EUA
A década de 70 iniciou trazendo pela primeira vez Darcy Villa Verde da Europa, de onde estava sediado, para os EUA e inaugurando dessa forma uma nova fase de consolidação como músico e concertista internacional.
Os recitais e concertos que deu a partir daí, aumentaram ainda mais a projeção de seu nome no meio musical, garantindo público e presença nas agendas dos principais teatros e salas de concerto, principalmente por conta das críticas que começou a colecionar por conta de suas interpretações.
Seu nome aparecendo na mídia, começa a chamar a atenção de músicos e intérpretes, atraindo-os aos seus recitais e posicionando-o como um violonista que transita num “plano sonoro interpretativo novo e inusitado”.
De acordo com os depoimentos de alguns músicos eruditos e jazzistas, Darcy Villa Verde era “um violonista que destaca-se do mundo tradicional do violão”.
Sua personalidade, indubitavelmente, contribuía para isso.
Darcy Villa Verde era um agregador.
Sempre irreverente, divertido, leve e ao mesmo tempo intenso e expressivo na forma de viver e tocar, continha seu temperamento dosando-o na medida certa para poder trafegar dentro dos ambientes, os mais distintos ou ‘plurais’ que a música o levasse.
Assim, criou proximidade com um grande e variado meio de músicos e artistas, intérpretes e produtores que, muitas das vezes, no interesse de assistí-lo, se cruzavam em ambientes totalmente alienígenas ao próprio mundo do qual faziam parte.
Podemos, inclusive, afirmar que sua personalidade, carisma e algumas de suas atitudes e comportamentos foram responsáveis por esse efeito que causava nas pessoas, de não só cativar a admiração pelo músico que se tornara, como também pelo artista e ser humano que era.
O resultado disso é que quando ia se apresentar, contava com a presença de músicos e produtores de diferentes universos da música que buscavam assistí-lo, ainda mais porque, diziam, a emoção que emanava ao tocar “transpira tão pura música e sensibilidade que pode parar uma guerra”.
Deixando a figura de linguagem do senhor Harry Belafonte de lado, colocações como essa só enfatizavam o ponto colocado de que a musicalidade e a emoção que ‘transpirava’ no palco de seus recitais e apresentações, pairava no ambiente e tinha o poder de convergir a presença de diferentes gêneros e estilos de músicos em um mesmo espaço.
O leitor certamente encontrará nesta declaração um exagero desmedido, mas foi como Harry Belafonte se expressou, após ouvi-lo tocar.
Quando alguém resolve se expor na mídia com esta intensidade e reverência sobre como se sentiu com relação ao trabalho de um músico, e esse alguém sendo Harry Belafonte, isso chama a atenção do mundo com relação à capacidade que Villa Verde tinha , como músico, de acessar íntimamente a alma de seu público com suas interpretações.
E isso é mídia.
Exemplos desses, ocorrido no próprio EUA, foi a presença de inúmeros nomes conhecidos do Jazz e da música internacional em suas apresentações nas casas noturnas, assim como em seus grandes recitais, a exemplo do que se deu no Carnegie Hall em Nova York e no Gaston Hall em Whashington DC, por exemplo.
Concertos e recitais nas dimensões que chegou a dar nesses grandes teatros pelo mundo, somados às declarações e depoimentos recolhidos após os concertos, de músicos como Duke Ellington, Sarah Vaughan, Ethel Smith, Vladimir Bobri, Lorin Maazel, Oscar Peterson, entre outros, foram responsáveis, na época, por lançar o nome de Darcy Villa Verde no mercado da música ‘erudita’ internacional.
Não se tratava mais de buscar conquistar o seu espaço como violonista clássico, mas de se ver reconhecido na mídia como um músico capaz de dar erudição a tudo que tocava.
Isso de certa forma o pegou desprevenido, pois rompeu expectativas que traçara para si mesmo profissionalmente. O público o procurava para ver a erudição que imprimia no repertório clássico com interpretações reconhecidas pela crítica como ‘dificílimas’ e ‘seculares’, que ‘sensibilizavam a alma’, e ao final era contemplado com essa mesma erudição nas peças de ‘bis’ que se estendiam a um seleto repertório popular deixando a todos ‘extasiados pelo controle rítmico e técnico absoluto que demonstrava ao violão’, ‘transparecendo absurda facilidade nas suas execuções’.
