de uma escola pública lhe implorava um recital beneficente para ajudar a levantar fundos para uma obra, uma vez que a verba ‘reservada’ permanecia retida pela prefeitura por questões burocráticas. A escola se prontificou, inclusive, a arcar com as despesas da estadia de Darcy e de sua equipe, caso ele tivesse disponibilidade na agenda.

Darcy, em sua primeira noite no teatro municipal desta cidade, informado da presença da mídia e do prefeito, esposa e de alguns assessores, inicia a 2ª parte de sua apresentação com uma declaração: 

Assim que cheguei a esta cidade fui procurado, no hotel […..] em que me hospedei, por um corpo diretivo da escola pública […..] no intuito de que eu ajudasse a levantar fundos para a sua reforma.

Como todos devem supor, sou uma pessoa bem relacionada, e sempre que confrontado com uma solicitação dessas, séria e legítima, lanço mão dessa rede de contatos no intuito de ajudar a quem for. 

Dessa forma, gostaria, então, de homenagear meu amigo, o prefeito […..] aqui presente com sua esposa, que ciente desta realidade, assumiu a iniciativa de agilizar a verba necessária no intuito de não comprometer o ensino e a qualidade da educação das crianças desta cidade, reformando e modernizando ‘toda’ a escola, ainda este ano. [burburinho] 

Me desculpem pela interrupção do recital, mas me sensibilizei profundamente com esta notícia, porque minha mãe era professora de escola pública e eu sei qual é o desafio de uma professora em ter que desempenhar a tarefa de ensinar e educar uma população cercada pela indiferença e o descaso dos políticos e dos orgãos públicos.
Então, diante de um compromisso desse, peço uma salva de palmas a este homem que se destaca pela seriedade e consciência no exercício de sua função. 
O povo Nordestino, com toda a sua luta e dificuldade, tem muito a ensinar a este país, com atitudes como esta.

A plateia se levantou em palmas e a mídia presente começou a fotografar o prefeito, sua família e os assessores.
Villa Verde simpaticamente sorria enquanto toda aquela mobilização se dava e, minutos depois, quando o ambiente voltou a silenciar, Darcy retomou a apresentação dedicando o restante do recital ao prefeito e família. 

A questão é que apesar de ter uma relação amistosa com o prefeito, e de ter sido comedido no uso das palavras em seu discurso, Darcy pressionou essa responsabilidade de volta para a prefeitura.
O prefeito, que sequer havia se pronunciado a respeito do assunto, não acreditando no que aconteceu, ficou sem palavras diante da reação do público e da mídia que o aplaudiam e fotografavam. 
Darcy, confessou depois, que chegou a achar que o seu blefe não alcançaria frutos, mas soube-se, posteriormente, que a escola passou por uma reforma.
E o prefeito que, de fato, lhe era próximo, continuou admirando-o musicalmente, bem de longe.

Darcy Villa Verde em seu trabalho de divulgação do violão como instrumento de concerto por meio da música clássica e popular. Interior do Rio Grande do Norte. Meados dos anos 70.

Tempos depois, Darcy Villa Verde confessou que tinha extrapolado e perdido a medida.
O motivo, é que em meio àquela tournée, não podia permanecer na capital em função dos recitais já assumidos em outras cidades. E depois, se tinha algo que o incomodava profundamente, era quando promessas públicas não eram cumpridas.

“Depois do que testemunhei em termos de miséria e abandono social, viajando por este país, se não pretende fazer, não promete.” 

Situações como essa se repetiram ao longo de sua trajetória profissional. E cada uma, com desenlaces mais insólitos do que outras. 
Como disse Darcy Villa Verde, certa ocasião, quando lhe perguntaram a respeito de como trabalhar devidamente pela cultura: 

“Não se preserva cultura sem respeito, dignidade, comprometimento, trabalho e, acima de tudo, sensibilidade e arte.”

MÚSICA, GRAVAÇÃO E IDENTIDADE MUSICAL


Este é um assunto que sempre intrigou a muitos de seu tempo e que, inconformados, não aceitavam a decisão de Darcy Villa Verde em não gravar. 

A seguir, resposta de Darcy Villa Verde a respeito do motivo de não ter feito nenhuma gravação de suas tão valorizadas e procuradas interpretações do repertório clássico. 
Apesar de ter se manifestado a respeito da questão em diferentes ocasiões, reportagens e entrevistas, selecionamos esta resposta dada pelo próprio, que a nosso ver, abrange suas principais considerações com relação ao tema.

