O DUO

Adolescente, por volta dos 13 a 14 anos, Darcy Villa Verde pede para sair do grupo de Dilermando Reis e forma um duo de violões com seu jovem tio Francisco de Paula que passou a acompanhá-lo se apresentando em alguns importantes programas de rádio da época como o ‘Samba e Outras Coisas’ da Rádio Clube do Brasil, Calouros em Desfile de Ari Barroso na Rádio Nacional e em diversos festivais de música e musicais da época na Rádio Transmissora, Radio Tupi, Rádio Clube, Rádio Mauá, e outras.

Como de hábito, Darcy criava seus arranjos de música para o duo que exigiam um alto nível de destreza e de improviso. Seu jovem tio, um pouco mais velho que ele e muito hábil no violão, fazia o acompanhamento.

Darcy sempre trabalhava muito a técnica violonística que lhe provesse mais agilidade e velocidade, e sempre com a mão direita posicionada ao estilo da ‘Escola de Tárrega’ como seu pai lhe orientara fazer, desde muito cedo. *

Darcy Villa Verde entendia que a velocidade em muitos momentos é essencial para o domínio interpretativo, sem a qual pode-se comprometer a dinâmica, o ritmo, o andamento e o tempo da música. Mesmo criança, já se ressentia muito quando ouvia algum músico acelerar uma escala e criar uma avalanche de notas sem clareza, perdendo o tempo forte da escala e comprometendo a interpretação.

Tal questão sempre foi objeto de sua atenção e considerando as peças solo que escolheria para interpretar mais tarde no clássico, principalmente quantos às obras de Bach, sua obstinação nessa prática alcançou resultados memoráveis.
Depoimentos daqueles que mais tarde o assistiram em seus recitais afirmam ter testemunhado algo raríssimo de ser visto em termos de musicalidade, destreza e expressividade interpretativa.

Em 16 de julho de 1950, com 16 anos, Darcy inscreveu o duo – ele e seu tio – no programa do Ari Barroso na Rádio Tupi. Um programa chamado ‘Calouros em Desfile’ que dava oportunidade para todos os artistas.
Data inesquecível. Dia em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai.

Tocam “Cjardas de Vittorio Monti”, em um arranjo para dois violões transcrito por Darcy. O auditório da Radio Tupi, recém-inaugurado, lotado com 1500 pessoas veio abaixo.

“Nota máxima”, gritam!

Mas Ary Barroso, provocativo, atiçando a platéia, sugere 4.5 de 5.

Por conta da tragédia nacional, “uma injustiça”, clamam!

O auditório vaia, exige nota máxima, os telefones da rádio começam a tocar.
Mas Ary Barroso, segundo depoimento verificado, que já tinha sido vaiado e agredido por uma multidão ao sair do Maracanã a caminho da rádio, por ter sido ele, naquela tarde, o narrador da derrota brasileira na final da copa, não estava suscetível a ceder e, ao contrário de acolher o pedido do público como era de hábito, estimulando a audiência e promovendo a programação, sustenta a nota dada.
Outras duas informações contradizem o dito e asseveram que ouviram ao final a nota máxima 5 ser dada. Um relato do violonista Genésio Nogueira, autor dos livros ‘Sua Majestade o Violão’ de Dilermando Reis e “O Último Estilista do Violão Brasileiro’ de Baden Powell, afirma em suas pesquisas que a nota final resultou em um 5. Na dúvida, achamos mais prudente preservar o emblemático 4.5.

Durante alguns anos Darcy Villa Verde, nesta mesma época, chegou a tocar em uma banda.
Seu pai lhe dera de presente uma Gibson ES-175 1949, na qual desenvolvia arranjos jazzísticos ao estilo de Barney Kessel e Joe Pass, para algumas músicas que incluiu em seu repertório. A ideia era buscar ampliar o espectro de conhecimento musical e buscar uma forma de se remunerar. Era o auge dos anos 50. 

Procurado por Elton Medeiros, que o admirava, e por outros músicos da época, Darcy foi convidado para ser solista de uma banda com o objetivo de se apresentarem em festas.
Diante do convite e reconhecendo o perfil de cada um do grupo, Darcy resolveu aceitar desde que a banda se formatasse como um quinteto instrumental.
Quando houvessem festas de jovens, o que era uma febre na época, eles tocariam Rock’n Roll, quando não, se apresentariam instrumentalmente tocando temas nacionais e internacionais ao estilo jazzístico ou chamariam uma ‘crooner. Concordaram.

Darcy mantinha sempre um objetivo em mente: crescer como músico, mas crescer desenvolvendo-se musicalmente diante do público.

À época, existia um quinteto internacionalmente conhecido, chamado “Art Van Damme”.
O líder do quinteto, Arthur Raymond van Damme era um músico americano talentosíssimo que tocava acordeão ao estilo “swinging jazz”. Considerado um dos maiores acordeonistas do mundo, Art chegou a se apresentar com Ella Fitzgerald e Dizzy Gillespie.
Darcy que o apreciava muito, se inspirou nele para definir o perfil do grupo, uma vez que o Elton Medeiros já tocava acordeon muito bem nessa época. 

Anos mais tarde, vieram a se conhecer. Art Van Damme foi assisti-lo em uma casa de jazz, a Minton’s Playhouse, no Harlem, um dos locais em que Darcy tinha acesso e, convidado, gostava de se apresentar. Aliás, suas apresentações nessa mesma época formaram uma importante rede de relacionamento e algumas de suas grandes memórias musicais.

O quinteto de Darcy e inclusive seus solos chegaram a ficar conhecidos, mas não por muito tempo. O violão lhe consumia cada vez mais horas de estudo e ele se concentrou em dominá-lo cada vez mais. Seus amigos e companheiros da banda não entendiam por qual motivo Darcy insistia em assumir o violão como instrumento solo. 