Um outro grande exemplo do impacto de suas apresentações, este ocorrido na Ásia, foi o concerto no Grand Hall da Latvijos Filharmonija em Vilnius, Lituânia, com a presença na plateia do grande organista erudito Checo, Jiří Reinberger, especialista em J. S. Bach, que teve o seu apogeu em meados do séc. XX.
Tratava-se de uma verdadeira lenda, que assumiu a direção acadêmica nos Conservatórios de Brno e de Praga; um associado na Academia de Música e Artes de Praga e que foi professor de numerosos organistas checos e estrangeiros que incluem nomes como os de Lubina Holanec, Jan Hora, Neva Krasteva, Giedrė Lukšaitė-Mrázková e Václav Rabas, além de trabalhar para Rieger-Kloss e de ser consultor na construção destes instrumentos, tanto na Checoslováquia como em Bucareste, Cairo, Moscow (Sala de Concertos Tchaikovsky na qual Darcy Villa Verde se apresentou), Leningrado, Tallinn e Toronto.
O interesse de Jiří Reinberger em Darcy Villa Verde se deu através de um violinista, seu amigo, que se encantara com a apresentação e a musicalidade de Darcy ao assisti-lo num de seus concertos na Europa.
Ao tomar conhecimento, no camarim, após sua apresentação, no dia 21 de setembro, que o homem que o cumprimentava, encantado com suas interpretações era Darcy Villa Verde, e que o mesmo se apresentaria no mesmo teatro no dia seguinte, quatro horas após a sua segunda e última apresentação, Reinberger decidiu por cancelar seus compromissos pessoais e aguardar para assistí-lo tocar.
Ao final pôde retribuir-lhe o respeito e dizer que a primeira coisa que faria ao sair dali seria ligar pro tal amigo, para agradecê-lo e poder dividir suas impressões sobre o recital que acabara de ver, pois estava diante de um músico raro, possuidor de um talento enorme.
Disse Reinberger, “Suas interpretações de Bach e Villa-lobos são históricas”.
Situações e circunstâncias como essas, dizem muito de Darcy Villa Verde como músico e artista, ao mesmo tempo. Pois sob o impacto de cada uma delas, Villa Verde testemunhava o resultado de seu trabalho ao ver as portas se abrindo para apresentações que surgiam de maneira inusitadas e surpreendentes para ele.
Foram apresentações importantes como as que se deram no Carnegie Hall, que lhe renderam as melhores críticas e lhe deram acesso a inúmeras outros recitais pela costa leste; a do Lincoln Center for the Performing Arts em que se apresentou substituindo Julian Bream no Alice Tully Hall, e na qual, a pedido do público, o levou a ser convidado a repetir a performance no “Performing Arts Library”; a do recital na New York Society of The Classic Guitar em que foi homenageado por Vladimir Bobri que o apresentou a sociedade de música do violão erudito de Nova York; a do concerto que deu no Cooper Union Great Hall; a do recital no Gaston Hall, assim como as dos recitais nas associações artísticas e de música em que teve a oportunidade de ampliar sua rede de contatos com futuros produtores e patrocinadores; podemos destacar os programas na TV em que participou tocando e dando entrevistas como o do “Ed Sullivan Show”; os programas de rádio como o “Voz da América” em que após uma longa entrevista foi convidado a tocar por mais de meia hora; as apresentações nas casas de inúmeras estrelas e personalidades da música erudita e do jazz; as apresentações e shows que fez em boates como a Showman’s Jazz Club e a Minton’s Playhouse; os projetos culturais que abraçou de divulgação da música erudita nas universidades da costa leste americana e que teve como última apresentação, um retorno ao “Gaston Hall of Georgetown University” em Whashington DC; além de tantos outros como o executado no ‘The Center for Inter-American Relations’ quando foi convidado a fazer uma apresentação reservada a um grupo de personalidades do estado com a presença de todo um corpo diplomático. Todas elas, apresentações que ajudaram a projetar Darcy Villa Verde de maneira direta no coração e no gosto musical e artístico norte-americano.
Como dito, agendas de teatros e salas que são normalmente preenchidas com anos de antecedência, iam se abrindo para recebê-lo nos palcos, como que compensando, de certa forma, um aparente começo tardio.
