Foto da casa de Darcy Villa Verde na praia do Leblon onde morou por 40 anos. Morava no andar térreo do prédio de 3 andares na orla marítima, em frente ao começo do 3º canteiro da Av. Delfim Moreira. 1960.

Passagens, reflexões e resumo.

CRENÇAS, VISÃO DE VIDA E PENSAMENTOS

Ao longo de sua carreira, Darcy Villa Verde fez diversos trabalhos sociais oferecendo recitais e concertos ‘pro bono’ em apoio a diferentes instituições, associações e organizações governamentais e não governamentais.
Dessa forma, podia participar socialmente doando o que tinha de maior valor: sua atenção e sentimentos através de sua música.
Foram recitais voltados à pacientes com câncer, comunidades carentes, Instituições de ensino, centros religiosos para levantamento de fundos beneficentes, hospitais, manicômios, sistemas prisionais e lar de idosos.
Foram inúmeras as associações, todas elas atendidas por Darcy, no intuito de ajudar a entreter, trazer cultura e atenuar suas dores com sua alegria e música.
Neste sentido, muitas apresentações se deram.

Isso, dizia, tem a ver com sua visão de religiosidade.
Sua religião, falava, era a sua música, onde buscava conexão com o ‘Criador’ de tudo.
A caridade como força mobilizadora humana e social praticada com a dignidade que não constrange quem a recebe, estimulando a todos a serem hoje, melhor do que amanhã. Pensamentos, estes, que pautaram a sua vida. O que não quer dizer que todas as suas ações foram acertadas, evidentemente.

Uma semana antes de sua ‘passagem’, dirigiu as seguintes palavras ao seu filho:

“Filho, tenho refletido muito sobre a minha vida e cheguei a conclusão de que vou mudar. Posso mudar e ser melhor em tudo.”

Nascido em família que estudava a Doutrina Espírita, Darcy trazia a ‘convicção’ e não a ‘crença’, (fazia questão de frisar) de que somos seres espirituais, almas ou campos mentais, que precedem a vida como a conhecemos e que retornam de onde vieram após a morte do corpo físico. Não via outra possibilidade existencial, a não ser a de que reencarnamos. Ou isso, ou realmente eu sou um gênio, dizia brincando.

Tinha para ele que a verdadeira religião deveria ser aquela em que o ser humano se sentisse parte de um todo, de uma criação atemporal e de uma inteligência causal, criadora, da qual fazemos parte e vivemos imersos em suas leis. Que a prática dessa religião deve ser a de se preocupar em não prejudicar o próximo e cuidar de ajudar a todo ser humano, ajudar sem distinção, sem mágoa, sem condicionamentos e ressentimentos, apenas pelo prazer emocional de ser útil a alguém.
Por conta disso, a grande angústia quando via a miséria social florescer diante dos recursos públicos que, apesar de abundantes, desapareciam enriquecendo os partidos daqueles que assumiram o compromisso de nos representar diante do estado de direito.

“Creio que a engenharia econômica social e política deste país deva ser algo bem complexo e que exige habilidades e valores cada vez mais escassos.
Basta ver as condições precárias em que nos encontramos, apesar dos enormes recursos recolhidos.
Mas difícil mesmo é ver o resultado dessa ausência de valores na falta de iniciativas de políticas públicas que vigoram cada vez mais e que terminam estampadas na miséria social e humana que se alastra por todo o país em regiões tão inóspitas que a maioria desconhece a existência ou lhes são indiferentes.”

…….

AMIZADE E VIOLÃO

Se tornar amigo de Darcy não significava necessariamente se tornar próximo do músico. Esse privilégio era de poucos.

Um bom exemplo, era o Osmar Abreu. Toda vez que Darcy Villa Verde retornava ao Brasil, Osmar, pai do duo Sergio e Eduardo Abreu, ia para a casa de Darcy no Leblon, na avenida beira-mar, Delfim Moreira, e ficava sentado ao lado de Darcy, no jardim de sua casa, observando-o estudar por horas enquanto tomava sol de frente para a praia. Um hábito que Darcy sempre manteve.

Outros tantos amigos conhecidos, apesar de curiosos, só podiam observá-lo estudar do lado de fora do muro da casa. Um muro de um metro e vinte, mais ou menos, de altura, em que as pessoas se debruçavam, e, ali, um tanto afastadas, passavam horas ouvindo as mesmas escalas que subiam e desciam tão rápido e tão cronometradas, que, invariavelmente, roubava um sorriso de alguém.