Como mencionado, era uma época em que muito poucos tinham conhecimento de grandes músicos solistas do violão como um Andrés Segovia, por exemplo, que já era uma lenda na Europa.

“Era um mundo isolado do mundo, o Brasil. Não se pensava com frequência em dar concertos de violão clássico num teatro no Rio ou em qualquer outro estado.”

Mas Darcy intuitivamente se sentia atraído nessa direção e diante das raras oportunidades, sempre com grande carisma e imensa simpatia, começou a abrir inúmeras portas e a tocar em todo o lugar.

“Naquela época se tocava em casa de família pois não tinha televisão e todos nos chamavam para tocar. As pessoas adoravam. A TV matou isso quando chegou, uma pena. Acabaram as reuniões musicais, as serestas e até as apresentações que remuneravam bem.”

Em 1957, quando Darcy tinha 23 anos, seu tio que fazia duo com ele despede-se de forma trágica em um acidente de carro.

Dirigindo do Rio de Janeiro à cidade de Campos em companhia do cunhado, com seu ‘Nash’ 49, que acabara de adquirir, perde a direção por conta de um pneu que estoura e sem conseguir controlar o veículo, invade a contramão da estrada colidindo de frente com um ônibus da Cometa que vinha em direção contrária, em alta velocidade. Uma verdadeira tragédia.

Este foi mais um grande choque para Darcy, pois além de parentes eram parceiros de música e quase irmãos pela proximidade da idade, extremamente amigos um do outro.

Diante do ocorrido e sob forte impacto deste acontecimento, Darcy ficou praticamente 1 ano sem colocar a mão no violão.

Quando retomou o instrumento teve que começar a refazer todos os arranjos de dois violões para violão solo. E a partir daí, teve que recriar esses arranjos, musicalmente falando, de forma que não ficassem pequenos diante daqueles que executara com o seu tio.”

E foi assim, movido por um sentimento profundo de resgate e determinação de reerguer todo um trabalho, somando a experiência que já tinha como solista e acompanhador, que seus arranjos para solo ganharam peso, potência e virtuosismo, com uma grande presença e equilíbrio dos ‘baixos’.

Desde então, ele mesmo fazia a sua base e assim sua vida de solista se sedimentava.

* É de conhecimento geral que não existe propriamente nenhum método publicado por Tárrega. Mas as técnicas que proviam de seus ensinos e que alguns de seus alunos e alunas ajudaram a disseminar no mundo e no Brasil, a exemplo da famosa guitarrista valenciana Josefina Robledo, ajudaram por constituir um método pedagógico de ensino apelidado de Tárrega.
Este método, divulgado e muito comentado por 
Robledo, ao longo de sua permanência em São Paulo, chegaram às mãos do próprio Oswaldo Soares. Ele, por sua vez, convivendo por um período de tempo com Josefina Robledo, teve a oportunidade, pela relação que desfrutaram, de estruturar, formatar e lançar no início dos anos 60 um método que intitulou como ‘Escola de Tárrega’. Dessa forma, enriqueceu as escolas da época com este material, promovendo um aprimoramento técnico no uso do violão que beneficiou muito os violonistas no Brasil. Tal movimento também contou com outras iniciativas como a da revista ‘O Violão’ que, por sua vez, nos anos de 28 e 29 já veiculara alguns desses aprendizados e exercícios. 
Darcy Villa Verde, que foi aluno de Oswaldo Soares, iniciou seus estudos do clássico com este método.

Foi em meados do ano de 58, que Darcy foi levado a ver Andrés Segovia.

O Dr. Moacir, diretor do Banco do Brasil no Rio de janeiro, amigo de Villa Verde e grande admirador de seu trabalho, levou-o para ver Andrés Segovia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Noite de gala. 

Toda a elite cultural e musical estava presente neste evento que, muito raro, oferecia a oportunidade dos violonistas testemunharem aquele que se tornou a referência em matéria de violão clássico no mundo; de entenderem em que dimensão o violão podia ser lançado a ponto de ser reconhecido como um instrumento sério de concerto, disputando posição com os demais instrumentos,  nas rodas das elites culturais.

Evidente que outros violonistas clássicos internacionais, como o paraguaio Agustín Barrios ou o espanhol Sainz de la Maza e a própria Josefina Robledo, já vinham fazendo apresentações no Brasil, mas não com o peso e o tamanho de um Andrés Segovia.

Esse dia foi um divisor de águas na vida de Darcy. Uma impressão que ficaria registrada para sempre em sua emoção: a figura circunspecta de um músico solista no palco em um ambiente suntuoso e solene, trajando casaca preta, tocando músicas que o maravilharam, mesmo que não as conhecesse todas.

Tudo ali era muito novo, sênior e imponente, dada a circunstância da apresentação e da performance. Tudo o encantava profundamente. De tudo o que já havia visto em termos de violão, aquilo era superior.

Segovia terminou a primeira parte do recital tocando Chaconne de Bach.
Tocou Cancioneta de Mendelson, Estudo de Villa-Lobos n.1, Preludio de Villa-Lobos n.3, Sarabanda de Haendel; todas elas, músicas que viriam a fazer parte do repertório erudito de Darcy Villa Verde, logo mais à frente. 

 

Imediato ao término do recital de Segovia, ainda nos salões do Teatro Municipal, o Dr. Moacir perguntou a Darcy o que ele tinha achado do recital, e se teria interesse em caminhar na mesma direção de um violonista como Andrés Segovia.

Diante do enorme interesse de Villa Verde, Dr. Moacir aproveita para apresentar-lhe o seu professor Oswaldo Soares, que ali se encontrava, e intercede por Darcy pedindo uma audição para ele.

Oswaldo Soares, pego de surpresa, diz que iria considerar o pedido, mas olhando para Darcy, bronzeado, porte atlético, bem vestido, bem apessoado, simpático, muito comunicativo e um certo ar de ‘bon vivant’, pensa se tratar de mais uma indicação empolgada de um aluno seu que se deslumbra com um amigo playboy, tocador de violão.

