DEPOIMENTOS

Depoimentos e declarações sobre Darcy Villa Verde

Este é um espaço reservado para depoimentos daqueles que assistiram e conviveram com o músico e artista internacional, Darcy Villa Verde um pouco mais de perto.
São depoimentos e declarações de m
úsicos profissionais, maestros, críticos, personalidades nacionais e internacionais do cinema, do teatro, da arte, representantes da cultura e da educação, produtores musicais, musicólogos, apreciadores da música clássica e popular, fãs do violão e de todo um público de amigos e admiradores que o acompanharam nas décadas de 60, 70 e 80 lotando as grandes teatros e salas de concertos e recitais no Brasil e no exterior.

Dos inúmeros declarações recebidas e documentadas, selecionamos alguns no intuito de que cada visitante possa entender melhor quem foi este músico que transbordava para as suas cordas uma identidade própria tão carismática e envolvente que sensibilizou e marcou emocionalmente as mais exigentes plateias, levando-o a ser detentor de críticas e depoimentos tão intensos e expressivos, quanto suas próprias interpretações.

SERGIO ABREU  Músico, Violonista e Luthier. Considerado, a partir da década de 70, por muitos músicos e críticos especializados, junto ao seu irmão Eduardo, como um dos melhores duos de violão do mundo. Em carreira solo iniciada a partir de 1975 gravou obras importantes composta para o instrumento. Sua participação no universo violonístico foi capital e de grande valor para o desenvolvimento de diversas escolas no Brasil e no mundo. Em início dos anos 80 dá seu ultimo recital e assume a carreira de Luthier, tendo seu trabalho de lutheria reconhecido por alguns dos melhores profissionais do violão. Um caso muito raro que permite uma autoridade nos palcos imprimir em seus violões todo um know-how prático fazendo-se reconhecer como autor de instrumentos de um valor inestimável.
 
 

SERGIO ABREU

“Falar sobre o músico Darcy Villa Verde me remete a diversas lembranças muito gratificantes. Eu o conheci pessoalmente em 1965, quando Darcy me deixou sensibilizado ao se oferecer carinhosamente para participar de um concerto em homenagem a meu avô, Antônio Rebello, pouco tempo depois de seu falecimento, o único a se apresentar que não havia sido seu discípulo.

A partir desse primeiro e caloroso encontro estabelecemos uma profunda amizade e, embora não nos víssemos com muita frequência, eu tinha sempre notícias dele através de meu pai, Osmar Abreu, que tinha estreitas ligações com ele e seus familiares, visitando-o assiduamente.

Nas duas décadas que se seguiram, Darcy desenvolveu uma intensa e bem-sucedida carreira de concertista tanto aqui no Brasil quanto na Europa e nos Estados Unidos. Possuidor de forte e extrovertida personalidade, era sua rotina tocar para plateias lotadas que o aplaudiam de pé e exigiam sempre vários números extras.

A partir de meados da década de 80 passou a reduzir gradativamente suas atividades como concertista em função de um problema na mão direita. No entanto, mesmo após se retirar definitivamente dos palcos, ainda realizou um expressivo número de gravações antes de finalmente se mudar para Minas Gerais, onde passou os últimos anos de vida.

Há pouco mais de 10 anos o encontrei pela última vez na casa de um grande amigo comum, o violonista Renato Monterisi de Almeida, filho de um dos amigos mais próximos de meu pai desde a juventude, o reputado pintor juiz-forano Renato de Almeida. Foi um reencontro memorável e emocionado, que se estendeu por várias horas de gratas recordações e reflexões.

Fico muito feliz com o trabalho de preservação de sua memória que está sendo realizado por seu filho, também Darcy, que possibilitará às atuais e futuras gerações, um melhor conhecimento da arte de Darcy Villa Verde, especialmente através de seu extenso e bem cuidado acervo fonográfico.

…………..

“Agradeço o privilégio de poder ouvir parte dessas gravações. Trata-se de um material surpreendente e com uma qualidade sonora única. Nunca ouvi uma gravação com essa qualidade.”

 

EVANGELOS ASSIMAKOPOULOS E LIZA ZOE – DUO DE VIOLÕES  Músicos e Violonistas. De acordo com a Classical Guitar magazine, atualmente Evangelos Assimakopoulos e Liza Zoe são reconhecidos pela longa e bem-sucedida carreira como guitarristas, arranjadores e professores de música e violão clássico. Tamanho reconhecimento da midia especializada vem desde a década de 1960. Entre os mestres com os quais a dupla estudou figuram Ida Presti & Legoya, Andrés Segovia e Dmitris Fampas. Vários compositores como Mario Castelnuovo-Tedesco, John W. Duarte e Jorge Morel escreveram peças para Evangelos e Liza, e ambos escreveram suas próprias transcrições e arranjos de compositores clássicos, como JS Bach, Scarlatti, Chopin e de Falla. Desde 1991, organizam o Festival anual de Guitarra de Patras, um evento musical de quatro dias que inclui master classes, palestras, concertos e competições de violão. Oscar Ghiglia, Roland Dyens, Marcin Dylla e outros guitarristas de renome já participaram. Evangelos & Liza produziram vários discos e CDs de obras para um e dois violões e também publicaram 28 livros com trabalhos para violão solo e duo. Ao longo de seus 50 anos de ensino, estabeleceram uma escola de violonistas na Grécia, reconhecida mundialmente. Ambos, por quatro períodos consecutivos, receberam bolsas para estudar com a dupla Presti-Lagoya na França e com Andrés Segovia na Espanha. Desde 1967, o duo vem apresentando seus recitais solo e com orquestras em grandes salas de concertos, para várias estações de rádio e televisão e participando em festivais por todo o mundo, assim como ministrando seminários e master classes em universidades e academias no exterior.
 

EVANGELOS ASSIMAKOPOULOS AND LIZA ZOE – DUO GREGO DE VIOLÕES

“Conhecemos Darcy Villa Verde em 1966, quando nós três estudávamos na Academie Internationale D’Été, no Curso de Alta Interpretação de Violão com Ida Presti e Alexandre Lagoya, em Nice, na França. Depois não o vimos mais. 

Darcy Villa Verde era o melhor aluno da turma.  O curso era diário, à excessão de sábados e domingos, e tomava toda a tarde – a parte da manhã era reservada para estudo.

Falando em Ida Presti, considero que ela foi a maior violonista que houve e sua morte privou o mundo do violão de uma artista genial que poderia oferecer muito mais por esse instrumento. Sua técnica, musicalidade e tonalidades eram únicas, raras e incomparáveis!

Ida Presti considerava Darcy Villa Verde um violonista extraordinário, o melhor da Academia em 1966, e o escolheu entre os melhores de toda a classe para tocar o recital de encerramento de todos os cursos, daquele ano na Academie D’Été.

Lembro-me de Ida Presti – esse fenômeno da guitarra – selecionando sempre as melhores palavras para descrever as performances e interpretações de Darcy Villa Verde, que a cada aula conquistava ainda mais a admiração da dupla Presti & Lagoya, com o seu talento.

Embora a comunicação com Darcy entre nós, não fosse tão fácil por causa do idioma, – falava em espanhol e um pouco em francês -, houve tanto apreço, admiração e amizade, devido sua habilidade no violão e sua personalidade, que todas as dificuldades do idioma foram vencidas para que estivéssemos juntos todos os dias, em nosso tempo livre.

É estranho que 56 anos tenham se passado, e mesmo sem termos nos comunicado ao longo de todo esse tempo, nossos pensamentos tenham estado sempre juntos, e suas lembranças conosco!
Em uma das fotos com todos os alunos da turma, Darcy me abraça na extrema direita enquanto Lisa está sentada embaixo.
Guardamos conosco as fotos da época da Academia, no ano de 1966.

Eu e Liza Zoe, assistimos às aulas durante 3 verões consecutivos (1964, 65, 66) e definitivamente o melhor ano foi o de 1966 com o Darcy, e o último de Ida Presti.

Obrigado por nos dar a oportunidade de falar sobre Darcy, nosso querido amigo e um brilhante violonista.
Que o solo que o cobre seja leve.
Vamos nos lembrar dele para sempre!

Lisa e eu enviamos a ele todos os nossos melhores votos,

Evangelos e Lisa Zoe.”

 

 

SERGIO ASSAD  Violonista, Compositor, Arranjador. Além de seu trabalho solo, Sergio é considerado pela crítica e pelo público, ao lado de seu irmão Odair Assad, como um dos melhores e mais importantes duos de violão da atualidade e provavelmente o mais influente dos últimos 30 anos em todo o mundo. Suas composições reconhecidas pela Guitar Foundation of America (GFA) são tocadas e gravadas por violonistas como Alieksey Vianna, Shin-Ichi Fukuda, David Russell, Raphael Aguirre, entre outros. Em 2015 completou 50 anos de atuação profissional. Ganhador de diversos Grammys, além de inúmeros outros prêmios internacionais, e com obra composta e dedicada a ele por Leo Brouwer, Sérgio Assad continua como um dos mais requisitados compositores da linha crossover, sendo um dos principais representantes dessa tendência no violão.
 
 

SERGIO ASSAD

“Ser artista no Brasil significa para muitos, conviver entre o estrelato e o ostracismo que estarão sempre subjugados à passagem do tempo.

Já não ouvia, há anos, nenhuma menção ao nome de Darcy Villa Verde que nos anos 60 e 70 foi um dos nomes mais importantes ligados ao violão clássico no Brasil.

Meu irmão Odair e eu, que formamos um Duo de violão clássico nos anos 60 e seguimos atuantes até os dias de hoje, tivemos que deixar o Brasil nos anos 80 pra conseguir seguir uma carreira profissional.
Quando chegamos ao Rio de Janeiro em 68 pra estudar violão com a grande violonista argentina Monina Távora começamos a ter, através dela, os primeiros contatos com o nome de Darcy.

Darcy era naquela época um grande desbravador. Num País que nunca valorizou o nosso tipo de arte era necessário para que as coisas andassem que os artistas criassem a sua própria infraestrutura.
Darcy ia aos jornais, buscava as televisões, enfim, criava toda a própria divulgação para que as suas aparições tivessem êxito de publico.
Eu vi isto acontecer algumas vezes naqueles idos tempos.
Nos anos 70, quando Darcy tocava na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, a divulgação que precedia cada concerto era intensa e feita com muita antecedência. Eu ouvia falar, naquela época, que ele mesmo, com a ajuda da companheira e de amigos, saía pelas ruas do Rio pregando cartazes e anunciando a futura apresentação.

Se a memória não me falha, em 1975, Odair e eu fizemos uma extensa turnê pelo Brasil patrocinada pela Funarte. Naqueles tempos um concerto de violão era uma coisa raríssima e em muitos lugares que visitamos, sobretudo no nordeste, o publico em geral nem sabia do que se tratava.

Fizemos aparições por todas as capitais nordestinas e pra nossa surpresa, onde chegávamos, o Darcy já havia estado e encantado a platéia local.
Eu soube então que ele saia do Rio de Janeiro de carro e ia de cidade em cidade pelo Brasil fazendo o mesmo tipo de divulgação que já tinha o habito de fazer no Rio. Não sei até hoje quantas vezes ele teria se aventurado por lá, mas seguramente naquele ano ele nos ajudou bastante pois o publico que encontramos já vinha de uma experiência com ele muito positiva e isto ajudava muito a que as pessoas estivessem mais preparadas pra o que iria acontecer.

Encontramos o Darcy pessoalmente poucas vezes mas em todas as ocasiões em que tivemos esta oportunidade ele se revelou uma pessoa extremamente gentil, positiva e generosa.

Infelizmente eu o vi tocar apenas um par de vezes sendo que uma delas foi por televisão. Creio que quando o ouvi na Sala Cecília Meireles no inicio dos anos 80 tenha sido sua ultima aparição por la. Nós deixamos o Brasil em 85 e perdemos realmente o contato com o que se passava no Rio que era a cidade onde vivíamos.
Ainda me recordo bem daquele concerto e especialmente das suas interpretações da Serenata Espanhola de Joaquim Malats e da Dança n 5 de Enrique Granados. Darcy sabia explorar bem as sonoridades mais calorosas do instrumento e fazia do vibrato, um uso excelente e muito eficaz.

