INTRO

Darcy Villa Verde: Interpretações memoráveis de um músico único, em um trabalho pioneiro de divulgação do violão de concerto e da desmistificação da música clássica no Brasil.

O legado deixado pelo concertista internacional de violão clássico Darcy Villa Verde foi, inequivocamente, sem precedentes. 
Violonista de grande notoriedade, ajudou a enobrecer o violão como instrumento de concerto,
conquistando a mídia e lotando teatros e salas pelo mundo, reservadas a apresentações para grande público, nos anos 60, 70 e 80.

Diferente do estereótipo de um músico concertista de seu tempo, foi na contramão da sua geração, inovando e revolucionando conceitos que predominavam na época e que restringiam o violão, como instrumento solo, para apresentações em grandes teatros, relegando-o à posição de um instrumento ‘menor’. 

Apesar de Darcy Villa Verde ter mantido os protocolos e convenções que os grandes teatros e as salas do mundo exigiam para concertos, como os que deu no Carnegie Recital Hall em Nova York, no Mariinski Theater e St. Petersburg Philharmonia Great Hall na Rússia, no Teatro Colón em Buenos Aires, ou na Salle Pleyel em Paris, Darcy Villa Verde estabeleceu musicalmente novos parâmetros e quebrou paradigmas, deixando através de sua arte e música, uma verdadeira marca e patrimônio:

Um patrimônio imensurável para a música erudita e para o violão.  Por conta da extensão que o seu trabalho alcançou. Um trabalho pioneiro de posicionar e divulgar o violão como um instrumento de concerto por todo o território brasileiro, através de apresentações dadas, por mais de 10 anos, em milhares de municípios, cidades, vilarejos e até em comunidades indígenas.
Usando do próprio prestígio conquistado no exterior e também de suas habilidades e rede de contatos, sedimentou uma cultura de consumo do violão erudito que abriu portas para as futuras gerações de violonistas. 

Um patrimônio inestimável para a cultura brasileira. Difícil aquilatar o valor deste trabalho, também pioneiro, de desenvolvimento e incentivo cultural que Darcy Villa Verde abraçou ao criar e implementar pessoalmente projetos que buscavam desmistificar a música clássica como propriedade reservada apenas a uma elite cultural.  Fez isso por anos em todo o território nacional, utilizando como recurso de atração do público sua habilidade em interpretar um repertório totalmente erudito, mas composto de diferentes gêneros musicais, inclusive com músicas populares e folclóricas brasileiras e internacionais. 

Um patrimônio extraordinário e único para a música. O nível de musicalidade que oferecia em seus recitais e concertos, e a qualidade da alta interpretação que imprimia nas suas apresentações lhe conferiu grande autoridade e a possibilidade de alcançar um domínio de timbres, cor e sonoridade considerada incomparável e reconhecida no mundo como de grande sensibilidade e impacto na alma do público.
Isso, testemunhado e chancelado através de depoimentos de grandes nomes da música internacional que o qualificavam como um músico excepcional. 

Único, por saber explorar o recurso da mídia, tornando-se um dos artistas de maior projeção de seu tempo, o que o levou a ganhar ‘quadros’ especiais dentro dos programas de TV de maior notoriedade e audiência da época, o que também contribuiu para fazer de Darcy Villa Verde um dos músicos e artistas mais lembrados e reverenciados na música clássica, de acordo com as pesquisas do Ibope e Marplan.

Único, por sua sua habilidade de comunicador que podia transformar um recital ou um concerto seu, num verdadeiro acontecimento musical e numa grande mostra de conhecimento cultural e arte, o que contribuiu muito nesse seu desafiador trabalho de desmistificação da música clássica, lotando os teatros com diferentes perfis de público que procuravam por suas apresentações.
Sua capacidade de dissertar sobre as músicas de seu programa e de se conectar de forma simpática ao conversar com o público, era muito apreciada. Permitia manter a solenidade, ao mesmo tempo em que diluía a formalidade de um recital em uma noite de entretenimento leve e de profunda conexão mental e emocional. 

A quantidade de material compilado e o número de documentos, reportagens e entrevistas já catalogadas que atestam a veracidade destes grandes feitos em nome do violão e da cultural musical brasileira superam os milhares.

