‘Hors Concours’ D’Interprétation
Concours International
de Guitare Ortf
Paris 1966
"O PRIMEIRO VIOLONISTA NA HISTÓRIA A TRAZER COMO PEÇA DE LIVRE ESCOLHA PARA UM CONCURSO INTERNACIONAL DE VIOLÃO, A GRANDE OBRA DE J. S. BACH, CHACONNE IN D MINOR, BWV 1004, E COM UMA PERFORMANCE INTERPRETATIVA IRRETOCÁVEL E EMOCIONANTE."
K. Scheit - 1966
VIII CONCOURS INTERNATIONAL DE GUITARE CLASSIQUE ORTF – OFFICE DE RADIODIFFUSION-TÉLÉVISION FRANÇAISE – 1966
Paris, 31 de maio de 1966.
Necessário esclarecer exatamente como se deu o Concurso de Paris naquele ano.
No início da noite de 31 de maio de 1966, após a apresentação de Darcy das 4 peças obrigatórias de confronto, e de ter admirado a todos com as suas execuções, principalmente com a interpretação muito amadurecida do Prelude in E Major from lute suíte N. 4, BWV-1006a, o presidente do júri, visivelmente impressionado, se dirige a Darcy Villa Verde e lhe pergunta, com a ajuda de um dos jurados, quais seriam as peças de livre escolha que ele iria apresentar no tempo reservado de 15 minutos:
– Senhor Darcy, poderia nos informar quais as peças escolhidas para a sua apresentação de livre escolha?
Darcy, que tinha preparado 3 músicas para o quesito de livre escolha, estimulado pelo estado de perplexidade com que o júri o olhava após a sua apresentação das peças de confronto, e consciente de que se recusaria a cumprir a etapa final de leitura a primeira vista por não se sentir apto, resolveu mudar os planos na hora e apostar tudo num maior impacto com a sua apresentação das peças de livre escolha.
– Peças não, ‘peça’. Vou tocar ‘uma’ peça.
– Como assim ‘uma’ peça? São 15 minutos de música…
– Vou tocar a Chaconne da Partita N.2 in D Minor de Bach com a transcrição de Andrés Segovia.
Diante da visível perplexidade que se abateu sobre todo o júri, frente ao comunicado de que a peça de livre escolha seria a obra Chaconne de Bach, o presidente do júri, o maestro austríaco Karl Scheit pediu ao maestro espanhol, Antonio Ruiz-Pipó, renomado compositor e um virtuose do piano, para interceder junto ao candidato brasileiro e dissuadi-lo dessa decisão, perguntando a Darcy se ele não achava mais prudente tocar outras duas ou três músicas, uma vez que a Chaconne poderia comprometê-lo.
Disse Karl Scheit:
“Avise-o que não se trata de tocar, mas de ‘interpretar’! Ele será avaliado por isso.
A maioria dos profissionais experientes sequer ousam colocá-la no repertório.
Diga que essa não é uma decisão sensata, pois pode comprometer o desempenho dele que está bem alto. Lembre-o que o checoslovaco já foi desclassificado por falta de categoria nas interpretações.”
Ruiz-Pipó, dessa forma, repassa a Darcy a mensagem, e enfatiza toda a preocupação dos jurados e do presidente.
Darcy Villa Verde ouve tudo, agradece, mas pede que todos se sentassem pois ele iria tocá-la. Darcy se posiciona, afina o violão e passado longos segundos de silêncio e de muita concentração, inicia a Chaconne.
Dado o acorde final, a comoção tomou conta do júri.
O diretor da ORTF e o produtor do concurso, ainda atônitos com o alto nível do que testemunharam em uma música de tão difícil execução, pedem um tempo para poder reagir diante do que acabaram de assistir.
Passado alguns minutos, os jurados retornam aos seus lugares enquanto um deles aproxima-se de Darcy, posiciona um suporte de metal diante dele com uma pequena partitura, e retoma o seu lugar.
– “Senhor Darcy, agora este último quesito para concluirmos a sua parte e podermos fechar o dia.”
Tendo sido sorteado para se apresentar por último, a participação de Darcy Villa Verde com todas as suas fases, encerrava as atividades da 1ª parte do concurso.
Darcy, depois de olhar para a partitura, meio ao silêncio de todos, vira-se para os membros do júri, e dirigindo-se ao maestro Antonio Ruiz-Pipó que como todos ali ainda estava sob o impacto do que acabara de assistir, comunica que não iria cumprir com o último quesito do concurso.
Ruiz-Pipó, sem entender direito o que acabara de ouvir, pede a Darcy que repita o que acabou de dizer.
