PENSAMENTOS
PENSAMENTOS, MÚSICA E VIOLÃO.
Aqui você vai achar alguns pensamentos de Darcy Villa Verde de como via e pensava a música, a musicalidade, o violão de concerto e ‘Alta Interpretação’.
Darcy, como já mencionado, tinha uma visão e um pensamento com relação ao assunto, muito próprio. Não se tratava apenas de como um músico tocava. Mas sim, do que cada músico realmente queria e podia expressar.
Os textos foram transcritos de aulas, entrevistas dadas, conversas e anotações de Darcy Villa Verde com músicos e especialmente com um de seus filhos pelo qual tinha, através da música, mais um grande canal de conexão.
Eram muito próximos, realmente.
Algumas transcrições trazem abordagens semelhantes entre si, mas resolvemos apresentá-las e mantê-las mesmo assim, para ressaltar a preocupação que Darcy Villa Verde revelava em diferentes momentos com relação a importância que se deve dar ao conceito de música e de interpretação.
Acreditamos que estes pensamentos compilados de diferentes fontes e épocas, possam interessar a toda uma geração de novos músicos e violonistas que desejam enriquecer a própria visão sobre música, buscando posicionar o violão como um instrumento nobre e respeitado nos grandes teatros e salas de concerto do mundo.
Tratam-se de declarações que expressam um universo mental todo próprio de alguém que falava em como pensar e ver mental, intelectual e emocionalmente a música, para, só então, trabalhar a técnica adequada que permita materializar isso, ou seja, narrar interpretativamente o que, como músico, sente como artista.
… ver e sentir
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“Música é uma linguagem que dispensa palavras, mas que conversa em diferentes campos.
… música é algo metafísico, que só pode ser elaborada e passada com o recurso da arte que cada um desenvolve numa determinada dimensão; cultural, mental-espiritual, emocional e física. Isso é maravilhoso, porque os recursos estudados e todas as técnicas apreendidas e dominadas são o vocabulário que podem expressar a ‘mensagem’ do músico de como ele a ‘percebe’, exatamente como um diálogo sinfônico…
… instrumentistas existem aos milhares, mas ‘músicos’ que sabem interpretar com intensidade e expressividade, esses são muito raros.”
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“Música é emoção. Mas o músico só pode colocar a emoção na execução quando tem técnica ‘suficiente’ pra isso.
A técnica no violão que oferece possibilidade de expressar a emoção em diferentes níveis e nuances, com timbres e tonalidades nas quais exigem dinâmicas sonoras correspondentes mais elaboradas, é muito difícil de se obter; pouquíssimos violonistas a alcançam.
Não me refiro a uma execução musicalmente perfeita e harmônica.
Me refiro a interpretações que elevam a música a patamares de expressão que refletem o sentido musical do artista e do compositor.
– Maestro, tem como demonstrar isso para nós?
– Esse é o propósito.
Vou tocar duas músicas, a Courante da Suite 3 para Cello de Bach e o Scherzino Mexicano de M. M. Ponce. Vou me utilizar dessas duas músicas porque quero demonstrar que a emoção sob dominio técnico interpretativo impacta, por exemplo, tanto numa música barroca quanto numa do romantismo nacionalista mexicano.
Primeiramente vou tocar sem os recursos técnicos de que falei, exatamente como está na partitura respeitando todas as marcações e buscando valorizá-la pela sonoridade do violão; depois tocarei aplicando esses recursos técnicos que são ensinados e que obrigatoriamente um músico precisa saber pontuar; e depois tocarei acrescentando a técnica que desenvolvi e que permite a minha musicalidade expressá-la numa sonoridade toda própria, mediante o que ‘sinto’ – e vou explicar – de cada uma delas; este é um exercício bem importante.
Quero que prestem muita atenção, pois após apresentá-las, vou querer saber com qual delas vocês se conectaram mais musicalmente. Em qual delas ‘sentiram’ mais o compositor e a sua mensagem.
Depois vou querer saber em qual das três, o estilo colabora mais para se captar a mensagem que cada uma traz.”
DECLARAÇÃO PUBLICADA E GRAVADA PELO DIRETOR E ORGANIZADOR DO EVENTO.
GRAVADO PELA TRANSMISSÃO DA RÁDIO LOCAL:
… Após a apresentação, verificou-se que todas as três versões de cada uma das músicas eram bem distintas, entre si. E apesar da maturidade da mão do músico ter dado uma ‘maioridade’ à todas as execuções feitas, aquela que trazia a musicalidade do artista como estrutura central da interpretação se destacou pela preferência dos músicos presentes, apresentando uma expressividade e uma capacidade de ‘impressão’ acima das demais, inclusive na peça barroca.
Sem dúvida alguma, caros ouvintes, o domínio apresentado no uso que faz dos rubatos, apogiaturas, mordentes, staccatos e pizzicatos, e a modulação excepcional dos vibratos deste músico e maestro, ajuda a alterar completamente a estrutura da intenção musical que imprime em suas interpretações ao violão.
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“… essa musicalidade que alguns apresentam é o que permite alcançar a música e não apenas tocar música. É o que permite aplicar a técnica adequada para modular o som e expressar sua visão e o que sente dela.