 

Entrevistador: Maestro, o senhor poderia nos ajudar a entender porque não considerou gravar, uma vez que músicos que o senhor admira já o fizeram?
Não lhe ocorre fazer uma concessão?

Sou um músico que precisa de palco, de público, para produzir cada uma das interpretações que faço. 

Minhas interpretações são o resultado de uma conexão profunda que estabeleço com o público. 
Minha arte se manifesta através de uma simbiose entre o Villa Verde ‘músico’ e o Villa Verde ‘artista’; entre essa soma, e toda uma audiência inteiramente conectada com o que ofereço, no momento em que toco.

Minha visão narrativa somada à direção musical que construí ao longo dos anos para cada uma das músicas que trago em meu repertório é somente uma 1ª etapa do meu trabalho como músico.
A musicalidade que aciono e que me envolve no momento em que me conecto, intensa e profundamente, com todos que estão ali pra me assistir, a emoção em suspenso, toda aquela atmosfera e a expectativa do público pelo o que vou oferecer abrem um universo de possibilidades sonoras mentais e emocionais que me permite criar uma interpretação única, como resultado de tudo isso.
Qualquer circunstância 
externa que não contribua para essa 2ª parte do meu trabalho, interfere, alterando completamente a interpretação que desenvolvo. Sou muito suscetível às condições do ambiente. 

Então, tentar fazer o que faço em público, em um estúdio de gravação vazio com equipe técnica trabalhando em atividades paralelas, com aquele monte de fios, gente falando, apertando botão, pedindo para esperar, começar, descançar, voltar, é inviável.
O resultado disso, quando muito, só consegue registrar uma interpretação da visão narrativa e da direção musical que músico já traz para aquela peça. E, mesmo assim, se houver muita sinergia entre o músico e a equipe. 

Por conta disso não considero um estúdio de gravação um lugar adequado para se fazer uma ‘interpretação; para fazer a música que eu faço, entende? Não me sinto à vontade ali, porque sei que não vou registrar o que sou como músico. No máximo o que faço como concertista. E isso, não é o que me representa musicalmente. Não sou um tocador de violão, sou músico.

A única vez em que aceitei fazer isso profissionalmente numa gravadora, fiz por conta da insistência de minha empresária na França, e da pressão de inúmeros artistas e personalidades que me incentivaram. Isso, em função do resultado que o impacto de minhas interpretações causaram no público e do enorme sucesso que atingi na época, mas o trabalho foi interrompido por questões adversas à minha vontade; meu filho estava morrendo e precisei voltar ao Brasil.

Outra oportunidade surgiu nos ‘States’ (EUA), mas por desacordo quanto ao repertório, também não aconteceu.

Uma gravação não tem como traduzir o que desenvolvo como trabalho.
E isso não é só comigo, não. Basta ouvir qualquer disco de um grande intérprete, que você verifica isso.
Ouvir um disco de  um músico é uma coisa, assisti-lo interpretar ao vivo com todo o seu manancial musical e artístico é outra.

Por isso, você põe um disco e apesar de se conectar  com a música e com o resultado daquela versão interpretativa do concertista, ela permanece uma gravação de um disco.
Num palco, é totalmente diferente.

Quando eu ia a um recital assistir um grande concertista, eu ia para vivenciar a experiência de assistí-lo fazendo música. Queria presenciar o músico e sua musicalidade, sua arte, sua forma de interpretar o que sentia, para poder ter a possibilidade de viver uma experiência sonora que me surpreendesse e encantasse ‘musicalmente’; o que não é possível num disco.
Eu não ia para ouvir a mesma coisa que já ouvia em casa numa ‘vitrola’. 
Por melhor que fosse essa gravação, eu queria a experiência de presenciar e viver o que um disco não oferece.
É a mesma coisa que assistir um video de Paris e ir passar duas semanas em Paris. Passear pelas ruas de Paris, conversar com o povo francês, visitar as praças nos diferentes ‘arrondissements’, sentar num café no ‘Quartier Latin’ ou num parque para ler um livro, caminhar à margem do Sena, assistir um concerto à noite, ir a uma feira, comer um ‘croissant’ de manhã. São duas realidades, entende?
Ver, assistir, se envolvido pelo trabalho de um músico, pelo seu magnetismo, pelo espírito daquele artista, isso é incrível. Não são todos os músicos que podem oferecer isso, e se algum oferece, e ainda é violonista, então todos querem ter essa experiência. Ainda mais, se não há registros feitos.

