"Ser músico está ligado à emoção, sentimentos e à criatividade. Porque a musicalidade é algo que precisa soar a partir do músico e não apenas de seu instrumento. Um músico genuíno utiliza a sua essência, o seu dom e o seu talento para sentir antes de tocar o que vai 'contar' e, só então, ele se encontra com o seu instrumento. Isso está muito além de saber tocar perfeitamente uma partitura."

O Músico

Darcy Villa Verde, durante anos, foi muito solicitado pelo público e pelas agendas de grandes teatros da Europa, da Ásia, EUA e também do Brasil.  

Pode-se dizer que foi um dos poucos violonistas de que se tem notícia, convidado, na época, a tocar em salas e teatros reservados a grande público para apresentações de ópera, balé e grandes orquestras, como Carnegie Recital Hall, Salle Gaveau, Palais des Sport, Gaston Hall, Alice Tully Hall Lincoln Center, Teatro Cóllon, ST. Petersburg Philharmonia, Teatro Mariinsky, Salle Pleyel, Estonia Concert Hall, Sala Cecília Meirelles, Tchaikovsky Great Hall, Teatros Municipais, entre muitos outros. 

Da mesma forma, foi convidado, com frequência, a se apresentar para reuniões privadas a chefes de estado de diferentes governos na América, Ásia e Europa, em embaixadas, palácios, e nas casas de grandes personalidades que o admiravam e a seu trabalho, assim como para tocar em pequenos e simples auditórios no interior do sertão brasileiro, o que fazia com a mesma devoção e intensidade interpretativa.
Natural que assim fosse, uma vez que a sua musicalidade e talento, regido sempre pelo seu grande carisma, transformava cada recital e concerto em uma experiência musical de pura emoção e alta conexão, muito apreciada pelo público. 
Darcy Villa Verde, genuinamente, era um músico por excelência.
E o mais raro ainda, era um violonista clássico que estendeu a sua erudição ao repertório popular.

Com certeza, muita coisa contribuiu para isso.

Darcy Villa Verde nasceu no início da década de 30, em ambiente musical.
Filho e neto de violonistas por parte de pai e de mãe, já aos 4 anos de idade era dotado de raro talento. Orientado pelo seu pai desde os 3 anos, dedilhava seus primeiros acordes de violão nas técnicas pouco conhecidas da escola que se intitulava de Tárrega, trazida diretamente das mãos de uma discípula sua, que permaneceu por alguns anos no Brasil na década de 10 e 20, a violonista Josefina Robledo.

Sua mãe, filha de Eugênio Villa Verde, tinha nove irmãos e todos os dez tocavam violão.
A maioria dos filhos de Eugênio, além de violonistas eram compositores, poetas e escritores que, em parceria com outros músicos e compositores da época, lançaram discos de samba e samba-canção no mercado, muito apreciados pelo público e ouvintes das rádios. Exemplo desses, foi a parceria que Oscar Bellandi criou com Jayme Villa Verde ou a que Francisco de Paula Villa Verde fez com Edel Luiz.
Foi um período muito fértil e promissor, levando alguns desses discos a serem editados, inclusive, no exterior

Discos de acetato lançados na década de 50 com sambas e sambas-canções inéditos, compostos pelos tios de Darcy Villa Verde, em dupla e em parceria com músicos e compositores da época como Oscar Bellandi, Edel Luiz e outros. Coleção particular.

Eugênio Villa Verde, avô de Darcy, era, por sua vez, filho de Eugênia Lavínia, exímia pianista e imigrante vinda da Europa.

Eugênio era casado com Herondina, cujo irmão Manoel era casado com uma das irmãs de João Pernambuco, Francisca, conhecida como ‘Tia Marina’.
João Pernambuco era frequentador assíduo dos saraus promovidos na casa de Eugênio, avô de Darcy, que reuniam em ambiente familiar expressões singulares da música popular do choro, da valsa e do samba-canção, assim como da música erudita.