Darcy insiste na colocação feita e comunica que não iria cumprir com aquela etapa final, por não considerar a sua leitura apta à ‘lecture à vue’.
Ruiz-Pipó, sem acreditar no que ouve, se levanta, dirige-se até o Darcy e pergunta como alguém podia tocar daquela maneira, interpretar peças da forma como acabara de fazer e declarar em meio a um Concurso Internacional que não está apto a uma pequena etapa de leitura à primeira vista, coisa que qualquer concorrente de um concurso no nível daquele, dá conta?
Darcy responde a Ruiz-Pipó, que sabia evidentemente ler, mas que não estudara a ponto de obter leitura imediata, porque este não era o seu intuito. Que até poderia ter empreendido tempo nisso mas que pelo decurso de prazo, por ter iniciado a estudar violão clássico com 25 anos, pegar uma partitura e sair tocando enquanto lê, não era a sua prioridade como músico e concertista. Disse que preferiu otimizar o tempo estudando como materializar as interpretações da forma como as sentia.
Informou que tinha uma audição plena, que tocava de ouvido, que tirara as interpretações que fazia dos discos de Andrés Segovia e as amadurecia com sua forma de tocar e que, sendo autodidata em grande parte no seu desenvolvimento com o violão, quando achava que precisava de ajuda, era auxiliado por professores que ele escolhia para orientarem-no ou dirigi-lo musicalmente.
Que se inscreveu estimulado por músicos amigos e que sendo classificado entre os cinco finalistas não tinha como recusar participar de uma oportunidade que o favoreceria ser ouvido pelos melhores músicos e autoridades do mundo em música e violão erudito.
Arrematou dizendo que tinha noção que estava muito bem preparado e que ter conseguido chegar até ali e impressionado o júri como acabara de fazer era o suficiente para se sentir consagrado.
Precisava ter essa certeza para se lançar como concertista internacional, e que com o entusiasmo e o veredito deles, agora tinha.
Ruiz-Pipó estava perplexo, e diante da posição firme e decidida de Darcy, ainda meio aturdido e sem saber como proceder, se volta à organização do evento, depois de insistir muito para que Darcy mudasse de opinião, e comunica a decisão do concorrente brasileiro aos outros jurados, explicando todos os seus motivos.
A mesma reação de Ruiz-Pipó se repete entre os jurados e os organizadores do evento, e diante do espanto e da comoção que se deu, os jurados se reúnem para deliberar a respeito da situação totalmente inusitada.
Logo em seguida, Ruiz-Pipó retorna à Darcy dizendo que se ele não cumprisse a etapa do concurso, mesmo como uma espécie de ‘pro-forma’, em respeito às regras, ele seria desclassificado.
Darcy ouve respeitosamente o grande maestro, mas diante de todo o ocorrido não queria comprometer sua apresentação com algo, que apesar de trivial para eles, não se sentia apto a fazer, e recusa.
Ruiz-Pipó avisa a Darcy que se voltasse com essa resposta dele à organização e ao júri, ele certamente seria desclassificado, mas diante da posição irredutível de Villa Verde, Ruiz-Pipó retorna à comissão. Minutos depois ele volta comunicando que o corpo de jurados iria conceder a ele alguns minutos para que se familiarizasse com a partitura pois com certeza devia ser nervosismo e informa a Darcy que todos estavam tão admirados com a performance dele que não queriam considerar a possibilidade de excluí-lo. Ruiz-Pipó complementou informando, em tom ameno, que ele estava muito bem avaliado e que seria certamente desclassificado se não o fizesse, pois o Sr. Robert Vidal, que era o representante da produção do evento na ORTF, apesar de ter ficado muito impressionado com ele, estava indignado e nervoso com tudo aquilo e não queria aceitar a situação.
Darcy responde que compreendia tudo mas que não queria macular a sua participação que ele sabia estar excelente, com uma execução de desempenho médio só para cumprir uma ‘pro-forma’.
Que ele assumiria a consequência do fato de não cumprir um quesito obrigatório, mas que não se beneficiaria da situação para ganhar vantagem sobre seus concorrentes com um tempo adicional para se familiarizar com a partitura.
Que sua participação ficaria restrita ao que ele pudesse executar com excelência.
Percebendo a demora da conversa, um dos jurados se aproxima e, um tanto angustiado, começa a falar de maneira acelerada com Ruiz-Pipó.
Ruiz Pipó informa à Darcy que aquele jurado era Antoine Geoffroy-Dechaume, uma autoridade em música antiga e barroca com especialização em Bach, e que ele repetia sem parar que Darcy Villa Verde devia tentar cumprir a etapa a qualquer custo, pois não podia ser desclassificado, uma vez que ele nunca tinha visto alguém interpretar aquelas duas obras de Bach no violão como ele acabara de fazer.