Geraldo Villa Verde, tio de Darcy, que estava presente na noite em questão e que também conhecia Oswaldo Soares chega para interceder a favor de seu sobrinho reforçando o pedido e destacando suas qualidades de músico.
Oswaldo Soares, sob cerrada insistência e pressão que começam a se estender por alguns dias, resolve, então, atender o pedido de Geraldo e do Dr. Moacir e marca uma audição numa tarde em sua casa.

“Rua Machado de Assis, 51, 3º andar. Onde os pombos entravam por uma janela e saíam pela outra”.

Darcy chega, cumprimenta Oswaldo Soares, agradece a oportunidade, mostra seu violão, um Romeo Di Giorgio com encordoamento de aço, senta, aguarda e quando autorizado começa a tocar. Alguns minutos depois Oswaldo educadamente pede para ele parar e se retira da sala retornando com um violão Simplicio do início do século 20, com tornavoz na boca e o oferece a Darcy Villa Verde que o toma em suas mãos e observa admirado aquele belíssimo instrumento com cordas de nylon.

Darcy posiciona o violão, e a pedido de Oswaldo Soares o toca por mais de uma hora enquanto o professor Soares o observa e o escuta em silêncio.

Após o término e visivelmente impressionado com a apresentação de Darcy, Oswaldo Soares o aceita naquele momento como aluno.
Contudo, impõe uma condição: deveria parar de tocar qualquer tipo de música.

“Darcy, confesso que nunca vi um talento como o seu, você realmente impressiona e pela sua reação vejo que já sabe disso. Mas se o seu interesse é música clássica você vai ter que recomeçar do zero, vai ter que iniciar um novo histórico de aprendizado musical.” 

A condição imposta por Oswaldo levava Darcy a entender que apesar de tocar por mais de 20 anos, de já ter tocado com Dilermando Reis, Pixinguinha e tantos outros; que apesar de dominar completamente o instrumento na música popular e de saber tocar peças clássicas, inclusive, com transcrições e arranjos elaborados por ele próprio, se fazia necessário um estudo totalmente dedicado ao violão clássico, ou seja, ao repertório e cultura erudita; estudo, este, que para ser iniciado exigiria de Darcy Villa Verde, na época, abandonar inteiramente seu repertório deixando de tocar toda e qualquer música e se dedicar, única e exclusivamente, aos exercícios técnicos de violão da ‘escola de Tárrega’ que lhe seriam passados a partir daquele momento; que iniciariam com 2 aulas por semana e que aumentaria para 3 quando o achasse preparado para construir repertório.
Oswaldo chega a salientar que se tomasse conhecimento de que ele tivesse tocado em qualquer lugar, mesmo que motivado por qualquer circunstância, suspenderia as aulas.

Darcy, pego de surpresa, alega que provavelmente não teria condições de arcar com um custo de um trabalho desse, ainda mais com um professor como ele.
Para surpresa de Darcy, Oswaldo pensa um pouco e responde que não iria cobrar nada, desde que fizesse o que ele orientasse. 
Diante do enorme potencial apresentado, Oswaldo Soares o queria como aluno. Disse que o orientaria para o universo da música clássica concertista profissional, mas que para isso exigiria resultados rápidos. Principalmente por conta da idade já adiantada de Darcy – 25 anos – e por conta da influência do popular que, acreditava, precisava ser contida naquele momento para não prejudicá-lo.

– Quero de dois a três anos de sua vida para fazer apenas o que eu mandar; 5 horas de estudo por dia, exercitados religiosamente: escala, ligado, escala, ligado e arpejo, ligado e escala! Não toque mais nada, nenhuma música! Descança e volta aos exercícios. Daqui pra frente você não toca, só estuda o que eu mandar! Se acabar as 5 horas de estudo e ainda tiver fôlego para mais, repita tudo novamente. Aí você vai ver o que vai acontecer!

– Tudo bem – respondeu Darcy – farei o que manda, mas ao final eu escolho as peças que vou tocar!

– Se fizer o que eu mandar, acredite, vai poder escolher o que quiser.

Foram praticamente três anos só de técnica e exercícios. Só então, iniciaram-se os estudos das peças eruditas que, escolhidas pelo próprio Darcy, fariam parte de um dos mais difíceis repertórios para violão clássico.

Aqueles que conheciam Darcy Villa Verde, apesar de o respeitarem pelo seu virtuosismo no violão, acharam ousado da parte dele se aventurar, agora com vinte e sete anos de idade, na construção de um repertório de música clássica ‘concertista’ e peças, em sua maioria, com altíssimo nível de dificuldade.
Diziam que estava literalmente louco.

Foram por volta de seis anos de aula. Quase três anos de estudo e de muita técnica e mais três de construção de repertório.
Começou os exercícios em 1958 e a montar seu repertório a partir de 1961 com as peças de Bach, Händel, Hydn, Ponce, Roncalli, Albeniz, Granadod, Sor, Tárrega, e assim por diante. 

Um belíssimo trabalho do professor Oswaldo Soares que quando presenciou o amadurecimento de Darcy nas peças barrocas e clássicas, disse a ele numa tarde, após ouvi-lo tocar a Chaconne de Bach em seu Simplício: 

– Darcy, quando eu morrer, o meu violão Simplício vai para você, entendeu? 

Chamou a esposa na sala e repetiu o seu desejo: 

– Alice, esse violão aqui – apontando para o Simplício – é do Villa Verde quando eu morrer! Dê a ele, somente a ele! É o meu desejo!

Darcy sorriu, como sempre fazia diante de situações inusitadas.