Estamos nos referindo à primeira metade do século XX, onde apresentações de grupos musicais de violão, samba e choro não ocorriam em teatros como atualmente. As apresentações se davam mais em rodas de músicos, em espaços reservados para esses eventos, em casas de familiares, em serenatas ou, esporadicamente, em bailes

À época, as famílias mais nobres no Brasil não aceitavam o violão como instrumento respeitável. Os violonistas, mais chamados pejorativamente de violeiros, seresteiros, capadócios e boêmios eram discriminados pelas famílias mais nobres e ditas culturalmente ‘bem formadas’.
Tal parte da sociedade tinha no piano e em outros instrumentos de corda, como violino e cello, sua formação e predileção. Ainda mais porque o violão naquela época, no Brasil, era totalmente restrito à música popular participando mais como um componente dos conjuntos regionais e acompanhamento de cantores e, mais tarde, de calouros em programas de auditório. 

Música erudita no violão, então, era algo que nem se cogitava.

Mesmo alguns pesquisadores considerando a possibilidade da guitarra clássica – no Brasil, chamada de ‘violão’ –  ter chegado, mais presentemente, ao nosso país trazida pela família real portuguesa e de ter feito parte da corte imperial e do entretenimento de diversos fidalgos – elite cultural da época -, o violão terminou por ficar relegado a instâncias menores, fosse pela dificuldade que sempre ofereceu em apresentar boas interpretações e estética sonora, ou porque o piano, o cello e outros instrumentos traziam uma herança histórica de maior preferência na cultura e hábitos europeus, uma cultura vigente na época e que de certa forma prevalece até hoje.

Foram violonistas como o Paraguaio Agustín Barrios, a Valenciana Josephina Robledo, os Espanhóis Andrés Segóvia e Sainz de la Maza, entre muito poucos, que começaram a levar para o nível de consideração o violão como instrumento de concerto no Brasil. E isso, no início do sec. XX.

É bem verdade que à época não havia violonistas eruditos em peso para dar esse passo tão significativo ao instrumento no país. Porém, aos poucos, o espaço foi sendo conquistado pela dedicação e esforço daqueles que se empenharam.
 A.B.V. – Associação Brasileira do Violão, quando inaugurada em 1952 no Rio de Janeiro, e que teve como fundador Oswaldo Soares, e como presidente Jodacil Damaceno, entre outros importantes representantes do meio violonístico, também ajudou muito a divulgar o instrumento e a elevá-lo a níveis mais profissionais.

Deve-se, inclusive, ressaltar que só após a década de 50 é que a produção musical de compositores violonistas e não violonistas para o violão, começou a prosperar no Brasil.
O repertório do violão passa então a receber obras que se destacam pelos ritmos e pela sonoridade que traduzem a coloratura temática de nosso país.

Podemos citar como exemplo, além de Villa Lobos que iniciou sua produção para violão nos anos 20, Radamés Gnattali, como um desses nossos expoentes que começou a escrever para o violão na década de 1930.
A título de curiosidade, os seus ‘Dez Estudos para Violão’, foram escritos em 1967 e dedicados aos violonistas que ele considerava os mais representativos de sua época, e que pôde de alguns desfrutar relações próximas.
Chamamos à atenção para o ‘Oitavo Estudo’ desta obra que foi inspirado, composto e dedicado por Radamés Gnattali a Darcy Villa Verde, e, por conta disso, recebendo o seu nome.

Radamés Gnattali por diversas vezes comentou na casa do avô de Darcy, Eugênio Villa Verde, que Darcy tinha uma musicalidade e uma destreza técnica e rítmica impressionantes, realmente muito fora do comum.
Sua musicalidade e habilidade encantavam não só nas interpretações que elaborava mas na capacidade de transcrever musicalmente o que lhe sensibilizava; no clássico ou no popular.
Bastava ouvir uma música da qual gostasse que Darcy a harmonizava criando arranjos próprios na hora e memorizando-os como ‘ideia musical’ para 
sempre.
Os músicos que presenciaram tal habilidade ficaram fortemente impressionados.

Vez ou outra em seus recitais, quando resolvia por apresentações de músicas populares numa segunda parte, de acordo com o espírito do momento, Darcy redesenhava o arranjo sobre a mesma ‘ideia’ e improvisava. O público que já conhecia o repertório se surpreendia muito positivamente. 

Eram tempos difíceis para o violão, aqueles, e Darcy da Fonseca, pai de Darcy Villa Verde, que alimentava o desejo de tocar profissionalmente não conseguiu realizar esse sonho vencendo essa barreira cultural, mas incutiu na cabeça de seu filho, pelo dom e vocação que possuía, que se ele estudasse seriamente poderia render o mundo ao seu talento.