Outro fato interessante foram os contrastes que as próprias decisões de Villa Verde definiram em sua trajetória profissional.
Apesar de ter vivido uma ascensão muito rápida depois que se lançou na Europa e nos EUA como concertista internacional, suas vindas ao Brasil, quando não ficavam restritas a algumas apresentações pontuais, podiam assumir incursões através dos estados brasileiros em um sem número de ‘tournées’ que o colocavam diante de uma verdadeira prova de resiliência e resistência, em nome da cultura e de seu amor pelo violão e pelo Brasil.
Sair se apresentando em centenas de cidades do interior, ano a ano, meio a estradas inóspitas para desenvolver o seu trabalho de divulgação do violão como instrumento de concerto, ao mesmo tempo em que trabalhava em projetos que primavam pela difusão da música clássica no Brasil, foi um feito merecedor de muito reconhecimento.
E esse reconhecimento veio.
‘Um músico único aprisionado em seu tempo.
A grande questão que sempre permeou a trajetória profissional de Darcy Villa Verde, principalmente no Brasil, é que ele sempre quis autonomia com relação a tudo o que dizia respeito à sua carreira.
Não gostava e, muito menos, admitia a interferência de produtoras, gravadoras e agenciadores ditando regras ou interferindo no perfil e qualidade de sua música.
Contratos predatórios, remunerações abusivas, agendas apertadas ou oportunistas, informalidade excessiva, ‘jabás’, edições não autorizadas, interesse financeiro a qualquer custo ou acima de tudo, descompromisso com a cultura, falta de erudição, negociação paralela, falta de aporte, precariedade de recursos, favorecimentos pessoais, concessões abusivas e imorais, inadimplência, entre outras questões não menos graves.
Se nos contratos com produtoras de renome precisou se impor, não desejava assumir este parâmetro como caminho de trabalho.
Desta forma, decidiu por seguir independente.
Isso lhe custou maiores esforços, gerou um distanciamento da indústria e até de alguns movimentos do meio do violão, mas que concedeu muita autonomia e que lhe rendeu maiores remunerações.
Apesar de ter escolhido assumir uma carreira desenlaçada da indústria, o que lhe fechou muitas portas por não compactuar com determinados ‘acordos’ que o setor impunha, Villa Verde alcançou as agendas mais importantes do mundo e o coração do grande público no Brasil e em muitos países.
As produtoras e as gravadoras ficaram admiradas de como ele conseguiu ir tão longe de forma independente.
O senhor Bhaskar Menon, um dos executivos da indústria na época, depois de assisti-lo tocar e conhecê-lo mais de perto, declarou que o seu jeito de conduzir a própria carreira era realmente admirável, impressionante mesmo, mas que não selava compromisso com a perpetuação do próprio trabalho e marca que ele tão bem sabia promover. Que se arrependeria mais tarde.
De fato, sem gravar discos, sem os recursos de documentação de gravadoras, sem registros na indústria da música, apenas com a exposição expontânea na mídia que conseguia através do resultado de seus recitais e do trabalho de relações públicas que a sua equipe fazia, Darcy Villa Verde, apesar de muito presente na mídia, foi, com o tempo, ficando sem uma memória de seu trabalho e com registros de difícil acesso.
Ou separava as matérias dos jornais e montava um acervo próprio, o que muitos buscavam fazer na época, ou ficava sem acesso fácil a esse histórico.
Ir na contramão de todo o sistema da indústria da música, teve um custo.
Apesar das milhares de reportagens, entrevistas em jornais e revistas de grande circulação [mais de 4.000 registradas e catalogadas]; dos inúmeros programas de televisão, dos documentários e especiais que fez nas emissoras de TV e de Rádio de maior audiência na sua época; dos concertos e recitais emblemáticos que deu; do trabalho de divulgação da música clássica e do violão como instrumento de concerto em milhares de cidades por todo o Brasil; de programas feitos no exterior divulgando a música brasileira clássica e popular; de ter participado de corpo presente nos movimentos do violão brasileiro, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo; de ter sido considerado pelas pesquisas do IBOPE e dos Estudos Marplan, como o primeiro nome em música clássica de todo o Brasil ao lado de Isaac karabtchevsky e Jacques Klein; de ter superado expectativas e de ter se mantido como um dos músicos mais importantes e em evidência de seu tempo, por quase 3 décadas, Darcy Villa Verde terminou aprisionado em seu tempo.