Darcy, porém, sustenta que não cumpriria essa última etapa por não se sentir em condições, e diz que eles ficassem à vontade para decidirem o que achassem mais adequado.
Neste momento, Darcy dirige-se ao corpo de jurados e se desculpa pelo transtorno comunicando que aceitaria a decisão do júri, que o resultado que obtivera até ali já tinha dado a ele a resposta que precisava para prosseguir como músico e concertista.
Diante da recusa de Darcy e da perplexidade que se abateu sobre todos, inclusive sobre os outros concorrentes que não entendiam a razão de toda aquela comoção, é pedido que Darcy se retire do palco do auditório da ORTF e que aguardasse nos bastidores junto aos outros candidatos .
Meio a toda a movimentação que se deu, os outros competidores tomando conhecimento a respeito do assunto e totalmente pasmos com a situação, chegaram até a incentivar Darcy.
Villa Verde narra, inclusive, que um deles chegou até a olhar a partitura e a cantarolar para ajudar, mas não adiantou. Mesmo diante das risadas e da descontração que se deu, Darcy não aceitou.
40 minutos depois, o inusitado:
O maestro Ruiz-Pipó se aproxima e, para surpresa de Darcy e dos outros concorrentes, informa que Darcy iria a público no dia seguinte.
Comunica que diante do ocorrido, para espanto de todos, o presidente do júri, o maestro Karl Scheit, junto ao corpo de jurados, se opuseram à decisão do representante da produção do evento, Sr. Robert Vidal, de desclassificá-lo, exigindo que ele fosse a público.
Vidal se sentindo no direito de exercer a aplicação da regra do concurso, não aceita, alegando que a atitude de Darcy arranhava a imagem de um concurso considerado o mais importante no meio violonístico internacional, e que ele não permitiria que isso se desse, mas o Diretor Geral da O.R.T.F. que por sua vez respondia pela produção e co-produção de todo o evento concorda com o corpo de jurados de que Villa Verde deveria ir a público permanecendo no concurso.
Frente à falta de iniciativa do produtor que não sabia como proceder diante do endurecimento da posição de quase todos, Karl Scheit se levanta e comunica que se Darcy saísse da competição, ele sairia junto, uma vez que desde a primeira etapa do concurso, a superioridade de Darcy Villa Verde tinha sido notória em todos os aspectos. E que o fato dele não estar apto a fazer leitura à primeira vista, acentuava ainda mais a sua superioridade musical.
Muito importante fazer um aparte para comunicar ao leitor, que entre os 4 candidatos que disputavam a final, havia um austríaco, um compatriota de Karl Scheit, que tinha sido preparado pelo Conservatório Nacional de Música de Viena, na qual o maestro Scheit era o Diretor Geral.
Lembramos a questão para enfatizar a idoneidade deste maestro, grande compositor, violonista e alaudista, e sua seriedade de compromisso com a música, acima de tudo.
Tal ocorrência terminou por “vazar” para a mídia, e quando noticiada no dia seguinte, mesmo sem maiores detalhes, chamou a atenção do meio musical, suscitando ao público e à mídia buscarem acompanhar presencialmente o desfecho do que veio a se tornar, para os envolvidos, num dos maiores dilemas no que se refere a um concurso internacional de música clássica.
O evento final foi transmitido por TV e rádio, à toda a França, Alemanha, Checoslováquia, Espanha e Itália.
A solução proposta, em comum acordo pelos jurados, com a aprovação do Diretor Geral da O.R.T.F., foi levar a decisão a público no dia seguinte, o que efetivamente se deu.
Contudo, atendendo a um pedido de Robert Vidal, foi considerado a exclusão do Prelúdio da suíte 4, BWV-1006, na apresentação a público, pela dificuldade que ofereceu a alguns concorrentes ao executá-la.
O receio de Vidal era evitar na grande noite da final do concurso, diante das TVs, das rádios e de um publico de mais de 2500 pessoas, a apresentação de um violonista que se recusara a concluir uma das etapas obrigatórias do concurso, junto a execução de uma peça que segundo o próprio corpo de jurados estava além das possibilidades de alguns concorrentes. Isso não seria nada bom e, diante do inusitado que se dera e do que poderia advir no dia seguinte na presença da mídia e do público, resolveram por minimizar qualquer nova situação de risco que viesse a comprometer a imagem do concurso.
Como dito, o concorrente da Checoslováquia já fora desclassificado.