Sem dúvida, Darcy Villa Verde foi um dos grandes nomes do violão brasileiro e internacional, e a ele devemos muito pelo espírito incansável e desbravador ao vir sempre ao Brasil percorrer milhares e milhares de quilômetros de estradas pelo interior do país, divulgando sua arte e trabalho, mesmo já sendo um concertista de prestígio internacional, conceituado e celebrado como um dos melhores que tivemos oportunidade de assistir.

 

Alinhando conceitos e parâmetros

Ao navegar na internet e observar grupos de músicos, adeptos e apreciadores debatendo sobre violão, pode-se notar que a diversidade de opiniões e as tão fatídicas comparações, além de humanamente inevitáveis, fazem parte do meio.

Atualmente, todos podemos ter direito de fala em qualquer assunto; um benefício das redes sociais, pode-se dizer, já que permitem que todos se expressem. Mas um benefício para ser usado com cautela, deve-se dizer, uma vez que pode levar alguns a só acreditar no que dizem e escrevem, ou no que querem fazer os outros acreditar; as tão famosas ‘narrativas’ que usualmente abrem espaço para comentários, ditos, descontextualizados.

É sabido que cada um sempre tende a desenvolver uma visão própria sobre qualquer assunto, principalmente daqueles que mais gosta. 
Pelo fato dessas visões serem o resultado da maneira como cada um elabora
pensamentos e constrói raciocínios, e de serem estruturados pelo próprio acervo de conhecimentos e experiências que traz, cada pessoa se nutre das próprias crenças e das próprias verdades que tem, o que é uma decorrência natural.
O fato é, que essa decorrência natural termina por aprisionar cada um em seu próprio ponto de vista. E isso ocorre m
esmo que essa visão seja emprestada de alguém que autorizamos sobre nós. Não conseguimos evitar. 

A questão agrava ainda mais quando não se estabelece um critério e uma base de argumentação consistente, que considere um alinhamento de conceitos, um parâmetro de nível de conhecimento e principalmente de ‘experiência prática’ entre os participantes de um grupo que resolve debater determinado assunto.
O destino de qualquer conversa nesses parâmetros, é levar cada um a se perder dentro do próprio ponto de vista, sem contribuir para um objetivo maior que é a riqueza da diversidade de opiniões sobre um determinado assunto, e o enriquecimento cultural adquirido pela sua soma e troca entre elas.

Em se tratando de música, esse dilema fica ainda mais complexo, ainda mais num país como o Brasil, extremamente rico na variedade de gêneros musicais e na quantidade de seus estilos e intérpretes. 
No que diz respeito ao violão, então, a coisa toda ganha ainda mais corpo.
Basta observar a quantidade de pessoas que tocam violão, que se consideram conhecedores do instrumento, e a quantidade de
escolas disponíveis, de técnicas e de formações existentes que moldam os mais diferentes estilos de tocar.
Resumindo: muitos estilos, muitas formas de tocar, diferentes interpretações, ausência delas, muitos pontos de vista sobre o que sabe, sobre o que não sabe, muitas certezas e muitas discordâncias.

Não existe nada mais prazeroso do que conhecer músicos e artistas diferentes. Principalmente porque por trás de cada um deles há um ser humano cheio de histórias, escolas, experiências, limitações, lutas, superações, tragédias, aprendizados e influências.
Músicos que amam seus instrumentos, que se dedicam a eles e que além de se realizarem no que fazem, merecem ser valorizados pelo resultado dos seus trabalhos, seja este resultado, diante dos nossos ouvidos, bom, muito bom ou mesmo excelente, porque é o melhor que cada um pode oferecer, e ouvi-los é uma experiência de totalidade, é maravilhoso.

Vale ressaltar que estamos nos referindo a músicos e instrumentistas que se aperfeiçoaram e amadureceram musicalmente, que conquistaram seu espaço e foram reconhecidos publicamente pela sua contribuição no mundo da música nacional e internacional.
Dessa forma, para entender melhor o resultado do trabalho de cada um desses músicos deveríamos aprender um pouco sobre sua artes e sobre eles.
Isso irá constatar que o resultado apresentado por cada profissional desses é, no mínimo, merecedor de nossa atenção e respeito, e quem sabe, de muita admiração.
Isto é o que mais importa.