Focado em viver intensamente a história do violão e realmente despreocupado em se preservar como parte dela no futuro, Darcy Villa Verde prosseguiu caminho próprio lançando mão de recursos que elaborava cuidadosamente com sua equipe, para cada vez mais aumentar o índice de consideração de sua marca nas principais agendas dos teatros e na pauta da grande mídia.
Grande comunicador e articulador, cercou-se dos melhores profissionais, os mais competentes em suas áreas, e com auxílio de empresários, secretários e amigos que fez ao longo de sua jornada, traçou seu próprio caminho e com muita determinação trabalhou junto daqueles que se dedicaram a promovê-lo, ajudando-o a abrir inúmeras outras portas que o elevaram a merecida posição que alcançou em seu tempo.
Revista bienal com toda a programação do Alice Tully Hall de 1970-1971. Darcy Villa Verde substitui Juliam Bream em apresentação no Alice Tully Hall sob acordo e indicação de Vladimir Bobri, Julian Bream, e do conselho da New York Society of the Classic Guitar. A apresentação se deu após o seu recital no Carnegie Recital Hall. Arquivo particular, 1971.
Darcy Villa Verde aquecendo as mãos para o seu recital no Lincoln Center. Como de costume, chegava horas antes, testava a acústica do teatro para medir a projeção necessária do som, e iniciava seu estudo e aquecimento até a hora de entrar no palco. Diante do peso da responsabilidade que assume, Darcy Villa Verde aumenta a carga horária de estudo e de preparação para este recital que abriu com a Chaconne e outras peças de Bach. Após encantar o público com suas versões dos prelúdios de Villa-Lobos, fechou a apresentação com o espírito espanhol de Albeniz e Turina, em interpretações que admiraram os músicos mais exigentes.
“Musicalmente falando, poder estar nos Estados Unidos em diferentes ‘tournées’ se apresentando em concertos e recitais; ter a chance de poder assistir as apresentações dos nomes mais representativos da música internacional com seus mais variados gêneros e estilos, e poder ir beber na fonte das grandes expressões do Jazz e do Soul foi uma oportunidade muito valiosa para mim.”
Pelas palavras do próprio, Darcy recolheu farto material, nas inúmeras vezes em que lá esteve e enriqueceu ainda mais o seu acervo musical.
Assim que chegou ao EUA pela primeira vez, Villa Verde foi visitar um amigo no Harlem e decidiu permanecer neste bairro por um certo período de tempo para poder conhecer mais de perto a cultura musical local que à época, permanecia palco de diversos momentos da história da música, assim como em outras cidades em que morou.
Foi uma época de muito experimentação, criatividade e inovação musical, além dos intensivos estudos a que se entregou.
Em contrapartida, também foi um momento de séria reflexão para Darcy Villa Verde.
O cenário de consumo da música vinha passando lentamente por mudanças.
O ‘Rock’ já vinha, há décadas, se enraizando na cultura americana e demonstrando ser um dos movimentos sociais de maior repercussão na sociedade americana e mundial, abrindo portas para inovações e possibilidades que começavam a ganhar espaço no gosto do público, inclusive do público erudito.
A própria agenda do Carnegie Recital Hall, comprometida apenas com a qualidade musical superior, já vinha se preenchendo cada vez mais com conjuntos do soul, jazz, bandleaders, rock e bossa nova, sinalizando um gosto mais eclético e aberto a novas possibilidades, por parte do público americano e internacional, e por parte dos produtores da indústria.
Alguns produtores musicais, admirados com o virtuosismo de Darcy Villa Verde no repertório clássico e na sua capacidade em apresentar um recital erudito que tinha potencial para se desenlaçar naturalmente em um show musical de altíssima qualidade, viram nele uma excelente oportunidade de transformá-lo em um produto novo, meio a um período de transição que teve início no final dos anos 60 e início dos anos 70.
Duas gravadoras já tinham demonstrado interesse em gravar suas já reconhecidas interpretações do repertório clássico que atendia uma seleta e exigente parte do público. Isso era inquestionável para eles, e fizeram questão de deixar a questão bem clara.