Foi com muito pesar que me interei da sua passagem e só me resta desejar que algum registro sonoro dele tenha sido preservado pra que as pessoas se dêem conta do seu valor.

Agradeço também pela inspiração que ele conseguiu transmitir pra outras pessoas que, como eu, também sonharam como ele.”

ISAAC KARABTCHEVSKY  Músico por excelência, brasileiro de ascendência russa, maestro e diretor musical de orquestras no Brasil e na Europa, como a OSB, Orquestra Toklünster em Viena, Orquestra Nacional de Pays De La Loire, do Teatro de La Fenice em Veneza, entre outras.
 
 

ISAAC KARABTCHEVSKY

Além de ótimo músico, uma das coisas que muito me impressionou em Darcy Villa Verde foi sempre a sinceridade de propósitos, sua sensibilidade comunicativa, um artista que se dispôs a quebrar as amarras do conformismo e lutar pela divulgação de sua música no Brasil.

Rara essa estirpe de músico, cada vez mais necessária num país que se ressente de cuidados com a sua cultura.

Que o exemplo de Darcy nesses 25 anos de carreira, possa ser imitado por outros violonistas, e que sua preocupação por um Brasil ‘mais musical’ possa ser em breve compartilhada com todas as almas sensíveis.

Isaac Karabtchevsky

 

 

 

NONATO LUIZ  Violonista, Compositor, Arranjador e Intérprete. Começou a tocar com a idade de quatro anos. Aos 15 já era o segundo violinista da Orquestra Sinfônica de Fortaleza. Durante esse tempo, atuando no popular e no clássico, opta pelo violão como seu instrumento principal de trabalho. Em 1975, já um compositor, ganha o seu primeiro prêmio em um concurso de violão na TV Tupi, em São Paulo. Em 1978, participa do LP “1º Festival Violão de Ouro” com duas peças de sua autoria, “Micheline” e “Allegro Concertante”, Festival, este, promovido pelo diretor artístico da Globo, na Sala Cecília Meireles-Rio de Janeiro. Reconhecido mundialmente como um dos poucos casos em que um músico e compositor deixa a contribuição de um raríssimo legado de notáveis e belíssimas obras do repertório erudito e popular da música brasileira, ainda jovem e bastante atuante.
 
 

NONATO LUIZ

Assisti Darcy Villa Verde tocar pela primeira vez no Teatro José de Alencar na década de 70 em Fortaleza-Ceará. 
Darcy Villa Verde no palco era um assombro. Era um mestre na elaboração do repertório. Da primeira a última peça ele encantava a platéia com uma força interpretativa de tirar a respiração. O Darcy Villa Verde tinha uma técnica absurda. Impressionante o violão dele, a sua sonoridade. O Darcy tinha uns glissandos, uns ligados, vibratos, apogiaturas e mordentes como jamais vi até hoje. Ele fazia tudo isso com muita precisão e sempre com muita técnica, o que deixava a platéia maravilhada, ainda mais porque Darcy Villa Verde colocava sua alma em cada peça que interpretava.

Depois de uma conversa no camarim do Teatro José de Alencar combinamos um possível encontro para que eu pudesse mostrar-lhe as minhas músicas. Para minha imensa alegria, o encontro terminou ocorrendo e Darcy apreciou muito. Disse ter ficado, de fato, muito impressionado com minhas composições, com o meu violão, meu trabalho, e me convidou dali mesmo a seguir me apresentando com ele em sua tournée.
Posso dizer que dali pra frente, um novo mundo em termos de violão se abriu.

Darcy Villa Verde foi de fato muito importante para minha carreira e trajetória. Tínhamos uma incrível empatia e uma identificação musical e de amizade, maravilhosa. 

Darcy era um ‘puro’ e suas apresentações, sempre surpreendentes, fizeram poderosos registros em mim que com muita emoção me fazem sentir saudades daquele nosso tempo quando, por exemplo, o ví tocar no Teatro da Encetur aqui em Fortaleza. Que pureza de técnica e de sonoridade; ele era inigualável.

Mas com Darcy, o passado sempre será presente. Podes crer!

Darcy Villa Verde representa para mim um estímulo, um exemplo, uma inspiração.
A ele dediquei o meu primeiro ‘Estudo’ de uma ‘Série de Estudos’ que foram posteriormente gravados com numeração. Eu o compus inspirado na sua musicalidade, e originalmente o chamei de Villaverdiana.

Inspirado também em Darcy Villa Verde executei algumas vezes, em meus concertos, o seu belíssimo arranjo do hino francês, a Marselhesa.

Por fim, Darcy Villa Verde representa uma grande autenticidade violonística-musical.
Ele é uma luz no universo da música e um verdadeiro ícone do violão brasileiro e internacional.

Que bom poder dar esse depoimento.

Fique com Deus, Darcy.

Até.

Nonato Luiz

 

GENÉSIO NOGUEIRA  Músico, Violonista, Compositor, Professor, Historiador Musical e Escritor. Compositor de musicas para o violão e autor de uma discografia com enfoque maior nas obras populares de Dilermando Reis, Genésio Nogueira tem nos últimos anos, se dedicado a fazer registros históricos do universo do violão brasileiro. Autor de obras bibliográficas como a de Dilermando Reis e a de Baden Powell, entre outras obras históricas, como a ‘Antologia Mundial do Violão Erudito’.

 

GENÉSIO NOGUEIRA

“Conheci Darcy Villa Verde no esplendor de sua carreira em recitais realizados nas décadas de 60 e 70, que me marcaram, profundamente.
Fiel acompanhador do movimento musical e violonístico, comparecia a todos recitais que aconteciam, e os do Darcy, principalmente.
Todos seus recitais muito memoráveis e que, à época, justificaram esse brasileiro e carioca ser merecedor do título que ganhou da crítica especializada e da mídia, como um dos melhores violonistas clássicos do mundo.

Quero citar dois desses recitais para traduzir melhor o que eram essas apresentações e o porquê de eu tê-lo até hoje como referência.

O primeiro que ocorreu no Salão Leopoldo Miguez da Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro em 1966 e o outro que se deu na renomada Sala Cecilia Meireles, em 1971, também no Rio de Janeiro.

Ambas as apresentações desse notável artista ficaram lotadas. Não se entrava ou saía. Darcy apresentou um programa arrojado, executando músicas de autores do período barroco, clássico, moderno e impressionista.
Peças como Cavatina de Stanley Myers, Fandanguilho, Ráfaga e Soleares de Turina, os Preludios de Villa Lobos, Preludio, Allemande, Ballet e Giga Ponce/Weiss, ‘Minuetto’ de Haydn, Mariposa de Tárrega, Canárius de G Sanz, Gavote de Scarlatti, Sarabanda e Minueto de Handel e o Preludio e a célebre ‘Chaconne’ de Bach, levaram a platéia a um eufórico delírio de satisfação, jamais visto em recitais de violão.
A manifestação positiva do público ocorreu com o mesmo ímpeto em ambos os recitais.
Eu, dentro dos meus conhecimentos violonísticos e musicais, até hoje, jamais tive oportunidade de ver alguém executar em público – recitais – com tanta maestria as peças, acima citadas, igual a Darcy Villa Verde.
Por mais de duas décadas, Darcy Villa Verde empolgou mundialmente o meio violonístico.
Após o VIII Concurso Internacional de Violão em Paris, em 1966, Darcy Villa Verde ganhou projeção internacional. E isso no esplendor dos seus 32 anos de idade tendo começado seus estudos de violão clássico, profissionalmente, aos 25 anos.
Além de exímio violonista, o artista, desfrutava de um excelente porte físico. Adentrava aos palcos elegantemente vestido. Sua boa aparência, simpatia e carisma produzia por parte do público reações e comentários muito positivos a seu favor.

ESCOLA NACIONAL DE MÚSICA DO RIO DE JANEIRO, 1966

No mês de maio do ano de 1966, fui assistir no Salão Leopoldo Miguez, um recital de violão de Darcy Villa Verde. Digno representante do Brasil no Concurso Internacional de Guitarra – violão clássico -, promovido pela ORTF-Office de Radiodiffusion Télévision Française, produzido pela ORTF sob a condução de Robert Vidal.
Darcy Villa Verde estava muito preparado para o Concurso e antes de partir, realizaria um recital de despedida.
Perante um público composto de profissionais, críticos e admiradores do mundo da música, das artes e da cultura, sozinho no palco e cercado por uma multidão, apresentou sua arte e seu talento através de peças dificílimas para um artista de sua idade e tempo de estudo executá-las ao vivo com tanta maestria e maturidade. No programa constavam músicas de Ponce/Weiss, Sor, Haydn, HandelScarlatti, G.Sanz, Villa-Lobos, Turina, A. Lauro e a dificílima transcrição de A. Segovia da Chaconne de Bach.
A reação foi estrondosa. A plateia foi ao delírio e alguns não acreditavam no que estavam vendo. 
Modestamente agradecia os aplausos externando visível satisfação. 
Eu, por minha vez, impressionado com tudo aquilo, não sabia como externar minha satisfação ao ver aquele violonista transmitir ao mesmo tempo tanto romantismo numa Cavatina de Stanley Myers e a incrível velocidade imposta na Giga de Ponce/Weiss.

Quanto a desafiadora ‘Chaconne’ de Bach, a obra recebeu do artista um tratamento especial no qual mostrava sua personalidade e um domínio total sobre o instrumento.
Não há registro que algum brasileiro tenha profissionalmente executado tal peça em público, antes de Darcy Villa Verde. 

Foi uma noite inesquecível de um virtuosismo interpretativo, sem precedentes.
Figuras importantes do meio musical, político, cultural e social postaram-se em fila para cumprimentarem o artista ao final. 

SALA CECÍLIA MEIRELES, Rio de janeiro, 1971

No dia 06 de julho de 1971, fui assistir o recital de Darcy Villa Verde na Sala Cecilia Meireles no Rio de Janeiro. A expectativa era grande. Ausente do Brasil, retornava dos Estados Unidos, em visita rápida ao Brasil, depois de se apresentar no Carnegie Hall.
O repertório apresentado pelo violonista era de alto nível musical. Diversas peças eruditas e clássicas escolhidas a dedo, parece, pela dificuldade que oferecem.
Acho importante ressaltar que o que admirava não era só as peças que compunham o programa, mas sim, como eram interpretadas.
Gostei de todas as músicas.
Impossível não destacar o Minueto de Haydn em transcrição de Segóvia. Foi além do que imaginava. Darcy a executou um pouco mais rápido que o próprio Segóvia, que era a sua referência, mas sem perder o lirismo da peça.
Outro número que empolgou muito a platéia foi a Sonata de Sor.
A valsa de Antonio Lauro, foi magistralmente bem tocada.
O que também contagiou a mim e ao público, foi a velocidade e a pureza do som que o violonista imprimiu com interpretações memoráveis na execução de certas obras, em contrapartida ao impressionismo de uma ‘Pavane Pour Une Infante Défunte’, de Ravel, quando destacava sua melodia sobre acordes e arpejos majestosos que tomavam o auditório.
Incrível a alternância de climas e timbres sonoros!
O concertista estava preparado para executar qualquer número. E demonstrou isso ao executar a dificílima peça, Fandanguilho de Turina. Além de demonstrar sua brilhante técnica, mostrou ao vivo uma interpretação muito amadurecida da obra do compositor espanhol.
Tudo que vi e ouvi, apresentado por esse concertista impressionante, naquela noite memorável, foi uma glória para o nosso violão brasileiro.
Executar Chaconne de Bach em transcrição de Segóvia ao vivo é um outro ato de gênio. Coisa que ele fazia desde os anos 60. Treze minutos de música variando de recursos musicais como arpejos, escalas e andamentos.
Darcy Villa Verde foi excelente em todos os recursos contidos na música. Para os menos e os mais entendidos, foi um momento raro.
A pedido do bis, Darcy brincou ao executar ‘La Mariposa’ de Tárrega. Incrível e difícil de acreditar que alguém vá tocar essa obra com tanta velocidade e tanta graça.
Esteve presente ao recital figuras importantes das artes, da imprensa e do meio musical e violonístico como Othon Salleiros, Jodacil Damaceno, Mário Prado, Samuel Babo, e outros.