Hoje, falando em termos mais gerais, você vai assistir um violonista concertista, dessa safra mais recente, e sai meio que frustrado. Não vê nada do que estou falando nas execuções. Ao final da apresentação fica aquela sensação de algo sonoramente fraco e musicalmente inexpressivo, um tanto ‘morno’. Na maior parte das vezes, inclusive, não conseguem nem executar ‘ao vivo’ o mesmo nível de performance do que se ouve em seus discos. Mas esse já é um outro assunto.

Confesso que, em mais de um momento, cheguei a ter dúvidas se tomei a decisão certa, mas hoje, mesmo que eu mudasse de ideia e quisesse deixar um registro que representasse o que fui como concertista e músico, o que poderia se dar em uma gravação ao vivo, por exemplo, não conseguiria.
Não tenho mais dedos para expressar as músicas da forma como as sinto musical e emocionalmente. Minhas visões e versões narrativas musicais das peças que escolhi para repertório exigem um nível de virtuosismo, uma intensidade técnica de execução que não posso mais oferecer. 

Agora, só na próxima! [risos]

Comercialmente falando, também não compensava.
Todo esse transtorno dentro de um estúdio pra quê? Pra ficar com uma parte mínima do que for vendido? Meu trabalho, meu suor, anos e anos de estudo e privação de vida para produzir um trabalho desse porte, e ficar com a menor parte?
Não.
A pessoa compra um disco, eu ganho uma ninharia por ele, ela pode me ouvir quando quiser, sem pagar, e ainda vai criar a ideia de que eu, musicalmente, sou aquela gravação.
Não.
Quer me ver? Vá me assistir ao vivo. Vai ser uma experiência muito melhor. Por isso as salas e teatros lotam. Porque sabem que se quiserem testemunhar a mesma experiência que os outros comentam a respeito do meu trabalho, das interpretações que faço, terão que ir me assistir.

Darcy Villa Verde fazia parte da “Ordem dos Compositores de Paris”. Apesar de  seu trabalho de composição nunca ter sido prioridade e nem ter ocupado um espaço significativo, foi bem recebido.
Um desses exemplos, foram algumas composições encomendadas pela ORTF – Office de Radiodiffusion Télévision Française, a mesma emissora que produziu o Concours International de Guitare de Paris, em que foi laureado ‘Hors Concours’.

Ele a estreou, entre uma série lançada na ‘Radio Télévision Française’ – ORTF em Paris, e que tinha como apresentadora a famosa cantora, empresária, produtora e empreendedora, Régine Zylberberg.
Outra composição, foi uma série de variações feita sobre um tema de Villa-Lobos, a qual intitulou ‘Villa Verde-Lobos’, inspirada na Bachiana N. 5 e que, apesar de ter sido apresentada apenas como “Variações sobre tema da Bachiana N. 5, de Villa-Lobos”, foi muito bem recebida pelo público

Darcy Villa Verde, compôs algumas peças eruditas que também chegaram a ser apresentadas em público no intuito de testá-las e que, muito aclamadas, fizeram parte de seu repertório, de forma mais velada e pontual. 

Importante levar em conta que Villa Verde se conduzia, quanto a determinados assuntos de sua vida pessoal e profissional, de forma tão reservada que nem os mais próximas se inteiravam com relação ao que fazia ou já tinha feito.
Não sentia nenhuma necessidade de comentar ou dividir seus feitos com ninguém. Ao contrário, não gostava; menos ainda, buscava algum tipo de aprovação com relação ao que fazia, a não ser de seu público.

Seu filho é que, sempre observador, percebeu em alguns de seus recitais, estas peças quando apresentadas, logo após um de seus retornos do exterior, o que se deu tanto no Rio de Janeiro, como em São Paulo no Teatro Municipal.

Mais para o final da vida, trabalhou na construção de uma série de prelúdios que registrassem sua vida, sua histórica e sua intuitiva sensibilidade musical, mas faleceu antes de poder gravá-los. Não estavam amadurecidos musicalmente quando fez a gravação em 2005. Tocou-os apenas para o seu filho.

Questionado porque não o fez ao longo de sua vida, respondeu que não levava esta parte de seu trabalho como prioridade. O fazia apenas quando contratado para isso ou quando inspirado, em meio ao seus estudos. ‘Ouvia’ mentalmente a música e sentia uma necessidade premente de tocá-las.

Registro e Identidade Musical

Apesar das insistentes tentativas feitas para convencê-lo do contrário, Darcy Villa Verde não era muito afeito às gravações. Pensava que uma gravação não tinha como capturar todas as nuances que suas apresentações causavam ao vivo. Toda a sua presença, o seu carisma e expressão artística, toda a emoção que ele imprimia na música e no público.