Osmar Abreu sempre pedia para Darcy tocar para ele o Prelúdio de Bach em Mi maior da 4ª suíte para alaúde, e Darcy que gostava muito do Osmar, além de admirar muito o trabalho de seus dois filhos, atendia o amigo com prazer e ficava estudando o prelúdio por duas ou três horas seguidas.

Conta-nos o filho de Darcy, que também acompanhava seu pai estudar desde criança, que um dia Osmar Abreu se levantou da cadeira ao lado de Villa Verde que estudava, virou-se para ele, que somava uns dez anos, e falou:

“Meu filho, se algum dia alguém disser que toca violão pra você, peça para tocar esta peça – apontando para Darcy que acompanhava a conversa sorrindo enquanto ‘passava’ o prelúdio de Bach.
Se ao tocá-la você não ouvir ‘esta música’ aqui que estamos ouvindo, o sujeito não toca é nada!”

– Osmar Abreu

Evidentemente uma força de expressão bem humorada para dizer o quanto admirava a interpretação de Darcy ao violão.

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O MÚSICO E A MÚSICA

Numa ocasião, por volta de 2004, Darcy Villa Verde foi acompanhar seu filho a uma visita em um asilo de cegas.
Lá se encontrava, já a alguns anos, uma querida amiga da família chamada Regina. Regina era cuidadora da avó paterna de Darcy, Dna Guiomar, que teve glaucoma e ficou cega. Regina cuidou dela até os seus últimos dias.
Regina posteriormente chegou até a trabalhar por um período na casa de Darcy Villa Verde quando seu filho somava uns 5 anos, mais ou menos.
Seu filho se afeiçoara a essa senhora e com o passar dos anos, depois de muito tempo sem ter notícias, a reencontra praticamente sem vista e internada num asilo dedicado a cuidar de idosas cegas; um asilo cuidado por freiras. 

Durante a visita, enquanto conversavam com Regina e algumas idosas presentes que tomavam sol em um ou dois bancos de jardim, uma delas se assusta ao ouvir o nome de Darcy Villa Verde.
Relata, ela, sob o peso da idade avançada, que em uma ocasião foi levada para ouvir alguém de mesmo nome tocar na Sala Cecília Meireles e que as músicas que ouvira ficaram registradas em sua memória emocional, tamanha sensibilidade do artista.

Ao descobrir, entre risos e assombros, que o artista em questão, sentado ao lado dela, era o próprio, a senhora começa a tremer e pede permissão para tocar suas mãos. passando os dedos sobre os calos da mão direita de Darcy, a senhora pousa o próprio rosto sobre as mãos de Villa Verde e chora copiosamente pelas lembranças que seus olhos fecharam.

“Suas mãos são abençoadas meu senhor, suas mãos são santas! Foram abençoadas por Deus para nos tocarem à alma pela música! Graças a Deus! Louvado seja Ele!”

– Uma senhora cega

Uma das raras vezes, conta seu filho, que viu o seu pai, entre desconcertos e espanto, rir e se emocionar ao mesmo tempo.

Assim que se recompôs, a senhora pediu permissão para beijar as mãos de Darcy e pelo avançado da hora, pediu para se retirar e se recolher ao seu quarto. Queria orar.

Mais tarde, Darcy Villa Verde comentou intrigado e reflexivo:

“Não fazemos ideia da responsabilidade e do peso dos nossos atos e do quanto eles impactam e representam para as pessoas, não é mesmo? Quando ela começou a falar e a chorar nas minhas mãos, desconcertei, e as imagens daquele concerto me vieram à mente, e de tão vivas, me emocionaram”, disse. 

– Darcy Villa Verde

…….

 
 

ERROS

No violão não se preocupava tanto. Estudava absurdamente e entrava em cena sempre muito preparado para seus recitais e concertos. A partir do momento que botava o pé no palco, seu coração e sua música o guiavam, nada mais importava.
Se a falta fosse de alguém dirigida a ele, mas desculpada com sinceridade, para Darcy não existiria mais falta alguma. 

“Já errei tanto e sofri tanto por isso, que não faz sentido algum cultivar mágoas e guardar desafetos. 
A vida passa rápida demais para preenchê-la com mais dor.
Basta aquelas que criamos para nós.