Alguns, certamente, podem achar meus relatos empolgados demais.
Tive 50 anos para refletir sobre o que assisti. E todas as vezes que recordo a experiência, me impressiono com o que me lembro.
Difícil ter assistido o que assisti e não responder com a verdade e com a emoção.

Ronoel Simões, violonista e pesquisador reconhecido internacionalmente pela sua atuação no meio violonístico e por ser possuidor do maior acervo existente sobre violão no mundo, – Hoje, acervo especial pertencente a Discoteca Oneyda Alvarenga do Centro Cultural São paulo – tinha especial admiração pela arte de Darcy Villa Verde.
Foram grandes amigos.
Acredito que qualquer menção sobre a amizade dos dois, trata-se de relevante valor pela importância que Darcy Villa Verde dava a ele, assim como o respeito e a atenção que dava ao seu outro amigo e violonista Jodacil Damaceno.
Sempre que tinha oportunidade Darcy Villa Verde comentava sobre o trabalho e a importância dos dois, e toda vez que retornava ao Brasil, reservava um tempo para visitá-los.

Tive a honra de me tornar amigo desse nobre violonista. Ele louvava minha dedicação à obra de Dilermando Reis. Me considerava um batalhador pela nossa música e o nosso violão.
Jamais esquecerei sua presença e a de seus filhos em um concerto que dei, anos mais tarde, na Escola Nacional de Música. Quanta consideração! 

Posteriormente conheci alguns membros e músicos de sua família e de, inclusive, ter tocada na casa de alguns deles, como na de Geraldo Villa Verde. Todos bons músicos e muito simpáticos.

Promovi um jantar em meu apartamento no bairro do Flamengo, em homenagem ao Darcy Villa Verde, tendo como convidados vários violonistas, dentre eles, Renato Monterisi, Tony 7 Cordas, Décio Arapiraca, Mena Barreto e diversos outros admiradores de Darcy.
Foi uma noite inesquecível para os presentes e particularmente para mim.

Após esse encontro pessoal com o violonista, vim conhecer um pouco de sua personalidade. Alegre, amigo, falante, muito franco e sempre incisivo em seus pontos de vista. De personalidade forte, passava sempre pessoalmente os próprios recados, o que somado ao temperamento sensível e à vida reservada que tinha, fez dele uma personalidade idolatrada e prudentemente respeitada. 

Darcy Villa Verde, para o orgulho de nós brasileiros, jamais será esquecido. Sua história está registrada na ‘Antologia Mundial do Violão Erudito’.”

 

ARTHUR VEROCAI  Violonista, Pianista, Compositor, Arranjador, Produtor e Maestro Brasileiro. Participou como compositor de inúmeros festivais de música na década de 1960. Diretor musical e arranjador da TV Globo. Arranjador de discos e apresentações de cantores como Ivan Lins, Jorge Ben Jor, Elizeth Cardoso, Gal Costa, Erasmo Carlos, Célia e Marcos Valle, Ana Carolina, Marcelo Jeneci, entre outros. Atualmente, reconhecido como uma das grandes expressões da música brasileira e internacional, sua obra é considerada um clássico no Rap Americano e por diversos produtores do Hip Hop como Little Brother, MF Doom, 9 Wonder e Ludacris.
 
 

ARTHUR VEROCAI

“Nos idos de 1962 comecei a ter aulas de violão estilo bossa nova. Fiquei apaixonado pelo violão e nas tardes em Copacabana, frequentava uma loja de instrumentos musicais na galeria Roxy, a ‘Toda Música’, que muitas vezes era o ponto de músicos e violonistas.
Foi quando conheci o grande Darcy Villa Verde que se destacava pela sua técnica, velocidade e um grande sentimento.
Comecei então a ter aulas com aquele monstro do violão. Tocava “O Voo do Besouro” com IM – indicador e médio – da mão direita numa velocidade espantosa!
Muito dedicado, ficava longas horas no segundo andar da loja, dentro de uma sala praticando técnica, escalas, arpejos, repertório, etc. Juntava violonistas de todos os lugares para ficar vendo.
Darcy foi uma referência para mim e com sua rara musicalidade e disciplina tornou-se um gigante.
Fiquei emocionado quando antes de embarcar para seu vitorioso concurso de Paris, Darcy passou em minha casa para se despedir.”

 

DÉO RIAN  Músico, Compositor, Bandolinista Brasileiro Com mais de 40 anos de carreira, Déo Rian é considerado um dos mais respeitados solistas do Brasil. Sempre presente ao lado de jacob do Bandolim desde jovem, pelo respeito e confiança adquirida, tanto quanto pela seriedade com que se dedicava à música e ao seu instrumento, já era reconhecido como uma das maiores revelações da época. Com diversos discos gravados e tendo assumido como solista o Conjunto ‘Época de Ouro’ do próprio Jacob, formou seu próprio conjunto, ‘Noites Cariocas’, excursionando pelo mundo e encontrando no Japão, como em outros países, sólido reconhecimento e adoração pela qualidade de seu trabalho como compositor e intérprete. Nome de grande expressão hoje no Brasil, continua a se apresentar além de somar a responsabilidade da divulgação e preservação da cultura musical brasileira, dirigindo o Instituto Jacob do Bandolim – IJB.
 
 

DÉO RIAN

“Conheci o extraordinário violonista e concertista Darcy Villa Verde num sarau, em 1962, na casa do meu amigo e saudoso Jacob do Bandolim. Se não me engano, ele foi lá levado pelo seu tio Geraldo Villa Verde, muito meu amigo.

Lembro-me que estava na varanda quando de repente vi entrar pelo portão da casa do Jacob, um carro MG vermelho e estacionar. Era o Darcy, meio apressado, com o seu violão. Ele foi recebido pelo seu tio Geraldo que também era muito amigo do Jacob e frequentava sua casa.

Estava lá, nesse dia, o grande violonista e concertista Oscar Cáceres e diversos outros músicos. 
Apresentado ao Jacob, mais tarde Darcy foi convidado para tocar. 
Tocou ‘Se Tu Soubesse’ (Jeorge Moram e Cristovão de Alencar), ‘Foi ela’ (Ary Barroso), ‘A Felicidade’ (A. C. Jobim e V. de Moraes) e muitas outras músicas, com uma técnica extraordinária e com arranjos modernos e muito bem elaborados por ele, que surpreendeu a todos. 

Foi um sarau memorável. 

Jacob se emocionou muito, chegou a passar mal, e todos nós ficamos admirados pelo virtuosismo do Darcy.
Depois disso, estive com ele algumas poucas vezes. 

Há 3 ou 4 anos passados fui fazer uma visita ao Geraldo Villa Verde, seu tio, e ele me colocou para falar com Darcy no telefone.
Ele me disse que não estava mais tocando, não tinha clima, os tempos eram outros. 
Conversamos sobre aquelas reuniões e depois não tive mais contato com ele, só com o Geraldo. O tempo passa, mas as lembranças ficam.

Parabenizo por este projeto porque ele mereceu, foi um grande músico.

Déo Rian”

 

ANTONIO VICTOR OGLIARUSO  Músico, Violonista, Psicólogo e Engenheiro de Sistemas. Iniciado na música desde cedo, tocou acordeão desde criança até os 12 anos, passando para o violão até os 26 anos, quando iniciou aulas com Jodacil Damaceno. Apesar de permanecer dedicado à música e de ser violonista talentoso, segundo o próprio Darcy Villa Verde, gradua-se em Psicologia, passa a estudar sistemas e torna-se funcionário do Banco do Brasil assumindo posição na área de Engenharia da Computação.  No Banco do Brasil estreita laços com a família Villa Verde, tornando-se  assíduo frequentador de seus saraus. Montou um duo de violão com Francisquinho Villa Verde, primo de Darcy, onde se aprimoraram grande repertório de músicas clássicas renascentistas. Também apreciador do popular, chegou a tocar com violonistas integrantes de grandes grupos do choro, como o Época de Ouro e de renomados mestres, frequentadores da casa de Geraldo, como Dino 7 Cordas e Toni 7 Cordas.

 
ANTONIO VICTOR OGLIARUSO
 

“A primeira vez que ouvi Darcy Villa Verde tocar foi na Sala Cecília Meireles, no início dos anos 70. Eu estava na última fila do balcão superior e seu violão soava com extrema clareza. Eu estava extasiado ouvindo algumas peças que, atrevidamente, ousava tentar tocar.

A Sala estava totalmente lotada de gente e foi a única vez em que vi colocarem cadeiras em todos os corredores e no palco para os espectadores. Eu, é claro, invejei muito os que estavam tão perto dele naquele momento.

Anos mais tarde, o destino me fez conhecer, como colega de trabalho, seu primo Francisco Villa Verde, de quem me tornei grande amigo e considero um irmão. 
Eu e Francisco passamos a compartilhar a paixão que tínhamos pelo violão e ele me contou, para minha surpresa, que Darcy era seu primo. 

Algum tempo depois de nos conhecermos, Francisco me convidou para uma reunião familiar na casa de seu pai, Geraldo Villa Verde, onde Darcy estaria presente. Foi então que ouvi, pela primeira vez de perto, Darcy tocar.
Tratava-se de algo inacreditável, não preciso nem falar da minha emoção.

Com o tempo, posso dizer que “fui adotado” musicalmente pela família Villa Verde e passei a considerá-la minha segunda família. Foram muitos anos durante os quais, tive o privilégio de conviver com essa família extraordinária e, em diversas ocasiões, com Darcy pessoalmente. 
Eu e Francisco, inclusive, fortalecendo ainda mais esse elo, viemos a formar, tempos depois, um duo violonístico que funcionou muito bem.

Darcy Villa Verde era mais do que um artista inigualável com a sua arte, era também um ser humano especial.
Dono de um amor gigantesco pelo violão, ele ouvia com atenção até mesmo amadores como eu e tantos outros, que se reuniam nos inesquecíveis saraus na casa de Geraldo Villa Verde.
Suas opiniões, conselhos, histórias eram sempre ouvidas com avidez. Ah, e que prazer era ouvi-lo contar algumas de suas experiências incríveis ao longo de tantos anos tocando no mundo todo. Pena que ele não gostasse muito de narrar seus próprios feitos, preferindo sempre abordar o violão, sua vivência com o instrumento e os violonistas que conhecera. Que saudade daqueles tempos! 

Quando Darcy pegava no violão, todos ficavam magnetizados pelo seu timbre incomparável. Era um “segoviano”, tirava do violão um som que não se ouve mais nos dias atuais em que a técnica se modificou em função dos excepcionais recursos de amplificação que existem hoje.
A pulsação vibrante e intensa que fazia extraía vibratos que, muitas vezes, nos emocionavam e tiravam lágrimas do Sr Geraldo. 

Darcy era um perfeccionista, buscava a sonoridade que desejava para as notas, nas cordas certas, independente da dificuldade técnica maior. Inclusive ouvi ele dizer que não importava o quão difícil ficasse a digitação, ele repetiria centenas de vezes até que a execução ficasse perfeita.
Lembro de uma frase engraçada que ele disse certa vez, sobre este aspecto: “Eu faço a digitação que atende à minha interpretação, se ficar difícil, eu que me f…” e deu risada. Era muito alto astral.

Foi vendo-o tocar e ouvindo suas explicações, que compreendi as sutilezas da técnica de mão direita. A inclinação das mãos, a parte da unha e do dedo que deveriam tocar a corda para extrair o som com mais brilho, volume, intensidade ou projeção, coisas que só um mestre sabe e pode ensinar. E Darcy fazia isso com generosidade.
Soube através de Francisco, seu primo e meu duo, que Darcy não gostava de utilizar corda solta, um recurso que facilita tremendamente a digitação de mão esquerda em diversas passagens, mas que restringe a liberdade do instrumentista para buscar na corda certa e na execução adequada aquele som que pode traduzir uma expressão artística mais elevada para a obra.