Apesar da execução deste prelúdio de Bach poder favorecer a Darcy, a peça foi excluída da apresentação a público no dia seguinte e, segundo a decisão dos jurados, sugerida para exclusão também nos concursos posteriores.
Segundo comentário de Geoffroy-Dechaume, esse prelúdio é tão difícil e desafiador que até músicos profissionais encontram dificuldade de saber discernir o que é bom e devido nele.
Na noite seguinte, 1 de junho, após sorteio, Darcy, a exemplo do dia anterior, ficou de se apresentar por último.
Paris, 1 de junho de 1966, 20H30
Após Darcy acabar a apresentação das peças obrigatórias de confronto, o apresentador do evento assumiu o microfone e comunica que pela primeira vez na história daquele concurso, e de que se tem notícia com relação a outros concursos na Europa, um concorrente ousaria apresentar como peça de livre escolha, a grandiosa obra Chaconne de Bach in D Minor, obra esta conhecida de todos pelo altíssimo nível de dificuldade execucional e interpretativa para instrumento solo; obra emblemática por ser a que mais repercutiu na sedimentação do violão como instrumento concertista erudito, considerada como um verdadeiro monumento no repertório violonístico e que, acreditava-se, fora devidamente interpretada em público na guitarra clássica apenas por Andrés Segovia.
Frente ao som de comoção de todo o auditório da Salle Pleyel, seguido às palmas ininterruptas do público, Darcy se posiciona para tocar e diante do mais absoluto silêncio, impactado pelo alto nível de tensão daquele momento, para surpresa de todos e dele mesmo, é acometido subitamente por um blackout de memória.
Como de costume, sempre antes de iniciar uma peça, Darcy a repassava mentalmente, e ao fazê-lo, sofreu um blackout mental, não visualizando uma determinada nota, de uma das variações iniciais.
Parado e sem ter como prosseguir a apresentação, com todos os presentes observando-o extremamente concentrado a respirar profundamente, o público compreende o que se passa e, acreditando tratar-se de uma enorme pressão psicológica pelo tamanho da responsabilidade assumida, começa a bater palmas ininterruptamente, estimulando-o.
Diante do inusitado e inevitável, sem conseguir se lembrar, Darcy Villa Verde decide se levantar, as luzes voltam a acender, as palmas cessam. Nesse momento, Darcy olha para o público e sem visualizar a nota em questão, meio a indecisão de como proceder, senta-se novamente e fecha os olhos, mantendo a expectação do público que no mais profundo e respeitoso silêncio o aguarda por mais de um minuto. A luz volta a se apagar e meio ao absoluto silêncio, concentrado e recomposto emocionalmente, reinicia.
“Naquele momento – em que ocorreu o ‘blackout’ – eu tive uma descarga emocional tão intensa que achei que fosse ter um infarto fulminante e cair morto no meio do palco. [risos]
Sabia que tinha dimensões e capacidade musical para tocar e ser o músico que eu quisesse ser, mas eu estava num nível de tensão tão grande que tive um colapso mental e não vi com clareza uma nota de uma das variações iniciais! Então me levantei numa espécie de torpor, sem saber se ia embora ou ficava. A imagem de meu pai me veio à mente e eu pedi a Deus que me ajudasse porque na passagem mental da música eu não via uma nota que me impedia de tocar. Nessa hora, um sentimento consciente me mandava sentar de volta, então eu sentei. Fechei os olhos e rezei!
Conforme fui pedindo ajuda a Deus me senti desligado da realidade do ambiente, me senti imerso numa atmosfera de muita confiança e lucidez.Abri os olhos e parecia que o tempo tinha parado. Vi todo o público no mais profundo silêncio, imóvel e senti que esperavam que eu iniciasse; aquele respeito me sensibilizou profundamente, estava muito emocionado; com a luz já arrefecida, me posicionei e busquei visualizar mais uma vez a música antes de tocar. Não se ouvia o respiro de uma alma.
Inspirei, realizei a música e a ouvi mentalmente. Dei o primeiro acorde.Conforme tocava e ia imprimindo intensidade e expressão em cada variação, me sentia revestido de uma força e confiança absoluta, e despejei toda a minha alma e o meu melhor até o fim.
Nessas horas é que você sente o peso de ter estudado tantas horas, por tantos anos. É o momento em que tudo conspira a favor;
o domínio instrumental é absoluto, a dificuldade técnica é inexistente, e a interpretação é soberana. Só então a música surge.”
Após o último acorde da Chaconne, houve uma verdadeira catarse coletiva.
Segundo os depoimentos dos que estavam presentes, a tensão que pairou em todo o ambiente durante os 12 minutos de música foi tão intensa que quando Darcy finalizou sua apresentação, a plateia que estava totalmente imóvel e aprisionada em cada segundo de sua interpretação, explodiu de tensão em palmas e gritos.