– Darcy Villa Verde

Darcy Villa Verde se apresentando na ABV-Associação Brasileira de Violão, início dos anos 70. Fundada em 1952, e tendo seu espaço na Rua do Mercado, 22, 4º andar, esta associação contou com a presença e apresentações dos principais violonistas da época. Darcy Villa Verde, sempre que retornava ao Brasil, era convidado a se apresentar nela, durante as décadas de 60 e 70. Tinha ali, grandes amigos e admiradores.  Nota-se o gravador de rolo, abaixo à direita, fazendo o registro da apresentação. Esta apresentação foi uma das raras vezes na qual permitiu que o gravassem. Tendo como uma de suas pautas, o incentivo da atividade violonística no país e a vinda de concertistas internacionais, Darcy era presença constante na Associação, sempre sob o pedido de Jodacil Damasceno que o tinha em alta conta, e que implorou a Darcy pela autorização de um registro cultural de seu trabalho, o que Darcy consentiu por respeito e seriedade de propósito. Muito poucos tiveram esta permissão de Darcy; Jacob do Bandolim foi outro que o gravou. Na seção dos ‘Arquivos’ deste ‘Sitebook‘, apresentamos algumas dessas músicas e um programa impresso, quando em uma de suas apresentações na ABV-Associação Brasileira de Violão, que fez junto a outros violonistas, no ano de 1964. 

Resumo *Bio

DARCY VILLA VERDE.
DIVULGAÇÃO DA MÚSICA CLÁSSICA E DO VIOLÃO COMO INSTRUMENTO DE CONCERTO EM TODO O BRASIL, NUMA INICIATIVA CULTURAL PIONEIRA EXECUTADA COM MUITA DETERMINAÇÃO, PERSISTÊNCIA E O TALENTO DE UM GRANDE MÚSICO E MAESTRO.

Darcy Villa Verde foi um violonista concertista erudito. 
Notabilizou-se por ser considerado uma das maiores expressões do violão clássico no Brasil e no mundo em seu tempo, e muito respeitado e apreciado pelo público e pela crítica devido a sua capacidade de elevar o sentido de erudição no violão clássico, como também por estender esta mesma capacidade ao violão popular. 

Apesar de ser brasileiro, nascido na cidade do Rio de Janeiro, casado com filhos, e de ter morado na praia do Leblon por mais de 40 anos, Darcy passou grande parte de sua carreira profissional na Europa, EUA, Ásia, e em diferentes localidades do Brasil e da América do Sul.

Nas décadas de 60, 70 e 80, Darcy notabilizou-se não só pela superioridade de execução e interpretação que deu ao violão clássico elevando-o em termos de igualdade a outros instrumentos solos, como também pelo pioneirismo na divulgação da música erudita e de apresentação do violão como instrumento de concerto em praticamente todo o Brasil. 

No intuito de construir público e divulgar a música clássica por meio das ‘tournées’ que fez em todo o Brasil, adicionou em seus programas, uma segunda parte de músicas populares brasileira e internacional para um maior engajamento do público, que interpretada com arranjos próprios, grande musicalidade e absoluto domínio técnico que desenvolveu, atraiu multidões para os teatros, difundindo a música clássica e sedimentando o seu nome como um marco do violão, em seu tempo.

Um feito enorme para um violonista clássico, nesta época, que atuou prevalentemente em apresentações solo.

Foram milhares de concertos ao longo dos anos e diversos Workshops, Seminários e apresentações-aulas, vinculadas às Secretarias da Cultura em diferentes estados.

Houve períodos mais intensos em que precisou assumir bem mais de cem apresentações por ano, o que o manteve distante por muito tempo da família que amava, e de outros compromissos importantes.

Isso fez de Darcy Villa Verde, pelas palavras de Isaac Karabtchevsky, um dos músicos que mais atuou para o desenvolvimento da cultura musical violonística no Brasil.
Isaac Karabtchevsky não só falou, como declarou isso de público e por escrito, porque assistiu, participou e acompanhou.
Quando perguntado do que achava de Darcy Villa Verde como músico e de seu trabalho no violão, resumiu: “Como músico violonista acho ótimo, como músico e divulgador da sua arte e da cultura, um exemplo a ser seguido.”

Suas apresentações, muitas das vezes, parte de projetos culturais, se estenderam das capitais aos vilarejos nos sertões e comunidades indígenas, levando compositores como Alessandro Scarlatti, Johann Sebastian Bach, Georg Friedrich Häendel, Joseph Haydn, Sor, Villa-Lobos, Isaac Albeniz, Granados, Walton e muitos outros, a todo tipo de plateia, indistintamente.