Contudo, com uma habilidade que permitia que seu repertório clássico convivesse juntamente com sua capacidade de dar “erudição” às músicas modernas e populares, através de suas transcrições e arranjos, o que atenderia a uma outra parte do público que ansiava por novos ares, os produtores continuaram pressionando Darcy e a seus empresários para um contrato visando ambos os gêneros de música.
Mas esse não era o desejo de Darcy, naquele momento.
Tomado pelo impacto que suas apresentações do repertório clássico vinham imprimindo no público e na mídia europeia e americana, firmou posição na ideia de se posicionar exclusivamente como músico clássico, mesmo acreditando na força e no poder do seu repertório eclético, e assim se manteve, recusando as propostas, ao menos, naquele tempo.
Tal posicionamento lhe exigiu mais esforço com relação ao número de apresentações para se firmar nos EUA como desejava, pois se por um lado mirava no exemplo de grandes nomes do erudito já consolidados no país pela qualidade do que ofereciam e pela posição da qual desfrutavam – o que os mantinham na mídia -, Darcy Villa Verde precisava conquistar seu espaço frente aos novos momentos e tendências que passavam a tomar conta do mercado de recitais e do ‘show business’.
Villa Verde, segundo ele próprio, pensava em dar esse passo mais à frente, – uma gravação que contemplasse diferentes gêneros musicais – e assim, permaneceu abrindo e ganhando seu próprio espaço como músico e violonista clássico, conquistando-o cada vez mais.
Figuras ilustres como Robert Sherman, Harry Belafonte, Leonard Bernstein, Lorin Maazel, Mimi Maazel, entre alguns outros nomes conhecidos do meio musical e amigos que fez, foram os responsáveis para que Darcy pudesse ampliar o seu campo de atuação profissional nos EUA.
Sempre muito irreverente, simpático e acessível, Darcy Villa Verde em pouco tempo fazia parte das mais prestigiadas rodas sociais e rapidamente foi se relacionando com importantes produtores, empresários e diretores musicais.
Nos EUA, esses produtores e empresários seriam a porta de entrada mais rápida para ingressar no mundo da música clássica.
Apesar dos pesares, a indústria na Europa e nos EUA eram muito sérias com relação a negociação e tratamento que prestavam aos músicos clássicos. Eram objetivos e claros quanto ao que queriam, profissionais, pagavam bem e tratavam os músicos com toda a deferência.
Há histórias, inclusive, de produtoras francesas que ficaram emitindo pagamentos, por anos, pelo uso dos direitos das obras que Darcy Villa Verde compôs, mesmo depois dele ter deixado de morar a França.
A questão que ‘emperrou’ com relação às gravadoras e produtoras americanas foi quanto a uma divergência de ‘proposta’.
As festas e eventos sociais para os quais Darcy Villa Verde era chamado, lhe abriram muitas portas; bastava uma noite de boa e divertida conversa e já estava em poucos dias se apresentando nas casas dos produtores e diretores do meio musical, e logo depois fazendo parte das agendas dos grandes teatros e salas.
Seus empresários ficavam admirados com tamanha habilidade.
Contudo, a expectativa das gravadoras e produtoras sobre ele se mantinha.
Se por um lado as portas para o erudito iam se abrindo e reverenciavam seu talento e interpretações que marcaram uma época, por outro, sua capacidade de transbordar o mesmo talento dessa erudição em um universo popular, todo próprio, continuava interessando aos executivos da música.
Quando mostrada em situações singulares como em apresentações privadas, ou como peças extras ao final dos recitais ou concertos, em que o público pedia sempre por um “bis” a mais, Villa Verde surpreendia igualmente o público que ficava deslumbrado com tanta musicalidade e expressividade; ainda mais porque nessa época os americanos estavam completamente encantados com a música popular brasileira e a recente bossa nova, um estilo que Darcy Villa Verde dominava no violão e que encantava o público, com seus arranjos e interpretações.
Circunstâncias como essas se deram em muitas ocasiões e ficaram registradas na mídia como, por exemplo, a que ocorreu no “Alice Tully Hall”. Ao final do recital, o público ciente de sua habilidade, começou a gritar para que ele tocasse bossa nova. O recital se estendeu por mais de meia hora.
Importante levar em conta que os arranjos e as concepções harmônicas que Darcy Villa Verde criava para as peças populares brasileiras no violão, davam a elas grandes dimensões musicais e notoriedade em termos de apresentação.
