Foto da casa de Darcy Villa Verde na praia do Leblon onde morou por 40 anos. Morava no andar térreo do prédio de 3 andares na orla marítima, em frente ao começo do 3º canteiro da Av. Delfim Moreira. 1960.
Passagens, reflexões e resumo.
VISÃO DE VIDA, CONVICÇÃO E PENSAMENTOS
Ao longo de sua carreira, Darcy Villa Verde fez diversos trabalhos sociais oferecendo recitais e concertos ‘pro bono’ em apoio a diferentes instituições, associações e organizações governamentais e não governamentais.
Dessa forma, podia participar socialmente doando o que tinha de maior valor: sua atenção e sentimentos através de sua música.
Foram recitais voltados à pacientes com câncer, comunidades carentes, Instituições de ensino, centros religiosos para levantamento de fundos beneficentes, hospitais, manicômios, sistemas prisionais e lar de idosos.
Foram inúmeras as associações, todas elas atendidas por Darcy, no intuito de ajudar a entreter, trazer cultura e atenuar as dores, com a sua alegria e música.
Com este propósito, muitas apresentações se deram.
Isso, dizia, tem a ver com sua visão de religiosidade.
Sua religião, falava, era a sua música, onde buscava conexão com o ‘Criador’ de tudo.
A caridade como força mobilizadora humana e social praticada com a dignidade que não constrange quem a recebe, estimulando a todos a serem hoje, melhor do que amanhã. Pensamentos, estes, que pautaram a sua vida. O que não quer dizer que todas as suas ações foram acertadas, evidentemente.
Uma semana antes de sua ‘passagem’, dirigiu as seguintes palavras ao seu filho:
“Filho, tenho refletido muito sobre a minha vida e cheguei a conclusão de que vou mudar. Posso mudar e ser melhor em tudo.”
Nascido em família que estudava a Doutrina Espírita, Darcy trazia a ‘convicção’ e não a ‘crença’, (fazia questão de frisar) de que somos seres espirituais, almas ou campos mentais, que precedem a vida como a conhecemos e que retornam de onde vieram após a morte do corpo físico. Não via outra possibilidade existencial, a não ser a de que reencarnamos. Ou isso, ou realmente eu sou um gênio, dizia em tom humorado.
Tinha para ele que a verdadeira religião deveria ser aquela em que o ser humano se sentisse parte de um todo, de uma criação atemporal e de uma inteligência causal, criadora, da qual fazemos parte e vivemos imersos em suas leis.
Que a prática dessa religião deve ser a de se preocupar em não prejudicar o próximo e cuidar de ajudar a todo ser humano, ajudar sem distinção, sem mágoa, sem condicionamentos e ressentimentos, apenas pelo prazer emocional de ser útil a alguém.
Por conta disso, a grande angústia quando via a miséria social florescer diante dos arrendamentos públicos que apesar de abundantes desapareciam, para desespero de um povo, nas mãos daqueles que assumiram o compromisso de nos representar diante do estado de direito.
“Creio que a engenharia econômica social e política deste país deva ser algo bem complexo, que exige habilidades e valores cada vez mais escassos.
Basta ver as condições precárias e as dificuldades em que nos encontramos, apesar dos enormes recursos recolhidos.
Mas difícil mesmo é ver o resultado dessa ausência de valores na falta de iniciativas de políticas públicas que vigoram cada vez mais e que terminam estampadas na miséria social e humana que se alastra por todo o país em regiões tão inóspitas que a maioria desconhece a existência, ou lhes são indiferentes.”
…….
AMIZADE E VIOLÃO
Se tornar amigo de Darcy não significava necessariamente se tornar próximo do músico. Esse privilégio era de poucos.
Um bom exemplo, era o Osmar Abreu. Toda vez que Darcy Villa Verde retornava ao Brasil, Osmar, pai do duo Sergio e Eduardo Abreu, ia para a casa de Darcy no Leblon, na avenida beira-mar, Delfim Moreira, e ficava sentado ao lado de Darcy, no jardim de sua casa, observando-o estudar por horas enquanto tomava sol de frente para a praia. Um hábito que Darcy sempre manteve.
Outros tantos amigos conhecidos, apesar de curiosos, só podiam observá-lo estudar do lado de fora do muro da casa. Um muro de um metro e vinte, mais ou menos, de altura, em que as pessoas se debruçavam, e, ali, um tanto afastadas, passavam horas ouvindo as mesmas escalas que subiam e desciam tão rápidas e cronometradas que, invariavelmente, roubava um sorriso de alguém.