Isso pressupõe que para alguém alcançar o que se denomina ‘músico concertista’ e poder oferecer grandes interpretações, precisará ter, além de vocação e um grande talento, uma grande sensibilidade musical, um excelente ouvido, um domínio técnico total do instrumento, muito estudo, muita renúncia pessoal para toda esta aquisição, e muita vontade de fazer música e dividir isso com o seu público.
… sendo o violão um instrumento polifônico por excelência, também oferece grandes possibilidades harmônicas. Mas se por um lado ele possibilita expressar diferentes vozes, por outro oferece uma escala sonora menor.
Em função disso, o instrumentista precisará de um completo controle, para saber fazer esses ajustes e potencializar todos os recursos dinâmicos da guitarra, permitindo que a música incorpore diferentes possibilidades retóricas – alegria, melancolia, introspecção, tormento – em termos de sonoridade – timbres e efeitos. Por fim, também saber extrair e projetar o som mantendo as modulações nos diferentes níveis de volume.
Se um concertista não for possuidor dessas habilidades em níveis muito amadurecidos, sua música soará do início ao fim, tímida, com aquele sonzinho de corda batida, mantendo sempre uma mesma sonoridade. As notas mudam mas a sonoridade é sempre homogênea e um tanto monótona, entendem? E isso independe se o violão é um Hauser ou não.
… além de musicalmente pobre, compromete por completo a intensidade e a expressividade musical; torna a música chata de ser ouvida, denigre o violão como instrumento sério de concerto e descaracteriza o violonista como um músico e concertista de maior envergadura.
Muitos pensam que só porque aprenderam a tocar e chegam a tocar a ponto de darem recitais, se tornaram concertistas e intérpretes. Não necessariamente.
No sentido da palavra são considerados músicos porque tocam um instrumento, tocam bem, porque conhecem a parte teórica ou porque são excelentes compositores e conseguem tocar suas ideias no instrumento; ou, também, porque são criativos e originais e apresentam algo novo que agrada muito mesmo.
São considerados intérpretes porque nos habituamos a usar o termo ‘interpretação’ para o que um músico executa de uma peça musical.
Mas daí, a criar e atingir interpretações que revelem a música daquela partitura sob níveis de intensidade e expressividade narrativa, conduzidas e regidas pela própria musicalidade do intérprete em um recital, e fazer isso num repertório clássico, é outro departamento.
… Não é porque o músico consegue tocar uma peça difícil sem errar e atende ao critério interpretativo do que um ou dois críticos definem como certo, que ele se eleva à condição de um grande intérprete. Não para mim, e nem para a maioria dos músicos que tomei como referência.
No curso de ‘Alta Interpretação’ que fiz e que posso dizer foi o responsável por modelar a minha capacidade de me expressar musicalmente, todo mundo tocava bem o violão.
Depois de nos ouvir, fomos todos informados que o objetivo da ‘Alta Interpretação’ era capacitar o músico a fazer música. A sua música.
Isso, a princípio, pode causar um estranhamento por estarmos acostumados a ver todo o processo de forma diferente. Fomos educados a entender que interpretação boa é aquela que é feita por um grande nome. Nem sempre alguém que conquistou reconhecimento é um bom intérprete, e saber ver e reconhecer isso é fundamental para a sua formação musical.
Isso evita o músico a restringir-se potencialmente, copiando o que os outros fazem.
Isso é tão verdade que se formos olhar os grandes intérpretes que nos ‘sensibilizam’, vamos verificar que são músicos que aprenderam a se expressar musicalmente através do próprio instrumento. E que apesar de tocarem todos muito bem, nos identificamos mais com um do que com outro, justamente pelo o que cada um tem a dizer sobre a música que toca.
Isso não é só tocar, é interpretar; saber fazer isso em níveis superiores através de um domínio técnico aprimorado, é alta interpretação.
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[trscr]
“… e não é a primeira vez que me perguntam isso. Muitas vezes sou inquerido do por que de me utilizar de adjetivos, advérbios e expressões, que reflitam intensidade, profundidade, plenitude ou grandiosidade com relação ao violão. Porque o violão é um instrumento gigantesco, que oferece toda essa dimensão de possibilidades execucionais.
Para um violonista concertista clássico, não há a menor possibilidade dele subir em um palco de um teatro conformado com a mediocridade, e achar que está tudo bem, que no fim dá tudo certo e que ninguém vai se dar conta ou se incomodar.
Não tá tudo bem, isso não vai dar certo e todo mundo vai perceber e se incomodar! Do mais ignorante ao mais culto, todos se incomodarão! Tem que estar muito louco para pensar uma coisa dessas! [risos]
Com um instrumento como o violão que exige o máximo do interprete, é preciso o máximo sempre. Domínio absoluto, controle pleno, estudo intenso, muita cultura, muita musicalidade, técnica primorosa e alta interpretação!
Violão de concerto não é um instrumento para amador.
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[trscr]
“Antes de mais nada, a música com toda a sua erudição precisa acontecer dentro do músico para que através dele o público possa se conectar com a visão que ele apresenta dela.
O público precisa gostar do que ele toca, querer sentir a música que ele faz e viver essa experiência com interesse, vivê-la de verdade, querendo possuir algo que é do ‘artista’.