Eu me atrevo a dizer, sem nenhum receio de parecer exagerado, que em muitas peças, sua interpretação e sonoridade superava a de André Segovia. 

Foi dele que ouvi o maior elogio que recebi como violonista amador que eu era: “O Antonio é profissional”. Que bom também ter isso para lembrar.

Obrigado Darcy, por ter sido tão generoso, talvez mais do que eu merecesse, e por ter preenchido as vidas de todos que conviveram com você, com sua alegria, empolgação, otimismo e muita música. Música de altíssimo nível, executada com seu raríssimo talento e muito amor a esse instrumento maravilhoso que é o violão.”

 
 

 

FRANCISCO VILLA VERDE Violonista, Músico, Advogado e primo de Darcy Villa Verde. Nascido em família de músicos, Francisco Villa Verde frequentou o ambiente musical e violonístico desde cedo. Estudando com seu pai, Geraldo Villa Verde, começou ainda criança. Já jovem estudou por anos com Jodacil Damaceno e com Carlos Alberto de Carvalho e, só então, com seu próprio primo Darcy Villa Verde.
 
 

FRANCISCO VILLA VERDE

Já aviso aos leitores que conhecendo violão e buscando como de hábito ser franco sem ser indelicado, não terei pudor algum em escrever exatamente o que vi, ouvi, assisti, senti e acompanhei.

Contrariamente àquilo que todo diminutivo faz supor, o pequeno Darcyzinho – como o chamávamos na família – se tornou, física e profissionalmente, o grande Darcyzinho. E sobre esse “monstro do violão”, como a ele se referiu o saudoso César Faria, pai do nosso querido Paulinho da Viola, vou falar-lhes um pouco:

Em meu HD orgânico, a primeira imagem que me vem à cabeça é a daquele playboy do Leblon chegando em casa, sem camisa, estacionando seu MG 1949 conversível, vermelho-sangue, que tinha rodas raiadas, volante do lado direito (o carro tinha sido trazido da Inglaterra). Isso foi antes dele viajar para a França. Ele era ainda um rapaz, e eu tinha provavelmente os meus dez anos de idade.
Ele era forte, queimado de praia, da zona sul – o que significava estar financeiramente bem de vida – e tocava muito violão. Ou seja, ele era o protótipo vivo de tudo que eu, raquítico, branquinho, magrinho, do subúrbio e iniciando no violão – tocando de ouvido na 6ª corda as primeiras notinhas de uma marcha fúnebre tradicional – queria ser na vida.

Naquela ocasião meu tio Darcy, pai dele, já havia falecido e meu pai que há muito já havia se tornado uma segunda referência paterna para ele, tornou possível a minha aproximação com aquele primo que eu tanto amava e admirava. Sorte a minha, porque o Darcyzinho sempre me quis bem e, mais que um primo, foi um amigo que eu tive por toda a vida.

A música, e na maior parte do tempo a música violonística, esteve presente em nossa família desde há muito tempo atrás.
Era contado pelos mais velhos que nosso patriarca, Tomaz Luis dos Santos Villa Verde, conhecido comerciante do Centro do Rio, fazia parte do círculo de amizades que frequentava os saraus promovidos pelo então Presidente da República, o Marechal Floriano Peixoto.
Filho de Tomaz, nosso avô Eugênio Villa Verde fez parte da geração que introduziu o violão nas “casas de família”, já que o instrumento no início do século era considerado ‘coisa de malandro’, e não era bem-visto pelas ‘pessoas de bem’. Contava meu avô que as moças eram proibidas de namorar rapazes que tocassem violão.

De fato, esse fenômeno social da época causara reações que não eram totalmente destituídas de sentido. A antiga e tradicionalista sociedade carioca ainda era resistente a certos tipos de arte mais popularesca, como as serenatas sob as janelas das donzelas feitas pelos rapazes em plena madrugada já com um certo nível alcoólico na alma e um violão boêmio nas mãos.

Enfim, o Rio do início do século XX era bucólico e notívago. A então Avenida Central estava sendo alargada e a prefeitura chegou a importar pardais para que ela se assemelhasse ao Champs Élysées em Paris. Vide o Teatro Municipal que fora feito à semelhança do Opéra de Paris. O Rio respirava boemia e modernidade, Chiquinha Gonzaga, Radamés Gnatalli, Cláudio Santoro, Francisco Mignoni, Heitor Villa-Lobos e outros despontavam na música enfrentando o preconceito que dizia que a atividade artística como profissão não era coisa para gente séria.
Àquele tempo, eles enfrentavam as reações negativas de uma parte da sociedade, como aquela desferida contra todos os artistas que promoviam a Semana de Arte Moderna em janeiro de 1922, na qual, segundo já ouvi dizer, Villa-Lobos chegou a ser vaiado.

A combinação boemia/tuberculose, a ‘peste branca’, não poupou quase ninguém. Meu pai, Geraldo Villa Verde, quase morreu. Muitos não chegaram aos trinta, mas nosso avô tratou-se no ar puro de Correias, em Petrópolis, (ainda não havia a penicilina) e sobreviveu juntamente com apenas alguns poucos dos seus doze irmãos, entre eles a Tia Lulu, avó do roqueiro Lobão. Até hoje, no caminho entre Teresópolis e Itaipava há uma localidade (hoje é um pequeno bairro) chamado ‘Quebra-Frascos’, justo porque lá os tuberculosos do Rio ficavam curados somente com o clima e jogavam seus frascos de remédio fora que quebravam, pois ainda não existia o plástico, eram de vidro.

Contou-me meu avô Eugênio Villa Verde que, ainda bem jovem, era amigo de Miguel Jorge Do Souto, este, um funcionário da loja de instrumentos musicais, ‘A Guitarra de Prata’, na Rua da Carioca. Segundo contou, após o expediente o seu grupo de amigos, todos ainda bem jovens, iam para os fundos da loja, assim como se dava em sua casa, e lá ficavam tocando até o final do dia.

Nessa turma estavam, além de vovô e Miguel, o inseparável João Pernambuco, cujo irmão Pedro, mais tarde, veio a ser o motorista do meu avô, e cuja irmã, Francisca, que adotara o codinome de Marina (para nós, Tia Marina), casou-se com o cunhado de vovô, o saudoso Tio Manoel, que a cada visita, nos presenteava com um pacotinho de Drops Dulcora (“A Delícia Que o Paladar Adora”).

Conhecido de Dilermando Reis, Ciro Monteiro, Pixinguinha, Miguel Jorge do Souto, como já mencionei – mais tarde dono do Bandolim de Ouro, tradicional loja de instrumentos musicais na Rua Marechal Floriano, e fabricante dos tradicionais violões Do Souto – João Pernambuco e outros, nosso avô Eugenio Villa Verde, autor de algumas obras e intérprete de tantas outras, transmitiu a toda a família o gosto pela música, particularmente pelo violão, cujo virtuosismo ele passou aos filhos.

Entre os mais aplicados, meu pai Geraldo, meu tio José Eugênio e o caçula e mais prodigioso dos dez filhos, de quem herdei o nome, o temporão de minha avó, Francisco de Paula Villa Verde. Tio Chico, como o chamávamos, fazia duo com Darcyzinho quando ambos eram rapazes e já assombravam a turma que se reunia à noite sob o luar do Jardim Guanabara, na Ilha do Governador, com sua magistral interpretação de Czardas, um tema russo de estupenda velocidade e dificílima execução.

Infelizmente Tio Chico nos deixou precocemente e Darcyzinho, por conta disso, chegou a passar um bom tempo sem pegar em violão dando a todos a impressão e o medo de que aquele era o fim de uma carreira que, apesar do assombro com que tocava, ainda não havia começado.

Mais tarde, recobrado do trauma, surpreendeu a todos tocando a mesma versão de Czardas, mas fazendo as duas vozes do duo de uma só vez, tocando pelos dois num só violão.
Nessa ocasião, papai (Geraldo) fazia “bico” na Rádio Mayrink Veiga, como acompanhador profissional, no tempo em que o rádio era ao vivo.
O acompanhador de rádio tinha que possuir extremo conhecimento de harmonia; usando de uma metáfora, tinha que ser ‘o dono do braço do violão’, pois ele chegava para o trabalho sem saber quem ía cantar e o quê ía cantar. Simplesmente o cantor dava o tom e a turma ía atrás.
Nesse meio papai convivia com Oscar Belandi (autor de “Caixa Postal Zero Zero”, grande sucesso nas rádios da época), Sinval Silva, Euclides Lemos, Horondino Silva, Jorginho do Pandeiro, Claudionor Cruz, Jacob do Bandolim, Raul Sampaio (autor de “Meu Pequeno Cachoeiro”, gravado por Roberto Carlos), e os demais integrantes do Conjunto Época de Ouro, fundado por Jacob e que existe até hoje.

Jacob que frequentava a casa de meu avô quando mais jovem era grande amigo de papai, que, por sua vez, frequentava a sua casa, em Jacarepaguá. Contava papai que certa noite, ele levou Darcyzinho ao sarau na casa de Jacob do Bandolim, que tinha César Faria, Carlinhos Leite, Dino 7 Cordas, Pixinguinha, Radamés Gnattali, Déo Rian, Canhoto da Paraíba, Gilberto D’Ávila, Hemínio Bello de Carvalho, Nicanor Teixeira, Inês Damaceno, Jodacil Damaceno, Irma Ametrano, Turíbio Santos, Oscar Belandi, Maria Luiza Anido, entre outros feras da época, como participantes.

Darcyzinho chegou com seu MG no jardim em frente a casa, tirou o volante do carro, pegou seu violão, pulou para fora do carro e entrou na casa que tinha como convidado especial no dia, Oscar Cáceres, violonista Uruguaio. Sentou quieto num canto, com papai do lado e ficou assistindo cada uma das apresentações que seguiam uma determinação da agenda, como era o protocolo já conhecido de todos.
Pela primeira vez, diferente das apresentações que estava acostumado a dar como garoto prodígio, mais amadurecido pelos anos de aula com Oswaldo Soares, estava para ser ouvido por todo eles, e isso não era pouca coisa!

Ao final das exibições, Jacob chegou pro papai e disse algo como: “Geraldo, e esse tal sobrinho seu, toca mesmo? Pede a ele prá tocar alguma coisa aqui prá gente!” Jacob então, se levantou, pegou um violão sobre o piano da casa para lhe dar e Darcyzinho agadeceu dizendo que não precisava pois tinha trazido o dele.
Diante do ato, Jacob falou brincando: “Olha só, não é que ele já trouxe um e ainda prefere tocar com ele?”, e colocou o violão de volta sobre o piano.

Darcyzinho pegou o dito-cujo, sentou na posição de concerto, deu aquele lazão, que todo violonista dá antes de começar a tocar, para conferir a afinação, ajustou algumas cordas, se posicionou, e começou.
Resultado: antes da interpretação acabar, tiveram que pedir pra ele parar, porque Jacob já estava passando mal tamanha carga de emoção. E não era só ele. Tiveram que tirar Jacob da sala e Darcyzinho, que não pôde continuar tocando naquele momento, ficou olhando as pessoas acompanharem o Jacob que foi conduzido à cozinha da casa para se recompor.
Logo depois Jacob se desculpou do ocorrido dizendo que era muito emotivo e disse que não esperava tamanho virtuosismo e musicalidade nas cordas de um violão.
Daí para a frente Darcy começou a frequentar a casa do Jacob e chegou até a gravar algumas músicas com o próprio Jacob, além de um compacto duplo de quatro músicas pelo selo da Polydor, que Jacob insistiu muito.

Tempos depois desses episódios, Darcy embarcou para Paris e o resto da história a gente já sabe. Foi laureado no concurso e voltou para o Brasil com o nome ainda maior.
Quanto ao Jacob, disse meu pai que dali pra frente e pra sempre, ele passou a admirar ‘aquele tal sobrinho de Geraldo’. No livro-biografia de Jacob do Bandolim, há um retrato em uma das primeiras páginas, onde papai e Darcyzinho aparecem entre os amigos num churrasco de final de semana dado em homenagem a Oscar Cáceres. Infelizmente esta passagem, tão significativa e testemunhada por tantos, não constou no livro.