Osmar Abreu sempre pedia para Darcy tocar para ele o ‘Prelude in E Major, BWV 1006a’, da 4ª suíte para alaúde, e Darcy Villa Verde que gostava do Osmar, além de admirar muito o trabalho de seus dois filhos, atendia o amigo com prazer e ficava estudando o prelúdio por duas ou três horas seguidas.
Conta-nos o filho de Darcy, que também acompanhava seu pai estudar desde criança, que um dia Osmar Abreu se levantou da cadeira ao lado de Villa Verde que estudava, virou-se para ele, que somava uns dez anos, e falou:
“Meu filho, se algum dia alguém disser que toca violão pra você, peça para tocar esta peça – apontando para Darcy que acompanhava a conversa sorrindo enquanto ‘passava’ o prelúdio de Bach.
Se ao tocá-la você não ouvir ‘esta música’ aqui que estamos ouvindo, o sujeito não toca é nada!”
Evidentemente uma força de expressão bem humorada para dizer o quanto admirava a interpretação de Darcy ao violão.
…….
O MÚSICO E A MÚSICA
Numa ocasião, por volta de 2004, Darcy Villa Verde foi acompanhar seu filho a uma visita em uma associação dedicada a idosas cegas.
Lá se encontrava, já a alguns anos, uma querida amiga da família chamada Regina. Regina tinha sido cuidadora da avó paterna de Darcy, Dna Guiomar, que teve glaucoma e ficou cega; cuidou dela até os seus últimos dias.
Regina, posteriormente, chegou até a trabalhar por um período na casa de Darcy Villa Verde quando seu filho somava uns 5 anos, mais ou menos.
Seu filho se afeiçoara a essa senhora e com o passar dos anos, depois de muito tempo sem ter notícias, a reencontra praticamente sem enxergar e internada nessa associação dedicado a cuidar de idosas cegas; uma associação cuidada por freiras.
Durante a visita, enquanto conversavam com Regina e algumas idosas presentes que tomavam sol em um ou dois bancos de jardim, uma delas se assusta ao ouvir o nome de Darcy Villa Verde.
Relata ela, sob o peso da idade avançada, que em uma ocasião fora levada para ouvir alguém, de mesmo nome, tocar na Sala Cecília Meireles e que as músicas que ouvira ficaram registradas em sua memória emocional, tamanha sensibilidade do artista.
Ao descobrir, entre risos e assombros, que o artista, em questão, era o próprio, sentado ao lado dela, a senhora começa a tremer e pede permissão para tocar suas mãos. Passando os dedos sobre os calos da mão direita de Darcy, a senhora pousa o próprio rosto sobre as mãos de Villa Verde e chora copiosamente pelas lembranças que seus olhos fecharam.
“Suas mãos são abençoadas meu senhor, suas mãos são santas! Foram abençoadas por Deus para nos tocarem à alma pela música! Graças à Deus! Louvado seja Ele!”
Uma das raras vezes, conta seu filho, que viu o seu pai, entre desconcertos e espanto, rir e se emocionar ao mesmo tempo.
Assim que se recompôs, a senhora pediu permissão para beijar as mãos de Darcy e pelo avançado da hora, pediu para se retirar e se recolher ao seu quarto. Queria orar.
Mais tarde, Darcy Villa Verde comentou intrigado e reflexivo:
“Não fazemos ideia da responsabilidade e do peso dos nossos atos e do quanto eles impactam e representam para as pessoas, não é mesmo? Quando ela começou a falar e a chorar nas minhas mãos, desconcertei, e as imagens daquele concerto me vieram à mente, e de tão vivas, me emocionaram”, disse.
– Darcy Villa Verde
Retornando à casa de seu filho, Darcy permaneceu silencioso e reflexivo, preso às lembranças do passado.
…….
ERROS
No violão não se preocupava tanto. Estudava absurdamente e entrava em cena sempre muito preparado para seus recitais e concertos. A partir do momento que botava o pé no palco, seu coração e sua música o guiavam, nada mais importava.
Com relação à vida, se a falta dirigida a ele fosse desculpada com sinceridade, para Darcy não existiria mais falta alguma.
“Já errei tanto e sofri tanto por isso, que não faz sentido algum cultivar mágoas e guardar desafetos.