Importa notar que Darcy Villa Verde não se rendeu a popularizar o seu programa em função de tocar para um público de pouca erudição.
Abraçado ao projeto cultural de divulgar e tornar a música clássica acessível no Brasil, junto a Isaac Karabtchevsky e ao pianista Jacques Klein, fez questão de levar um repertório erudito e elitizado culturalmente, encontrando eco na sensibilidade e na alma do povo brasileiro pela forma musicalmente rica e dinâmica com que apresentava tão valioso material.

Conversando informalmente com a plateia, Darcy Villa Verde, também de forma pioneira, ilustrava suas execuções com informações sobre os compositores e sobre a história e a riqueza do violão.
E iniciou este trabalho desde da década de 60.
Caso achasse oportuno, contemplava o público acrescentando um segundo momento musical, mais informal, que apesar de quebrar protocolos, transbordava a mesma erudição dos clássicos em peças populares, realçando o colorido da música brasileira com uma rica variação de efeitos tímbricos, sonoros e percussivos, que em suas mãos adquiriam uma maioridade em termos de dimensão técnica, intensidade e expressão sonora e musical.   

Esperado, que algumas dessas apresentações se fizessem memoráveis para aqueles que tiveram a oportunidade de presenciá-las e de testemunhar um artista de seu porte apresentar um repertório tão eclético, com tanta musicalidade, brilhantismo e com uma sonoridade e interpretações tão diferenciadas. Qualidades, essas, que concederam a ele os títulos de ‘Monstro’ e de ‘Gênio’, e que apesar de recusá-los, fez por merecer cada um deles.
Suas interpretações chegaram a ser consideradas, por nomes respeitados em todo o mundo da música, como ‘transcendentes’,  ‘etéreas’ e até ‘divinas’.

Darcy Villa Verde, também foi um dos músicos concertistas que mais se destacou no uso da mídia, o que o ajudou a atingir grande notoriedade e destaque não só no Brasil como em grande parte dos EUA e da Europa nos anos 60 e 70.
Devido a todo este reconhecimento, também foi um dos poucos violonistas que se apresentou em teatros e salas de concerto reservadas a grandes apresentações de orquestras, óperas e corpos de balé. 

Sua capacidade de extrair o som e modelá-lo em grande volume, sem perder as delicadas nuances das inúmeras variações de timbres que produzia, permitia que se apresentasse acusticamente em teatros para mais de 1500 pessoas, sem nenhum tipo de recurso de amplificação. 
Os teatros e salas de concerto em que se apresentou na Europa, nos EUA, na Ásia e na América do Sul, figuram entre os mais reconhecidos da música clássica.

“Musicalidade singular, técnica irrepreensível e alta interpretação”. 

Quando o fator determinante de um concertista é a soma de todos esses valores, é natural que as pessoas queiram dividir a experiência dessas impressões com todos.

Essa provavelmente a razão de quem o assistia não medir palavras para descrevê-lo. Porque descreviam emoções e experiências.

Darcy Villa Verde atuou sempre de forma independente.
Sem acordos, concessões e interferências de gravadoras, distribuidoras e produtoras musicais que comprometessem o que idealizava.
Isso lhe concedeu maior autonomia e liberdade de se conduzir profissionalmente em termos de propósito musical e cultural.
Além disso, confiante e seguro com relação às próprias ideias e escolhas, pôde definir seu próprio caminho da maneira como entendeu melhor – repertório, projeção do nome, divulgação dos recitais, compromissos de agenda e remuneração – alcançando o seu espaço no mundo da música clássica internacional, e se posicionando como um dos maiores expoentes do violão em seu tempo.
Tal forma de proceder favoreceu a ele um retorno e reconhecimento profissional tão surpreendente, que permitiu que gravasse o próprio nome na história da música clássica concertista, por quase três décadas, de uma forma como poucos conseguiram.
Em contrapartida, essa decisão e modo de operar, que o manteve afastado de toda uma indústria, ajudou a preservar seu nome fora dela. 

“Sem ressentimentos”, diria mais tarde, “Foi uma escolha calculada”.
Como sua
preocupação na época era com a construção de uma marca no coração de seu público, com o compromisso de divulgar a música clássica em todo o território brasileiro e com o objetivo de sedimentar o violão como um instrumento de concerto, viveu cada momento com grande intensidade e realizou o seu sonho com muita determinação, persistência e talento.

Grande comunicador, senhor de si, e bastante lúcido quanto a forma como a indústria da música e o meio musical manuseavam os artistas, o aproveitamento da mídia e os ganhos, priorizando sempre o lucro a despeito do que pudesse causar em termos de prejuízo a terceiros e à própria cultura, decidiu por caminho próprio, procurando cercar-se de profissionais que pudessem compreender suas ideias e auxiliá-lo nesta tarefa inacabável e colossal de se vender nacionalmente, sem se render ao mercado. 