Tinha com ele que dentro de um estúdio a interpretação sofria perdas com as técnicas e os recursos de edição. Para ele, as gravações deveriam ser feitas ao vivo numa tentativa de capturar ‘o todo’. E isso, independente se fosse num dia bom ou extraordinário, se tivessem ‘perfeitas’ ou não, porque seriam autênticas. 

Seu foco sempre esteve no que, em termos de musicalidade, um músico podia oferecer para o público e receber dele. E essa troca só no palco.

Como as gravações feitas ao vivo de outros músicos, na época, inclusive de músicos que já tinha assistido pessoalmente, não o agradavam pela qualidade que apresentavam, evitava o assunto.

Dessa forma, a única gravação feita e comercializada de que se tem notícia, é um disco compacto de vinil de 1965, com quatro músicas populares que foi gravado sob muita insistência de Jacob do Bandolim e de alguns incentivadores mais empolgados.

É sabido que Jacob do Bandolim gravou o Darcy Villa Verde tocando em sua casa, como chegou a fazer com outros músicos.
Isso, por conta de Jacob, em um de seus saraus que promovia em sua casa, ter assistido Darcy Villa Verde tocar e ter se emocionado profundamente com seus arranjos e interpretações.
Essas gravações estão disponibilizadas no ‘sitebook’.

Mais tarde, Darcy Villa Verde assinou contrato para a gravação de três discos LPs em Paris com a gravadora Pathé-Marconi.
Meio às gravações, seu filho adoeceu gravemente.
Quando informado de que seu filho estava para morrer, Villa Verde interrompeu o trabalho para voltar ao Brasil, e o mesmo não foi concluído. 

Em função da gravidade do estado de saúde em que se encontrava o filho de Darcy no Brasil, a Pathé-Marconi compreendeu a iminente interrupção das gravações, e rescindiu o contrato sem nenhum tipo de ônus.
Chegou a conceder uma prorrogação do projeto por 12 meses, se prontificando a arcar com as despejas de um retorno durante a sua permanência em Paris para a conclusão do trabalho em Boullogne-Billancourt.

Contudo, Darcy Villa Verde não prosseguiu com o trabalho. Receava voltar, reativar a agenda de compromissos e apresentações, e terminar cedendo a todo um ritmo de trabalho que o manteria distante da família, num momento tão delicado. Seu filho ressentia sua presença.

Nos Estados Unidos, Darcy Villa Verde foi convidado para assinar um contrato de gravação para 2 discos LPs de musica erudita.
Contudo, quando Darcy tomou conhecimento de que o contrato previa a inclusão de musicas populares se recusou terminantemente.
Apesar de poder se apresentar tocando diferentes gêneros e estilos, queria os discos apenas com obras clássicas. 
A gravadora, pensando comercialmente, ofereceu resistência a fazer a gravação apenas com músicas clássicas, apostando neste diferencial e acreditando que Darcy cederia. Não cogitava da possibilidade de alguém em ‘sã consciência’ abrir mão de uma oportunidade daquelas.
Darcy firmou a opinião se posicionando, como de costume, e quando pressionado em uma reunião com os executivos da gravadora, comunicou não estar mais interessado. Se levantou e saiu da reunião. O produtor não acreditou.

Anos depois, Darcy se arrependeu. 

Demorou a perceber que sua habilidade e propriedade de executar obras de gêneros e estilos diferentes com o mesmo nível de excelência interpretativa era a sua ‘identidade musical’, que regida com a sua musicalidade, o destoava do universo comum.
Darcy, à época, tinha se consolidado definitivamente como concertista clássico de violão, mas era um músico erudito que também tocava populares.
Como não conseguiu efetivar suas gravações em Paris que o documentaria para a posteridade como violonista clássico, desejava na época, fazê-lo no EUA.

Um paradoxo e anacronismo se deram.
O estigma do preconceito que rotulara os violonistas de sua época diante dos outros instrumentistas, taxando-os de boêmios, e que ele lutou obstinadamente por se libertar, permanecera com ele afetando sua visão do próprio potencial que trazia em desenvolver com rara habilidade e eruditismo, ambos os gêneros musicais.
Tentara, sem sucesso, abafar a própria condição artística por um fantasma que o assombrara por longo tempo. Um conflito que só se agravava cada vez que entrava nos
‘encores’ ou na segunda parte de seu recital que arrebatava igualmente o público com seus arranjos e interpretações do popular.