Trinta anos depois de Paris, trabalhando no Banco do Brasil, fui procurado por um cliente que ao ver meu sobrenome na mesa, perguntou se eu era parente de Darcy Villa Verde.
Ao dizer que era seu primo, ele se empolgou e, emocionado, me contou que estivera na plateia no dia da final do concurso em Paris, no ano de 1966, e que durante a apresentação do Darcy que foi, segundo ele, apoteótica, haviam pessoas mordendo os lábios, tamanho o nível de tensão. Mal pude conter a emoção diante daquele relato, só de imaginar tal momento. É que muita coisa inacreditável aconteceu nesse episódio. O site relata os detalhes.

Daí pra diante, todo mundo que acompanhava violão conheceu o caminho do Darcy. Tocou por todo o país, realizou diversas turnês internacionais, lotou o Carnegie Hall de Nova York, foi elogiado por Duke Ellington e pela crítica novaiorquina, substituiu Julian Bream em um concerto no Lincoln Center, a pedido do próprio, tornou-se amigo de grandes nomes do show business como Harry Belafonte, que queria a todo custo convencê-lo a ficar definitivamente em Nova York e foi um dos primeiros violonistas concertista brasileiro a ser convidado para tocar na União Soviética em mais de vinte cidades, a convite da própria Embaixada, apresentando-se no Conservatório, no teatro Bolshoi Zaal e na Sala Tchaikovsky.

Uma coisa que me impressionou sobre a Russia é que numa carta que nos escreveu de Moscou, Darcy nos dizia (e não estava brincando) que, de tanto frio, tinha medo de quebrar uma orelha dormindo, de tão rígidas que elas estavam.
Mas Darcyzinho não deixaria o Leblon tão facilmente e, assim, voltou paro o Brasil.

Nossas tocatas de domingos à tarde, na casa do papai, no bairro de Água Santa, no subúrbio do Rio, eram memoráveis, na companhia de ‘Dino 7 Cordas’, que ia contando piadas no banco de trás do meu fusca, desde Vila Isabel, onde morava com a Dona Rosa, até a chegada, na casa do papai.
Antonio Ogliaruso, notável violonista, com quem tive a honra de dividir um duo por vários anos, Luis Maria de Jesus, o Luisão – compositor, ex-aluno, amigo e intérprete de Dilermando Reis – a quem Darcyzinho alimentava grande simpatia, Nonato Luiz, Genésio Nogueira, e como não poderia deixar de ser, o nosso Darcy, que juntamente com tantos outros que por lá passaram, fizeram do ano de 1991 o melhor de nossas vidas.

Pelo fato de sempre admirar o Darcy, eu sempre busquei estar perto dele, o que passou a se tornar mais necessário depois que passei a estudar violão com o ilustre e saudoso Professor Jodacil Damaceno.
Porém, tão valorosos quanto ensinamentos e dicas violonísticas que Darcy me passava, foram as amizades que fiz ao lado dele. Por seu intermédio conheci Osmar Abreu, pai de Sérgio e Eduardo Abreu, conheci o próprio Professor Jodacil Damaceno que me deu aula por anos, os irmãos Assad, e me tornei amigo daquele que hoje é quase um irmão de tão próximo: Nonato Luis.
Nossa relação era, da minha parte, a de um admirador e também aluno, e a dele para comigo, a de uma espécie de irmão mais velho, além do tempo todo, um professor.

Se você é primo do Darcy, toca violão e anda com ele, prepare-se: é aula o tempo todo! E era super-humilde. Em véspera de concerto, superconcentrado, ele pára o estudo no meio pra te explicar detalhes do que está fazendo, os macetes que a Ida Presti passou extraclasse para ele na França, as artimanhas que ele criou para potencializar o efeito sonoro das peças que tocava.
O que se aprendia de música com ele era tanto que teria conteúdo para preencher livros e mais livros.

Quem conhece violão clássico e viu Darcyzinho estudar por horas e horas, acabava sabendo o porque da pujança de sua interpretação, coisa que, dependendo do elevadíssimo nível de dificuldade da peça, eu só encontrei paralelo em dois dos maiores de todos os tempos: o velho Segóvia e o recém-falecido, Julian Bream. Assisti ambos. Não me refiro a tocar bem. Muita gente toca bem pelo mundo, dos mais anônimos aos mais famosos.
Mas estou falando de arrebatamento! Darcy arrebatava a plateia. Prova disso é a Chacconne da Partita nº 2, em Ré Menor, de Bach, que ele estudou massivamente por quase cinco anos, de oito a dez horas por dia, trecho por trecho, até levá-la a Paris, onde foi aclamado vencedor do concurso mesmo sem tirar o primeiro lugar.  É desse tipo de arrebatamento a que me refiro. E fazer isso com uma peça nunca apresentada na história do concurso e tocada por pouquíssimos profissionais, dado o altíssimo nível de dificuldade e o extenso trabalho de preparação necessário, o que a torna para muitos, uma peça inviável.
É sabido que foi o primeiro violonista brasileiro a incluí-la no repertório e tocá-la profissionalmente no Brasil, e que assim permaneceu por um bom tempo.

Quanto à sua apurada técnica, Darcy era quase um inventor. Explorava o instrumento em busca de recursos que majorassem a capacidade do instrumento. Todos sabemos que o violão é um instrumento de baixíssimas potencialidades tímbricas e, por conta disso, sempre ficara numa espécie de limbo entre os instrumentos que encantaram a nobreza europeia em seus dias de glória. Isso, até nascer Andrès Segóvia, cujo exaustivo trabalho de transcrição de peças e o desenvolvimento de uma técnica apurada de exploração do instrumento em busca de sonoridade de concerto, apreendido pelos grandes mestres Llobet e Tárrega, acabou por conferir dignidade e respeitabilidade ao instrumento.

Seguindo os passos do mestre Segóvia e inspirado em seus discos nos quais interpreta peças de Bach por ele mesmo transcritas, e que acabaram por representar um divisor de águas na arte violonística, Darcy deu grande impulso à sua carreira explorando à exaustão todos os recursos que podia retirar de seu Do Souto modelo Concertista, fabricado pelo lutier Silvestre, da loja O Bandolim de Ouro, de Miguel Jorge do Souto, aquele amigo do vovô. Violão esse, raríssimo por todos os motivos e que hoje se encontra preservado e com seu filho, também de nome Darcy.

Dependendo do efeito que queria produzir, o Darcy apoiava o dedo da mão esquerda que ia bater a nota, com outro dedo no traste anterior, para aumentar a potência do vibrato. Ele tocava o Estudo nº 1 de Villa-Lobos batendo os bordões com apoio, coisa que eu não vi ninguém fazer; isso para aumentar o equilíbrio sonoro da peça, já que as “primas”, nesse estudo, tendem a cantar mais alto, escondendo um pouco a beleza dos baixos.
Ao final da Gavota nº 2, de Bach, ele completava o apoteótico acorde, que era dado com o polegar batendo de cima para baixo em todas as cordas, em estilo ‘grand finale’, com uma subida imediata, quase simultânea do anelar, da prima até o bordão, potencializando a reverberação do som, que enchia o teatro até as paredes!
Nos ataques de mão direita, tanto com apoio quanto sem apoio, Darcy entrava com a falange em diagonal, técnica conhecida por violonistas que praticam a alta interpretação, provocando um veludo, um som adocicado na boca do instrumento, que pouquíssimos faziam igual. Seu toque sem apoio não era totalmente desapoiado; como Ida Presti lhe ensinara, o chamado ‘sem-apoio’ era, na verdade, um ‘semi-apoio’, que a Ida, em bom espanhol, chamava de ‘caminando’, referindo-se, ela, ao ataque alternante de indicador e médio na corda, simulando um caminhar, técnica que provoca um sem-apoio mais forte, na verdade um mezzo-apoio.

Um ponto alto na carreira de Darcy era a escolha de seu repertório. Dono de uma técnica extraordinária, e sabedor disso, Darcy explorava as chamadas ‘peças de efeito’, fazendo de seu concerto um verdadeiro show.
Nunca foi perdoado por isso, pelos puristas e acadêmicos do violão. Mas, é claro! Eles não sabiam fazê-lo! Darcy não estava preocupado com academicismos e menos ainda com a crítica.

Darcy conhecia a alma brasileira, latina e internacional, e nessa época o Rio vivia a entrada da ‘bossa-nova’.
Na segunda parte de seus concertos, ele aliviava a tensão da erudição e lançava uma ‘Carolina, de Chico Buarque, num arranjo que chegava na alma. Ele sabia que isso era necessário. Depois surpreendia com um arranjo magistral de ‘A Felicidade’, de Tom Jobim e Vinícius, em que simula uma bateria de escola de samba passando enquanto a melodia canta. Isso, sem falar em Berimbau, em que ele realmente entremeia a música com um berimbau feito com a inversão da 5ª e 6ª cordas. Ninguém fez, como ele, esses efeitos no violão. E digo isso com tranquilidade já que vi e continuo vendo violonistas tocarem, o tempo todo. E a Marselhesa? Aí é covardia. Saiu no jornal de Paris que os parisienses se emocionaram ao ouvi-la, e que na primeira vez quando apresentada, encerrando o recital, todo o público se levantou para ouvir, e ao término aplaudiu de pé por quase dez minutos! No início, no meio e no fim dessa homenagem musical, ele simula uma banda marcial francesa, ao som do clarim, dos bumbos e taróis, anunciando mais uma vitória francesa em campo de batalha. A harmonia descritiva é tão perfeita, que, no início da peça, com o hino da França, ouve-se a banda chegando ao campo de batalha; o som, então, vem aumentando e a expectativa criada surge na mesma proporção. No meio da peça, a banda toca com toda a intensidade, sugerindo o drama da luta, e ao final o toque que simula o clarim, os bumbos e os taróis vai diminuindo de intensidade e o ouvinte vai assistindo mentalmente diante da conhecida vitória francesa a banda se afastando e tocando, se afastando e tocando, se afastando e tocando, até o som sumir, quando a banda já vai longe.

Sinceramente, estou tentando descrever algo que só quem viu é que pode aquilatar. Já ouvi essas mesmas peças gravadas por ele. Não é a mesma coisa de assistir ao vivo!
Jamais vou esquecer a cena de uma senhora francesa que, entre uma peça e outra da segunda parte, ficava aos gritos, na plateia de um recital: “La Marseillaise, Monsieur Darcy! La Marseillaise, pour l’amour de Dieu. Je veux entendre le son de ma patrie bien-aimée!”
Detalhes como esse separam o mero violonista do verdadeiro artista. Sim, porque ser artista é mais, mas muito mais do que ser violonista.

Darcy tinha personalidade. Já usava, por exemplo, camisas de cores e estampas fortes, por exemplo, nos idos dos anos sessenta, o que só veio a ser popularizado na década de 70. Nunca teve medo de romper com padrões preestabelecidos, possuía um nível de autoconfiança muito alto, acreditava demais em si e em tudo que fazia. Sobre a questão da segurança emocional do artista diante da plateia, uma vez me asseverou:
“O artista tem que entrar prá arrebatar!” Não precisou nem dar detalhes. Foi o suficiente para reforçar o meu entendimento de que você não paga ingresso para assistir alguém fazer aquilo que qualquer um faz. Você paga ingresso pra sair do teatro extasiado, impressionado, ou, como ele próprio disse, arrebatado.

Por tudo isso, suas audições eram consideradas, mais que um simples concerto de violão erudito, um verdadeiro show. Isso enfurecia certos críticos ‘caxias’, puristas, cobradores do academicismo e dos rigores da música erudita. Mas não adiantava, o público não parava de bater palma e pedir bis. As pessoas não queriam ir embora!