Experiente, musicalmente, e muito habilidoso, sabia bem como utilizar o instrumento com todo o seu potencial, elaborando conceitos e dimensões sonoras orquestrais que encantava os músicos mais exigentes. E isso, quando estendido ao estilo jazzístico, enlouquecia os americanos.
Com relação a concertos com grandes orquestras, foi convidado a se apresentar com a de Cleveland, a de Nova York e outras poucas na Europa, pelo que se sabe. Mas apesar de apresentações bem sucedidas, Darcy sempre preferiu manter suas execuções como solista, ainda que tivesse uma mão poderosa para destacar o violão frente aos outros instrumentos. Dessa forma, bem poucas vezes se apresentou com elas.
No Brasil, por exemplo, tocar sob a regência de Isaac karabtchevsky foi uma dessas raras exceções da qual, aliás, manteve boas recordações.
Darcy Villa Verde fixou residência no Estados Unidos por alguns anos, assim como o fez na Europa, e lá se manteve, saindo alguma vezes para se apresentar no Brasil e em outros países até resolver retornar ao Brasil, definitivamente.
Logo após Darcy Villa Verde ter sido reconhecidamente prestigiado na Europa, tudo o que acontecia no exterior com relação a ele era anunciado no Brasil. Até porque, a assessoria de Darcy nunca deixava de manter contato com a mídia brasileira e a internacional, enviando-lhes, sempre que possível, materiais com críticas extremamente positivas e entrevistas – jornais, revistas e ‘cortes’ dos programas de televisão – veiculadas no exterior.
URSS
Quando Darcy Villa Verde foi convidado a tocar na União Soviética em uma tournée, para se apresentar para dezenas de centros culturais da maioria de suas repúblicas, era porque os Soviéticos – lar de bons músicos e grande apreciadores da música e do violão – queriam divulgar a arte tão reverenciada e diferenciada de Villa Verde, que já tinha sido comentada na Rússia.
Para se ter uma ideia da importância desse movimento cultural que a URSS promoveu a partir dos anos 50, levando grandes músicos e violonistas de todo o mundo para ir se apresentar em suas repúblicas, até o ano de 1974, ano que que Darcy fez a sua primeira aparição por lá, já haviam tocado mais de 40 violonistas internacionais.
Segundo uma revista especializada de música clássica lançada ao final de 76 na URSS, a qual obtivemos acesso, e na qual foi lançada uma análise crítica musical histórica desses 20 anos de guitarra clássica, Darcy Villa Verde foi avaliado com excelência em termos de performance, “tanto musicalmente, quanto na exuberância e no brilhantismo da parte técnica”.
Assim como ele, muitos outros receberam excelentes críticas como o famoso duo Ida Presti & Lagoya e Maria Luiza Anido.
As críticas feitas de forma muito ‘própria’, com relação às performances de cada um, deixa claro que o interesse nesse movimento da Goskoncert não era o de levar o seu público a assistir concertistas de violão tocarem, mas o de aculturar musicalmente seu povo com o que cada violonista pudesse oferecer de melhor em termos de ‘música’ e virtuosismo interpretativo.
E a crítica, bastante severa, foi explícita em publicar que nem todos os violonistas convidados conseguiram atender a expectativa dessa iniciativa.
Não podemos deixar de considerar que em muitas das apresentações que Darcy Villa Verde fez na URSS, as partituras das peças anunciadas em seu programa eram distribuídas para que o público pudesse lê-las acompanhando Darcy Villa Verde, enquanto tocasse. Ato este, que levou Darcy Villa Verde, com seu espírito irreverente, a perguntar ao público presente, antes de tocar o Prelude de Bach in E Major BWV 1006a, se eles tinham curso de leitura dinâmica, roubando muitos risos de um público bastante formal e sério.
Após recobrado o silêncio, Darcy explicou que o objetivo ali era que eles se envolvessem emocionalmente com a música pelo efeito que ele criava com a performance interpretativa e musical dele, e que a leitura poderia aprisioná-los na parte teórica levando-os a perder a grandiosidade de Bach. Educadamente a maioria dos presentes guardou a partitura.
Posteriormente Darcy comentou que ficara impressionado com o fato e, mais ainda, por ter visto todo um público virando as páginas das partituras sem fazer nenhum barulho.