A vida passa rápida demais para preenchê-la com mais dor.
Basta aquelas que criamos para nós.– Darcy Villa Verde
Darcy Villa Verde se apresentando na ABV-Associação Brasileira de Violão, nos anos 70. Fundada em 1952, e tendo seu espaço na Rua do Mercado, 22, 4º andar, esta associação contou com a presença e apresentações dos principais violonistas da época. Darcy Villa Verde, sempre que retornava ao Brasil, era convidado a se apresentar nela, durante as décadas de 60 e 70. Tinha ali, grandes amigos, admiradores e críticos de seu trabalho. Nota-se o gravador de rolo, abaixo à direita, fazendo o registro da apresentação. Esta apresentação foi uma das raras vezes em que permitiu que o gravassem. Consentiu com esse registro de sua obra, por conta do pedido ter sido feito pelo próprio Jodacil Damasceno que o tinha em altíssima consideração, e por respeito e seriedade de propósito da Associação com a cultura do violão. Muito poucos tiveram esta permissão de Villa Verde; Jacob do Bandolim foi outro que o gravou. Na seção dos ‘Arquivos’ deste ‘Sitebook‘, apresentamos algumas dessas gravações feitas na casa de Jacob, e um programa impresso, quando em uma de suas primeiras apresentações na ABV-Associação Brasileira de Violão, que fez junto a outros violonistas, no ano de 1964.
DARCY VILLA VERDE • Bio
DARCY VILLA VERDE.
CONSIDERADO COMO UMA DAS MAIORES EXPRESSÕES DO VIOLÃO CLÁSSICO NO MUNDO, DARCY VILLA VERDE FOI ACLAMADO E ASSISTIDO PELOS MAIORES NOMES DE SEU TEMPO.
DARCY VILLA VERDE TAMBÉM FOI PIONEIRO NO BRASIL COM UM PROJETO EXCEPCIONAL DE DIVULGAÇÃO DA MÚSICA CLÁSSICA E DO VIOLÃO COMO INSTRUMENTO DE CONCERTO POR TODO O TERRITÓRIO NACIONAL. UMA INICIATIVA CULTURAL INÉDITA, EXECUTADA A PARTIR DA DÉCADA DE 60, JUNTO ÀS SECRETARIAS DA CULTURA E AOS GOVERNOS DOS ESTADOS, LEVANDO COMPOSITORES COMO BACH, HÄENDEL, HAYDN E VILLA-LOBOS ÀS GRANDES CAPITAIS, ÀS REGIÕES CENTRAIS DO CERRADO E ATÉ AO INTERIOR DO SERTÃO. UM TRABALHO DESBRAVADOR, CONDUZIDO COM DETERMINAÇÃO, VONTADE OBSTINADA E MUITO ESPÍRITO.
APESAR DE REPUTADO COMO UM DOS MAIORES INTÉRPRETES DO VIOLÃO CLÁSSICO, POR NÃO ACREDITAR QUE OS RECURSOS DE CAPTAÇÃO SONORA DISPONÍVEIS NA ÉPOCA REGISTRASSEM TODA A ‘ENTREGA’ QUE MUSICALMENTE PROPORCIONAVA NOS PALCOS, E POR DESACORDO COM AS GRAVADORAS COM RELAÇÃO A INGERÊNCIA DESTAS, NÃO DEIXOU REGISTROS, O QUE CONTRIBUIU PARA QUE SEU NOME NÃO FIGURASSE NOS SELOS E NA HISTÓRIA DA INDÚSTRIA MUSICAL.
MESMO SEM REGISTROS COMERCIAIS DE SUAS INTERPRETAÇÕES, ESTA FIGURA LENDÁRIA DO VIOLÃO EXISTIU E SURPREENDEU A TODOS, COM SUAS EXECUÇÕES E INTERPRETAÇÕES QUE DE TÃO IMPRESSIONANTES FORAM CONSIDERADAS MÍTICAS E TRANSCENDENTES PELOS MAIORES NOMES DA MÚSICA DE SEU TEMPO.
COM O RESGATE DE SUA HISTÓRIA E RICA DOCUMENTAÇÃO, DARCY VILLA VERDE VOLTA A FAZER PARTE DA CULTURA MUSICAL BRASILEIRA.
Darcy Villa Verde foi um inovador.
Sob vários aspectos foi um violonista concertista erudito que sobressaiu, que se destacou do lugar comum por diferentes motivos.