De fato, tocando desde muito criança, Darcy já orientado pelo pai surpreendia a todos pela capacidade musical que demonstrava. Diante do que tocava, ainda criança, nas palavras de alguns “nasceu sabendo”. 
Seu avô materno, Eugênio, já aqui citado, homem de grandes recursos cultural e financeiro, e que podemos considerar mais oficialmente como o primeiro professor do pequeno Darcy, indo na contramão do preconceito da época, já reunia nos saraus de sua casa no Rio de Janeiro desde o início do séc. XX, expoentes da música como Heitor Villa-Lobos, Irineu de Almeida, Sátyro Bilhar, João Pernambuco, Levino da Conceição, Luperce Miranda, entre muitos outros, para encontros e reuniões de violão e de música que ficariam conhecidas na história da cidade. Um hábito que Eugênio herdou de sua mãe que iniciou estes encontros na família, ainda nos anos 90 do séc. XIX.

Desta época, começam a surgir outros pontos de encontro, mais à frente, como o ‘Cavaquinho de Ouro’, no qual Geraldo Villa Verde, tio de Darcy também participava, no ‘Guitarra de Prata’, localizado na Rua da Carioca ou na casa do Jacob do Bandolim em Jacarepaguá; saraus estes que ficaram muito conhecidos e registrados na história pela importância que tiveram.

Darcy Villa Verde, demonstrando interesse pelo violão desde muito cedo, participava assiduamente, ainda criança, no final da década de 30, dessas reuniões na casa de seu avô Eugênio que se mantinha como um centro de encontros de grandes e novos talentos que iam surgindo; reuniões e saraus estes, que ao longo dos anos passaram a ser frequentados e até disputados por aqueles que viriam a ser os grandes nomes da expressão musical brasileira como Pixinguinha, Altamiro Carrilho, Radamés Gnattali, Jacó do Bandolim, César Ayala e Solon Ayala, Dino Sete Cordas, César Faria (Pai de Paulinho da Viola), Cyro Monteiro, Miguel Jorge do Souto (Ao Bandolim de Ouro), Dilermando Reis, entre tantos outros importantes nomes da música já citados, que eram presença constante na família dos Villa Verdes no Rio de Janeiro. 

Darcy buscava sempre se ajustar a esses encontros musicais que, hora na casa de seu avô, hora em outros ambientes, foram responsáveis por muito de sua cultura violonística e musical; lembrando, claro, que esses saraus também foram palco de algumas das maiores composições da música brasileira. 

Darcy Villa Verde, ainda pré-adolescente, já tinha um repertório extenso e tocava excepcionalmente bem para sua idade quando foi indicado para ser aluno de Dilermando Reis, aos 10 anos de idade.
Dilermando, após ouvir Darcy em um dos saraus na casa
de Eugênio Villa Verde, percebendo que com tão pouca idade já trazia muito material próprio e tocava muito bem, disse que poderia atuar como uma espécie de tutor dando-lhe algumas orientações, principalmente com relação ao seu próprio repertório, uma vez que Darcy já o tocava parcialmente.
Durante dois anos, Darcy teve aulas com Dilermando Reis que após tê-lo orientado –
seu pai quem o levava, uma vez por semana, aos domingos de manhã – encerrou as aulas dizendo que não havia mais nada que pudesse fazer por ele; que dali pra frente Darcy podia seguir por conta própria; principalmente porque já solava, acompanhava e harmonizava suas próprias versões das músicas que tocava, inclusive as do próprio Dilermando.
Dilermando Reis, inclusive, salientou que não pretendia interferir na técnica que Darcy trazia desenvolvida, pois esta possibilitava a ele uma qualidade execucional e de sonoridade muito rica e própria, diferente dos demais.
Apesar do encordoamento de aço, sua sonoridade era ‘doce’.

Dilermando quando o assistia tocar, costumava fechar os olhos para não se deixar influenciar pela visão de uma criança prodígio e poder avaliar a interpretação e a sonoridade de Darcy.
Como pode ser possível, quando fecho os olhos ouço um músico maduro tocando!”, comentava.