A música dele precisa fluir de dentro dele, por meio do seu instrumento e não pode se deparar com nenhum tipo de empecilho para isso. E isto só ocorre quando sua técnica permite que ele transmita musical e integralmente a sua versão daquela música para o público, exatamente como ele a sente.
Isso tem um poder magnetizador e transcendente que chega a ser quase irresistível; encanta.
As pessoas vão assistir o artista; querem assistir o artista, justamente para obter isso dele.
E em se tratando de recitais de violão clássico, não é o que comumente se vê nos teatros atualmente, basta ver a expressão do público e os comentários.
Que fique claro que me refiro a recitais de violão ‘clássico’, ‘erudito’, e não a apresentações populares de violão como instrumento de acompanhamento, ou até mesmo de entretenimento entre amigos, o que é totalmente diferente.
A questão que abordo aqui, costuma encontrar certa resistência por parte de alguns, mas não se deixem iludir.”
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[trscr]
“… certa ocasião, me interpelaram com a argumentação de que quando o público desconhece todo esse ‘perfeccionismo’, por falta de cultura ou formação – educação – , ele gosta do que ouve e nada disso faz tanta diferença.
Alguém que pensa assim, ou é ignorante, ou acomodado, ou preguiçoso ou é amador.
Primeiro, porque não se trata de ‘perfeccionismo’, e sim de ‘musicalidade’ e ‘música’. Trata-se de um universo de expressão musical que é revelado pelo ‘dom’ do intérprete no qual o domínio técnico se torna necessário para que o som extraído do instrumento corresponda à sensibilidade interpretativa do concertista, sem encontrar obstáculo de nenhum tipo.
Caso contrário, pode-se perceber o potencial do concertista e ao mesmo tempo a sua própria limitação que o acompanha sempre assombrando ou ‘sujando’ suas apresentações.
São vários, os exemplos assim.
Problema algum, repito, se este músico não ambiciona ser concertista.
Mas cá entre nós, seria bem mais agradável e menos cansativo se usasse o tempo de que dispõe para estudar mais, ao invés de querer arrumar justificativa para o que não consegue fazer.
Segundo, poder alcançar o melhor, sendo um embaixador da própria música que interpreta, – todo músico que se leve a sério, assume esta postura – e não fazê-lo oferecendo o seu máximo, é declarar a si mesmo e de público, que esta não é a sua prioridade.
Se ele ainda não consegue fazê-lo é outra coisa. Deve estudar mais ou repensar o que está fazendo.
Por fim, chega sempre o dia que vem alguém que sabe fazer o que você não aprendeu ou que não se esforçou por fazer, e faz diante do seu público.
Depois disso, seu público nunca mais esquece o que sentiu e o parâmetro muda. Porque apesar de grande parte dele poder até não conhecer música profundamente, num fatídico dia ele terá a experiência de ser absorvido por um músico e artista desse. E levando-se em conta que somos seres emocionais, de que somos almas sensíveis a tudo que converse com nossas emoções, esse público vai responder com intensidade àquela experiência musical guardando-a consigo e desejando repeti-la outras vezes.
Acreditem nisso, pois é a mais pura realidade.
Lembrem: a música quando é genuína, encontra a alma do público. E isso é uma realidade inequívoca, independente se o seu público é culto ou não, se conhece música ou não, ou se toca violão ou não.”
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[trscr]
… no violão, essa questão agrava ainda mais, porque nele tudo é muito difícil e quando o intérprete não alcança o resultado esperado, todo o processo de estudo e apresentação se torna bastante desconfortável para o concertista; essa a razão pela qual tantos profissionais não se sentirem tão à vontade ou realizados no palco; o que deveria ser um momento de entrega e prazer, se torna de tormento e angústia. […me refiro aqui a grandes recitais de música clássica…] Conheci muitos violonistas de renome que quando chegavam ao palco, sofriam profundamente com isso;”
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[trscr]
” … para se fazer algo sério musicalmente no violão, é preciso compreender as potencialidades e limitações do instrumento para só então planejar como se dará o seu campo de trabalho como músico e intérprete, ou seja, até que ponto você vai investir estudo e desenvolvimento de recurso técnico, e com qual propósito o fará.
O violão por ser um instrumento polifônico, exige do violonista uma compreensão detalhada de seu potencial tímbrico e de seu universo tonal e sonoro; uma compreensão não teórica mas experimental.
Isso é importante para o músico saber o que o violão pode chegar a oferecer em termos de sonoridade, o que pode ser explorado dessa sonoridade, quais as técnicas correspondentes que possibilitam a expansão dessas possibilidades, e para saber de quanto tempo e energia precisa ‘empreender’ em termos de pesquisa e estudo para obter o que deseja.
Só depois, partir para o trabalho de construir a intenção musical de cada interpretação.
A dificuldade que se percebe, por parte dos violonistas, em saber potencializar ‘orquestralmente’ todo este espectro de tonalidades, terminam por desvalorizar o concertista e subvalorizar o instrumento.
A questão se agrava ainda mais quando notamos que apesar de funcionar como uma orquestra, o violão traz certas limitações, exigindo do músico conhecimento prático para controle das técnicas que o dimensione e enobreça num grande palco.