Sabemos que o violão como todo instrumento pode oferecer um espectro sonoro bastante variado. O dom e o talento de quem toca, sua musicalidade, a qualidade do instrumento e do encordoamento, a postura ao tocar, o jeito de posicionar o corpo e as mãos sobre ele, a região onde toca, a forma como cinge uma corda, o ‘touchée’, a quantidade de horas de estudo, os exercícios escolhidos, a formação musical, o perfil do professor, as escolas estudadas, as influências, o domínio técnico e sonoro desenvolvido, a velocidade, a destreza, o fraseado, a dinâmica, o controle rítmico, o destaque melódico, a sonoridade, a ‘limpeza’ da execução, o universo de timbres alcançado, a intensidade com que toca, o volume extraído, a estilística, a qualidade da interpretação, o próprio temperamento do artista, sua expressividade e a motivação, sua conexão com o público e o propósito pelo qual um músico toca, terminam por criar uma gama infinita de resultados sonoros.

Concomitante a isso, o local, a acústica ambiente, o tipo de plateia, o silêncio necessário, a concentração, a adequação do repertório escolhido, o tempo de apresentação, a capacidade de comunicação do músico e a forma de se trajar e apresentar, influenciam diretamente na impressão da apresentação que fica no público e que o marca definitivamente.

Como se pode perceber, o resultado de uma apresentação depende de muitos fatores e a forma como todos estes fatores se equalizam, impacta diretamente no resultado do músico e de seu trabalho.
Se considerarmos que além disso ainda precisamos levar em conta como cada pessoa do público percebe e recebe o resultado de todo esta equalização, podemos concluir que ‘gosto musical’ é, de fato, algo muito pessoal. 

O ucraniano Vladimir Bobri declarou em uma entrevista que avaliar a qualidade ‘superior’ de um músico concertista não é difícil, ainda mais quando diz respeito ao violão. Ou toca-se muito bem ou não, ou domina o instrumento a ponto da interpretação ser soberana e nos ‘tocar’, ou claramente não domina e isso sempre fica evidente.

Diante de um fogo cruzado de opiniões em que cada um tende a opinar se atendo ao seu próprio ponto de vista, há outras questões ainda que, acreditamos, contribuem para valorizar a importância de um músico e de um intérprete em seu tempo.

 

O que constitui, de fato, um bom violonista?

Buscar entender o que constitui um músico, um violonista, por exemplo, nos leva a considerar toda uma conjunção de fatores: seu dom, seu talento, sua musicalidade, sua formação musical e cultural, sua época, sua trajetória de vida, as dificuldades transpostas, sua dedicação, suas limitações e muitas coisas mais.

Desconsiderar tudo isso é ajuizar precipitadamente, é desprezar toda uma conjunção de fatores que influenciaram e ainda influencia a formação de um violonista no Brasil e, mais grave, é desconsiderar o alto nível de dificuldade que este instrumento impôs e ainda impõe a quem se atreve a dominá-lo em níveis profissionais.

Avaliando as raízes e influências mais representativas e emblemáticas no início do sec. XX, o violão no Brasil, assim como em algumas partes do mundo, ainda era visto como um instrumento de malandros, capadócios [pernóstico, embusteiro, farsante] e boêmios, ou como um instrumento ‘menor’, de músicos sem muito compromisso e representatividade na cultura musical da alta sociedade.

Apesar de ter feito parte da corte no início do sec. XIX, provavelmente no formato de seis cordas esegundo alguns estudiosos, de ter chegado com a transferência da corte portuguesa ao Brasil, o violão definitivamente não era reconhecido como um instrumento sério no meio acadêmico musical.

Situações, inúmeras, contribuíram para que isso ocorresse como, por exemplo, o ataque disparado por Rui Barbosa à esposa de Hermes da Fonseca no período da República, início do séc. XX, em reação à música ‘Gaúcho’ de Chiquinha Gonzaga, um maxixe de codinome ‘Corta-Jaca’, que era tida como sensual demais e que, segundo Rui Barbosa era totalmente impróprio para um evento na sede da Presidência da República.
O episódio se deu por conta da música ter sido apresentada ao violão como parte integrante de um programa musical que trazia composições de Gottschalk e Franz Liszt.
Um episódio de cunho majoritariamente político e com o intuito de manchar a imagem de seu rival que o vencera nas eleições, mas que ajudou a estigmatizar ainda mais a posição do violão como um instrumento de nível inferior e de acompanhamento de música de ritmos “selvagens”, conforme mencionado na época.