Este, certamente um dos motivos de Dilermando tê-lo convidado, meses depois, a tocar como acompanhador no grupo, apesar da pouca idade. 
Tal fato, coincide quando, infelizmente, em meados do ano de 46, uma tragédia acontece. César Ayala, com 23 anos, que fazia parte do grupo de Dilermando e tocava no Radio Club, foi morto ao entrar de ‘penetra’ numa festa de casamento com amigos e ter se metido em uma briga com os convidados. Triste episódio que abre espaço no grupo de Dilermando para o violonista Jorge Santos e para Darcy Villa Verde que, apesar da pouca idade, – apenas 12 anos – e muito triste e abalado com o ocorrido, repensa profundamente o convite de Dilermando.

Este episódio começa por marcar dramaticamente Darcy Villa Verde pela série de perdas que viriam a fazer parte de sua vida e que o afetaria para sempre. 

Importante considerar que César Ayala foi um dos músicos que influenciou Darcy a assumir uma personalidade artística mais eclética, ou seja, com um repertório que variava do popular ao erudito, assim como Solón Ayala e o próprio Dilermando Reis que, por sua vez, além dos choros, sambas e valsas, também tocava obras transcritas de compositores como Mozart, Beethoven, Schubert, Debussy, Strauss e Chopin. 

Apesar de olhar desde criança para a posição de solista, Darcy achava que o acompanhamento, procedendo o estudo sério do violão, desde que a posição inicial seja correta, não constituía empecilho ao aprendizado de solista. Muito pelo contrário, completava ajudando pelo apuro do ouvido, do senso rítmico e de um certo modo, na força da mão esquerda. Essa a razão, segundo ele próprio, de ter aceitado ser acompanhador de Dilermando Reis, mesmo que por pouco tempo. 

Darcy Villa Verde, desde criança, tinha uma memória musical – melódica, rítmica, harmônica, emocional, visual e analítica –  impressionante para a música; popular e clássica. Bastava ouvir uma ou duas vezes a música, que já saía tocando. Depois, conforme narrado, havendo interesse, adaptava as interpretações criando arranjos e harmonizações próprias.
Se não ficasse satisfeito com o resultado pedia a amigos a partitura e buscava entender as soluções dadas e as adequava; por fim, era só estudar. Para isso, separava a música em partes e destrinchava cada uma delas trabalhando e apurando intensamente até considerá-las suficientemente ‘fluidas’ e próprias.
Este era um método de estudo que desenvolvera desde criança, no intuito de colocar uma música “debaixo dos dedos”. Expressão que utilizava para se referir a domínio.

“Aos 16 anos, meu pai contratou o maestro Nelson Piló para me dar aula de música. Ele sabia que toda essa facilidade e naturalidade ao tocar não podia prescindir da parte teórica. Só então, comecei a estudar mais seriamente a teoria musical.
Mas a minha aplicação acontecia, de fato, no violão. Gostava de tocar e tocava cada vez mais.”  

Três responsáveis pelo início do aprendizado de Darcy Villa Verde ao violão. Da esquerda para a direita: seu pai Darcy da Fonseca que o apresentou ao instrumento e o iniciou aos 3 para 4 anos de idade; ao centro, seu avô Eugênio Villa Verde, seu primeiro professor, e à direita, seu tio Geraldo Villa Verde, admirador, incentivador e aquele que ocupou o papel de um tutor paterno depois do falecimento do pai de Darcy, que se despediu ainda jovem. Darcy Villa Verde nutria por seu tio um amor muito grande e, espirituoso que era, adorava tocar com muita expressividade até fazer o seu tio não se aguentar sobre as próprias pernas. Emotivo que era, Geraldo Villa Verde se comovia profundamente com as interpretações de Darcy ao violão a ponto de passar mal e ir ao chão em lágrimas. Sob intensa emoção suas pernas começavam a tremer somatizando uma reação tão forte a ponto de não suportar o peso do próprio corpo, indo ao chão. Sabendo disso, Darcy, divertidamente, não perdia a chance de 'derrubá-lo'. De coração fraco, mas herdeiro de boa genética, Geraldo Villa Verde viveu até quase os 100 anos de idade, e foi ao chão muitas vezes.


Entrevista nos EUA:



E
ntrevista dada por Darcy Villa Verde, em Whashington DC, abordando a questão de sua musicalidade e talento quase que intuitivo de tocar violão.

