REPERTÓRIO

MÚSICA CLÁSSICA E MÚSICA POPULAR, MAS COM DARCY VILLA VERDE ERA TUDO ERUDITO.

Darcy Villa Verde construiu ao longo de sua carreira um repertório bastante eclético no que se refere a música erudita. 

Sua musicalidade, dom, habilidade técnicaespírito se prestavam a que ele reunisse um repertório com diferentes músicas de diferente gêneros e estilos, interpretando-as, estilística e musicalmente, segundo críticos, de forma única.
Não se tratava apenas de saber tocar, mas de incorporar nas interpretações que fazia, toda uma história e experiência musical viva e cultural.

Em decorrência disso, escolheu apenas aquelas que gostava de ‘sentir’ mais profunda e musicalmente. 

Apesar de sua predileção pela música clássica, e de ter em Bach sua preferência, Darcy Villa Verde trazia um espírito profundamente aberto à música espanhola e aos diferentes estilos do erudito, como por exemplo, o do romantismo, do impressionismo, do modernismo e até do popular e folclórico. Músicas que eram absorvidas por ele, debaixo de uma rigorosa preparação, muita seriedade e infindáveis horas de estudo.

Como já comentamos, Darcy Villa Verde apesar de ter trabalhado ao longo de anos com um seleção mais extensa de músicas eruditas, optou, posteriormente, por restringir seu repertório a um número de 150 peças, no máximo.
Essas peças foram pré-selecionadas por ele, por gostar muito delas e porque, segundo foi verificando ao longo dos recitais que deu, eram as mais apreciadas pelo seu público.
Tendo como base de formação musical, 20 anos de música popular brasileira e internacional, conhecia bem o que sensibilizava mais o público, tanto no Brasil quanto no exterior. Até porque, neste tempo, a bossa-nova e o samba já tinham conquistado o espírito dos americanos e dos europeus.
Conhecedor profundo do público, entendeu quais peças de seu repertório clássico tinham maior apelo ao espírito brasileiro e as manteve em seu repertório mais seleto de 150 peças.
Trabalhou-as profundamente, como fazia com todas as peças de seu repertório, de maneira que música e músico pudessem se transcender, oferecendo desta forma um recital que se transformava em um verdadeiro espetáculo.

“Ja assisti muitos bons músicos violonistas tocarem peças importantes, mas que você percebia, pela forma de tocar, que estavam cumprindo um compromisso. Naturalmente, pelo fato dessas músicas fazerem parte do repertório que é esperado ou exigido de um grande violonista. 

A questão é que você percebia claramente que aquela música apesar de ter sido tocada por um músico de expressão, não representava o tamanho daquele artista e nem o que podia alcançar musicalmente. Não expressava quem eram musicalmente.
Eu, que os conhecia, sabia que podiam mais do que aquilo que tocavam no palco. 

Então, por que tocá-las?

Um recital deve ser um momento mágico do músico com o seu público. Eu, por exemplo, não fui lá para assistir ele tocar esta ou aquela peça musical, eu fui para ver como era a sua versão de si mesmo como músico e a versão dele, das peças anunciadas.
Exatamente o que ocorre quando vão me assistir.
Amigos próximos me informam que vão me assistir para me prestigiar, é claro, mas que querem ver de perto como eu faço a música que faço, o som que eu faço; que querem ouvir a ‘minha’ Chaconne, o ‘meu’ Preludio, o ‘meu Fandanguilho, o ‘meu’ Ráfaga, essas coisas .
Esse é o valor que me motiva ser quem sou.

Outra coisa que também ocorre com frequência, são violonistas  que sofrem quase um ‘frenesi’ ao tocar certas músicas, e que são tidas pelo público como ‘chatas ao cubo’, que não tem apelo musical e melódico que agrade o público em geral.
Isso, para um público que saiu de casa indo assistir um recital esperando não só se aculturar, mas se entreter, assistir a um espetáculo, é muito decepcionante. 

Ser obrigado a ouvir uma peça que gosta mas que é tocada sem expressão, sem intensidade e emoção, só perde para a situação de ter que ouvir uma peça que não conhece, não gosta e ainda é inexpressiva e chata.