Ovacionado pelo público que de pé não parava de aplaudi-lo, Darcy agradece e se retira. Imediatamente os funcionários da coxia correram para abraçá-lo e o carregam de volta ao palco frente ao público que permanecia aplaudindo e gritando seu nome e nacionalidade.
Meio a toda comoção que se instalou, o apresentador toma o microfone e pede a palavra pois tinha algo a comunicar.
Reiterado o silêncio, o apresentador se dirige ao público e divide, com ele, todo o ocorrido do dia anterior. O público, pasmo, sem reação e em absoluto silêncio ouviu a narrativa dos acontecimentos até o fim.
“Senhoras e senhores, o júri, ontem, após testemunhar o mesmo que acabamos de assistir neste momento, não conseguiu desclassificá-lo apesar de sua recusa em cumprir com o último quesito do concurso de leitura à primeira vista.
Inacreditavelmente, o concorrente brasileiro, apesar de ler partituras e de tocar como toca, não tem leitura apta à primeira vista, e pela musicalidade que traz, desenvolveu todas as suas performances tirando as músicas de ouvido dos discos de Andrés Segovia e aprimorando suas interpretações através da própria musicalidade e do auxílio de professores, quando solicitados por ele.
Segundo tomamos conhecimento, Darcy Villa Verde foi ajudado nos meses que antecederam este concurso por uma discípula do mestre Segovia, a senhora Adolfina Raitzin de Távora.Contrariando o regulamento, por se tratar de um quesito obrigatório e desclassificatório, o corpo de jurados decidiu trazer o concorrente brasileiro Darcy Villa Verde para a apresentação a público, justificando esta decisão pela sua superioridade musical e, com isso, reintegrando-o como legítimo competidor, buscando dessa forma dividir a questão com a opinião do público.
Estamos diante de um legítimo impasse, pois se não podemos deixar de reagir a uma performance tão poderosa e musicalmente inigualável, também não podemos desconsiderar o ato premeditado do concorrente em participar do concurso sabendo que não cumpriria com todos os quesitos obrigatórios deste concurso.Senhoras e senhores, a partir de agora, o júri vai se reunir e tomar a mais difícil decisão, até então, deste concurso. Entendemos a preferência do público e a superioridade interpretativa do concorrente brasileiro, mas não podemos desconsiderar a premeditação da atitude desse mesmo concorrente.
Imediatamente o público começa a se manifestar batendo palmas e cantando a vitória brasileira. Alguns se precipitam ao palco e começam a falar que se a decisão foi trazê-lo à público, não havia sentido àquela altura, reivindicar descumprimento de regra.
Um jornalista se levanta, dirige-se ao corpo do júri e argumenta que se a atitude do concorrente feriu a regra, ele devia ter sido desclassificado no dia anterior. Mas se o juri se recusou a fazê-lo, e ainda o trouxe à público para concorrer, a questão já estava consumada. O concorrente foi oficialmente reintegrado, sua participação era legítima e o júri e o público aprovara.
Àquela altura nada mais podia se opor à vontade dos jurados, do diretor da O.R.T.F e também a do público, de a partir daquele momento consagrá-lo vencedor.
Antecedendo o anúncio do grande ganhador da noite, estava programada a apresentação de um violonista, premiado em uma edição anterior do concurso, o que ajudou a acalmar os ânimos enquanto o júri e a organização do evento se reunia para decidir o resultado do VIII Concours International de Guitare classique – ORTF de 1966.
Diante do impasse que se deu, a solução encontrada levando em conta todas as angulações do dilema formado, ou seja, de premiar o melhor candidato na opinião do júri e do público, de não ignorar as regras da competição e de buscar preservar a imagem deste concurso de uma repercussão negativa, o corpo de jurados e a diretoria da ORTF decidiu por laurear Darcy Villa Verde ‘Hors Concours’.
Um ‘Grand Prix d’Interprétation’ pela excepcional performance, consagrando Darcy Villa Verde pela superioridade musical e interpretativa apresentada naquela noite.
Após anunciado o grande prémio a Darcy Villa Verde, pelo então Chefe das Relações Políticas e Exteriores da ORTF, o senhor Joseph Paletou, o corpo de jurados representado pelo seu presidente, o maestro Karl Scheit, pede silêncio às palmas do público e anuncia que aquela premiação declarava Darcy como o grande premiado da noite e que para que isso ficasse formalizado, o júri e a direção da ORTF não viam sentido em contemplar naquele ano o segundo colocado com um prêmio de primeiro lugar, uma vez que isso daria a entender um resultado diferente da opinião do júri e de todos os presentes.