Isto me remete a um concerto na Sala Cecília Meireles nos anos setenta, onde ele tocou magistralmente a peça Canarius, de Gaspar Sanz. Na segunda parte dessa peça o canto-solo ganha uma proporção de destaque e isso dá ao violonista o momento perfeito para explorar não só a capacidade do instrumento, como também sua própria alma interpretativa e seu virtuosismo técnico. No entanto, eu, que fui rato de concertos, cansei de sair de teatro frustrado após assistir a violonistas tocando peças nas quais eu sabia que havia um trecho no qual eles podiam levar a plateia (e a mim) ao delírio e aí chegava naquele pedaço em que você esperava aquele “fortíssimo” e o intérprete fazia aquela passagem “café com leite”, “meio barro, meio tijolo”, aquela coisa morna, que dava vontade de gritar de lá mesmo da cadeira em que eu estava: “Mete a mão!”
A depender da peça, academicamente pode até estar nos parâmentros, mas não transpira o espírito da música e nem o espírito que se forma no ambiente do recital.

Voltando ao Darcy, ele não te deixava sair do teatro ‘com um passivo a descoberto’, como diriam os contabilistas. Naquela noite, após uma Chaconne pra crítico nenhum botar defeito, ele tocou um Canarius como eu nunca tinha visto antes. Sua segunda parte foi apoteótica, com direito ao uso do máximo efeito que um violão acústico pode dar.

No dia seguinte eu tinha aula com o meu professor Jodacil Damasceno. Nós éramos grandes amigos, e tínhamos o hábito de conversar durante as aulas. Lá pelas tantas, ele me perguntou:
“Você viu o Darcy ontem tocando Canarius? O que foi aquilo, hein?!”. E depois, concluiu: “Darcy é um gênio, que musicalidade extraordinária!”.

Darcy preparava uma peça como ninguém. Estudava trecho por trecho até a exaustão. A isso chamamos ‘limpar’ a peça. Também usava um recurso para aumentar a pulsação, entrepassando junto ao cavalete uma meia de nylon feminina para abafar as cordas. Isso o fazia esforçar-se um pouco (ou muito) mais, para extrair mais som. O resultado era que, quando ele tirava a meia das cordas, o som ía longe. Fazendo uma analogia grosseira, é algo parecido ao maratonista que treina correr com pesos de chumbo amarrados à cintura e na areia.

É sabido que a atividade de tocar violão exige horas a fio de estudo de técnica. Certa vez, Segóvia estava numa cidade onde ía dar um concerto. Sabendo disso, os jornalistas se dirigiram a um hotel, o qual teriam sabido que o artista se encontrava hospedado. Lá chegando, perguntaram a uma camareira se um senhor assim-assado, que era violonista, estava hospedado lá. Ela respondeu que lá não tinha nenhum violonista; que até tinha um senhor com aquelas características físicas, mas que não tocava nada, porque só passava os dias inteiros fazendo pi, pi, pi, pi, pi, pi … Era o Segóvia estudando escala.

E esse fora quem Darcy tomara como modelo. Para sua sorte, Darcy nascera privilegiado por possuir uma carga genética invejável. Seu pai, conforme contava ele, dava um “mortal” pra frente, de terno e gravata, quando chegava em casa ao final da tarde vindo do trabalho. Era magro, mas era um “touro”, como dizia meu pai Geraldo, cunhado dele. E assim também seu filho, o Darcyzinho.
Desde muito jovem, Darcy morou na Rua Aristides Espíndola, nº 6, no Leblon, bem na esquina da Avenida Delfim Moreira. Seu quarto dava de frente para a praia. Com um endereço desses, Darcy aproveitava para nadar sempre que podia. Sumia no mar, a ponto de, certa vez, um primo nosso, desesperado após horas de espera, ter acionado os salva-vidas para procurarem-no mesmo sendo aconselhado a não fazê-lo, pelo próprio filho do Darcy, de mesmo nome. Eles o encontraram em alto-mar, e pediram que ele subisse na lancha. Ele agradeceu, disse que não havia necessidade, e pediu aos bombeiros que voltassem, porque ele estava muito bem. Os bombeiros se recusaram e disseram que ele tinha que entrar, e que para cumprir a operação do chamado, ele teria que ser ‘atendido’, no caso, recolhido e levado a uma distância da praia considerada mais segura, de ao menos dois quilômetros. E assim foi.
Conforme me confessou certa vez, o único medo que ele tinha no mar era de ser atacado por um ‘bicho’, usando suas próprias palavras. Provavelmente estava se referindo a tubarões, ou algo parecido.
Sei de uma história dele bizarra, em que foi nadando com seus filhos, ainda crianças e com seu irmão para uma ilha em Angra dos Reis, a mais de 4 quilômetros da costa, nadando inclusive à noite. Coisa de doido. Só vendo as fotos pra acreditar.

E por quê estou contando tudo isso? Simples. O hábito de nadar frequentemente deu ao Darcy uma musculatura costal invejável, que sustentava e preparava sua coluna vertebral, deixando-o em condições de estudar de oito a dez horas por dia, durante anos a fio, sem jamais se queixar de dor nas costas. Além disso, ele não tinha mãos, tinha duas manoplas! Nas pontas de seus dedos da mão esquerda não se via a coloração rosada que todos temos. Via-se uma superfície esbranquiçada, espessa, dura, áspera, que atingia a metade da falangeta (falange distal) e que dava a impressão de que ele fizera de seus dedos verdadeiros martelos. Sim, martelos! Darcyzinho tinha quatro martelos nas pontas dos dedos da mão esquerda. Não estou exagerando. Quando perguntavam a ele como conseguia tocar daquela maneira e fazer o som que fazia, ele levantava a mão na contraluz e respondia “Assim, oh! Olha aqui!” e ria.

Ser uma pessoa querida por ele era algo temerário, na hora dos cumprimentos. Seu aperto de mão era do tipo “quebra-osso”, e isso sem contar a cabeçada que ele dava no meu peito, logo que me via. Quanto mais amor, maior a dor. Era realmente muito forte. E mais que isso. Com um rosto bonito, um porte invejável de nadador e uma técnica violonística, em minha opinião, inigualável, era ele o que se poderia chamar de um galã completo. Muito popular entre as mulheres.
No entanto, esse mesmo porte certa vez o derrubou, num concerto, no momento-auge da interpretação de “Granada”, como contou em entrevista ao maestro Isaac Karabitchevsky. O que aconteceu foi que no meio da peça, a cadeira não aguentou com ele e com toda a tensão, e quebrou. Dizia ele, agitadamente, entre os risos do maestro e do público, que a granada explodiu e que ele caiu no chão, no meio da apresentação.

Darcy era um perfeccionista. Preocupava-se em saber se as pessoas do fundo do teatro estariam ouvindo bem o concerto. Prá isso, no dia do concerto, ainda pela manhã, ele ía com o papai para o teatro, pedia para o papai sentar na última fila de cadeiras do auditório, e passava as músicas, para o papai dizer se dava para ouví-lo bem. De acordo com o que papai dizia, ele apurava essa ou aquela passagem, para que todos o ouvissem com clareza na hora do concerto.

Sua disciplina era única. Como Segóvia, Darcy desprezava seu virtuosismo, para se aplicar humildemente no lento e persistente estudo da técnica pura, com exercícios que à nossa vista poderiam parecer tão banais como os que pareceram à camareira do hotel em que o Segóvia estava.
Devido a essa experiência com Darcy, passei a divulgar entre amigos violonistas que o melhor professor é o metrônomo.

Uma vez estávamos estudando juntos o Estudo nº 1, de Villa-Lobos, nos degraus junto à soleira da porta da sala de seu apartamento, que era no térreo.
Ele me acompanhava respeitando a minha velocidade, ciente de que eu não conseguia estudar numa velocidade maior. Após a terceira repetição minha mão cansou e eu tive que parar. Pois ele manteve a mesma velocidade para não me constranger e assim continuou por horas, até que a Cristina, sua esposa, nos avisou que o almoço já estava servido. Naquela hora eu perguntei-lhe se ele nunca cansava. Foi quando ele me disse:
“Francisquinho, quem quer tocar bem tem que ser escravo das cordas!”

E assim ele prosseguiu em sua vida e em sua disciplina no violão. Já idoso, por gosto e para o espanto de todos, surpreendeu amigos e familiares, apresentando uma interpretação irretocável da dificílima Bagatelas de William Walton. Das cinco veio, inicialmente, a tocar três delas. Só porque ficou encantado com a obra.

Esse era o Darcyzinho. Hoje, saudade, uma herança de cultura violonística que ele registrou em mim, e esse pedaço de vida que conto a vocês.

Francisco de Paula Villa Verde

 

EDMO FRAGA  Músico e Violonista. Atualmente atuando na área do direito.
 
 

EDMO FRAGA

“Falar sobre Darcy Villa Verde para mim é uma honra, é reafirmar minha principal referência do violão e é relembrar um aprendizado único.
Darcy é uma dessas pessoas que marcam a sua vida.
Dono de um carisma enorme e com emoção à flor da pele, 24 horas por dia.
Um simples e rápido encontro com ele já era espetacular.
Sempre com comentários elevados sobre música e interpretação das obras que tocava, dava um tratamento à música que eu jamais vi pessoalmente expressar em nenhum artista, e quando tocava o violão, “o belo” ficava lindo com a melodia sempre rainha nas intrincadas harmonias que fazia, dentro das obras que cuidadosamente interpretava.

Frequentava minha casa. Algumas vezes Nonato Luiz se juntou a nós.

A seu convite, cheguei a me apresentar com ele no Fantástico e no Flávio Cavalcanti.
Possuidor de uma sensibilidade ímpar, operário e escravo da música sempre, tocava para a música sempre, estudando incansáveis 8 a 10 horas por dia.
Em seus concertos, isso ficava patente.

A escolha do repertório era meticulosa, só escolhia aquelas que sua alma tocava.

Dedo polegar firme – pouca unha -, marcando bem os baixos, suavidade no toque magistral das melodias, legatos perfeitos, tudo cantábile ao estilo Segoviano. O pizzicato dele era mágico; staccato impulsionando sempre; sonoridade diferenciada; glissandos com a delicadeza de um beija-flor; vibratos inigualáveis; assim era o violão de Darcy Villa Verde.

Darcy acrescentou muito à história do violão no Brasil. Tocou em quase todos os cantos de norte a sul do Brasil, abrindo caminho para a difusão de outros músicos, elevando o violão ao patamar de excelência no qual sempre deveria estar.

Com ele, tudo era preparado com um nível de requinte e excelência que eu nunca vi igual.
Certa vez foi convidado para um pocket show na casa de um amigo, lá chegando, ficou por mais de duas horas em um quarto, estudando técnica com uma flanela abafando o som do violão (como era de costume) para se apresentar em sua melhor forma. Daí concluímos sua humildade. Claro que ele já não precisava ensaiar esse tempo todo para tocar na casa de um amigo, mas sua seriedade e grau de exigência eram tamanhos, que para ele era como se fosse tocar no Carnegie Hall. Não havia diferença, como de fato não há.

Fará muita falta mesmo.

São raríssimos os artistas do nível dele e que, infelizmente, vão nos dando adeus”

 

AMARÍLIO CARVALHO  Empresário de Darcy Villa Verde. Nascido em Paraíba do Sul-RJ, formado homem de muita cultura e conhecimento, funcionário concursado da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Nacional da Previdência Social/INPS (atual INSS), Amarílio Carvalho larga os dois cargos para se dedicar a desafiadora tarefa de empresariar Darcy Villa Verde a partir de 1968. Trabalha com Darcy por todo o Brasil e oito anos depois, é acometido por um problema de saúde que o obriga a se afastar das atividades artísticas. Amarílio tinha a total consideração de Darcy.
 
 

AMARILIO CARVALHO

“O que um homem simples, com mais de 90 anos, poderia dizer sobre um violonista como Darcy Villa Verde que pudesse enriquecer ou contribuir junto a essa nova geração de músicos e violonistas, para entender melhor do que é feito um músico como ele?
Do que eu pude acompanhar e ver ao longo de anos, diria: um talento impressionante, estudo, disciplina, estudo, muita disciplina e estudo, e mais estudo.
Sugiro que todo jovem no intuito de querer ser bom em algo, como em tudo na vida, comece se levando a sério e levando a sério o que faz, porque caso contrário, será muito difícil se destacar e chegar à maturidade sabendo que fez o seu melhor. 