Respeitava e valorizava muito o trabalho de um bom empresário, mas combateu fortemente a cultura de remuneração predatória dos agenciadores, produtores e gravadoras do meio musical que viviam de vampirizar e de interferir no produto final do músico e artista, visando apenas retornos imediatos.

Quando a música digital surgiu no mercado e implodiu a indústria fonográfica com todas as suas consequências, o mercado abriu as portas para produtos ainda mais imediatos e descartáveis, sinalizando a necessidade de que classe dos músicos precisava se reunir para se reinventar e se adaptar a uma nova era.
Tempos novos, exigiam medidas novas. 

Darcy acreditava que se a classe dos violonistas se reunisse para reagir a esse novo momento, as coisas poderiam melhorar. Mas isso não se deu, o que ajudou a agravar ainda mais a situação do violão no Brasil para as futuras gerações.

A geração de violonistas que o assistiu foram aos poucos nos deixando, e por ser avesso a gravações, decidiu não deixar registros, o que colaborou ainda mais para que seu nome fosse sendo esquecido.

Darcy era da opinião que a experiência emocional que suas execuções produziam musicalmente em palco não podiam ser reproduzidas e nem registradas em um vinil ou CD, e segundo os depoimentos daqueles que o assistiram, não estava de todo errado. 

O senso comum é que a experiência musical ao assisti-lo era intensa e muito ‘orgânica’, totalmente distante do que uma gravação pode alcançar.
Era um recital que se transformava numa grande e memorável experiência de música clássica e erudita.
A emoção criada e sustentada pelas suas interpretações criava uma espécie de enlevo na atmosfera do teatro. E isso, dito por quem o assistiu inúmeras vezes e se arriscou a gravá-lo, mesmo sem o seu consentimento. 
Se era marketing ou não, verdade seja dita, o fato de todos saberem que ele não aceitava gravar estimulava ainda mais o público a procurar assisti-lo todas às vezes que vinha ao Brasil.

Mas tal decisão cobrou o seu preço.
Depois que parou de atuar profissionalmente, desapareceu da mídia e das páginas da história da nossa música. Páginas que ajudou a escrever ao longo de 50 anos e que impressionaram e marcaram a memória do mundo e da nossa cultura.

O tempo, de fato, pode guardar a história, mas o desejo de construir uma vida, nos remete sempre ao valor de parar para reler e repensar o passado, aprendendo com aqueles que se tornaram o motivo de nossa razão de ser; para podermos achar nossa inspiração; para podermos partir de seus aprendizados; para podermos acreditar que alcançar um sonho é algo totalmente possível, mesmo que com muitas páginas de sofrimento e esforço, de determinação e superação.

Foi assim com Segovia que se inspirou em Llobet; foi assim com Darcy Villa Verde que se inspirou em Segóvia e em Ida Presti; e será assim com qualquer violonista que quiser tocar profissionalmente; que quiser aprender que mais importante do que dominar absolutamente o violão, é se deixar absorver por esse completo domínio para, só então, poder expressar a música como a sente.

Evidente, já que Darcy Villa Verde soma milhares de apresentações em diversos salas de concertos no mundo, que deva haver muito material a espera de um trabalho de pesquisa e curadoria, no intuito de ajudar a resgatar seu nome como parte de um acervo musical e cultural de grande valor e importância para o violão brasileiro e internacional, uma verdadeira escola nesta tão desafiadora arte. 
A propósito, caso alguém tenha em sua propriedade algum material ou conheça alguém que o tenha, que busque nos informar e o divida conosco, enviando-o para que possamos analisá-lo e, através dos meios devidos (uma vez que tudo relacionado a Darcy Villa Verde está sob os direitos e os cuidados de seu filho, também de nome Darcy), possamos analisá-lo, validá-lo e cuidar de trazê-lo a público, enriquecendo esse acervo tão importante na história do violão.

Nos últimos anos, diante do interesse e curiosidade natural em se buscar saber mais a respeito do violonista internacional Darcy Villa Verde, em função da notícia de sua ‘passagem’ em 2019, e da total ausência de informações na internet a seu respeito, muitas histórias surgiram na internet e nas redes sociais, relacionadas a sua vida musical e artística.
A maioria delas, apresentados de forma imprecisa e fora de contexto, não correspondem a como as circunstâncias se deram, o que já era esperado.