“Confesso que não era muito dedicado à teoria. Havia uma força que me empurrava a tocar cada vez mais e que não coadunava naquele momento com o estudo da parte teórica da música que também exigia horas de dedicação; essa é uma parte do meu trabalho que só fui amadurecer alguns anos depois.”

[Entrevistador] Mas isso não o prejudicou de certa forma? O Concurso Internacional de Paris, por exemplo.

“Foi justamente o contrário! Só estando lá para ver o que foi aquilo. O caminho que as coisas tomaram levaram a um desfecho que se fosse diferente não teria sido a comoção que foi e, acredito, nem teria assumido a proporção e a projeção que assumiu.

As pessoas gritavam, aplaudiam sem parar! E quem testemunhou isso além de um público de 2500 pessoas? Ida Presti, Alexandre Lagoya, a midia e uma quantidade enorme de músicos; além, claro, do evento ter sido transmitido por TV para a Europa. Porque a notícia do ocorrido no dia anterior – ter me recusado a cumprir uma última pequena etapa do concurso – tinha vazado e saído na mídia no dia da final.
Algumas pessoas já sabiam do ocorrido e queriam entender o que levou todo um júri de um concurso internacional tão renomado a apresentar à público, no dia seguinte, um participante, quando este deveria ter sido desclassificado por ter se recusado a cumprir uma etapa obrigatória.

Isso definiu um início apoteótico na minha carreira!

Fui lá [Paris] para um concurso e em poucos meses tinha um nome reconhecido internacionalmente.
E não foi por ter sido laureado no concurso, mas por ter sido laureado justamente nas condições em que fui; por ser um músico e artista, cuja musicalidade e técnica prevaleceram diante de todo o episódio ocorrido, me fazendo sobressair no mundo da música erudita, conquistando as plateias e impressionando os críticos, músicos e personalidades da época.

E ainda fiz isso com a obra de Bach considerada, por muitos, como uma das peças solo mais difíceis do mundo.

Acreditava muito em mim e idealizei que conseguiria impressionar os jurados com meu trabalho, mas confesso que não fazia ideia do rumo que as coisas tomariam; foi tudo muito rápido e grandioso.

[… Pensando] Acredito que o meu trajeto como músico, da forma como se deu, me ajudou a desenvolver uma intuição musical execucional que amadureceu numa velocidade muito grande por conta da intensidade de estudo a que me submeti.
Talvez, se tivesse feito tudo certinho, de forma tradicional [se referindo ao estudo acadêmico e teórico] não tivesse obtido o resultado que alcancei em qualidade sonora, interpretativa e de reconhecimento. É uma dúvida que permanecerá comigo.

Tive orientadores no início, e até músicos amigos, que acharam que ter começado a estudar o violão clássico com 25 anos de idade, de ter começado a montar repertório com quase 28 anos e ter resolvido encarar um concurso internacional de violão erudito em Paris 4 anos depois, sem ter leitura fluente, era uma enorme loucura. E era, mesmo! Mas eu tava muito determinado!
Diziam, inclusive, que assumir esse risco seria um impeditivo para que eu alcançasse uma carreira sólida e de grande reconhecimento.
Mas eu acredito muito em mim e sempre tive pessoas como a minha esposa que não me permitiam esmorecer.
Fui para Paris muito confiante porque sabia do que era capaz, estudei muito, tinha um repertório de peso, o mais desafiador possível – técnico e interpretativamente -, e estava pronto. 
[ameniza o tom de voz]
Só a leitura rápida que não ‘tava’ lá muito afiada,
[risos] por isso me recusei a fazê-la, mesmo sob ameaça de ser desclassificado. 
Firmei posição para não macular o que já tinha feito e conquistado a todos. Foi uma estratégia arriscada, mas que deu certo.

Entenda, sei que não era o esperado, mas toda a contingência e as circunstâncias que me envolveram até aquele momento na vida, depois de tudo o que eu tinha experienciado e passado, me exigiam um posicionamento.
E foi aí, que decidi seguir em frente com tudo o que tinha, acreditando no meu talento e na minha força de vontade.
Havia, claro, um risco grande, mas como falei o resultado foi surpreendente, muito além do que eu podia imaginar.” 
Posteriormente, a produção do concurso até oficializou um convite me dando carta branca para competir novamente no intuito de buscar oficializar um primeiro lugar justificando a decisão tomada por eles. Eu tinha 32 anos e podia participar até os 35, que era a idade limite. Me recusei.
Todos aqueles que estiveram presentes na grande final, concordaram comigo e me desrecomendaram a fazer isso, inclusive os meus professores.
Diminuiria a grandeza do que aconteceu naquele ano, disseram. 