Ao final do ano 1965, Oswaldo já somava 81 anos de idade e apresentava um certo cansaço natural da idade. Não se sentia muito bem.
Darcy, a partir de então, intuiu que seria uma boa ideia dar continuidade às aulas com uma professora conhecida e, segundo alguns, temida pelos violonistas por ser altamente exigente e intransigente com a mediocridade: Adolfina Raitzin de Távora, mais conhecida como Monina Távora como alguns a chamavam.
Ela tinha sido aluna dileta de Andrés Segovia e tinha por hábito não aceitar alunos, e sim selecioná-los.
Isso brilhou os olhos de Villa Verde que desejava dar um acabamento interpretativo profissional em sua forma de tocar, e de fazer isso por meio de alguém capaz e exigente, alguém que tivesse estudado e ‘entendido’ as direções musicais do mestre espanhol no qual se inspirara desde 1958, quando o assistiu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

A questão é que como Darcy tinha um ouvido excelente, uma musicalidade “extraordinária” e uma memória musical de grande dimensões e muito madura, bastava ouvir uma ou duas vezes uma música que ele a tirava de ouvido e já imprimia a sua forma de ver a música, desenvolvendo arranjos com harmonizações próprias no estilo que quisesse.
No universo clássico como não tinha tanta intimidade, buscava as interpretações baseadas nos discos de Segóvia que ouvia repetidamente até achar suficiente.
Queria, então, dessa forma, uma orientação para musicalmente conseguir imprimir nas interpretações o seu jeito de ver a música, preservando toda as pontuações e o estilo.
Este acabamento de amadurecimento musical precisava ser adquirido, e ele elegera a Dona Monina, para este fim.

Então, respeitando as condições de saúde de seu professor Oswaldo Soares, Darcy começou a poupá-lo e foi buscar se aprimorar com aquela que seria a sua mais nova tutora.

Em janeiro de 1966, Darcy gravou as peças obrigatórias a serem enviadas para a seleção do Concurso Internacional de Guitarra de Paris, numa fita K7.

Em 26 de fevereiro do ano de 1966, seu professor e saudoso amigo Oswaldo Soares faleceu. E faleceu, levado de súbito, pela doença que o tomara silenciosamente, sem saber que Darcy acabara de ser selecionado entre os cinco do mundo para disputar o Concurso de Paris, naquele ano.

Disse Darcy a respeito de seu professor:

É muito triste ver as dissensões que ocorrem no meio musical e violonístico, principalmente.

Nós, violonistas precisamos aprender a priorizar a arte do violão, ao invés de alimentar conteúdos baseados em relativismo de valor ou de achismos.
Não dá para aquilatar a quantidade de homens de grande valor que viveram às sombras, sem o devido reconhecimento, por conta de partidarismos, ciúmes, inveja, manipulações políticas e disseminações venais, que só fizeram espalhar mais injustiças e tristezas do que qualquer outra coisa.

Conheci as maiores expressões do violão no mundo e posso afirmar que bons violonistas são muito raros. Precisamos de todos eles e de todos os recursos disponíveis para nos lançarmos em níveis melhores de técnica e interpretação.

Precisamos nos unir e buscar valorizar o que temos de grande; resgatar esses nomes importantes de nossa cultura que o tempo afastou para continuarmos sendo um dos grandes pólos da cultura do violão no mundo. 

Conheci alguns desses personagens, como o maestro Nelson Piló, o professor Oswaldo Soares, Monina Távora e tantos outros, que em seus estúdios simples e por amor ao violão, deram tudo do que tinham e do que não tinham, às vezes sem cobrar, para terminarem apagados dentro das páginas de nossa cultura, o que de forma alguma diminui o brilho e a importância que tiveram para a música e para a arte.

Vejam a Ida Presti, por exemplo. Uma total desconhecida aqui no Brasil e em grande parte do mundo.
Não fossem algumas gravações, as novas gerações nem saberiam de sua existência. Talvez com a internet isso mude um pouco.

Por acaso, algum deles, por mais esquecidos que estejam, deixaram de ter importância para o violão? 
[E não me refiro a serem citados aqui ou ali, mas de terem seus trabalhos considerados, pesquisados, difundidos e ensinados nas faculdades e em ‘masters classes’]  

Ao menos, aqueles que tive o privilégio de conhecer e de poder aprender com eles, estão vivos em minha música. 
E se quiserem saber como eram e o que ensinavam, que nos escutem tocar.
E se não gostarem do que ouvem, creditem o fracasso a nós, mas nunca a eles que deram o seu máximo, não importando se de dentro de uma quitinete com pão e vinho barato ou se de dentro de uma academia de música renomada na Europa.

 

SOBRE OSWALDO SOARES

Não poderíamos prosseguir e virar a página, deixando de mencionar este homem como um verdadeiro baluarte do violão clássico no Brasil.
Sim, muitas dessas personalidades de destaque, por não terem figurado na mídia e nas badaladas noites musicais, terminaram com os seus nomes um pouco à margem de nosso acervo cultural; com citações muito discretas na mídia em uma pequena coluna arquivada, na biografia de alguém, mencionados rapidamente numa entrevista ou, então, numa resenha que não ultrapassa duas ou três linhas quando, em verdade, fizeram parte de toda uma história que ajudou a 
oxigenar, a sustentar e a estruturar a vida de toda a nossa cultura musical. No caso, da cultura do violão brasileiro. 
São nomes que se não respondem diretamente pela formação educacional ou cultural de alguém, com certeza respondem indiretamente.

