De um lado, uma enorme musicalidade e sensibilidade ao violão com interpretações intensas e de muita expressão, do outro, uma vida cheia de tragédias, mortes, violência e perdas irreparáveis.

O Homem

“Eu achava que ia terminar sendo desenhista. Fui desenhista de quadrinhos para a Ebal, depois fiz desenho no Instituto Técnico Oberg, entrei para arquitetura e, posteriormente, atuei como desenhista arquitetônico para engenheiros do Ministério da Viação. Mas o violão sempre presente, tomava cada vez mais espaço e tempo em minha vida.”Darcy Villa Verde era um homem extremamente carismático e forte. De posição firme e bastante clara quanto às suas ideias e maneira de se colocar. Desde jovem demonstrava uma enorme personalidade que exigia muito dele, assim como daqueles que conviviam com ele.

Muito respeitoso e sem fazer distinção de nenhuma ordem, Darcy era muito querido e respeitado por todos. Do mais simples ao mais importante, do mais ignorante ao mais culto, do anônimo às mais altas personalidades, todos se encantavam e tinham dele seu tempo e atenção genuína.

Bastante enérgico desde cedo, de temperamento muito forte e agitado, – os mais próximos se referiam a ele quando jovem, como “siri na lata” – deixava transparecer sempre muita intensidade em tudo o que fazia. 

Habilidoso e aplicado ao desenho desde criança, se firmou, ainda adolescente, como desenhista profissional em editora conhecida ilustrando histórias em quadrinhos – Zorro, Batman, Tarzan, e outros heróis – em companhia de profissionais que seguiram carreira mais tarde. Seu portfólio de desenhos se perdeu com o tempo, mas segundo aqueles que o viram, surpreendia pela capacidade de registrar com poucos traços a expressão de seus personagens e ídolos do cinema e da música, que mantinha em sua companhia sob nanquim e papel Canson.

Seu esporte desde pequeno era nadar em mar aberto. Morando em frente a praia adorava praticar por horas com seu pai fazendo grandes travessias. Isso permitia que ficassem juntos para poderem conversar, a sós. Amava imensa e profundamente o seu pai e o tinha como uma referência em tudo o que fazia.

Seu gosto por natação perdurou e o levava, já adulto, a sair cedo para nadar retornando muitas horas depois.
Algumas vezes davam-no por perdido, levando os salva-vidas a acionarem a guarda costeira que já acostumada com o fato, e após algumas horas de busca a barco ou helicóptero, ia encontrá-lo nadando a quilômetros da costa. Ocorrências, essas, que terminaram, algumas, noticiadas nas rádios e estampadas em pequenas notas nos jornais.

Outra atividade que o encantava era mergulho em altura de penhascos, uma atividade que praticava com muita habilidade. Era muito comum, ainda garoto, vê-lo saltando de pontes, de rochas e, algumas vezes, do alto do grande ‘Trampolim’ situado na praia de Icaraí, em Niterói, hoje não mais existente.

Além do mar Darcy adorava cavalos. De todos os tipos: equitação, turfe e exibição.
Villa Verde desde bem cedo adquiriu alguns. Gostava de cavalgar com a irmã que também apreciava muito, e tinha em um deles, ‘Comanche’, um apreço especial. ‘Comanche’ ficou conhecido por acidentalmente – saiu nos jornais – ter invadido a Lojas Americanas, no Engenho Novo, derrubando tudo por onde passava meio a gritos e correria dos presentes, enquanto Darcy almoçava em casa com os familiares.

Durante a juventude, Darcy adquiriu a prática de outros esportes, como a esgrima, que chegou a praticar por alguns anos, mas tinha na natação e nos cavalos sua maior dedicação e prática.

Sempre muito simpático, comunicativo e social, Darcy contagiava os ambientes com sua alegria e jeito divertido de ver e narrar a vida, através de histórias, passagens e comentários que encantava a todos com seu espírito jovial de quem sorve a vida a largos goles.
 

Darcy Villa Verde após fechar contrato para apresentação no
MNBA – Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, 1968.

Darcy Villa Verde, nascido no Rio de janeiro, se tornou funcionário público e atuou no Ministério da Viação até se aposentar. Amigo de Juscelino Kubitschek, um de seus grandes admiradores, foi indicado por ele a assumir cargo de assessoria na portaria deste Ministério.

Muito musical e bastante apegado à família, Villa Verde adorava participar das reuniões de música na casa de seu avô, no Rio de Janeiro, que se estendiam do início da tarde de sábado até à noite, todos os finais de semana.
Desde muito criança, Darcy dedicava longas horas de estudo durante a semana para essas reuniões que eram frequentadas em sua maioria pelo mais importantes músicos da época, e que funcionavam como um verdadeiro ponto de encontro daqueles que se consagraram na história da cultura musical carioca e brasileira.

Contudo, desde cedo sua vida apesar de recheada de muitas passagens divertidas e aventuras merecedoras de um roteiro Hollywoodiano, – a maioria, realmente inacreditáveis – vinha marcada por uma longa história de dor, dramas e tragédias.

E isso, importa narrar.

Quando ainda bem jovem, seu cunhado tomado de ciúme e desespero, depois de ter sido deixado pela irmã de Darcy, saiu de sua casa e entrou armado com um colt 38 na casa da família Villa Verde, atrás de sua ex-esposa.
Tomando a mão da mãe de Darcy, arrastou-a escada acima obrigando-a a testemunhar que se ele não podia ficar com a filha dela, ninguém ficaria.