Notabilizou-se por ser considerado uma das maiores expressões do violão clássico no Brasil e no mundo, em seu tempo. Foi muito respeitado e apreciado pelo público e pela crítica devido a sua capacidade de elevar o sentido de erudição no violão clássico, como também por estender esta mesma capacidade ao violão popular.
Apesar de ser brasileiro, nascido na cidade do Rio de Janeiro, casado com filhos, e de ter morado na praia do Leblon por mais de 40 anos, Darcy passou grande parte de sua carreira profissional na Europa, EUA e em diferentes localidades do Brasil e da América do Sul.
Nas décadas de 60, 70 e 80, Darcy notabilizou-se, não só pelo nível de superioridade de execução e alta interpretação que deu ao violão clássico, elevando-o em termos de igualdade a outros instrumentos solos, como também pelo pioneirismo na divulgação da música erudita e de apresentação do violão como instrumento de concerto em milhares de cidades, praticamente em todo o Brasil.
No intuito de construir público e divulgar a música clássica por meio das ‘tournées’ que fez em todo o país, adicionou em seus programas, uma segunda parte de músicas populares brasileira e internacional para um maior engajamento do público, que interpretadas com arranjos próprios, musicalidade singular e absoluto domínio técnico que desenvolveu, atraiu multidões para os teatros, difundindo a música clássica e sedimentando o seu nome como um marco do violão erudito em seu tempo.
Um feito enorme para um violonista clássico nesta época, que atuou prevalentemente com apresentações solo.
Foram milhares de concertos ao longo dos anos e diversos Workshops, Seminários e recitais musicopedagógicos, vinculadas às Secretarias da Cultura e a diferentes governos dos 23 estados em que se apresentou.
Houve períodos mais intensos em que precisou assumir bem mais de cem agendamentos por ano, que com suas respectivas temporadas o mantiveram distante, por muito tempo, da família que amava, e de outros tantos compromissos importantes.
Isso fez de Darcy Villa Verde, pelas palavras de Isaac Karabtchevsky, um dos músicos que mais atuou para o desenvolvimento da cultura musical violonística no Brasil.
Isaac Karabtchevsky não só falou, como declarou de público e por escrito, porque assistiu, participou e acompanhou.
Quando perguntado do que achava de Darcy Villa Verde como músico e de seu trabalho no violão, resumiu:
“Como músico violonista acho ótimo, como músico e divulgador da sua arte e da cultura, um exemplo a ser seguido.”
Suas apresentações, muitas das vezes – parte de vários projetos culturais – se estenderam das capitais aos vilarejos nos sertões e comunidades indígenas, levando compositores como Alessandro Scarlatti, Johann Sebastian Bach, Georg Friedrich Häendel, Joseph Haydn, Sor, Villa-Lobos, Isaac Albeniz, Granados, W. Walton e muitos outros, a todo tipo de plateia, indistintamente.
Importa notar que Darcy Villa Verde não se rendeu a popularizar o seu programa em função de tocar para um público de menor erudição.
Abraçado ao projeto cultural de divulgar e tornar a música clássica acessível no Brasil, junto a Isaac Karabtchevsky e ao pianista Jacques Klein, fez questão de levar um repertório clássico e elitizado culturalmente, encontrando eco na sensibilidade e na alma do povo brasileiro pela forma musicalmente rica e dinâmica com que apresentava tão valioso material.
Conversando informalmente com a plateia, Darcy Villa Verde, também de forma pioneira naquele tempo, ilustrava suas execuções com informações sobre os compositores e sobre a história e a riqueza do violão.
E iniciou este trabalho desde a década de 60.
Caso achasse oportuno, contemplava o público acrescentando uma segunda parte de pecas mais populares, um momento musical mais informal que apesar de quebrar protocolos, transbordava a mesma erudição dos clássicos, realçando o colorido da música brasileira com uma rica variação de efeitos tímbricos, sonoros e percussivos, que em suas mãos adquiriam uma maioridade em termos de dimensão técnica, rítmica e de intensidade e expressão sonora e musical sem equivalência, e que deixava a todos maravilhados.