Se por um lado, violonistas como Josefina Robledo, Miguel Llobet e Emílio Pujol difundiram as ideias e os ensinamentos de seu mestre Francisco Tárrega e Miguel Llobet pelo mundo, inclusive no Brasil do início do séc. XX, por outro lado foram homens como Oswaldo Soares que ajudaram, em seu tempo, a perpetuar essas ideias e ensinamentos à centenas de alunos que chegou a lecionar, e mais tarde à milhares deles, organizando, ordenando e registrando essas ideias e ensinamentos no que intitulou como ‘Escola de Tárrega’.
Uma contribuição visceral para o violão no Brasil, como se referiu Manoel Bandeira à técnica de Josefina Robledo em seu artigo: 

“Pela suavidade de seu som e pela simplicidade e justeza de sua técnica, possibilitava àqueles que a observavam tocar a corrigir e reformar os dedilhados defeituosos que empregavam, de sorte que hoje já se vai começando a tocar com limpeza e estilo.”

Podemos hoje, pelo desenvolvimento que a técnica vem alcançando, até inclinar nosso gosto musical para outra direção que não a dela ou de algum outro do passado. Mas nunca desconsiderar o fato de que o que temos atualmente, partiu do que pessoas como ela construíram e ofereceram com arte e muito estudo à cultura deste instrumento tão desafiador, que até hoje coloca sempre à prova quem se atreve a subir em um palco para tocar repertório clássico.

Desta forma, gostaríamos de inspirados nas palavras do colunista Oromar Terra, parafraseá-lo para dizer que este velho mestre do violão no Brasil, Oswaldo Soares, formava com uma dedicação invulgar gerações de violonistas profissionais e amadores. 
Decano dos professores de violão no país, não obstante o avançado da idade, se manteve em plena atividade docente até os últimos dias de sua vida com o mesmo amor de sua juventude à arte de ensinar.

No dia de seu 80º aniversário, seus amigos, discípulos e admiradores lhe ofereceram um jantar festivo quando lhe entregaram uma placa de ouro comemorativa da data. Na ocasião, o velho mestre foi saudado num discurso memorável pelo professor Helio Gomes, Diretor da Faculdade Nacional de Direito, que assinalou, diante dele, que se encontrava frente à um dos maiores professores e homens do país, pelo o que realizou.

Foi Oswaldo Soares quem primeiro rompeu barreiras no Brasil para que se reconhecesse no violão qualidades de instrumento de concerto.
Oswaldo, que estudou com a concertista Josefina Robledo, que fora aluna de Francisco Tárrega, foi quem empunhou a bandeira da renovação do conceito do violão como um instrumento sério no Brasil.
Teve centenas de alunos, trouxe ao Brasil vários concertistas estrangeiros, fundou a ABV-Associação Brasileira do Violão, e conviveu com os maiores mestres do instrumento: Josefina Robledo, Agustín Barrios, André Segovia, são alguns deles.

“Discípulo de Robledo, desta, herdou os conhecimentos do grande mestre Francisco Tárrega. Publicou, então, o seu método de violão clássico a que deu o nome de “Escola de Tárrega”, sinal de sua honestidade profissional.

Entre os alunos que formou, através dessa ‘Escola’, destacaram-se, no passado, Carlos Collet e presentemente, Darcy Villa Verde, recém-classificado para disputar o concurso Internacional de Guitarra [violão] de Paris.

Conceituado no exterior, amigo de citados artistas e de tantas outras personalidades, de Oswaldo Soares disse o violonista, compositor e educador musical argentino Domingo Prat, em seu renomado Dicionário de Guitarristas:

Es poseedor de una vasta cultura guitarrística, musical y literaria, cualidades que hacen de el un selecto pedagogo’. 

Antes de falecer no hospital, Oswaldo Soares disse a Darcy, que fora visitá-lo, estas últimas palavras:

“Darcy, o violão te deu uma grandiosidade que poucos alcançarão. Nunca se esqueça de fazer por ele o que ele fez por você. Retribua, divulgue-o com a sua arte. Vencerás.”

– Oswaldo Soares

Darcy Villa Verde, como não poderia deixar de ser, absorveu mais essa perda que o deixou muito impactado e que ele certamente, mais uma vez, soube transpor de forma muito intensa e expressiva para as suas interpretações.

1965. Darcy Villa Verde precisava de um professor para dar continuidade ao amadurecimento nas interpretações de seu repertório, e fazia tempo que Oswaldo Soares já vinha dando sinais de cansaço e de que não estava bem de saúde.

Foi nesse período que Darcy decidiu procurar por Adolfina Raitzin de Távora – mais conhecida por Monina Távora, uma exímia violonista que tinha sido aluna de Andrés Segovia e que já vinha dando aulas para o Duo dos irmãos Abreu desde o início dos anos 60 – e pedir para que ela o orientasse.

Monina Távora tinha por característica escolher seus alunos. Dessa forma, recebeu Darcy por intermédio de um amigo comum aos dois para uma audição e avaliação. 
Darcy, sabendo que Monina tinha sido aluna de Segovia e que fora considerada pelo mestre espanhol como uma de suas alunas diletas, queria muito a orientação dela para um acabamento nas dinâmicas de suas interpretações. 
Contudo, foi informado de que Monina Távora era conhecida por só aceitar alunos que visavam alta performance e, mesmo assim, se estes apresentasses condições, pois, até então, só dava aula para os irmãos Abreus e alguns poucos, mais pontualmente; que ela era extremamente exigente, perfeccionista e bastante intransigente com qualquer circunstância que atrasasse o desempenho do aluno. 

No dia marcado, Darcy chegou em sua casa.
Tomada de súbito pela simpatia e pelo entusiasmo jovem e acelerado de Darcy, após as devidas apresentações, Dna. Monina pediu-lhe gentilmente que se sentasse e que ficasse à vontade para começar a tocar.

Villa Verde narra que conforme tocava se deu conta, a certa altura, de que Monina Távora começou a regê-lo e lhe dar direção. Neste momento percebeu que a tinha conquistado. 

Depois de algumas conversas e audições, que a surpreenderam muito, Monina Távora aceitou começar a dar aulas a Darcy e, repetindo a mesma situação que se deu com Oswaldo Soares, não cobrou absolutamente nada pelas aulas.