A desinformação gerada pela falta de conhecimento dos fatos por inteiro, 
geraram imprecisões e narrativas que mais colaboraram para criar uma imagem desfocada e excêntrica de sua pessoa.
Isso, porque 
Darcy Villa Verde não tinha o hábito de falar de si mesmo e nem de seus feitos, mesmo àqueles que lhe eram mais próximos, e quando o fazia era sempre muito econômico e discreto.
Pelas histórias e dramas a que esteve submetido com relação às circunstâncias de sua vida, e pelo forte temperamento e posicionamento que assumiu desde então, destoava da maioria dos seus pares, o que exige ainda maior precisão de detalhes quanto a determinadas ocorrências e ao contexto em que essas ocorrências se deram.
 
Achamos conveniente, em função do que acabamos de expor, esclarecer e contextualizar alguns desses relatos, no sentido de evitar narrativas equivocadas que não correspondam ao que Darcy foi como homem, músico e artista.
 
Em respeito a Darcy, não adentraremos questões pessoais, apenas o necessário para esclarecer alguns pontos obscuros de sua trajetória artística e musical.
 
Os esclarecimentos trazidos em resposta às questões encontradas na mídia, além de terem sido transcritas dos próprios depoimentos gravados de Darcy Villa Verde e complementadas  por dados e documentações existentes, algumas delas já disponíveis no acervo deste ‘sitebook’, foram complementadas por um de seus filhos com quem Darcy tinha canal direto e exclusivo sobre todos os detalhes de sua vida.
 
Como poderemos verificar, tão importante quanto saber o que realmente aconteceu, é por que aconteceu.
 
 
 
 
Sobre Darcy não saber ler música e tocar tudo de ouvido.
 
A única situação em que isso se deu realmente foi no Concurso Internacional da ORTF em Paris, no ano de 1966, quando comunicou que não iria cumprir o quesito de leitura à primeira vista.
Sabia ler música, evidentemente, mas não tinha leitura fluente para ler e tocar ao mesmo tempo.
Darcy Villa Verde que já tocava violão popular desde os 4 anos de idade, começou com os exercícios para violão clássico aos 25 anos de idade. Uma decisão inspirada e decorrente do recital que assistiu de Andrés Segovia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1958; começou a construir um repertório de violão clássico, 6 anos antes do concurso de Paris, quando somava 27 anos de idade. 
Tirava o que quisesse de ouvido desde criança, é verdade, tanto no clássico como no popular, e assim que começou com os estudos do erudito, fez inúmeras transcrições e arranjos para as peças clássicas que tocou, mesmo sem dominar leitura à primeira vista, pois aos seus 32 anos, já conhecia relativamente bem a parte teórica desde que começara a estudar, aos 16 anos, com o maestro Nelson Piló. 
 
Lia as partituras, mas ainda não tinha leitura treinada à primeira vista, ou seja, ler uma partitura totalmente desconhecida e executá-la imediatamente, lendo todas as vozes simultaneamente, mantendo o ritmo, o andamento e toda a sua articulação.
Seu início tardio levou-o a buscar maior aplicação
 no amadurecimento das interpretações, visando aprimorar os resultados sonoros quanto à orquestração nas transcrições que fazia e quanto à qualidade do controle tonal ao violão. Tinha uma obsessão por trabalhar sonoramente os timbres de maneira que expressassem sentimentos e emoções.
Darcy Villa Verde tinha para ele que o clássico não poderia prescindir de alta musicalidade e emoção. Principalmente no barroco e em Bach, compositor que mais admirava.
 

Desta forma, desde que começou a estudar visando se tornar um violonista clássico concertista, buscou aprimorar musicalmente – não apenas sonoramente – suas próprias interpretações, através da orientação de professores que elegeu para orientá-lo. Oswaldo Soares e Monina Távora foram seus dois primeiros professores que o ajudaram fortemente nesses primeiros movimentos de sua carreira. 

Em suma, Darcy, no início dos anos 60, priorizou as interpretações e só então cuidou de tornar a leitura fluente. Uma questão que ficou resolvida pouco tempo depois, mas que não causou nenhuma espécie de impedimento, tendo em conta que nunca se valeu deste recurso – leitura à primeira vista – em nenhuma de suas apresentações.
Os concertos que chegou a tocar com orquestras, de A. Vivaldi e J. Rodrigo, por exemplo, já estavam muito trabalhados e memorizados pelos anos de estudo. Quando Villa Verde queria alterar qualquer acentuação e apontamento, memorizava tudo a ser feito, na hora, e ‘cravava’ na apresentação, nunca mais esquecendo.