Dessa forma, é essencial desenvolver essas habilidades no instrumento e, conjuntamente, construir a própria habilidade de saber extrair toda uma nuance de timbres e efeitos que dará base a toda uma sonoridade rica e própria.
Isso é absolutamente indispensável para se interpretar profissionalmente qualquer peça erudita numa dimensão musical mais ‘senior’ e autoral.
… isso, para não falar que tem quem confunda dimensão autoral e interpretativa com a própria limitação que alcança no violão.
… senhores, entendam que todas esses ‘ganhos’ podem chegar em níveis de elaboração, sofisticação de acabamento e resultados surpreendentes até para quem já domina o instrumento…”
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[trscr]
“… Há grandes instrumentistas que consolidaram carreira, que tocaram em diversos teatros importantes, que viveram da música, que contribuíram para a música, mas que são um tanto frios e sem expressão nas suas interpretações.
Esses, agradam a alguns, colhem merecidos aplausos pelos anos de trabalho e dedicação, mas não cativam muito o público; falta a eles a musicalidade e a habilidade técnica necessária àquele propósito ao qual se dedicam.
Isso é muito comum, e não só no violão.
No violão acontece com frequência porque é um instrumento extremamente complicado de fazer música, um instrumento que oferece muitas barreiras e que deixa o músico mais exposto pela dificuldade que oferece em ser ‘explorado’ sonoramente e ‘dominado’ tecnicamente…
.. no fundo, alguns sabem bem disso e se incomodam com a questão.
É nessas horas que precisamos ser maduros para entender qual a nossa real vocação e contribuição para o universo da música.
Podemos continuar insistindo em buscar alçar patamares cada vez maiores sem se preocupar com as adversidades do caminho e com o tempo que essa aquisição irá tomar, ou então focar em algo que possa nos atender e plenificar mais a curto prazo.
Num território em que há tanto por se fazer e tão pouca gente qualificada e disponível, há espaço para todos; sem esquecer que todo o conhecimento e prática adquirida é a base para novas e diferentes construções, e o mundo precisa disso.
O senhor está dizendo que apesar de um violonista estudar muitas horas, adquirir técnicas e até atingir a posição de concertista, isto necessariamente não o lança a posição de um grande intérprete?
Sim, é exatamente o que estou dizendo. Veja os grandes prodígios da atualidade, jovens com enorme domínio mecânico que engolem tecnicamente o piano, o violão, o violino, o cello e muitos outros instrumentos, mas que levam anos e anos se trabalhando para, só mais tarde, se tornarem capazes de se expressar musicalmente; e daí, sim, podermos usufruir de suas intensas e memoráveis interpretações.
O fato é tão interessante que mesmo o público cativo de um determinado músico concertista quando o acompanha desde a infância, ao longo dos anos, por adorarem assisti-lo, percebe o amadurecimento do seu ídolo frente às suas próprias interpretações.
Público e músico, juntos, amadurecem a capacidade de sentir, entender e expressar musicalmente esta troca através das interpretações do músico.
As próprias gravações e depoimentos deles demonstram isso.
É todo um processo de educação e construção evolutiva que envolve o instrumentista e o seu público. Isso, no violão, acontecia com mais frequência anteriormente. Hoje vemos cada vez menos com a nova geração.
Musicalmente falando, há espaço para cada um ser o violonista que ambicione ser.
Mas sejamos coerentes.
Se quiser ser um grande músico, o caminho é longo e bem árduo.
Se quiser desenvolver interpretações maduras e autorais, os obstáculos serão muito maiores e o caminho será bem mais longo e mais difícil.
Agora, se ambiciona apenas tocar bem o violão, a história é outra. Estuda três horas por dia, trabalhe um repertório que corresponda a este fim, e vá se divertir. Assim, ninguém engana ninguém, nem a si mesmo, e todo mundo fica feliz.
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[trscr]
Vejam, o interesse deste encontro é falar da minha experiência para vocês que são jovens e estão adentrando este universo bastante difícil do violão de concerto.
Não vou responder questões relacionadas a outros profissionais, a não ser como referência.
A única coisa que posso dizer é que se não prestarem atenção no que realmente importa chegarão ao final da estrada sem consistência e com um monte de coisa sem importância.
Foquemos em vocês.
Existem violonistas jovens que dominam esse tipo de musicalidade e sonoridade que abordamos? Claro que sim, já vi inúmeros.
Mas são músicos que precisam ter esse potencial reconhecido e preservado; com instrutores que reconheçam seu talento e que ofereçam capacidade de orientá-los trabalhando da forma adequada com o potencial que cada um apresenta.
Como este universo a ser explorado no violão ainda é muito novo e as referências existentes que dominam esse espectro de sonoridade e musicalidade não é muito grande no mundo do violão, a coisa fica mais difícil para os novos ingressantes.
O que entendo como viável, tomando como base o caminho que eu e alguns outros violonistas tiveram que fazer por conta da falta de ‘instrutores’ que conhecessem todas essas competências a ponto de saber como ensiná-las, é o próprio violonista ser o gestor do seu aprendizado. Procurar os professores certos que possam complementar uma formação adequada ao caminho que ambiciona.