Segundo uma revista russa intitulada ‘História do Violão’, Darcy Villa Verde foi o 2º violonista brasileiro a se apresentar na URSS. O 1º foi o duo Sergio e Eduardo Abreu em 1972. Ida Presti e Alexandre Lagoya se apresentaram em 1964.
Em sua primeira incursão à URSS, Darcy estava com outra mentalidade sobre o seu repertório; entendia a própria musicalidade como algo único e diferenciado; uma concepção artística própria que tinha sido chancelada pelos maiores instrumentistas com que teve contato em seu tempo, pela crítica e pelo público que respondia muito bem aos seus recitais.
Se o programa fosse todo de repertório de música clássica ou com a primeira parte de clássica e a segunda de peças modernas e populares, não fazia diferença; as apresentações lotavam e eram muito procuradas.
Em razão disso, os centros culturais soviéticos que o assistiam, buscavam comunicar-se entre si, dividindo as impressões sobre o recital dado pelo ‘guitarrista brasileiro’ e, ao mesmo tempo, estimulando os outros centros culturais da ‘tournée’, em buscar assisti-lo.
Darcy sabia que o povo russo, apesar de musical e sensível, era extremamente sério e exigente com tudo relacionado a cultura.
Tendo em conta o respeito que trazia pela erudição do seu próprio repertório, resolveu montá-lo em diferentes programas de forma a se adequarem ao perfil de cada público, teatro e sala em que se apresentaria na URSS.
Aliás, teatros esses que são considerados as mais importantes da atual Rússia, Cazaquistão, Ucrânia, Bielorússia, Estônia, Letônia, por exemplo, e que lhe renderam alguns dos maiores reconhecimentos de sua carreira.
Como já dito, em certas ocasiões tinha acordado tocar o popular em algumas das cidades, o que agradou muito o público soviético que já esperava por isso.
Levando em conta o regime político vigente na época, conforme ia se apresentando, um relatório ia sendo enviado ao departamento do partido que, por sua vez, tomou conhecimento que Darcy comoveu o público Bielorusso com um arranjo que elaborou da música ‘Os barqueiros do Volga’, apresentando-as como bis junto a outros arranjos seus de peças folclóricas russas, em um dos recitais em Tallinn.
A repercussão do feito, soube-se, chegou às instâncias maiores e quando Darcy se apresentou em seu concerto no ‘St. Petersburg Philharmonia Grand Hall’, ciente da presença do secretário-geral e de parte do corpo de estado na plateia, o que não era tão comum, Villa Verde agradece a presença de todos e repete o feito, o que agradou muito o chefe do partido.
Importante considerar que Villa Verde não a escolheu por entretenimento.
Esta música, apesar de conhecida através de filmes e concertos, ela faz parte do repertório tradicional russo, bastante executada por corais e conjuntos folclóricos regionais e reconhecida como o símbolo de um período histórico do país, expressando muito do espírito silencioso de um povo. Trata-se de um hino que expressa a resistência diante da dor, a solidariedade, a esperança e a perseverança, acima de tudo; uma luta íntima e silenciosa.
Darcy sabia disso, e ao apresentá-la ao público em plena ‘cortina de ferro’, dividia, sem nenhuma crítica ou apologia, a consciência da realidade e do espírito de esperança.
Como resultado da impressão que o seu concerto gerou, Darcy foi convidado a retornar para uma nova tournée promovida pela Goskoncert, dali a um ano e meio, e tal convite, feito através do representante do Secretário do Partido, enquanto o próprio o cumprimentava e oferecia do próprio pulso seu relógio de ouro como presente. Um modelo Movado Museum. Um hábito da cultura daquela nação.
A seguir, uma curiosidade que ajuda a enfatizar o que Darcy pensava sobre si mesmo.
Em sua última apresentação dada na embaixada de Moscow em retribuição a todos os que se envolveram com a iniciativa de sua ida à URSS, Darcy Villa Verde antes de se apresentar foi anunciado com toda a formalidade e protocolo característico de um evento desse porte, e quando convidado a adentrar o palco, ouviu do apresentador que o anunciara, que o ‘Gênio do Violão’ ganhara na URSS, o título de ‘O Mago da Guitarra’, ao que respondeu imediatamente, roubando muitos risos:
“Não sou gênio, nem mago. Os dois fazem mágicas. Eu estudo 10 horas por dia desde que nasci.”