Esperado, que algumas dessas apresentações se fizessem memoráveis para aqueles que tiveram a oportunidade de presenciá-las e de testemunhar um artista de seu calibre apresentar um repertório tão eclético, com tanta musicalidade, e com o mesmo brilhantismo e sofisticação de sonoridade e interpretação que o diferenciava. Qualidades, estas, que concederam a ele os títulos de ‘Monstro’ de ‘Gênio’, de ‘Mago’ do violão, e que apesar de recusá-los, segundo relatos, fez por merecer cada um deles.
Suas interpretações chegaram a ser consideradas, por nomes respeitados em todo o mundo da música, como ‘transcendentes’, ‘etéreas’ e até ‘divinas’.
Darcy Villa Verde, também foi um dos músicos concertistas que mais se destacou pela habilidade de saber utilizar a mídia a seu favor, o que o ajudou a atingir grande notoriedade e destaque não só no Brasil como em grande parte dos EUA e da Europa nos anos 60 e 70.
Devido a todo este reconhecimento, também foi um dos poucos violonistas que se apresentou em teatros e salas de concerto reservadas a grandes apresentações de orquestras, óperas e corpos de balé.
Sua capacidade de extrair o som e modelá-lo em grande volume, sem perder as delicadas nuances das inúmeras variações de timbres que produzia, permitia que se apresentasse acusticamente em teatros para mais de 1500 pessoas, sem nenhum recurso de amplificação, e obtendo lotação em todas as apresentações.
Os teatros e salas de concerto em que se apresentou na Europa, nos EUA, na Ásia e na América do Sul, figuram entre os mais reconhecidos da música clássica.
“Musicalidade singular, técnica irrepreensível e alta interpretação”, foi título de matéria.
Quando o fator determinante de um concertista é a soma de todos esses valores, é natural que as pessoas queiram dividir a experiência dessas impressões com todos.
Essa provavelmente a razão de quem o assistia não medir palavras para descrevê-lo. Porque descreviam emoções e experiências.
Darcy Villa Verde atuou sempre de forma independente.
Sem acordos, concessões e interferências de gravadoras, distribuidoras e produtoras musicais que comprometessem o que idealizava.
Isso lhe concedeu maior autonomia e liberdade de se conduzir profissionalmente em termos de propósito musical e cultural.
Além disso, confiante e seguro com relação às próprias ideias e escolhas, pôde definir seu próprio caminho da maneira como entendeu melhor – repertório, projeção do nome, divulgação dos recitais, compromissos de agenda e remuneração – alcançando o seu espaço no mundo da música clássica internacional, e se posicionando como um dos maiores expoentes do violão em seu tempo.
Tal forma de pensar e proceder, favoreceu a ele um valor, retorno e reconhecimento profissional tão surpreendente que permitiu que gravasse o próprio nome na história da música clássica concertista por quase três décadas. Algo, pode-se dizer, surpreendente.
Em contrapartida, essa decisão e modo de operar, que o manteve afastado de toda uma indústria, contribuiu para não preservar seu nome nela.
“Sem ressentimentos, foi uma escolha calculada”, diria mais tarde.
Como a sua preocupação na época era com a construção de uma marca no coração de seu público, com o compromisso de divulgar a música clássica em todo o território brasileiro e com o objetivo de sedimentar o violão como instrumento de concerto, viveu cada momento na realização desse propósito, e realizou o seu objetivo com muita determinação, persistência e talento.
Grande comunicador, senhor de si, e bastante lúcido quanto a forma como a indústria da música e o meio musical manuseavam os artistas, os investimentos de mídia e os ganhos, priorizando sempre o lucro a despeito do que pudesse causar ao artista e à própria cultura, decidiu por caminho próprio, procurando cercar-se de profissionais que pudessem compreender suas ideias e auxiliá-lo nesta tarefa infindável e colossal de se vender nacionalmente, de criar um público próprio, fidelizá-lo, e de alcançar êxito, sem precisar se render à determinadas práticas de mercado que considerava impróprias.
Respeitava e valorizava muito o trabalho de um bom empresário, mas combateu fortemente a cultura de remuneração predatória dos agenciadores, produtores e gravadoras do meio musical que viviam de ‘vampirizar’ e interferir no produto final do músico e artista, visando apenas retornos financeiros imediatos.
Quando a música digital surgiu no mercado e implodiu a indústria fonográfica com todas as suas consequências, o mercado abriu as portas para produtos ainda mais imediatos e descartáveis, sinalizando a necessidade de que classe dos músicos precisava se reunir para se reinventar e se adaptar a uma nova era.
Tempos novos, exigiam medidas novas.