Porém, pelo decurso de prazo, uma vez que a motivação de Darcy, além de amadurecer a sua técnica e interpretação, era a de se preparar para o Concurso Internacional de Violão Clássico em Paris, no ano seguinte, exigiu dele uma entrega e uma seriedade de execução sem precedentes com relação aos estudos, o que Darcy Villa Verde correspondeu prontamente. Era este o seu intuito.

Contudo, quando Monina Távora tomou conhecimento de que Darcy não tinha leitura à primeira vista, tomou um susto. Custou a acreditar que alguém com uma sofisticação execucional e cultura musical daquelas não dominasse esta etapa da parte teórica, e falou que ele surpreenderia na musicalidade, na técnica e na interpretação – no que ela inclusive ajudaria a refinar – mas que sua participação se tornava inviável pelo fato de ainda não ter leitura à primeira vista, um quesito exigido no concurso de Paris. 
Darcy Villa Verde contra-argumentou sobre a importância deste momento em sua vida frente ao que planejava profissionalmente. Informou que já tinha se decidido por participar e que iria de qualquer maneira. Disse que contava com ela para isso, que trabalharia com intensidade e que surpreenderia no que sabia fazer de melhor.

– Mas Darcy, e quando chegar na etapa da leitura, o que você acha que vai acontecer quando você disser que não vai ler?

– Monina, esta é a última etapa! Até chegar nela eu já mostrei o que sei fazer e impactei todos eles! Eu preciso ir, foi uma promessa no leito de morte do meu pai! Não quero saber, já estou com quase 32 anos, comecei tarde, um amigo já me inscreveu e não vou perder esta oportunidade, vou encarar.

– Mas você vai ser desclassificado!

– Se for esta a decisão do júri, aceitarei as consequências.

Darcy apesar de estar tocando eximiamente e de saber ler partitura, não tinha leitura à primeira vista, ou seja, ler, tocar e interpretar ao mesmo tempo uma partitura desconhecida; e ia disputar um concurso em que este quesito, apesar de ter menor peso, era ‘eliminatório’.
Não ia conseguir resolver este problema nos poucos meses que restavam, ainda mais porque tomou a decisão de participar do concurso 4 meses antes da data de envio da fita gravada com as músicas de confronto para a etapa classificatória que se daria ao final do mês de janeiro do ano seguinte. 

Depois de ouvi-lo, de se inteirar dos pormenores e de testemunhar a ansiedade de Darcy pelo decurso de prazo, frente ao desafio ao qual se impôs, Monina assume a tarefa de prepará-lo apesar de achar tudo aquilo muito precipitado e um tanto louco.  

Desde que notificada, Monina Távora estabeleceu, a partir dali, passar das 2 aulas por semana para 3 aulas, até o início de maio do ano seguinte. 
A partir de setembro, Villa Verde se impingiu uma disciplina de horas de estudos tão intensa que chegou a impressionar a própria Monina pelo que adquiriu em acabamento interpretativo, em tão pouco tempo.

Darcy dizia que conseguia resistência física e mental através de exercícios de natação em mar aberto, um esporte que praticava desde criança com o seu pai.

Inusitadamente, a situação se agravou, ainda mais, quando as partituras das músicas da etapa classificatória que estavam disponíveis em Paris para os concorrentes faziam 5 meses, só chegou em suas mãos 30 dias antes da data marcada para a gravação da 1ª etapa classificatória.
Esclarecendo a questão, os participantes escolhidos por um corpo de jurados, em cada país competidor, iam ao Consulado da França para gravar na presença de um conselho e presença do adido cultural francês, uma fita K7 com as 4 músicas de confronto, mais as peças de livre escolha, que seriam enviadas a Paris para a fase classificatória.  

A pessoa que ficou encarregada de adquirir as partituras e enviá-las de Paris à Darcy meses antes, por algum motivo ou impedimento não conseguiu fazê-lo e nem escreveu avisando quais eram as músicas para que Darcy pudesse procurá-las no Brasil.
Quando Darcy percebeu que elas não chegavam, enviou uma carta cobrando, e até as partituras chegarem em suas mãos, o tempo correu.

Depois de tentar, mais uma vez em vão, dissuadir Darcy a não participar, Monina Távora diante do inevitável, se disponibilizou a ajudá-lo na leitura das 4 partituras.
Darcy agradeceu, mas pressionado pelo tempo, disse que conseguiria mais rápido se trabalhasse como estava acostumado. Tiraria de ouvido as músicas dos discos do Segovia enquanto lia.
Disse a Monina que ela não se preocupasse e que dali a 3 semanas voltaria tocando todas as quatro. 
Foi à galeria Roxy, em Copacabana, na loja de violões e partituras que também comercializava discos, a loja de seu amigo Mário Montenegro na qual há mais de um ano passava o dia inteiro estudando dentro de um estúdio em um mezanino [local, este, no qual inúmeros músicos e violonistas iam assistí-lo estudar, inclusive Edu da Gaita, Dilermando Reis e Arthur Verocai], pegou os discos, levou pra casa e em 3 semanas retornou à casa de Monina Távora tocando as quatro músicas de confronto.
Monina em uma semana lhe deu o acabamento musical e interpretativo necessário. Nesta semana o número de aulas aumentou muito.

Depois de feita a gravação e, posteriormente, ter confirmada por Paris a sua participação na final, [ via telegrama enviado em abril à Darcy através do Itamarati – Ministério das Relações Exteriores do Brasil ], Villa Verde permaneceu trabalhando no acabamento das outras 4 peças de confronto que se dariam no mês de maio em Paris, nas peças de livre escolha e nas restantes de seu repertório.

Agravando a situação, uma dessas peças de confronto era o conhecido Prelúdio para Alaúde da Suíte n. 4 e em Mi maior, BWV 1006a. Uma peça tecnicamente dificílima de ser tocada, quanto mais de ser bem interpretada. 