A questão é que no Brasil, ao mesmo tempo em que Darcy Villa Verde buscava promover o aculturamento musical do erudito, por meio da música popular, ele ia imprimindo a sua marca no coração de seu público que recebia de forma entusiástica a combinação de ambos os gêneros musicais.
Repetindo o mesmo no exterior, essas apresentações que se davam para músicos e artistas em reuniões ‘privées’ com a presença de executivos da industria da música, e também nas casas de jazz, em que era convidado a tocar, levava Villa Verde a oferecer como ‘bis’ esse perfil de repertório, ao final de seus concertos e recitais. O público pedia.

Afinal, não dá para desconsiderar 25 anos de musica popular, forjada com um trabalho de desenvolvimento musical muito apurado em horas intermináveis de estudos, e que terminou por levá-lo a se diferenciar pela riqueza musical com que apresentava seus arranjos e interpretações.

Isso despertou o interesse de algumas gravadoras na época, pois viram nele a possibilidade de oferecer um produto diferenciado. Um alcance interpretativo do clássico que abria um espaço novo e que transbordava para a erudição de um repertório contemporâneo e popular internacional, todo próprio.
Isso consternou Darcy profundamente, na época.
E mesmo depois de um empresário ter-lhe informado que determinada gravadora tinha reconsiderado e aceitado produzir os discos em dois momentos diferentes, Darcy estava tão agastado com toda a situação, que deu o assunto por encerrado.

OBS: Soube-se, na época, que a ideia era produzir o clássico e o popular em dois momentos. Lançar um álbum duplo de clássicos primeiro e posteriormente um outro álbum duplo com ‘ambos os gêneros reunidos’, exatamente o que Villa Verde não desejava. Darcy descobriu, e por conta disso, selou a sua recusa.

Entrevistado, anos depois, em uma coletiva no próprio EUA, disse que poderia ter aceito. Que, à época, não compreendera que desde criança era músico e música, e que tudo o que suas mãos traziam pelas cordas de seu instrumento, e que era muito bem aceito pelo público, deveria ser aceito por ele também.

“Tentava abafar todo um mundo musical do qual me utilizava, e que ao mesmo tempo era uma parte de mim. Me deixei influenciar pela crítica e pelo pensamento da época que não via com bons olhos a junção de ambos os gêneros. Diziam que o popular comprometeria minha imagem de intérprete do erudito.
Como comecei tarde e sabia que o tempo para mim corria mais rápido, confrontei esse pensamento a vida toda, e fiz nos meus concertos o que sempre caracterizou a minha marca. Mas na hora de deixar para a posteridade, a dúvida permaneceu porque eu mesmo via essa minha habilidade e disponibilidade de improviso e de arranjador com o repertório popular, como uma ‘brincadeira’, tamanha a facilidade que tenho.

Me consolidei no mundo como concertista clássico. 
Era muito respeitado pelo o que construí, e não queria comprometer todo o meu esforço e trabalho para chegar onde cheguei, deixando um registro que não correspondesse àquilo pelo qual lutei tanto.

Mas todos que me assistiam sabiam que tocava popular e não entendiam porque eu reprimia isso se era tão autêntico, musical e apreciado.

Devia ter gravado em separado, tive a chance e recusei. Errei.

Percebi que tudo o que fazemos bem feito em termos de ‘música’ no violão é a nossa identidade. O público gosta de um músico pela música que ele faz, não só pelo repertório que toca.”

Quando já aposentado, sem sensibilidade nas mãos e distante dos palcos por mais de 15 anos finalmente aceitou gravar para seu filho, o fez unicamente para que seu filho e netos pudessem sentir o avô presente através de sua música, de suas interpretações e de seus próprios sentimentos impressos nelas. 

Mesmo sem o domínio que o consagrara como um dos maiores expressões do violão em seu tempo, e mesmo sem a presença do público que o conectava a um universo de execuções e interpretações tão surpreendentes quanto inigualáveis, Darcy Villa Verde adentrou o estúdio, sentou-se e, mental e emocionalmente conectado ao seu propósito, apesar de fisicamente exausto, se entrega à própria musicalidade deixando um pequeno legado, como memória, com o pouco do que dispunha. Um pouco, que por muito pouco, nem o tempo e nem a doença tinham conseguido se apropriar.

“Quando meus netos crescerem e perguntarem quem era o avô deles e o que ele fazia, ponha as minhas músicas, peça silêncio e deixe-os me ouvirem tocar a minha história.”

E é com um imenso prazer que o seu filho – o mesmo que o trouxe de Paris com 03 anos de idade, que o convenceu a gravar com 75 anos e que o sepultou no coração da Cidade Maravilhosa logo depois – divide com todos uma conversa muito reservada. De pai para filho, de avô para netos, e agora, de músico para o mundo.

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