Darcy Villa Verde acreditava que se a classe dos violonistas se unisse para trabalhar conjuntamente nesse novo momento, as coisas poderiam melhorar. Mas isso não se deu, o que ajudou a agravar ainda mais a situação do violão no Brasil para as futuras gerações.
A geração de violonistas e de público que o assistiu, foram aos poucos nos deixando, e por ser avesso a gravações, decidiu não deixar registros, o que colaborou ainda mais para que seu nome fosse sendo esquecido.
Darcy era da opinião que a experiência emocional que suas execuções produziam musicalmente ‘ao vivo’ no palco não podiam ser reproduzidas e nem registradas em um vinil ou CD, e segundo os depoimentos daqueles que o assistiram, não estava de todo errado.
O senso comum é de que a experiência musical ao assisti-lo era intensa e muito ‘orgânica’, totalmente distante do que uma gravação pode alcançar.
Era um recital que se transformava numa grande e memorável experiência de música clássica e erudita.
A emoção criada e sustentada pelas suas interpretações criava uma espécie de enlevo na atmosfera do teatro, e isso, dito por quem o assistiu inúmeras vezes e se arriscou a gravá-lo, mesmo sem o seu consentimento.
Se era marketing ou não, verdade seja dita, jamais saberemos. Mas o fato de todos saberem que ele não aceitava gravar estimulava ainda mais o público a procurar assisti-lo todas às vezes que vinha ao Brasil.
Inevitavelmente, tal decisão cobrou o seu preço.
Depois que parou de atuar profissionalmente, desapareceu da mídia e das páginas de toda uma história de música. Páginas que ajudou a escrever ao longo de 50 anos e que impressionaram e marcaram a memória da cultura no mundo e no Brasil.
O tempo, de fato, pode silenciar todo este acervo, mas o desejo de construir uma nova vida nos remete sempre ao valor de parar para reler e repensar o passado, aprendendo com aqueles que se tornaram o motivo de nossa razão de ser; para podermos achar nossa inspiração; para podermos partir de seus aprendizados; para podermos acreditar que alcançar um sonho é algo totalmente possível, mesmo que com muitas páginas de dor, sofrimento e esforço; de determinação e superação.
Foi assim com Andrés Segovia que se inspirou em Miguel Llobet; foi assim com Darcy Villa Verde que se inspirou em Segóvia e em Ida Presti, e será assim com qualquer violonista que quiser tocar profissionalmente; que quiser aprender que mais importante do que saber tocar violão bem, é saber desenvolver e amadurecer a própria musicalidade, antes mesmo de se deixar absorver por um absoluto domínio técnico, musical e dinâmico ‘superior’, para, só então, poder ter condições de expressar para o seu público a música de um gênio, como a sente.
Esse era o seu pensamento. ‘Gênio’ é Bach, Häendel, Mozart.
Músico mesmo, é aquele que consegue expressar na sua interpretação, a genialidade do gênio com toda uma maturidade musical própria.
Evidente, já que Darcy Villa Verde soma milhares de apresentações em diversos salas de concertos no mundo, que deva haver muito material a espera de um trabalho de pesquisa e curadoria, no intuito de ajudar a resgatar seu nome como parte de um acervo musical e cultural de grande valor e importância para o violão brasileiro e internacional, uma verdadeira escola nesta tão desafiadora arte.
A propósito, caso alguém tenha em sua propriedade algum material ou conheça alguém que o tenha, que busque nos informar e o divida conosco, enviando-o para que possamos analisá-lo e, através dos meios devidos (uma vez que tudo relacionado a Darcy Villa Verde está sob os direitos e os cuidados de seu filho, também de nome Darcy), possamos analisá-lo, validá-lo e cuidar de trazê-lo a público, enriquecendo esse acervo tão importante na história do violão.
A maioria delas, apresentados de forma imprecisa e fora de contexto, não correspondem a como as circunstâncias se deram, o que já era esperado.
A desinformação gerada pela falta de conhecimento dos fatos por inteiro, geraram imprecisões e narrativas que mais colaboraram para criar uma imagem desfocada e excêntrica de sua pessoa.
Isso, porque Darcy Villa Verde não tinha o hábito de falar de si mesmo e nem de seus feitos, mesmo àqueles que lhe eram mais próximos, e quando o fazia era sempre muito econômico e discreto.
Sabia ler música, evidentemente, mas não tinha leitura fluente para ler e tocar ao mesmo tempo.