Concluindo, Darcy Villa Verde era o grande ganhador da noite, mas não podia receber o 1º lugar pois se recusara a cumprir o último quesito do concurso. Deveria, em função disso, ter sido desclassificado, mas o júri impediu que fosse. Não deveria ter ido a público no dia seguinte, mas o júri e a direção da ORTF decidiram que iria. Não poderia ter sido considerado o ganhador da noite, em função de todo o ocorrido, mas o júri, a ORTF e o público decidiram que era.
Desta forma, no ano de 1966 não houve um 1º lugar ‘oficial’ no ‘VIII Concours International de Guitare Classique’ da ORTF – Office de Radiodiffusion-Télévision Française, mas um vencedor contemplado com a menção superior de ‘Hors Concours’, e um 2º e 3º lugar.
E pela primeira e única vez, conforme narrado em carta oficial enviada pela Embaixada da França à Secretaria de Estado das Relações Exteriores no Brasil, uma ‘menção especial’ foi ‘orgulhosamente’ conferida ao vencedor daquele ano e não um título de 1º colocado.
“…A embaixada de nosso país tem a ‘honra’ de informar que o recente Concurso Internacional de Violão organizados pela ‘Organization de Radio et Television Française’ neste ano, não distribuiu nenhum 1ª prêmio mas conferiu uma ‘Menção Especial’ ao concorrente brasileiro Darcy Villa Verde pelas suas excepcionais qualidades de musicalidade, além de nenhum outro concorrente finalista ter conseguido apresentar obra de tão difícil execução como a Chaconne de Bach, quanto o brasileiro que foi apenas prejudicado pelo fato de não ler música à primeira vista…”
Interessante observar, pelos depoimentos recolhidos, que a técnica e a musicalidade de Darcy Villa Verde absorvia a audiência de tal maneira, que o fato de não ler música num concurso internacional de violão, perdeu peso e não subtraiu a premiação e nem o espírito de orgulho e mérito por parte dos orgãos oficiais franceses e brasileiros diante do título conquistado por Darcy Villa Verde.
Afinal, foi a primeira vez, de que se tem notícia, que um orgão oficial de uma embaixada se utiliza da palavra ‘honra’ ao descrever um estado de orgulho nacional em não delegar um primeiro lugar em um evento de competição internacional.
A notícia chegou ao Brasil pelos canais oficiais franceses – Embaixada e Secretaria da Cultura – e através do representante oficial do Concours International de Guitare Classique’ da ORTF para a mídia, o jornalista Joseph Paletou, que se dirigiu diretamente à Secretaria de Estado das Relações Exteriores.
A premiação de ‘Hors Concours’ também não impossibilitou que lhe conferissem – quebrando novamente o protocolo – as premiações* designadas ao vencedor.
* Medalha dourada e 1500 francos oferecido pela O.R.T.F, contrato para um programa de rádio da O.R.T.F na qualidade de solista, contrato para um programa de televisão da O.R.T.F na qualidade de solista, contrato para um programa de rádio na Radio difusão Checoslovaca na qualidade de solista, contrato para um programa de rádio na Radio difusão de Frankfurt na qualidade de solista, contrato para um programa de rádio na Radio difusão de Baden-Baden na qualidade de solista, contrato para um programa de rádio na Radio difusão da Suiça Francesa na qualidade de solista, contrato para um concerto organizado pelo ‘Club de La Guitare’ de Lion, um violão de concerto oferecido por um fabricante de violões, um prêmio de 500 francos oferecido por um fabricante de cordas para violão, bolsas de estudos oferecida tradicionalmente por diversas entidades (Schola Cantorum, Association de L’Ecole de Musique de Paris e Direção de Relações Culturais da Espanha), bolsas de estudos para curso de violão em Compostela com Segovia, bolsas de estudos para curso de violão com Juliam Bream na Inglaterra.
Decorrente de todo esse reconhecimento, além de uma bolsa de estudo com Segóvia, que tinha sido sua referência até aquele momento, e com Juliam Bream, Darcy Villa Verde na noite do Concurso em Paris foi convidado pessoalmente por Ida Presti, que estava presente, para participar do Grand Cours D’Interprétation ministrado por ela e pelo violonista Alexandre Lagoya, seu esposo, – na ‘Académie D’Été de Nice’ – naquele ano.
Convite este que aceitou com grande prazer depois de se informar de quem se tratava, e de descobrir, posteriormente, só quando em aula com Ida Presti, que aceitar tal convite foi a decisão mais acertada de toda a sua carreira, pois mudaria a sua forma de tocar e expressar-se musicalmente para sempre.