Então, meu amigo, os acontecimentos daquela noite são vistos por mim como uma das minhas maiores realizações e conquistas no violão. E quem reafirmou isso foi todo um júri renomado, mais de 2500 pessoas, a mídia e a opinião daqueles a quem reputo a minha maturidade musical no violão. 

Evidente que Darcy Villa Verde superou rapidamente esta questão que se deu mais pelo decurso de prazo que teve em se preparar para Paris. Desde que iniciou os estudos no violão clássico até o dia em que resolveu participar do mais importante concurso internacional de violão clássico da época, passaram-se 7 anos.
Por ter iniciado aos 25 anos de idade, decidiu por investir todo o tempo na qualidade das interpretações que desenvolveu com Oswaldo Soares e que receberam o seu acabamento final sob a tutela da violonista Monina Távora.  

Darcy Villa Verde nunca alimentou a ideia de participar de concursos, dessa forma não estudava como estudava para se preparar para um. Sua dinâmica de estudo estava estruturada objetivando iniciar, o quanto antes, uma carreira de violonista concertista internacional, o que era algo muito mais desafiador para ele.

Em verdade, ele usou este concurso para adentrar o universo erudito da música clássica, aproveitando a projeção internacional que este concurso em Paris alcançava em toda a Europa e grande parte do mundo. 
Tendo consciência da dimensão do que ‘entregava’ no violão, mesmo sabendo que se recusaria a cumprir uma etapa obrigatória do concurso, entendeu que se criasse uma forte impressão no júri, isso poderia ajudá-lo a se lançar como concertista profissional. 
Isso foi tão verdade, que após esse concurso em Paris, em questão de meses, Villa Verde já estava sendo convidado a dar recitais e concertos 
em importantes teatros na Europa.
P
assou a fazer parte de grandes eventos culturais e a ser muito requisitado para se apresentar na presença de representantes internacionais da cultura e da política.

Sua musicalidade desenvolvia interpretações com tal intensidade e expressão, que todos queriam ouvi-lo.
Dessa forma, com seu espírito e carisma propício a apresentações para público selecionado e formal, ao estilo de “Concerto Grosso”, Darcy Villa Verde passou a ser chamado e contratado para se apresentar em reuniões da alta sociedade que eram financiadas por famílias muito importantes, ou por grandes grupos financeiros e empresas do setor privado e público; inicialmente em Paris e, posteriormente, em outras cidades da França e de países próximos, a exemplo da Itália, Suíça, Bélgica e Espanha.

Difícil de explicar, mas segundo as pesquisas feitas e informações levantadas, Darcy Villa Verde era um ‘materializador’. O que ele queria, ele elaborava, organizava e ordenava mentalmente cada etapa até conseguir.

A própria Monina Távora, diante da determinação e obstinação dele, entendeu que não havia como dissuadi-lo. Até porque, mesmo considerando a iniciativa dele imprudente, sabia que a musicalidade dele era muito diferenciada e que iria criar uma comoção. Darcy, no palco, dizia ela, trazia algo dele, muito próprio, que envolvia, emocionava e magnetizava o público.

Selecionado como um dos cinco finalistas em todo o mundo, partiu para a França para o evento em Paris, que se tornou um marco em sua carreira e a pedra angular na construção de sua trajetória profissional.
Esta decisão que impactou e surpreendeu a muitos, abriu as mais inusitadas portas e oportunidades para Darcy Villa Verde que com muita determinação e uma visão muito própria do que desejava como músico e concertista erudito, se lançou ao reconhecimento internacional, tornando-se, pela musicalidade e talento de suas interpretações, um dos violonistas de maior evidência em seu tempo, muito disputado pelo público que lotavam as salas e os teatros para assisti-lo.

Darcy Villa Verde em reunião com Ministro da Cultura, José Aparecido de Oliveira. Convidado a falar sobre projetos que promovessem maior apoio à arte e à música no Brasil. Brasília, 1989. 

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