A irmã de Darcy ouvindo os gritos de desespero da mãe no andar de baixo e prevendo o que estava para acontecer pegou a sua filha, ainda bebê, e a escondeu dentro da gaveta de uma grande cômoda que ficava no quarto, pensando em salvar a vida da filha.

O pai da criança agarrado à sogra invade o quarto e meio as ameaças e gritos de desespero que antecediam a triste cena que estava para ocorrer, é surpreendido por Darcy que acabando de chegar invade o quarto atirando-se à frente da irmã para protegê-la e recebendo o primeiro tiro que o lança ao chão. Em seguida, o cunhado dispara três tiros no peito da irmã de Darcy que cai sobre a cama e logo depois desfere mais um contra o próprio peito.

Darcy que observava tudo consciente, acompanhou os olhos da irmã se fecharem lentamente levando com ela a imagem do próprio irmão caído e o segredo guardado de sua filha.

Deitado em meio a todo o sangue com a mãe diante dele, arriada de joelhos ao chão e emitindo sons indescritíveis pelo completo estado de choque, Darcy ouve a voz de sua sobrinha de dentro da cômoda. Se arrasta até ela, abre a gaveta e tomando-a nos braços, meio a tanta dor e frente a sentimentos tão difíceis de se descrever, espera pelo socorro que só chega tempos depois.

Levado ao hospital é internado imediatamente na UTI, que depois de horas, não posiciona os familiares quanto ao estado dele.
O pai de Darcy desconfiando que alguma coisa estava errada e impedido de chegar ao filho, volta em casa e retorna armado invadindo o hospital.
De arma em punho rende a segurança, adentra a UTI e encontra seu filho já desenganado, encostado numa maca ao canto e deixado para morrer. O pai de Darcy, tomado por um ímpeto irresistível, arranca-o da UTI, arrasta-o pelos corredores de arma em punho, e meio a gritos e correrias, coloca-o numa ambulância e leva-o para o Hospital Samaritano.

Ao chegar no Hospital Samaritano, o pai de Darcy invade-o com a arma na cintura e aos gritos chama o cirurgião chefe dizendo que se ele não salvasse seu filho haveria uma tragédia dentro daquele hospital.
O cirurgião diante da gravidade da situação de um pai com a filha assassinada e com um filho à beira da morte, se esvaindo em sangue e completamente transtornado, responde que ele era um dos melhores cirurgiões do hospital, que faria todo o possível para salvar o seu filho, mas que ele se controlasse para evitar um dano maior.

Após seis meses de internação, com 22 perfurações no intestino e muita amargura e sofrimento, Darcy Villa Verde, aos 21 anos, tinha mudado para sempre.

Dois anos mais tarde, morando agora na praia do Leblon, em frente ao atual posto 12, Darcy resolve sair para nadar. O mar revolto, numa das maiores ressacas já vista e documentada na época, leva o pai de Darcy a passar a mão na neta, agora com quase três anos, e a atravessar a larga avenida beira-mar, Delfim Moreira, para tentar dissuadi-lo.

Mesmo ciente de seu filho estar acostumado e preparado para esse tipo de desafio, o pai de Darcy temia perdê-lo depois da morte da própria filha. 

Atormentado, meio a resistência de Darcy em não desistir de seu intuito, frente as ondas gigantescas que arrebentavam nas escadas da praia em verdadeiros estrondos, incitando a correria dos presentes, o pai de Darcy não percebeu que sua pequena neta se distanciara correndo atrás da bola colorida que escapulira de seus braços.

Um dos caminhões carregado de piche que asfaltava a avenida beira-mar, ao dar ré, não viu a pequena que distraída e alegre fora buscar a bola debaixo das enormes rodas.

O choque e a dor lancinante, os gritos de desespero que silenciaram a todos na via pública diante de tão triste despedida, ficaria marcado para sempre no coração do nosso jovem Darcy.
Sua sobrinha tão querida, que com sua presença materializava as memórias da irmã que tanto amava, se despedia ali, esmagada e acolhida em seus braços.

Em meio ao desespero de todos os presentes, e em completo estado de choque, mas buscando reagir à situação, Darcy se levanta e abraçado a sobrinha sai correndo pelas ruas até o Hospital mais próximo, a 2 km dali, seguido por um grupo de pessoas e conhecidos que aos gritos iam parando os carros e dando passagem ao jovem Darcy, apenas para confirmar o inevitável.

Meses depois, após terem nadado juntos por horas numa competição de travessia da Baía da Guanabara, o pai de Darcy começa a ‘colocar sangue pela boca’. Após concluírem a travessia e permanecerem por longo tempo no mais profundo silêncio, seu pai o abraça e profundamente emocionado o informa que trazia o diagnóstico de osteossarcoma.

Em menos de um ano, diante das dores profundas e alucinantes da doença que o consumia vivo, pois se recusava a tomar morfina movido por um sentimento de culpa pela perda da filha e da neta, se agarra às mãos de Darcy dizendo que ele fosse forte e que fizesse de tudo para ser grande em seu instrumento, que não desperdiçasse nenhuma oportunidade pois era essa a única esperança de alegria que ele guardava. 

Morreu agonizando nos braços do filho que tanto amava.

Evidentemente, sua vida sempre regada de grandes e intensas emoções marcaram sua personalidade que quando acionada refletia de forma marcante e histórica o seu passado.

Todas essas emoções vividas e intensamente sentidas e registradas, Darcy – relata – deixava transbordar na hora de tocar.
Sua capacidade, devido ao enorme domínio técnico e destreza que já possuía em transformar toda sua dor e sentimento em música, impactava de maneira singular o público que magnetizado o ouvia sempre com grande enlevo num silêncio espontâneo e absoluto.

O homem para sempre transformara o músico.

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