Aqui, vale uma observação com relação a esta violonista.
Segundo a crítica e a mídia especializada da época, Ida Presti foi considerada a melhor violonista do Séc. XX.
Tocando sozinha – solo – ou em duo com Alexandre Lagoya, seu esposo, foi reconhecida como um fenômeno do violão e considerados como o melhor e mais proeminente duo de violão do mundo. Isso dito por Mario Castelnuovo-Tedesco, Francis Poulenc, Joaquín Rodrigo, John W. Duarte, Andrés Segovia e por inúmeros outros compositores e músicos internacionais da época que, inclusive, fizeram questão de compor para ela.
É evidente que qualquer parâmetro comparativo, em se tratando de performance musical, fica submetido à diferentes graus de análise em termos de musicalidade, de virtuosismo técnico demonstrado, da experiência emocional do que se testemunhou, e de muitas outras questões, o que concede uma certa subjetividade à opinião dada. Mesmo se estando diante de um registro de inestimável valor como o dela.
A questão é que as pessoas que deram esses depoimentos ou compuseram em sua homenagem, não estavam sob um arroubo de um impacto emocional de momento. São, todos eles, nomes consideradas referências em excelência, virtuosismo e brilhantismo na música internacional.
Dessa forma, quando se referem à sua musicalidade, ao seu virtuosismo técnico, à influência cultural de seu trabalho e à importância da construção de repertório para violão, falam de algo que consideravam realmente fora de série.
Segovia, por exemplo, depois de recebê-la ainda criança, com 13 anos, para uma audição, alegou não ter nada a lhe ensinar e aconselhou que ela seguisse caminho próprio não considerando orientação de ninguém com relação a sua forma de fazer música.
Diante de todo o exposto, difícil não buscar imaginar o que deve ter sido viver toda essa experiência que Darcy Villa Verde viveu, meio a esses músicos e artistas que se encantaram com o seu trabalho e que se empolgaram em querer ajudá-lo a alçar performances ainda mais elaboradas musicalmente.
Depois de ouvirmos depoimentos que se encontram registrados do próprio Darcy Villa Verde e de alguns brasileiros que estavam presentes na noite do Concurso de Paris, como o do embaixador da UNESCO Dr. Carlos Chagas e a esposa Dna Ana de Mello Franco Chagas, que se fizeram anfitriões de Darcy enquanto este se encontrava em Paris; da cantora Vanja Orico que veio mais tarde a se apresentar com Darcy Villa Verde em Nova York, cinco anos depois; do diretor de cinema, dramaturgo e compositor Rui Guerra que disse ter presenciado um roteiro vivo de um filme; do autor, dramaturgo e adido cultural em Paris, Guilherme Figueiredo e família que confessou emocionado não ter acreditado no que presenciou; do autor e produtor Anselmo Duarte que faleceu jurando que o blackout de memória sofrido antes de interpretar a Chaconne foi uma jogada de marketing por parte de Darcy; da própria Ida Presti que muito impressionada o convida para estudar com ela, assim como de tantos outros presentes, chega-se a conclusão de que os acontecimentos daquela noite de 31 de maio e de 1 de junho de 1966, foram absolutamente ‘surreais’ e, ao mesmo tempo, determinantes para a trajetória profissional de Darcy Villa Verde.
Uma parte da história musical brasileira que ficou registrada na memória das mais de duas mil e quinhentas pessoas que ali se encontravam presentes, nos jornais da época, em parte da Europa que assistiu ao evento, e também em grande parte da mídia no Brasil.
Três dos jurados do concurso em Paris: o compositor, maestro e virtuose do piano erudito Ruiz-Pipó; o presidente do júri, o maestro diretor do Conservatório Nacional de Música de Viena, compositor erudito, violonista e alaudista, Karl Scheit, e o renomado maestro, virtuose do cravo, musicólogo e especialista em interpretação de música antiga, Antoine Geoffroy-Dechaume.