Se informem, procurem, pesquisem, mergulhem de cabeça, estudem, aprofundem, assistam, ouçam, ouçam de novo, peçam, insistam, arrisquem.
Digo isso porque professores como os que conheci são muito raros. No meu tempo haviam muito poucos. E esses poucos, hoje, são quase desconhecidos pelo nome e totalmente desconhecidos pelo o que ensinavam.
Eu, por exemplo, vivi um tempo em que cada professor me agregou uma parte da minha formação para que eu pudesse atingir o que ambicionava.
Por exemplo, quando criança eu queria duas coisas no violão. Tocar eu já sabia, não era o problema.
Primeiro, queria desenvolver a escola de violão clássico concertista para dar concerto como um Segovia, que me impressionara.
A segunda coisa, era que eu queria a técnica para poder expressar a música como eu a sentia e intuía. Como o que eu intuía e sentia do clássico era muito intenso e profundo, eu precisava de técnica própria para poder externar a ‘minha’ música.
Essa segunda aquisição, um ou outro no mundo conseguia fazer e se prestava a ensinar.
Mas o mais importante, fui eu quem decidiu isso, e fui eu que corri atrás.
Esta obstinação me levou às pessoas certas. Até mesmo à pessoas que eu não fazia ideia de que existiam, como Monina Távora e Ida Presti, por exemplo.
O Brasil era um mundo à parte da Europa. Não se fazia ideia do que existia lá. A dificuldade do acesso às informações era muito grande. Tudo que se sabia, era do que se ouviu falar de alguém.
Além do mais, muitos músicos da época que eram reverenciados no mundo e que cheguei inclusive a assistir e conhecer ao longo de minha procura, não me sensibilizavam musicalmente. Porque não ofereciam o que eu achava importante na música.
… no caso de vocês, primeiramente entender realmente o que está sendo dito aqui, depois ter clareza com relação ao que quer – isso é muito importante – achar um professor ou professores que lhe deem uma boa base, que lhe ajudem nas interpretações, que os ajudem na aquisição de sonoridade, na domínio estilístico e na condução da própria forma de tocar.
…seja um comunicador por inteiro. Aprenda a falar em público, aprenda a se conhecer, e não tenha medo de ser quem você é. Me refiro musicalmente! [risos…]
Pois é, falando com jovens é sempre bom ser específico…” [risos]
… tempo
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“… o caminho que se percorria antes era muito mais difícil; exigia um grau de esforço e empenho do músico e instrumentista muito grande para chegar a acessar uma informação sobre técnica, sonoridade ou execução.
Tanta dificuldade exigia muita determinação em tudo o que se fizesse, principalmente nos estudos; isso, se quiséssemos realmente conquistar algo sólido e duradouro no mundo da música. E quando se conseguia, agarrava-se aquela informação como ouro e trabalhava-se nela até o limite das forças.
Se por um lado tínhamos que nadar com mais esforço contra a escassez de informação e a dificuldade em se obtê-las, em contrapartida, isso nos dava mais fôlego e nos tornava mais preparados e mais parte do processo de construção da música em nós mesmos.
Essa facilidade toda que a internet oferece com um cardápio tão gigantesco de opções de informação e opiniões generalizadas, independente se de profissionais bem sucedidos musicalmente ou de uma maioria que não entende muito bem do que fala, é muito perigoso.
Primeiro porque o jovem violonista não tem critério para discernir o que lhe convém em detrimento do que já traz, e depois porque pode levar muitos violonistas a adquirirem vícios de execução bem difíceis de se largar, principalmente com essa cultura de que ‘tudo é meio válido’.”
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“… o que me chama a atenção é que desde que a tecnologia democratizou e facilitou o acesso e a aquisição rápida de informação, começaram a surgir novas e maiores safras de bons concertistas de violão; contudo, em minha opinião, boa parte ainda carente com relação à capacidade de se expressar musicalmente e com relação a saber explorar as potencialidades da guitarra. Principalmente no campo orquestral.
.. quero dizer que com toda essa facilidade de acesso à informação, de disseminação e troca de técnicas e experiências, tudo ficou muito mais fácil e acessível atualmente, o que é ótimo.
Os violões evoluíram em termos de qualidade de som, os recursos de amplificação também evoluíram e os estudantes conseguem desenvolver e dominar a parte da dinâmica da execução do violão cada vez melhor e mais rápido, chegando até a performances de execução ‘atraentes’.
A partir daí, novas formas de entender e tocar o violão surgiram no mundo todo, desde então, principalmente na Europa Meridional, e isso foi incrível.
Mas eu pergunto a vocês: e a música?
E a intenção musical regida sob uma dinâmica narrativa interpretativa do que um músico pode sentir e ver da música que toca? Isso é o que mais importa.”
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“... quando vejo na internet alguns jovens que se chamam de influenciadores, e que se tornam referência para as novas gerações de músicos e violonistas, falando do que não entendem ou gastando tempo com banalidades (sobre qual o caminho mais fácil pra ser um grande violonista, qual escola é melhor – antiga ou moderna, sobre fofoca de quem toca melhor ou pior, chamando um ou outro de virtuose ou mestre pelo simples fato de tocarem rápido ou tocarem uma música considerada difícil), perpetuando toda uma cultura imediatista, rasa e superficial que agrada a curiosos e mantém o violão ainda muito exilado das grandes salas de concerto e dos grandes teatros, fico bastante descrente.