Portanto, todo aquele que na primeira metade do séc. XX se aventurou a tocar, a dominar e a divulgar o violão lutando por lançá-lo às apresentações dos mais importantes teatros e salas de concertos do país e do mundo, foram de fato verdadeiros desbravadores, músicos corajosos por não se deixarem abater pelo preconceito e pela discriminação; e talentosos, além de determinados, porque só com muito talento e determinação para produzirem em um terreno cultural árido e avesso, obras e execuções tão importantes que ficariam reconhecidas para a eternidade, honrando o nosso Brasil na cultura do mundo da música erudita clássica e popular.

Darcy Villa Verde, em seu tempo, foi um desses desbravadores que marcou a nossa história e cultura. Principalmente porque foi pioneiro em elevar um concerto de violão clássico ao patamar de um show, com salas e teatros para grande público totalmente lotados num trabalho sem precedente de desmistificar e popularizar concertos e recitais de violão clássico por todo o Brasil.
Seu repertório de difícil execução, tanto impactante quanto atraente, pela forma como o interpretava, reuniu críticas e declarações nas mídias, as mais impressionantes, pela forma sentida e profunda com que encantava e envolvia o seu público.

Podemos concluir esta pequena introdução afirmando que apesar de toda a subjetividade e variáveis que este tema possa alcançar, é senso comum que um instrumentista concertista para atingir patamares de ‘excelência’ como músico e artista precisa, acima de tudo, ser possuidor de dom, talento, alta musicalidade, de dominar completamente o seu instrumento e de ser capaz de produzir interpretações próprias e memoráveis que impactam o público. Se o concertista conseguir fazer isso de maneira a dominar a emoção e a atenção de todo o público, levando-nos a sentir a sua concepção musical e artística das peças que apresenta, ele transcende o título de bom músico e passa a fazer parte de nós, por tudo que viermos a sentir, todas as vezes que nos sentarmos para ouvi-lo tocar. 

Diante de um músico desses, não existe ‘melhor’, nem ‘pior’. Existe apenas o ‘músico’. E segundo Darcy, todo músico desse naipe merece, de fato, ser ouvido, sentido, apreciado e muito valorizado.

Em termos pragmáticos e ilustrativos, podemos lembrar o que Darcy Villa Verde respondeu a um repórter com relação a este assunto bastante delicado, quando solicitado a emitir opiniões sobre violonistas, o que ele abominava.

Se todos tivessem uma noção realmente clara do que cada músico consegue fazer e entregar no violão, não precisaríamos gastar tempo discutindo o que cada um acha ser o melhor. Saberiam quem são os grandes concertistas de violão, os verdadeiros músicos entre eles, e o por quê de serem o que são. 

Justamente por não saberem, perdem tempo discutindo.

Decididamente temos o direito de comparar, de eleger quem melhor representa nosso gosto e preferência. Contudo, definitivamente, ganhamos muito mais quando paramos para considerar o todo e aproveitar o que cada músico e artista tem para nos oferecer do seu melhor.

IMPORTANTE: Sempre presente na mídia e possuidor de espírito e opiniões claras e diretas, Darcy era frequentemente procurado pela imprensa para tratar de questões polêmicas. Respondia todos os temas com muita precisão, sempre de maneira a focar no problema e não nos protagonistas ou pessoas envolvidas nos temas em questão. Com relação a música e violão, então, jamais se permitiu emitir opinião a respeito de seus pares a não ser para reconhecer a importância e o grande valor que cada um teve e continuará tendo na história do violão brasileiro e internacional. 
Pouquíssimas vezes, um ou outro repórter imprudente, arriscou a ilustrar algumas de suas entrevistas com opiniões próprias. Se retrataram com novas matérias e o assunto foi esquecido.
Ocorreram também, por duas vezes, repórteres que ‘adulteraram’  o conteúdo de duas entrevistas e de uma matéria no jornal acrescentando nomes de terceiros, e criando, dessa forma, ressentimentos de solução complicada e demorada, o que incomodou muito Villa Verde. Nestes dois casos específicos, ambos os repórteres resolveram mudar de cidade. 
Abordamos a questão para ressaltar o profundo respeito que Darcy sempre teve por todos os seus pares, e para esclarecer que Darcy Villa Verde detestava mexericos e comparações.

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