Era comum vê-lo em seus estudos demonstrando os detalhes das alterações solicitadas por alguns maestros.

Sua memória era realmente algo impressionante.
Dizia ele que era todo um mundo de experiências musicais registradas cognitiva,  emocional e interpretativamente. Quando puxava uma delas, naturalmente por estarem vinculadas, vinham as outras.
 
Em 1971, após sua primeira série de apresentações que teve seu início marcado com o seu recital no Carnegie Recital Hall, em Nova York, e que contou com a presença de alguns dos diretores do Conservatório de Paris,  Darcy Villa Verde foi oficialmente convidado a integrar o corpo docente do Conservatório e a lecionar violão clássico em Paris.
Por decurso de prazo, tendo em vista a necessidade de uma sedimentação internacional de sua carreira e de seu nome como concertista de violão clássico, declinou do convite.
 
 
 
Sobre Darcy Villa Verde se apresentar com o seu cachorro no palco em um de seus recitais.
 
O trabalho de divulgação do violão como instrumento de concerto e de desmistificação da música clássica em todo o território nacional, foi para Darcy Villa Verde e sua equipe, muito desgastante e penoso.
Eram tournées que mantinha todos eles muito afastados e isolados, rodando estradas de terra, vilarejos e cidades no interior dos estados, por meses e meses ininterruptos.
Toda essa iniciativa, apesar do bom retorno que gerava, criava, pelo distanciamento, uma espécie de solidão e agastamento.
Querendo amenizar as circunstâncias e usufruindo do enorme prestígio que tinha, e que lhe concedia certas quebras de protocolo, Darcy resolveu levar o seu cachorro, um “Setter Inglês” para acompanhá-lo em uma de suas inúmeráveis tournées que ocuparia um período menor de tempo.
O cachorro que não se separava dele, ficava sempre no camarim ou na coxia enquanto ele se apresentava.
Em uma ocasião, enquanto explicava sobre as dificuldades técnicas de uma das peças de seu repertório, fez uma menção ao compositor e à musa inspiradora daquela obra, roubando muitas risadas e palmas da plateia.
O cachorro que estava deitado atrás da cortina, sem que ninguém notasse, se assustou com o barulho, se levantou devagar e atravessou as cortinas indo até Darcy Villa Verde no centro do palco, verificar se ele estava bem, e surpreendendo a todos pelo inusitado da cena.
Debaixo da boa recepção e das acaloradas palmas que recebeu, calmo que era, se acomodou aos pés de Darcy, e ali permaneceu com a anuência do dono, quieto e 
postado como uma estatua.
Algo que se repetiu por algumas poucas vezes nessa tournée, e que chegou na mídia dos jornais e nos blogs dos futriqueiros, para deleite de alguns críticos mais ortodoxos.
 
 
 
Sobre como um músico da dimensão de Darcy Villa Verde ter sido um marco no violão clássico, ter conquistado o público e a mídia em seu tempo, e mesmo assim, não constar na memória da música brasileira.
 
Um conjunção de fatores contribuíram para isso.

De fato, Villa Verde esteve presente na mídia de massa por mais de 20 anos, no Brasil e também no exterior.
Conhecido que era por todo o movimento do violão no Brasil, quando vinha do exterior cumprir qualquer agenda, contava sempre com a presença da maioria dos violonistas daqui, que nunca faltavam em seus recitais e concertos. 
Muitos, inclusive, vinham de outros estados para assisti-lo.  

Ao longo de todos esses anos em que se apresentou profissionalmente, seu nome ocupou forte presença na mídia de revista, jornais, rádio e principalmente TV, a ponto de ser consecutivamente um dos músicos mais lembrados nas pesquisas anuais do Ibope e do Marplan.

Mas como atuava independente das gravadoras e produtoras musicais, e não tinha como pauta o interesse de preservar registros, a não ser com relação ao que compilava para distribuir à própria mídia como divulgação do seu trabalho em outros países, assim que se aposentou seu nome deixou de figurar na mídias.

Já estabelecido economicamente, após ter dado por concluído o seu projeto de divulgação do violão como instrumento de concerto ao longo de mais de 10 anos; de ter atuado fortemente na desmistificação da música erudita no Brasil, e de educado, formado e fidelizado um público nacional e internacional, terminou optando por permanecer, a partir do final dos anos 80, no exterior.