Como o meu filho me ensinou, a necessidade premente de criar conteúdo e de disputar a atenção, está desfocando um pouco o critério baseado na excelência do que é a essência da música e de ser músico, em função do que engaja maior número de seguidores.”
“Uma ocasião, um jovem violonista queria muito uma audição e eu concedi.
Foi na cidade de Manaus, após um recital-aula.
Me procurou, foi ao meu hotel, descobriu onde eu estava e me abordou. Cheio de iniciativa. Gostei.
Depois de tocar por 10′, pedi a ele para parar e orientei-o a estudar religiosamente determinados exercícios e fazê-lo com muita seriedade e disciplina, por pelo menos três horas diárias. Parti do princípio de que ele não estava se dedicando o suficiente. Ele me respondeu que inspirado em mim já estudava 6 horas por dia.
Orientei ele a parar de fazer o que estava fazendo, seja lá o que fosse, e a praticar apenas o que recomendei por 3 horas todos os dias. Ele trazia muitos vícios que o dificultavam.
Ele me contou que foi o professor dele que o orientou daquela forma.
É muito complicado alguém se intitular professor porque adquiriu formação acadêmica e sair ensinando o que não entende bem e sequer sabe executar direito.
Quando ouço alguém desconhecido dizer que é professor de violão, eu procuro ouvi-lo tocar.
Sugiro que façam o mesmo.
É até possível um professor que já tocou bem, pela idade e por ter se aposentado dos palcos, perder a habilidade de execução. Mas ele conhece e sabe o que fazer, e o mais importante, sabe como levar o aluno a conseguir fazer”
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“… a musicalidade pode sim ser desenvolvida e amadurecida em cada um; a depender, claro, do tamanho do esforço empregado e da determinação, deste, em alcançar o seu objetivo.
O tempo que isso vai tomar é questão que compete a cada um aceitar e saber lidar.”
… porque tem músico que pratica por semanas ou meses, e consegue alçar novos degraus. Já outros, precisarão de anos. E não há nada de errado com isso.
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… inspiração, musicalidade e trabalho
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“Sempre determinei ao longo de minha trajetória profissional o que faria em termos musicais.
.. não me importa o que os críticos tenham a dizer quanto a quebra de protocolo que, vez ou outra, promovo no meu repertório, e muito menos quanto a forma como resolvo a interpretação de algumas peças musicais.
Minha musicalidade serve a um propósito na música: poder tocar a música como eu a sinto. Além, claro, de apresentar o violão como instrumento de concerto e a cultura da música clássica para toda a população de um país que é um ‘continente cultural’, o que me motivou a atrair o público pelo gosto que tem pela música popular…
… um músico precisa saber usar a sua liberdade para poder expressar como sente cada música de seu repertório, isso, claro, sem desestruturar e descaracterizar a música, no que diz respeito ao repertório clássico.”
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“… Eu me exigi sempre o máximo e se muitas vezes cheguei a estudar de 10 a 14 horas por dia, é para que toda a dificuldade mecânica desaparecesse por completo, e eu pudesse, com a minha musicalidade e todo o meu arsenal técnico desenvolvido, interpretar e expressar a música como eu a sinto. Só assim me sinto músico.
… de meu médico e de toda uma equipe de cobras – especialistas da neuro – quando me informaram que muito possivelmente todas essas horas de estudo foram a causa de eu ter acelerado diferentes neuropatias que começaram a comprometer aos poucos e, irreversivelmente, a minha habilidade.
Toda uma condição desenvolvida em função da predisposição genética que herdei de minha família.
Contudo, não conheço outra forma de chegar a tocar como toquei. E se precisasse fazer tudo novamente eu o faria, apesar das dores.”
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” Meu trabalho de elaboração sonora iniciou intuitivamente quando criança, se desenvolveu nos 22 anos de música popular, aumentou nos 7 anos de estudo do clássico com Oswaldo Soares, foi elaborado ouvindo Segóvia, através de seus LPs, amadureceu com as aulas de interpretação com Monina Távora, adentrou uma nova dimensão sonora e interpretativa com Ida Presti, e ganhou identidade própria desde então, com a técnica que desenvolvi e amadureci.”
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“Não existe resposta exata para esse tipo de pergunta.
Um músico precisa trabalhar intensamente e procurar exaustivamente até achar o seu próprio caminho estético sonoro que revele a própria musica ao seu público.
A dica que posso dar é que domine a parte técnica e mecânica de tal forma que ela desapareça como empecilho; aí comece a treinar com o coração e o pensamento, não mais com as mãos; não se raciocina a musicalidade, a gente a manifesta sentindo-a. Assim cada um vai achar o seu caminho.
Acho que é uma forma de traduzir o que faço.
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“… não faço a menor ideia; os arranjos e as harmonizações que crio, saem prontas na hora em que toco; posso fazer alguns ajustes depois, mas eles já vêm prontos e fazendo todo o sentido pra mim.