“Quando eu abri a partitura desse prelúdio e vi aquele monte de páginas quase pretas pela quantidade de semínimas, e me lembrei de Oswaldo Soares e Monina Távora falando que, em função do pouco prazo, era precipitado demais, recordei todos aqueles violonistas seresteiros na casa do Jacob, se entupindo de churrasco e dizendo que eu dava conta fácil, que era moleza, tudo ‘fichinha’ para um cara com as minhas habilidades, e que eu não esmorecesse. 
Foi nesse momento que eu tive que tomar uma decisão fria e calculada para encarar o que estava por vir.”

De toda forma, a situação foi superada. 

Primeiro porque Monina Távora, tendo assumido o papel de tutora de Darcy, já o vinha orientando com relação a como interpretar as peças clássicas que ele tocava, um trabalho subsequente ao do professor Oswaldo Soares.
Depois, considerando que Darcy utilizava a leitura naturalmente como apoio, uma vez que tirara a maior parte das interpretações ‘de ouvido’ dos discos de André Segovia em uma vitrola portátil que ganhara de seu pai, e que quando precisava de algum esclarecimento maior com relação a interpretação, recorria ao auxílio de professores e músicos amigos que o atendiam sempre prontamente, as peças de confronto foram memorizadas muito rapidamente, e o tempo restante usado por Monina para trabalhar com Darcy a interpretação de cada uma delas.  

A questão é que todo o conhecimento adquirido por Darcy Villa Verde virava ‘música’, ou seja, toda a orientação que recebia, uma vez entendida, era absorvida e aplicada imediatamente, ficando registrada em sua memória execucional e criativa musical. Isso, devido ao talento que tinha, e à habilidade e facilidade que desenvolvera com os estudos, desde cedo. 

O próprio Sérgio Abreu chegou a comentar que Monina se impressionara com a velocidade com que Darcy apreendia suas orientações e conseguia aplicá-las na intenção musical, reescrevendo musicalmente as interpretações.
Conta Sérgio, que Monina, inclusive, confidenciou a ele que se Villa Verde continuasse evoluindo da forma como vinha, poderia se tornar um dos maiores expoentes do violão.

Monina Távora foi quem deu a Darcy Villa Verde uma direção interpretativa mais segura e madura na maneira como desenvolver e apresentar cada uma dessas peças de seu repertório, e como fazer isso com suas próprias características e construções, – interpretação, estilística, destaque e acentuação das vozes, fraseados, escalas, etc – evitando o que ocorre frequentemente com muitos músicos, profissionais, inclusive, de se aventurarem, irresponsavelmente, a tocar obras sem estarem suficientemente preparados e maduros para elas.
O resultado disso, usualmente, leva a um total comprometimento do intérprete, de seu professor, do instrumento que representa e, por fim, da própria música.

“Darcy, essas músicas que você escolheu para seu repertório, são muito difíceis e este prelúdio de Bach é dificílimo de ser bem interpretado. É preciso que você compreenda isso e se prepare devidamente para tocá-las muito bem, no tempo de que você dispõe. Isso exigirá de você, diante da circunstância, uma memória incomum e uma imersão de estudo em quantidade de horas, sem precedentes.
Eu vou ajudar, mas quero que entenda o que há pela frente até o Concurso em Paris. Exigirei resultados a curto prazo. E mais uma coisa, ‘esqueça’ música popular! Se quiser ser considerado sério, remova deste momento de sua vida essa boemia.
Já vi que consegue transitar nos dois universos muito bem, mas mesmo assim não o faça. Seu tempo deve ser dedicado, único e exclusivamente, para esse repertório.”

Monina Távora, 1965

Importante salientar os pontos de divergência e de congruência que afinavam a relação entre Darcy Villa Verde e Monina Távora. 

Monina tinha por princípio não misturar os dois gêneros e universos musicais – clássico e popular.  Isso ia na contramão do que Darcy entendia de música. 
Darcy sempre acreditou que a música estava à serviço da verdadeira musicalidade que, por sua vez, podia transcender de um gênero flamenco a um clássico, e de um popular a um barroco. Bastava para isso ter ‘dedo’, ‘espírito’ e domínio dos estilos, como ele mesmo falava. 
Mesmo Darcy apresentando grande autonomia e um histórico de construção e desenvolvimento musical bastante maduro e próprio, com opiniões definidas a respeito do que achava devido ou não, respeitou o pedido de sua mentora Monina, ao menos, inicialmente. E suspendeu a música popular.

Apesar dessa divergência, a ‘química’ de Darcy com a professora Monina Távora era muito boa, até porque ambos compartilhavam das mesmas crenças. 
Darcy acreditava que para tocar certas peças é preciso ter maturidade e ‘estrada’ no sofrimento, ela também; Darcy era um perfeccionista e acreditava que para tocar muito bem precisava estudar no mínimo de 08 a 10 horas por dia, todos os dias, ela também; Darcy acreditava que um músico precisa exacerbar o sentimento e a intuição musical sobre a partitura de uma peça, não importando a música e seu estilo, e ela também; por fim, Monina o alertava que o concurso, nas condições em que Darcy se trazia, exigia dele comprometimento, memória musical excepcional e coragem, e ele tinha os três.

Com a chegada, pelo correio, das partituras das peças de confronto para o concurso, e com tão pouco tempo para estudar – 1 mês -, o ritmo de estudos se intensificou ainda mais.

Com relação as músicas da fase da final do concurso, conforme Darcy foi memorizando e tocando cada uma delas, Monina Távora foi trabalhando com ele a interpretação e o acabamento, além de refinar aquelas que já trazia em seu repertório, inclusive a titânica Chaconne de Bach que Darcy Villa Verde já vinha tocando há 4 anos.