Darcy Villa Verde que já tocava violão popular desde os 4 anos de idade, começou com os exercícios para violão clássico aos 25 anos de idade; uma decisão inspirada e decorrente do recital que assistiu de Andrés Segovia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1958.
Começou a construir um repertório de violão clássico, 6 anos antes do concurso de Paris, quando somava 27 anos de idade.
Seu início tardio levou-o a buscar maior aplicação no amadurecimento das interpretações, visando aprimorar os resultados sonoros quanto à orquestração nas transcrições que fazia e quanto à qualidade do controle tonal ao violão. Tinha uma obsessão por trabalhar sonoramente os timbres de maneira que expressassem sentimentos e emoções.
Darcy Villa Verde tinha para ele que o clássico não poderia prescindir de alta musicalidade e emoção. Principalmente no estilo barroco, tendo em Bach seu principal representante. A propósito, compositor que mais admirava.
Desta forma, desde que começou a estudar visando se tornar um violonista clássico concertista, buscou aprimorar musicalmente – não apenas sonoramente – suas próprias interpretações, através da orientação de professores que elegeu para orientá-lo. Oswaldo Soares e Monina Távora foram seus dois primeiros professores que o ajudaram fortemente nesses primeiros movimentos de sua carreira.
Era comum vê-lo em seus estudos demonstrando os detalhes das alterações solicitadas por alguns maestros.
Dizia ele que era todo um mundo de experiências musicais registradas cognitiva, emocional e interpretativamente. Quando puxava uma delas, naturalmente por estarem vinculadas, vinham as outras.
Por decurso de prazo, tendo em vista a necessidade de uma sedimentação internacional de sua carreira e de seu nome como concertista de violão clássico, declinou do convite.
Aliás, apesar de gostar de lecionar a violonistas de grande talento, nunca assumiu nenhum tipo de compromisso que o mantivesse afastado da carreira de concertista que decidira realizar de maneira independente, o que lhe exigia maior presença e comprometimento com relação a quantidade de concertos e recitais que dava.
Eram tournées que mantinha todos eles muito afastados e isolados, rodando estradas de terra, vilarejos e cidades no interior dos estados, por meses e meses ininterruptos.
Toda essa iniciativa, apesar do bom retorno que gerava, criava, pelo distanciamento, uma espécie de solidão e agastamento.
O cachorro que não se separava dele, ficava sempre no camarim ou na coxia enquanto ele se apresentava.
Debaixo da boa recepção e das acaloradas palmas que recebeu, calmo que era, se acomodou aos pés de Darcy, e ali permaneceu com a anuência do dono, quieto e postado como uma estátua. Algo, que se repetiu por algumas poucas vezes nessa tournée, e que chegou na mídia dos jornais e nos blogs dos ‘futriqueiros’, para deleite da mídia e de alguns críticos mais ortodoxos.
Muitos, inclusive, vinham de outros estados para assisti-lo.
Inevitavelmente, como atuava independente das gravadoras e produtoras musicais, e não tinha como pauta o interesse de preservar registros, a não ser com relação ao que compilava para distribuir à própria mídia como divulgação do seu trabalho em outros países, assim que se aposentou, seu nome deixou de figurar na mídias.
Mesmo sem um histórico pessoal e profissional completo e fidedigno às ocorrências como elas se deram, agravado ainda mais pela falta de um acervo de gravações que primasse pelo o que Darcy Villa Verde alcançou e entregou musicalmente em seu tempo, o programa transmitido pela Rádio FM Cultura, prestigia enormemente este violonista que nos anos 60 a 80 se destacou como um dos nomes mais relevantes para a nossa cultura musical e como um dos mais importantes intérpretes do violão em seu tempo.
Esperamos que este ‘sitebook’ ajude os leitores a compreenderem melhor os pormenores da trajetória pessoal, musical e artística de Darcy Villa Verde, ao reajustar, com maior precisão, alguns dos relatos passados no programa a respeito deste músico.
Sem margem à dúvidas, destacamos que, em nosso entender, o programa do senhor Zanon, transmitido por uma das rádios mais importantes desse país, é de imensurável valor por resgatar a alma do violão ao coração da cultura da música e por realçar o esforço e o talento desses inúmeros músicos, ali apresentados, que lutaram por enriquecer e brilhar as páginas de nossa história e cultura do violão.