O restante é história.

Conheci Darcy, através de sua mãe, inesquecível e querida amiga e professora de Esperanto na Cooperativa Cultural dos Esperantistas, no centro do Rio.

Com muito orgulho, nos falava da vitória do filho em Paris, no Concurso Internacional de Violão.

Na volta de Darcy ao Brasil, ela programou um recital, por ocasião do Seminário de Esperanto, em julho de 1968, em Nova Friburgo. O público ficou maravilhado, inclusive eu que prometi nossa colaboração na divulgação jornalística do próximo recital já programado para a Sala Cecília Meireles.
O recital foi um sucesso total, graças ao nosso bom Jesus! Sim, sou devoto dele.

Quando de fato vi de perto quem era esse músico e violonista, e fui convidado a assumir a função de empresário dele, larguei meus trabalhos na Fundação Getúlio Vargas e no INPS, nos quais ocupava função de cargo público faziam anos, e resolvi fazer parte da história da música em um momento em que me considerei agraciado com tão rara oportunidade.

Não era só o fato de ser empresário de um grande artista, isso também; mas era poder usufruir de todas as experiências que de alguma forma sabia que teria, já que Darcy não se tratava de uma pessoa comum, mas sim de alguém muito diferente e que podia contribuir muito, direta e indiretamente, para a minha experiência de vida na época.

Na realidade tivemos nas mãos, eu e os outros empresários que vieram a trabalhar com ele, diamante precioso.
Falando por mim e observando o quanto é desconhecido na atualidade, lamento não ter podido oferecer mais como empresário para que o mundo inteiro mais intensamente o aplaudisse e com melhor garra o disputasse. Pois como não gostava de gravar, já que acreditava que não havia na época técnica apropriada para gravar violão – a maioria do que ouvia não o agradava muito – queria tocar ao vivo o máximo que pudesse e deixar as suas apresentações gravadas na memória e no coração do público que valorizasse seu trabalho.
O importante, e aqui posso falar em meu nome e no de outros profissionais que me acompanharam junto ao Darcy por anos como empresário, é a certeza total de que tudo foi feito com muita dedicação e amor. E isso é importante porque sempre considerei o amor a ENERGIA DA VIDA!

Sinceramente acho que Darcy já nasceu artista talentoso. Pacientemente acrescentou muito estudo e disciplina; em consequência, durante curto período, conseguiu resultado altamente positivo para poder numa iniciativa inovadora pra época, divulgar sua música e arte por todo o Brasil e por grande parte do mundo, algo pioneiro na época e que soube fazer muito bem.

Darcy era um homem diferente. Fazia o que achava certo, não se intimidava, dizia o que pensava, fosse em privado ou em público, botava a mão na massa, não tinha vergonha de se posicionar quanto ao que queria e em relação ao que não aceitava, e se quebrava protocolos sempre o fazia com grande autenticidade de propósito.
Era sério no estudo, comprometido com a cultura e a divulgação da música brasileira e internacional, erudita e popular, no Brasil e fora dele, e impressionava pelo grande carisma, emoção e personalidade que tinha no palco e fora dele.

Considerando que cuidar de um artista como ele, é de fato tarefa muito difícil, resolvemos unir nossas forças com grande entusiasmo e responsabilidade. E apesar das limitações sérias de recursos, nossos impressos eram insistentes bombardeios nos veículos de comunicação: rádios, jornais e canais de TV, com informes sobre as apresentações, diariamente.

O músico e artista Darcy Villa Verde era único e diferente dos outros músicos e violonistas, porque, durante as apresentações apesar de manter os pés no palco, sua alma se lançava com interpretações muito próprias que voavam alto como a declarar eterno amor aos Anjos, no céu infinito!
Quando Darcy abraçava o violão, sua alma sensível declarava amor ao que interpretava e assim com técnica de alto nível conseguia anestesiar o público para ouvi-lo tocar com total entrega e envolvimento, acreditem!

Me perdoem o lirismo, mas quando se envelhece nos tornamos muito sensíveis!
Não consigo lembrar essas experiências sem antes sentir mais do que narrar, o quanto esse artista tocou minha alma antes de tocar cada público em cada apresentação que se tornou memorável.
A velocidade e a perfeição cediam lugar às impressões que muito me tocaram e tocaram o público mais exigente que presenciei através de suas interpretações.

Darcy Villa Verde sempre nos falava de suas histórias com Andrés Segóvia, este gigante espanhol do violão que transcrevera e interpretara o arranjo da monumental “Chaconne” de Johann Sebastian Bach, no qual ele se inspirara para montar o seu próprio repertório à imagem e semelhança do velho mestre.
Também nos falava em John Williams e Julian Bream. Ele os respeitava muito.
Com o mesmo carinho nos falava do genial Heitor Villa-Lobos que frequentou a casa de sua familia, e também falava muito dos violonistas brasileiros irmãos Abreu e irmãos Assad, e do grande Nonato Luiz a quem nutria grande admiração.
Mas, acima de tudo, falava muito de sua experiência e da grande amizade que desenvolveu com Ida Presti.

Com muita destreza de técnica e sonoridade, suas interpretações, dos clássicos e eruditos aos populares como ‘Berimbau’ de Baden Powell e a ‘A Felicidade’ de Tom-Vinícius em arranjos próprios com cuícas e tamborins misteriosamente explodindo de dentro de seu violão, encantavam centenas e centenas de espectadores, que boquiabertos assistiam-no ‘repetidas vezes’, fosse no Teatro Castro Alves de Salvador, hoje patrimônio cultural, fosse em um galpão para indios ao sul do país, no renomado Carnegie Hall ou no magnífico teatro Bolshoi Zaal que presenciei em St Petersburg na Russia! Que noite aquela!

No Brasil, foram muitos os teatros em um número sem fim de cidades, que sempre lotavam os seus concertos:
Assembleia Legislativa do RS, Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande, Florianópolis, Joinville, Blumenau, Universidade Federal do Paraná, Universidade Federal Fluminense, Vitória, Teatro Castro Alves de Salvador, Aracaju, Teatro Deodoro de Maceió, Teatro Santa Isabel de Recife, Teatro Alberto Maranhão de Natal, Fortaleza, Teresina, São Luís, Belém e Manaus, entre milhares de outros.

Uma coisa que chamava a atenção era que Darcy Villa Verde se sustentava unicamente de seus concertos. Era incansável! Trabalhava sem parar! O que nunca o impediu que aproveitasse da vida o que sempre a vida fez questão de oferecer de melhor.

Em 1981, Villa Verde foi contratado pela Associação Mundial de Esperanto, com sede na Holanda, por ocasião do seu 66º Congresso, em Brasília, para concerto na Sala Villa-Lobos, no Teatro Nacional que tinha acabado de concluir sua última etapa de construção iniciada desde 1961. O escocês William Auld e eu fomos os apresentadores no Teatro Nacional, que estava superlotado com público superior a 1.700 pessoas de vários países do mundo. O Concerto foi um marco memorável para o evento que repercutiu muito positivamente.
Ao final do concerto acompanhei a caravana soviética presente para entrevista na TV-GLOBO.
Agradabilíssima surpresa bateu forte no meu coração, ao saber que vários dos presentes já conheciam Villa Verde dos recitais em Moscou, Leningrado, Minsk, Tallin e de outras cidades.

Acompanhar Darcy Villa Verde na URSS, foi uma experiência memorável.

Assim que chegamos ficamos hospedados em frente à Praça Vermelha, com mausoléu de Lenin e o Kremlin a nos observar. Enquanto ainda estava um tanto aturdido com o fuso e com o fato de minhas malas terem ido parar no Japão, o simpático e jovem intérprete bate na porta de nossa suíte e nos convida para o jantar das 21 horas em Moscou. Tão logo nos sentamos, uma pequena orquestra começou a executar uma música de Chico Buarque em homenagem a Darcy Villa Verde, que se mostrou impactado com a inesperada homenagem.
Depois tomei conhecimento de que sabendo que Darcy Villa Verde se hospedaria no hotel e que apesar de músico erudito, também apreciava o popular, prepararam essa homenagem.
Posteriormente, Darcy retribuiu, e com o mesmo compositor.

Ao longo da viagem, recitais com sucessos estrondosos, muito além da expectativa, em Kaunas, Vilnius, Tallin, Riga, Minsk, Yaroslav, Leningrado, Moscou e em outras cidades as quais infelizmente não lembro mais.
Mas lembro de que super-empolgados com o que ouviam, muitos violonistas ao término dos recitais fotografaram o violão do Darcy e anotavam diferentes medidas como comprimento, altura, espessura, número de cordas. Achavam, pela sonoridade e o volume que Darcy produzia, que o violão devia ter alguma coisa especial para soar daquela maneira. Darcy ria muito.

Nos primeiros cinco dias em Moscou, poderíamos com a ajuda de um amigo Syleno, estudante da Universidade Patrice Lumumba, sair para vários passeios na cidade, mas Darcy preferia ficar no hotel e estudar intensamente, durante longas horas, mergulhado na responsabilidade dos recitais que daria. Eu não conseguia sair de perto dele, confesso, e só uma noite fui à casa do Syleno para conhecer a família.

No geral permanecia longas horas anestesiado assistindo aos rigorosos estudos do Villa Verde. Era uma escola viva de música. O tempo todo apuro de técnica, de acabamento sonoro e de interpretação.

Em Vilnius, o restaurante do hotel dava mil avisos em russo. Darcy, certa hora, um pouco impaciente, falou:
“Êta Idioma dificíl, não dá pra entender nada!”.
Simpática Senhora da mesa ao lado se levantou e disse:
“Oi, Villa Verde, você aqui? Tenho saudades do seu recital no Teatro Santa Isabel do meu Recife! Vou assisti-lo hoje no Lithuanian Academy Hall!”.

Nessa hora é que se percebe o resultado das centenas e centenas de apresentações dadas no Brasil e no mundo, e de todo o esforço empreendido na divulgação das mesmas.

Em Yaroslav, polo norte praticamente, viagem de trem durante 3 horas, para uma cidade onde até pinguim desmaia de frio.
Darcy, após longas horas de estudo para sua apresentação, dali a dois dias, no Volkov Theatre, dizia que tinha receio de dormir e quebrar a própria orelha que estava dura com o frio.

Próximo a data que encerrava a tournée, uma grande coletiva no Conservatório com direito a algumas impressões de Darcy a respeito de suas apresentações naquelas repúblicas e a respeito de como se prepara técnica e musicalmente.
Muitas fotos com estudantes e muitos presentes. Quase três malas de presentes que recebeu.

Na Embaixada do Brasil, em Moscou, num prédio lindão de 1876, muito nos emocionou o recital que deu e que marcou, junto a outras duas apresentações, o adeus de Darcy Villa Verde a essa primeira incursão na URSS.
O Senhor Embaixador Celso Sousa e esposa Maria Alice reuniram amigos de outras Embaixadas para conhecer e aplaudir o famoso Patrício.
Muitos e muitos elogios, graças às traduções do intérprete, jovem inteligentíssimo, que nos acompanhou durante toda excursão em terras soviéticas.
O Embaixador Celso Sousa nos confessou:
“Um Gigante! É um privilégio aplaudir um gênio do violão como Darcy Villa Verde.”

De fato, um gigante.
Sempre muito orgulhoso pelo longo trabalho ao lado de Villa Verde, já li e reli o rasgado elogio de Duke Ellington no New York Times, que sempre trago comigo:
“Assisti a uma coisa fantástica acontecer no Carnegie Hall: um gênio apareceu por lá tocando um violão divino! Foi o brasileiro Darcy Villa Verde.”

No final da década de 80 começou a diminuir o ritmo. Seu braço direito e mãos ressentiam as intermináveis horas de estudo ao longo de tantos anos.