Desde que recebeu a notícia de que fora classificado, Darcy Villa Verde mergulhou de cabeça nos estudos das outras 4 peças de confronto para a final do concurso que se daria no mês de maio e se manteve imerso nos estudos até o concerto que decidiu dar, antes de partir, para sedimentar seu trabalho e poder se avaliar em público. 

Monina Távora chegou a comentar, posteriormente, que ao longo de todo o processo, mesmo consciente de que não tinha condições de concluir o último quesito obrigatório e classificatório, Darcy nunca duvidou de si mesmo. 
“Sua segurança, vontade e determinação em buscar o que desejava eram impressionantes e admiráveis.”

Pode-se dizer que apesar do talento de Darcy e de sua determinação obsessiva de quatorze horas de estudo diário, o trabalho ‘sem precedentes’ foi, sem dúvida conjunto, pois com pouco tempo Darcy, pelas palavras de Monina, se encontrava ‘pronto’ e não fez isso sozinho.

Contudo, disse-lhe Monina Távora, duas coisas antes dele partir:

“Darcy, preste atenção: vimos pelo recital* que você está pronto. E apesar da grande personalidade que você tem e de já tê-la impresso na sua forma de tocar, você ainda toca algumas das peças de seu repertório semelhante ao Segovia. Precisa, daqui pra frente, seguir o seu próprio instinto musical. 
Sua criatividade musical e suas ideias interpretativas são muito bonitas e originais; confie nelas e as siga sem receio, seu trabalho crescerá muito com isso.
Outra coisa: Depois desse concurso quero que se aplique ao estudo teórico com responsabilidade, pois tenho para mim que se você continuar se dedicando dessa forma, você poderá alcançar o que desejar.

* Recital dado na Escola Nacional de Música. 13 de maio, 1965.

Abraçou-o, se despediram, desejou-lhe sorte, e disse que torceria por ele. 

O que Darcy Villa Verde causou em Paris, não pegou Monina Távora desprevenida. 
O que ela não podia prever, e muito menos esperava, foi o resultado do Concurso como se deu, somado ao interesse de Ida Presti, uma lenda viva do violão clássico, em convidá-lo para estudar com ela ‘alta interpretação’ naquele ano. 
Ida Presti, após parabenizá-lo na noite do concurso, faz o convite na frente de todos. 
Isso, foi assunto para vários encontros entre Villa Verde e Monina quando ele retornou da França.

O relacionamento de Darcy com Monina foi fortalecido ainda mais ao longo do tempo pelos laços que se formaram através de um grande admirador de Darcy Villa Verde, o ministro e general Juarez Távora que era, por sua vez, irmão do esposo de Monina, o cientista e geólogo Dr. Elyziário Távora.
O ministro Juarez Távora, na época Ministro da Viação, foi quem entregou à Darcy Villa Verde o telegrama emitido pelo adido cultural de Paris, Guilherme Figueiredo. Enviado da embaixada da França ao ‘Itamarati’ no Brasil, o documento comunicava a classificação de Villa Verde no Concurso de Violão Clássico em Paris e informava que a sua chegada era esperada pelos organizadores da ORTF, dali a poucas semanas. 

Quando o ministro Juarez Távora tomou conhecimento de que Darcy Villa Verde era violonista, que iria participar de um concurso internacional de violão e que estava sendo preparado pela Monina Távora, começaram a surgir inúmeros convites para apresentações com a presença de  inúmeras personalidades, e principalmente políticos.
Um deles, o presidente Juscelino Kubitschek que o assistiu em um recital na casa do Dr. Aloysio de Salles Fonseca, médico idealizador e fundador do Hospital dos Servidores do Estado.
Eram muitos. E todos eles, grandes aficionados por violão e profundos admiradores da musicalidade e das interpretações de Darcy Villa Verde. 
Apesar de Darcy Villa Verde, como músico, dar preferência a apresentações em grandes teatros e salas de concerto, como artista também apreciava muito esse gênero de convite. Recitais na casa de apreciadores da boa música erudita.
Eram eventos formais frequentados por todo o tipo de personalidades que se desenlaçavam em ótimas conversas e oportunidades de negócios e relacionamentos. 

Fez grandes amizades e aumentou ainda mais sua rede de contatos que já era enorme, a partir desse período. 
As histórias que daí decorrem são muitas, como, por exemplo, quando o filho de Villa Verde adoeceu e quase veio a óbito; diante dessa enorme consternação, todos eles se reuniram e se mobilizaram comunicando ao ex-presidente JK do ocorrido, e que, uma vez informado a respeito, mandou transferir imediatamente o filho de Darcy para a suíte presidencial do Hospital dos Servidores do Estado, alocando um médico, o Dr. Saul, e toda uma equipe de enfermagem, em tempo integral, para cuidar do filho de 3 anos de Villa Verde.

Um episódio que mudou a vida e o rumo profissional de Darcy, desde então.

Juscelino Kubitschek tinha Darcy Villa Verde em tanta conta que, inclusive, já tinha intercedido em favor dele no próprio Ministério da Viação, indo lá pessoalmente com os seus assessores por conta de um incrível desentendimento.

“ Como posso traduzir em palavras quem foi Monina Távora para mim? É uma questão de sentimento, rapaz. 

Era uma amiga, uma pessoa culta, inteligentíssima, espirituosa, experiente e sempre muito gentil com as palavras. Muito ‘precisa’ e educada em tudo o que falava e sempre orientando de maneira que eu entendesse.
Era a representação do que é ser ‘senior’ em diversos aspectos; na música e na vida.

Era grande e simples. Foi um período de estudo relativamente curto mas de grande proveito para minha vida profissional.
Gostava realmente muito de mim, e eu dela, claro! 
Sou muito grato por tê-la tido como mestre e por ter se tornado minha amiga. 

Ela, como outras raras e importantes pessoas que vim a conhecer, foram as mãos de Deus em minha vida. Não tenho como se descrever isso. É mais sentimento do que qualquer outra coisa.”

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