Somado a este distanciamento com relação ao Brasil, mesmo com toda a notoriedade que alcançou, não podemos desconsiderar que a decisão que tomou de não gravar nenhum disco ou CD, e de ter procurado atuar de forma independente, ou seja, livre da influência das gravadoras e do mercado de eventos e de consumo de recitais e shows, contribuiu para que seu nome não constasse nas listas dos álbuns das gravadoras e nem dos índices remissivos relacionados a esses espaços.

Outra questão que contribuiu também para o seu desaparecimento da mídia, foi quando diminuiu a intensidade de suas apresentações nos anos 80, optando por apresentações privadas, mais pontuais, que remuneravam mais e que o desgastava menos. Uma cultura de apresentações que aprendera a desenvolver em Paris, nos anos 60. 
Algumas apresentações a público ainda se davam, a exemplo dos ocorridos no Teatro Municipal das cidades do Sul do Brasil, na Sala Cecília Meireles no Rio de Janeiro, no Teatro Cólon de Buenos Aires, no Solís de Montevidéo, e em inúmeras cidades do Sudeste e Nordeste do Brasil. 

Seu afastamento de uma agenda mais sobrecarregada, culminou com certas mudanças que ele mesmo definiu para a sua carreira, em função de uma dormência que o acometeu na mão direita, em meados dos anos 80, e que começou a sinalizar um comprometimento de sua habilidade ao violão. 

Neste mesmo período resolver dar sua carreira internacional de alta performance, por encerrada, definitivamente.

Com o passar do tempo, rapidamente sua dormência diagnosticada como Síndrome do Túnel do Carpo, progrediu para a perda total de sensibilidade dos dedos da mão direita – polegar, indicador e médio – e evoluiu das Lesões Por Esforço Repetitivo – LER para um diagnóstico de Osteoartrite, em detrimento do histórico genético de sua família.
Tocando mais esporadicamente, se preservava dos sintomas que lhe imputavam dores profundas e, cada vez mais insuportáveis, controladas unicamente a base de metabólito de corticosteroides e morfina, medicações fortíssimas com efeitos colaterais de alto risco.
Desde então, Darcy tocava apenas com a memória da parte dinâmica, se guiando pelo retorno do som que produzia nas cordas, e fazendo ajustes no ‘ataque’ da mão direita, em função do resultado da sonoridade que produzia. 

Sua gravação em 2005, que fez atendendo o pedido de seu filho, foi feita nestas condições. 

Em função das escolhas que fez, alguns podem considerá-lo como principal responsável pelo seu próprio esquecimento. Mas o motivo de não ser lembrado e nem citado pelo próprio movimento do violão e nem pelos seus pares; de não fazer parte das páginas de nossa história cultural musical; e de também não constar em nenhum tipo de acervo sobre violonistas e violão, depois de quase 30 anos de uma carreira estrondosa e consistente, só reforça a fragilidade humana daqueles que, mesmo cientes, a tudo observaram em silêncio. E, mais ainda, enfatiza a necessidade de uma atenção maior quanto à responsabilidade de se preservar o nome daqueles que dedicaram a vida à nossa cultura, à nossa arte e ao violão.

Não seria justo, deixar de pontuar casos de exceção, como o do programa “Violão com Fábio Zanon”, em que o apresentador resgata o violonista Darcy Villa Verde, disponibilizando, inclusive, algumas das gravações particulares feitas em 2005 pelo filho do artista.
Mesmo sem um histórico pessoal e profissional completo e fidedigno às ocorrências como elas se deram, agravado ainda mais pela falta de um acervo de gravações que primasse pelo o que 
Darcy Villa Verde alcançou e entregou musicalmente em seu tempo, o programa transmitido pela Rádio FM Cultura, prestigia enormemente este violonista que nos anos 60 a 80 se destacou como um dos nomes mais relevantes para a nossa cultura musical, e como um dos mais importantes intérpretes do violão em seu tempo.

Esperamos que este ‘sitebook’  ajude os leitores a compreenderem melhor os pormenores da trajetória pessoal, musical e artística de Darcy Villa Verde, ao reajustar com maior precisão alguns dos relatos passados no programa. 
Ressaltamos que as observações de nossa parte, referem-se especificamente ao programa sobre Darcy Villa Verde. 

Sem margem à dúvidas, destacamos que, em nosso entender, o programa do senhor Zanon, transmitido por uma das rádios mais importantes desse país, é de imensurável valor por resgatar a alma do violão ao coração da cultura da música.

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