Darcy Villa Verde: na falta de uma expressão melhor, e apesar dele não gostar do adjetivo, um ‘Gênio do Violão’.
Merece todo o nosso respeito, admiração e homenagem.

Peço desculpas ao leitores pela simplicidade e pela desmedida emoção.

Se Deus me permitir, gostaria muito de poder revê-lo, em breve. Em 2032, no meu 100º aniversário.
Que o supremo arquiteto do universo abençoe Darcy Villa Verde!

Amarílio Hévia de Carvalho.  
[1932 – 2023]

 

DARCY FONSECA NETTO  Psicoterapeuta. Estrategista na área da Educação e da Saúde. Atuante no desenvolvimento de projetos de saúde do campo mental e no desenvolvimento de inúmeros projetos culturais, educacionais e sociais. Filho de Darcy Villa Verde, acompanhou sua trajetória profissional, desde criança.
 

DARCY FONSECA NETTO

Muito me perguntam sobre Darcy Villa Verde, e não raro, pra certificar histórias que em sua maioria, não procedem.
Ele era tão reservado, que nem os amigos mais próximos, que o acompanharam por anos, sabiam de certos feitos e detalhes de sua vida profissional, menos ainda do que pensava e fazia como músico.

Como pai e tutor, Darcy foi uma referência. Homem de força, coragem, vontade, determinação e de grande poder de realização em tudo o que se propôs a fazer. 

Apesar de relativamente ausente da vida familiar, por conta de suas apresentações no Brasil e no exterior, marcou com presença indelével e contínua a minha vida e a de muitos que conviveram com ele. 

Possuidor de um temperamento ‘fortíssimo’ e intenso, e buscando sempre atuar de forma digna e com bom senso, justificou com primazia os papéis que se pode esperar de alguém relevante para a música e para a vida, e em razão disso ocupou merecido espaço na mente e no coração do seu público, dos amigos e daqueles a quem profundamente amava. 
Completamente diferente dos protótipos de pai existentes que conheci ao longo da vida e totalmente atípico como músico e concertista clássico. 
Ninguém entendia como uma personalidade tão forte e sísmica, ao mesmo tempo que tão sofrida e circunspecta como a dele, podia transpirar tanta musicalidade e sensibilidade. Era um contraste que surpreendia a maioria daqueles que o conheciam mais de perto. Cada minuto com ele, e não foram poucos, foram intensos e de muito valor. 
Hoje, nossa conexão é mental e sou muito feliz e agradecido por ter tido ele como pai.

Foram anos acompanhando-o em suas apresentações e sempre me admirava a reação do público, dos músicos, dos críticos e da mídia, após assisti-lo tocar. Magnetizava a todos com o domínio de sua arte.
Lembro quando numa entrevista para o programa ‘Fantástico’, fui questionado a respeito de como era lidar com um músico e uma personalidade tão catalisadora como a dele. 
Nitidamente impressionava a todos com seu carisma e personalidade e, acima de tudo, com sua musicalidade e interpretações.

Sua vida era dedicada a fazer música e não a tocar, propriamente. Este era o seu diferencial. Foi um verdadeiro mestre nessa arte, a ponto de impressionar os maiores nomes da música.

Sou profundamente grato a ele por atender o meu pedido de deixar um material gravado e por ter me escolhido para produzir sua gravação.

Momentos tão ricos e raros de aprendizado musical nas infindáveis horas de estudo em que o acompanhei, que precisaria de uma vida inteira para explicar o quanto musicalmente ele ia tão profundo na alma de quem o ouvia.


CITAÇÕES SOBRE O VIOLONISTA INTERNACIONAL
DARCY VILLA VERDE

A forma como o público via o Darcy Villa Verde e se expressava com relação a ele e às suas apresentações, diz muito sobre o músico e artista que era, e revela o nível de profundidade com que ele, em palco, conseguia se conectar musicalmente através das suas interpretações. 

Foram manifestações que independente o perfil do público, traziam em comum toda uma emoção registrada no uso de adjetivos e metáforas que só assistindo para entender.

Estava certo o maestro quando publicou em sua coluna o seguinte título, “Darcy Villa Verde. Um músico para ser visto e ouvido”.


ABAIXO, ALGUMAS CITAÇÕES A RESPEITO DE DARCY VILLA VERDE, EXPRESSAS POR AQUELES QUE O ASSISTIRAM E QUE FORAM COMPILADAS DOS JORNAIS, DOS PROGRAMAS DE TV E DE ENTREVISTAS PUBLICADAS E GRAVADAS.

Parte dessas declarações, estão disponibilizadas na sessão ‘Arquivos’. 


“ Villa Verde é um virtuoso com um talento excepcional que cativa, empolga e faz a gente realmente vibrar!”

Ethel Smith – Conhecida como ‘The Queen’  foi c
onsiderada uma lenda do orgão americano. A primeira musicista a trazer o Hammond Organ para interpretações de músicas populares.

“Um Monstro no Violão”
César Faria – Pai do Paulinho da Viola

“Villa Verde, o Monstro Sagrado do Violão”
Flavio Cavalcanti – Rede Tupi de TV

“Assisti a uma coisa fantástica acontecer no Carnegie Hall. Um gênio apareceu por lá tocando um violão divino. Foi o brasileiro Darcy Villa Verde.”
Duke Ellington – The New York Times

“Sua sensibilidade musical, associada a notável destreza técnica e controle, o torna muito impressionante.”
Robert Sherman – Crítico musical, Consultor Musical Senior e colunista do The New York Times

“Se vietcongs e sul-vietnamitas se unissem para ouvir Villa Verde tocar, a guerra do Vietnã acabaria nesse momento.”
Harry Belafonte – Músico, produtor, empresári

“Ótimo!”
Isaac Karabitchevsky – Maestro 

“Villa Verde me provou ser fácil tocar bem.”
Vladimir Bobri – Fundador e crítico da New York Association of Classic Guitar e editor da Guitar Review. Depoimento dado ao vivo, quando da apresentação de Darcy Villa Verde na New York Association of Classic Guitar e publicado na Guitar Review. Bobri é o autor da famosa frase: ‘Violão é o instrumento mais fácil de ser mal tocado e o mais difícil de se tocar bem’

“Deus, como o violão desse homem canta.
Joan Sutherland – Cantora lírica

“Nunca me emocionei tanto ouvindo um guitarrista como hoje. Você me parece a própria encarnação do Paganini, apenas com a diferença do instrumento.”
David Oistrach – Considerado como um dos maiores violinistas do mundo. Para ajudar entender a sutileza do comentário de Oistrach, é sabido que Paganini também era um exímio violonista.

“Um músico genuíno. Sua técnica impecável desaparece no meio de tanta musicalidade.”
Nicanor Zabaleta – Harpista

“Se não fosse quem é, naturalmente não teria vindo.”
Leonid I. Brezhnev – Primeiro-Secretário geral do Partido Soviético

“Um verdadeiro músico. Técnica brilhante e um dom raro pela musicalidade que imprime em suas interpretações”
Ida Presti violonista e professora de Darcy.

“Algo está errado, você tinha que ser espanhol para tocar guitarra desse jeito!”
Pablo Picasso – Pintor

“ Extraordinária a limpidez de execução do grande artista Darcy Villa Verde e os efeitos sonoros que consegue extrair do violão.”
Heron Domingues – Diário de Notícias

“O Darcy com um violão no palco era um deus, dominava absolutamente o público!”
Nonato Luis – Músico, violonista e compositor.

“Darcy Villa Verde é extraordinário. Um verdadeiro mestre no violão.”
João Pires Argollo – Violonista profissional e Professor-fundador da cadeira de violão erudito no Conservatório de Música de Sergipe.

“Villa Verde, um violão da pesada e um programa sempre atraente”
Zózimo – Cronista Jornal do Brasil

“Villa Verde honra a gente às pencas lá fora”
Sérgio Bittencourt – O Globo

“Villa Verde, um senhor violão.”
Ibrahim Sued – Cronista O Globo

“Nunca pensei que houvesse um violonista do quilate de Villa Verde.”
Aurélio Buarque de Holanda – Filólogo

“Tem que se tirar o chapéu pro cara!
Baden Powell – Músico

“Villa Verde, um espetáculo! ”
Sergio Figueiredo, Correio da Manhã

“Quando tento dedilhar meu pinho é que bate uma inveja danada desse fora de série. ”
Jader Vieira, O Dia / Rádio Guanabara

“Villa Verde é um intérprete autêntico. ”
Caldeira Filho O Estado de São Paulo

“Completo domínio do instrumento, executando com facilidade as mais difíceis peças do repertório violonístico.”
Jodacil Damaceno – Concertista de violão, professor de violão, editor da revista ‘Violão e Mestres’ junto a Isaía Sávio

“O que foi aquilo ontem, vocês viram? O Darcy é um gênio! Que musicalidade extraordinária!”
Jodacil Damaceno – Declaração dada sobre o concerto na Sala Cecília Meireles.

“Foi uma noite memorável. Darcy chegou com sua ‘baratinha’, sentou, pegou seu violão e ‘arrebentou’ com seus arranjos e interpretações. Ninguém esperava por aquilo. Deixou o Jacob muito emocionado.”.
Déo Rian – Músico, compositor e bandolinista brasileiro. Sucessor de Jacob do Bandolim no conjunto de choro ‘Época de Ouro‘. Déo Rian é detentor de uma das mais belas sonoridades de toda a história da música popular brasileira, corresponsável por inúmeros projetos culturais-musicais no Brasil e co-criador e presidente do Instituto Jacob do Bandolim. Amigo e frequentador assíduo dos famosos saraus na casa de Jacob, presenciou o dia em que Darcy Villa Verde tocou pela primeira vez na casa de Jacob.

Obs: ‘Baratinha’: referência ao carro esporte de Darcy Villa Verde – um MG Midget vermelho conversível, 1949, trazido da Inglaterra.
“Completo domínio do instrumento na execução das mais difíceis peças existentes do repertório para o violão e executadas com uma facilidade e velocidades incríveis. Darcy Villa Verde com toda a repercurssão que alcançou, representa o que existe da mais alta categoria no violão.”
Ronoel Simões –  Violonista, pesquisador e um dos mais importantes personagens da história do violão no Brasil. Reconhecido em todo o mundo por possuir um dos mais importantes e completos arquivos sobre a história do violão, tem hoje o seu acervo, reunido ao longo de mais de 70 anos, adquirido pela Secretaria Municipal de Cultura e exposto na Discoteca Oneyda Alvarenga do Centro Cultural São Paulo. Tinha um acordo com Darcy Villa Verde: sempre que o músico viesse a São Paulo deveria visitá-lo. E assim Darcy e Ronoel se mantiveram amigos ao longo de muitos anos. Nascido em Santa Rita do Passa Quatro, São Paulo.
 
“A pouca idade do violonista Darcy Villa Verde não o impede de ser possuidor de uma técnica extraordinária, aliada a singulares execuções. Seu virtuosismo e seu domínio sobre o instrumento colocam-no em situação privilegiada. Em nossa opinião um dos grandes guitarristas da atualidade, possuidor de um talento e valor incontestável.”
Estevão Lyrio da Luz – POLYDOR GRAVADORA  1964  Literário, Chefe da Secretaria Geral, Chefe do 3º Distrito de Educação do Estado do Rio de Janeiro e Professor de Ciência Política da Universidade GF.  Nascido no Rio de Janeiro.
 

Darcy Villa Verde, convidado a conhecer as acomodações do Conservatório de Moscow, aproveita para tirar fotos com os jovens músicos que o assistiram. O que muito impressionou a todos foi a musicalidade de Darcy e sua capacidade de interpretar com o mesmo nível de excelência e técnica, diferentes gêneros do repertório erudito e popular. Recebeu por isso o codinome “гитарный волшебник” (gitarnyy volshebnik),  ‘O Mago da Guitarra’. Como disse o Secretário e Chefe do Partido Soviético: “Um mestre, detentor de uma musicalidade e técnica capaz, segundo os russos, de impressionar o próprio Sokolowski.”  (Marek Konrad Sokolowsky)

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