Quando escolho uma peça para incluí-la no programa, avalio o seu potencial de mobilização com a público e trabalho o tempo necessário para quando apresentá-la, atingir o público na alma, porque a mim, já atingiu. 

Sempre o público.

Se eu gosto de algumas músicas que não tem muito apelo geral, eu a estudo e toco para aqueles que possam apreciá-las em apresentações ‘privée’ ou ‘petit comitée’.
Se resolvo apresentá-las para grande público, preciso prepará-los para isso.
Converso bem com a plateia e a esclareço quanto aos detalhes; do porque de eu tê-las escolhido, do quanto me impactaram emocionalmente, de como se deu a preparação de cada uma, da importância de cada uma delas pela história de quem a compôs, e do porque de terem se tornado culturalmente relevantes para o repertório do violão.
Quando as toco, a expectativa está criada e a plateia acompanha mais interessada o que eu divido com ela.
Foi assim que fiz quando apresentei ao público brasileiro as Bagatelles de William Walton.
Adoro elas, mas são músicas muito modernas para o nosso público.
Então, preparava bem o público, principalmente do porque de serem importantes para mim e de eu trazer e querer dividi-las com eles, apresentava 1 ou 2, somente, e já era o suficiente para todo mundo entrar no clima que eu criava.” 

A ideia de Darcy Villa Verde era sempre buscar enriquecer culturalmente suas apresentações alternando o programa cada vez que tocava, contudo, o público insistia em pedir sempre as mesmas músicas.
Um aprendizado, levando em conta que o público ocupava o papel principal no seu trabalho. 
Importante deixar isso bem claro.
Como Darcy Villa Verde vivia da música e do público, o público era ‘tudo’ para ele, pois era o meio pelo qual se utilizava para se expressar musicalmente, através do violão.
Se as músicas não oferecessem um determinado equilíbrio quanto à melodia, ritmo e harmonia que as conectassem com o público; se não oferecessem um histórico que justificasse o tamanho que este músico alcançou com as suas performances tão anunciadas, o público ressentiria.

Um exemplo disso era quando Darcy Villa Verde chegava em algumas capitais para as grandes apresentações já esperadas. Tanto a mídia como alguns músicos e ouvintes curiosos, ligavam para o hotel buscando se inteirar a respeito de quais músicas fariam parte do programa. Pediam para saber se ele iria tocar a Chaconne e outras peças de Bach, se tocaria Villa-Lobos ou se iria tocar os compositores espanhóis, e quais seriam.
Darcy dificilmente comentava com antecedência as músicas que apresentaria e a mídia algumas anunciava causando um problema com isso, pois quando o público chegava nos teatros e via o programa, este, podia estar diferente do anunciado nos jornais.

Muitos queriam ver a interpretação de algumas dessas peças; peças que chamavam mais a atenção no meio violonístico profissional e que o público admirava. E que foram responsáveis por notabilizar Darcy na França e em parte do mundo.
Dessa forma, nessa época, para ouvir alguma interpretação específica só pedindo para ele tocar, ainda mais porque não fazia gravações.

Um exemplo, relacionado ao tema em questão, foi uma situação ocorrida no Teatro Princesa Isabel, que chegou a se repetir em outras ocasiões.
O público, um dia após a primeira apresentação das três que estavam programadas, começou a ligar para o teatro procurando saber se nas apresentações seguintes, o programa mudaria e traria as peças clássicas pela qual se fez conhecido em recitais anteriores.
Chegaram, inclusive, a citar algumas pelo nome.
O assunto foi levado ao conhecimento de Darcy, pelo seu empresário.
Darcy Villa Verde manteve o programa, mas após as 3 apresentações, enxergando o interesse e a oportunidade, conseguiu junto aos orgãos responsáveis, acrescentar uma apresentação ‘extra’ dali a 2 dias, com uma seleção ‘especial’ de músicas, e as anunciou, de público, apenas ao final do 3º dia, assim que encerrou o recital.

“Atendendo o pedido de vocês, programamos uma apresentação extra no dia ( … ) com as músicas que foram solicitadas à administração do teatro. E num ato de reconhecimento ao interesse desse público tão querido que sempre acompanhou carinhosamente o meu trabalho, acrescentarei 4 peças de Bach que são emblemáticas em minha carreira e, como surpresa, [Risos] outras 2 peças de minha autoria que não anunciarei.