Programas de dois dos recitais de Darcy Villa Verde na URSS. O da esquerda em Riga, na Letônia, no Latvijas PSR Valsts Filharmonija, e o da direita em Tallin, na Estônia, no Laevastiku Ohvitseride Maja. Ambos, promovidos pela Goskoncert, 1974.
Darcy Villa Verde na URSS. Recitais promovidos pela Goskoncert, 1974.
Laevastiku Ohvitseride Maja em Tallin, na Estônia. Concerto de Darcy Villa Verde.
Latvijas PSR Valsts Filharmonija, Riga, na Letônia. Recital de Darcy Villa Verde.
Pode-se dizer que toda a seriedade da URSS e de seus Conservatórios, se rendeu ao repertório barroco, clássico, romântico, moderno e popular de Darcy Villa Verde.
Consequentemente, afirmar que Darcy não errou em sua busca ao se moldar como músico erudito e mais completo, é uma consequência natural. Pois não se tratava só de usar o popular como recurso para a divulgação e o aculturamento do clássico, e sim, de que quando o músico é bom e possuidor de um espírito determinado e obstinado pela excelência, o que se tem é música, e isso é o que realmente importa no final. E Darcy Villa Verde sabia disso.
A seguir algumas considerações que Darcy Villa Verde deu aos violonistas que ascendiam profissionalmente, sobre ‘musicalidade’ e o ‘devido preparo’ para uma apresentação:
“Jamais subestime o seu público; não importa que seja de músicos, de críticos ou mesmo de pessoas totalmente ignorantes musicais. Um ouvinte, mesmo desprovido de cultura musical, tem sensibilidade e é capaz de sentir se você consegue expressar bem a música.
A prova disso é ele sair da apresentação querendo assisti-lo novamente, buscando informação a seu respeito, sobre o que mais toca, se já gravou, e etc.Apesar de todas as apresentações na URSS terem sido muito boas e contado com o reconhecimento do público e da crítica, posso afirmar que sempre há espaço para evoluir cada vez mais o próprio trabalho, e um bom músico sabe disso.
Sempre há o que melhorar.
Não importa o quanto você já tenha alçado profissionalmente.
Situações novas exigem preparo, dedicação, estudo sério e responsável, para que as apresentações cada vez mais possam envolver, surpreender e traduzir a sua música, quando executadas com perfeição e excelência.”
De volta ao Brasil, e questionado para onde iria após suas apresentações na URSS, Darcy comentou:
“Depois da experiência que acabo de viver nesses teatros e salas, tão intensas e densas, acho que preciso parar um pouco para planejar uma nova fase de minha vida profissional. Mas certamente estarei onde meu público estiver.”
Os comentários de Darcy definem bem que a atmosfera da qual ele se nutria era o das salas de concerto e dos teatros do mundo; atmosfera essa, dada pelo público, que numa total simbiose, alimentava e sustentava a sua razão de ser.
O contato com o seu público nesses espaços reservado a cultura eram o seu grande propósito, era o que o movia.
Adentrar o palco desses teatros, sentar, olhar o público e se entregar oferecendo sua música.
Este era o seu propósito.
E o fazia com maior satisfação ainda, quando sabendo da história de cada uma dessas salas, teatros ou igrejas, visualizava os compositores que ali se apresentaram no passado, oferecendo-lhes mentalmente as suas interpretações, antes de tocar.
Sua experiência e o tempo que permaneceu na URSS se apresentando, permitiu, até pelo seu jeito informal e irreverente de ser, estabelecer relações com o povo russo e sua realidade não só cultural, mas política e social.
Como Darcy era uma pessoa que gostava de se envolver com o seu público, teve neste período oportunidade de olhar mais de perto e de compartilhar desta realidade cultural e social que o encantava mas que, ao mesmo tempo, velava um ar de resignação, um tanto dissonante do seu jeito de ver e viver a vida.
Essa experiência, em suas próprias palavras, foi extremamente intensa e densa, exigindo dele, após sua chegada ao Brasil, um tempo para se recompor usufruindo do clima ameno e das brisas de uma ensolarada e tranquila orla marítima em seu saudoso Leblon, no maravilhoso Rio de Janeiro.