Se desejo mudar e acentuar uma nova dinâmica descritiva, mudo a harmonização na hora em que estou tocando; não importa o estilo; se é samba, samba-canção, valsa, jazz, moderno, flamenco e até clássico, se eu quiser.
Depois que monto a ideia mentalmente, elas se encaixam pela forma como estão elaboradas e dispostas, e aí ficam registradas pra sempre. Não escrevo nada, porque guardo tudo de memória e qualquer alternativa que eu deseje criar para um ou outro trecho, fica retida mentalmente sobre o próprio ponto de alternância; poucos entendem isso, tanto que amigos meus viviam pedindo as partituras desses arranjos que crio, e quando eu dizia que não as tinha e que as guardava todas mentalmente, eles pensavam que eu não queria dá-las.
– Não adianta, eles me diziam, um dia você vai morrer e tudo isso vai parar na mão da gente, e gargalhavam!!
Foram todos antes de mim… e não tem nada escrito.”
OBSERVAÇÃO: Todos os arranjos e composições de Darcy Villa Verde não ocuparam, sequer, um único compasso de pauta. Estavam todos registrados em sua memória. De seus arquivos só há um único exemplar de partitura de cada música que ele incluiu em seu repertório. A maioria presenteada a ele por músicos amigos e seus 3 professores. A última partitura que recebeu, foi a das 5 Bagatellas de William Walton, enviada a ele por um amigo violonista que o estimava muito e Darcy deixou no velho mundo.
As partituras que existem de seu trabalho de composição foram aquelas transcritas para orquestra e outros instrumentos das músicas que compôs sob encomenda para ORTF e outras instituições de seu tempo.
Darcy Villa Verde não tinha o menor interesse em guardar nada com ele. Apenas recebia os pagamentos que eram emitidos do exterior todas as vezes que seus contratos – bienais – expiravam e eram automaticamente renovados.
Toda as vezes que a ORTF utilizava suas composições o contrato era renovado e Villa Verde recebia o valor corrigido. Isso se deu ao longo de anos. E todas as vezes que ele ia ao banco receber nunca perdia a oportunidade de elogiar os franceses pela honestidade e pelo respeito com o músico.
Não à toa, Darcy tinha a França como uma segunda pátria.
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[trscr]
“… precisamos nos dar conta de que a arte é uma retratação psicossocial de uma época. Um registro biográfico-artístico que revela muito dos valores e da estética de um tempo.
O inverso vale. Quer saber como está a humanidade atualmente? Basta ver as suas manifestações e expressões artísticas para compreender que vivemos hoje um outro momento bem diferente daquele que já vivemos.
Alguns podem dizer que é saudosismo. Talvez, talvez seja saudosismo do talento daqueles que enriqueceram a nossa cultura musical.
Nada contra os novos ritmos musicais que nasceram da mistura do blues, do jazz e do soul e que tiveram seu espaço ocupado maravilhosamente por músicos incríveis.
A questão é que quando essas novas tendências começaram a ser copiadas por pessoas sem muita cultura, talento e ideia, mesmo sabendo se expressar ritmicamente, terminamos com um amontoado de batidas e letras vulgares que explicitam exatamente a realidade deficitária cultural, emocional e artística de nossas massas e de nosso tempo.
Uma tragédia para o futuro das novas gerações.
A todo momento me comentam sobre novos gêneros e estilos que surgem e que ocupam os interesses da mídia. Me perguntam o que eu acho, o que penso, se reconheço como música ou não, se gosto ou não, etc.
Eu sempre respondo que amo música, mas entendam: música é um todo. É melodia, harmonia, ritmo, letra, canto, swing, inovação… Não é porque surge uma tendência de se expressar instrumental ou vocalmente de uma forma, e isso absorve as massas, que vamos ignorar o bom senso e todo o acervo existente, e começar a ter que aceitar o que meia dúzia de empreendedores passaram a determinar, por interesse financeiro, como uma nova tendência e expressão cultural artística.
Alguns desses ritmos são mesmos contagiantes e envolventes! Mas nada que dois minuto e meio ouvindo, não seja o suficiente. Para mim, é claro!
Se quisermos resgatar a nobreza do violão como instrumento de concerto para novos círculos da música em que a excelência interpretativa o fará brilhar, precisamos nos dedicar a continuar estudando de forma séria e comprometida, e saber como reingressar com ele nesse novo momento tão conturbado musicalmente.
Será necessário muito talento e esforço cooperado para se fazer ouvir pelas massas e, consequentemente, pela indústria que poderia assumir um papel muito importante nessa frente.
A questão é que, atualmente, no interesse imediato de retorno financeiro, trabalha-se o público com o que é de consumo efêmero, e aí o desafio aumenta. Aumenta e aumenta bem, porque a educação que cumpria a função de nos lançar a universos maiores e mais profundos do conhecimento e da arte, se restringiu, com a colaboração de parte da mídia, ao papel de nos transformar em potenciais consumidores de supérfluos e conversas rasas.”
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[trscr]
“… houve um tempo em que não havia a televisão e as pessoas nos contratavam para fazer música para audição. Isso sim é saudosismo! [risos]
É verdade, éramos contratados para tocar nas casas de família e para grupos da alta sociedade. A pessoa pedia a música, cantarolava, dava o tom e todo o conjunto de músicos ia atrás; ou então te contratavam para um recital solo de músicas de maior erudição. Você sentava, anunciava a peça que iria interpretar e todos faziam silêncio para ouvir. Quando acabava as pessoas batiam palmas e perguntavam sobre a música, se não a conhecessem, e muita história rolava.