Será um outro tipo de programa do que foi apresentado aqui, com uma intensidade e clima totalmente diferentes do que tivemos até agora. Tocarei peças que, inclusive, já retirei de meu repertório.

Não percam. Chance única [Risos]”

A notícia chamou muito a atenção pela possibilidade da Chaconne BWV 1004 e do Prelúdio BWV 1006a, fazerem parte das peças de tocaria de Bach. Duas peças que Darcy não incluía, há tempos, em seus programas, em Recife.
A título de curiosidade, as peças excluídas, eram ‘Valses Poéticos’ de E. Granados, Thème, Varié et Finale de M.M. Ponce e Sonata ‘Omaggio a Boccherini’ de castelnuovo-Tedesco. As peças extras foram ‘Variações Sobre um Tema de Villa-Lobos’ que compôs em 69, e dois ensaios de Prelúdios, também de sua autoria. Todas elas, criadas após o seu retorno da Europa e da Ásia, concomitantemente.

Abaixo, uma relação das músicas mais frequentemente tocadas nos recitais de Darcy Villa Verde, que compilamos de alguns de seus programas, para que se possa ter uma ideia das músicas mais usualmente tocadas, desde que iniciou sua carreira.

A maioria das peças clássicas, aqui apresentadas, Darcy chegou a tocá-las completas como as Suites de Bach, as obras de Isaac Albeniz, Joaquín Turina, Manuel Maria Ponce, Manuel de Falla, Fernando Sor, Castelnuovo-Tedesco, Henrique Granados, Francisco Tárrega, os Estudos, os prelúdios e a Suíte Popular Brasileira de Villa-Lobos, as Bagatellas de William Walton e, assim por diante.
Mas, como já mencionado, Villa Verde tinha por algumas delas, certa predileção, e achava prudente em seus recitais, aumentando a dinâmica das apresentações, não tocar todas as danças de um ‘Obra’ e peças de uma ‘Suíte’ ou ‘Partita’.
Desta forma, selecionava para os seus recitais e concertos aquelas mais icônicas e que ofereciam mais impacto e maior receptividade por parte do público, mediante as interpretações que fazia.
O resultado do concerto ou recital como um todo, de fato, impressionava profundamente o público, a mídia, os seus pares, e a crítica de seu tempo.

Esta iniciativa de selecionar alguns movimentos de um concerto, dificilmente ocorria quando se apresentava acompanhado de uma orquestra. Nesses casos, executava todos os movimentos.

MÚSICAS ERUDITAS - AS MAIS TOCADAS


MÚSICAS POPULARES - AS MAIS TOCADAS

OBS: Apesar de Darcy Villa Verde ter contemplado, em sua trajetória profissional, centenas de músicas populares nacionais e internacionais – quase todas com arranjos próprios -, decidimos não apresentar todo o repertório de músicas populares que Darcy Villa Verde adquiriu e apresentou à público. Compilamos, abaixo, apenas as que, ocasionalmente, ele passou a apresentar em seus recitais ou como peças extras de suas apresentações, a partir da década de 60.

CURIOSIDADES

REPERTÓRIO EXIGIDO NO ANO DO VIII CONCOURS INTERNATIONAL DE GUITARE CLASSIC - ORTF PARIS 1966

Peças obrigatórias que foram gravadas e enviadas à Paris, disputando classificação:

 

Peças obrigatórias de confronto para serem executadas em Paris, no Concurso em 1966:

Obs: As duas peças, o Preludio BWV 1006a, e a Chaconne (Peça que Darcy selecionou como ‘livre escolha’) foram apresentadas e interpretadas com impressionante ‘destreza e alma’ – palavras do júri – por Darcy no primeiro dia do concurso.
O preludio foi retirada da apresentação a público no dia seguinte, pelo fato da maioria dos outros concorrentes estarem apresentando dificuldades em sua execução. Tal iniciativa que desfavorecia Darcy Villa Verde como concorrente, não chegou a prejudicá-lo, já que a sua técnica e capacidade interpretativa foram o destaque da noite no VIII Concours International de Guitare Classic ORTF, Paris, 1966.

Darcy Villa Verde em recital, Zürich.

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