Os recitais eram nas casas!
Hoje, observando como as novas gerações vivem, reagem e se expressam musicalmente, só me leva a desejar que a nova safra de profissionais busquem desenvolver a própria “musicalidade”, a todo custo, para que a boa música continue preservada na alma e no futuro, como já foi em nosso tempo.
Precisamos ‘musicar eruditamente’ a população para ela poder se aculturar e ter a opção de escolha, não permanecendo mais refém do que determinam para ela como ‘tendência’.
Prestem atenção, o violão, com toda a sua sonoridade, tendo sua escola bem estudada e dominada, é um instrumento social poderoso pra envolver o jovem e os grupos sociais, principalmente no Brasil.
Isso é cultura que pode se aliar ao entretenimento.
Não sei como os jovens se permitem expor a esse tipo de música existente, de tão baixa qualidade, sem reagir ou se defender, em plena era da comunicação aberta.
Isso é falta de formação.
Vocês aí, novos músicos e violonistas, têm que partir para a ação! Precisam atingir níveis de intensidade e expressividade musical que atraiam e levem o público jovem a se encantar novamente com o que a música tem para oferecer de melhor.
Tem tanto jovem talentoso por aí, que eu ouço.
Mas vão precisar saber se trabalhar, se comunicar e se vender sem se deixarem corromper. Porque, caso contrário, vão levar na consciência o fato de que poderiam ter feito a diferença, e que optaram ceder ao que era mais cômodo ou lucrativo.”
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[trscr]
“… já se deram conta de que estamos presenciando uma era de grande transformação?
Isso é incrível, porque nos permite observar em câmera lenta toda essa transição cultural que estamos atravessando.
Uma transição maravilhosa, em função de todos os avanços no campo do conhecimento, da arte e das conquistas e evoluções tecnológicas, mas ao mesmo tempo lamentável se levarmos em conta os absurdos que estamos testemunhando.
A falta de respeito e cidadania na alma brasileira, a corrupção patológica e generalizada que tomou o país, o abandono social que assomou o Brasil deserdando milhares de pessoas na mais absoluta miséria, o culto fervoroso ao dinheiro, a ânsia pela aquisição de poder, a necessidade de ser mais do que o outro, o aumento exponencial da violência, o fanatismo de crenças que afrontam a lógica e o bom senso, a hipnose virtual pela internet que dominou todo mundo e que apesar de ser a porta do futuro, aprisionou a humanidade em redes sociais de falsas identidades, de concentração de ‘desocupados’ e de ‘narrativas absurdas’.
O sujeito estuda por 30 anos, pratica ao longo de todo esse tempo, e quando emite um parecer técnico, tem seu ponto de vista desacreditado pela opinião de um ‘influenciador’ que apesar de não ter o mesmo conhecimento e experiência, tem mais credibilidade porque tem milhares de seguidores.
Ou seja, “Se muita gente segue o sujeito, provavelmente ele deve saber mais do que os outros.”
O mais impressionante não é isso acontecer, são as pessoas aceitarem esse tipo de medida e parâmetro à própria vida.
Meio a tudo isso, quase que em um mundo paralelo, continua nascendo, cada vez mais, talentos impressionantes na música. Mas me chama a atenção que no violão eles estão se desenvolvendo sem a aquisição devida de todo um acervo já construído, o que enriqueceria muito o aprendizado dessa nova geração; isso é bem perceptivo.
Não vejo muito o interesse de se preservar o que já foi construído.
A bem da verdade, não vejo reconhecimento nem por parte dos alunos e menos ainda por parte dos professores.
E quando me refiro a ‘preservar’ não é numa lápide ou num busto de bronze em algum canto escuro, e sim nos currículos das faculdades, com o risco de perdermos todo um conteúdo importantíssimo e necessário para o violão de concerto do futuro.
Percebo um movimento de crença de que uma nova forma de tocar o violão surgiu e que tomará conta do mundo do violão.
Pode esquecer. Isso não acontecerá.
Essa nova safra de talentos, em minha opinião, deveria se desenvolver a partir da base do que já foi construído; dando continuidade de onde se parou.
Ignorar o que foi feito e como foi feito, poderá incorrer no risco desses novos violonistas se perderem dentro da própria execução, dificultando uma alternativa viável de algo novo que consiga sedimentar o violão como instrumento nobre de concerto.
Se nos permitirmos perder a herança que herdamos e que tantos lutaram para conquistar e preservar, continuaremos, insistindo em reiniciar sem a força e a direção de tudo o que já foi conquistado e desenvolvido.
E é justamente esse acervo de um Llobet, de um Segovia, de uma Monina Távora ou de uma Ida Presti, que possibilitaram uma nova geração, da qual fiz parte, surgir, e que somadas, podem ajudar as novas gerações que chegam a fazer música, ao invés de tocar violão.
Ou faz-se alguma coisa, e rápido, ou em breve teremos uma geração de violonistas totalmente órfã.