À esquerda, coluna no JORNAL O GLOBO do acadêmico e crítico musical, Octávio Bevilacqua, Fundador da Academia Brasileira de Música e Primeiro Professor-Catedrático do Instituto Nacional de Música, anunciando o ocorrido no VIII CONCOURS INTERNATIONAL DE GUITARE CLASSIQUE ORTF – OFFICE DE RADIODIFFUSION-TÉLÉVISION FRANÇAISE 1966: Darcy Villa Verde é declarado ‘HORS CONCOURS’ no confronto internacional de violão clássico sediado em Paris. A decisão foi tomada pelo corpo de jurados, presidido pelo renomado Diretor do Conservatório de Música de Viena, violonista e alaudista, Karl Scheit. À direita, matéria do JORNAL DO BRASIL, anunciando o resultado do 8º Concurso de Violão Clássico da ORTF de 1966, sediado em Paris, através de seu representante internacional, o Chefe das Relações Políticas e Exteriores da ORTF e jornalista francês, Sr. M. Joseph Paletou. O senhor Paletou, através da embaixada, comunica ao Brasil a vitória de Darcy Villa Verde e toda a relação do que consistia sua premiação: contratos nas principais capitais da Europa, concertos na ORTF e na BBC, para lecionar e bolsa de estudos com Juliam Bream e Segóvia, além daquela conferida a ele pelo Instituto Cultural Brasil-Alemanha.
Importante destacar que esse título dado a Darcy Villa Verde foi o único em toda a história do Concours International De Guitare D’Interprétation, ORTF, sediado em Paris.
Ao final, o Sr. Vidal, apesar de ter acatado o resultado oficial, deixou transparecer diante dos que o felicitavam, a sua frustração frente ao ocorrido, ao que Darcy, para a surpresa de todos, assume a palavra e, pela tradução de Carlos Chagas Filho, estende a palavra aos circunstantes e à mídia, tornando pública sua posição diante de todo o ocorrido:
“Antes de mais nada, gostaria de agradecer a todos pela simpatia e receptividade musical que muito me enobrece.
Diante dos acontecimentos que tomaram, evidentemente, um rumo bastante incomum no concurso, quero agradecer e informar que saio daqui totalmente realizado e consagrado oficialmente pela ORTF, a produtora do evento a quem muito agradeço; pelo juri a quem presto minha maior reverência em nome de seu presidente; e por esse público maravilhoso a quem dedico a minha música.Agradeço a você Vidal, e a todos aqui, a medalha e os prêmios recebidos, e os guardarei com muito gosto e boas lembranças. Sei que deram o seu o máximo para prevalecer o senso de justiça em respeito à música, à própria consciência e ao propósito do evento, e por conta disso e de todo o reconhecimento de vocês, estou profundamente emocionado e aceito respeitosamente a solução oferecida através deste título que guardarei comigo e que, a partir de agora, transforma a França com seu simpático povo francês na minha segunda pátria musical!
Jamais esquecerei esta noite!
Muito obrigado.”
Todo estes acontecimentos veicularam o mundo na época e foram registrados.
Contudo, poucos meses mais tarde, uma revista interessada em levantar os pormenores desse episódio que chamou a atenção da mídia, procurou o representante do concurso, para depoimento sobre as ocorrências que se deram na noite de 1 de junho daquele ano.
A declaração que se fez curta e sem interesse de abrir maiores detalhes ou questionamentos, segue abaixo:
“Considerando que todos os concorrentes não tivessem apresentado condições para receber o primeiro prêmio, este não foi dado a ninguém. Que mais do que se preocupar com a situação dos concorrentes, a preocupação maior foi a de preservar a dignidade da música. Que só ouve segundo e terceiro colocados, e um brasileiro que recebeu uma menção honrosa.”
A técnica, a musicalidade e a interpretação superior que justamente consagrou Darcy Villa Verde naquela noite inesquecível, lhe era agora subtraída e utilizada para justificar a falta de premiação do 1º lugar, revogando-lhe maior mérito.
Avaliando claramente a questão, mesmo sabendo que iria causar um impacto muito positivo no júri com suas interpretações, uma regra seria descumprida, e apesar de ter muita fé nele mesmo, estava pronto para assumir o ônus de uma possível desclassificação.
Sabia que corria esse risco, ainda mais em um concurso daquela magnitude, um concurso internacional em Paris, tido como o mais importante do mundo e com uma banca de jurados formada só de grandes nomes do mundo da música clássica.
Mas a vida seguiu outro rumo. Para surpresa de todos e dele inclusive, além dos jurados decidirem que ele iria a público no dia seguinte por entenderem que não poderiam premiar nenhum outro candidato, resolveram oficializar isso de uma forma totalmente inusitada e sem recurso: declará-lo acima dos concorrentes com uma menção especial e anular o primeiro prêmio para que ninguém pudesse ser consagrado, além dele, como o melhor violonista.
Tais acontecimentos, além de registrados, circularam os países da Europa e EUA.
Diante de uma ocorrência tão complexa, compreendemos ter sido importante relatar tais acontecimentos, sem, aliás, pretender convencer ninguém sobre qualquer ponto de vista a respeito do assunto.
Todas as vezes que Darcy foi questionado com relação ao concurso, procurou sempre mencionar ser o ganhador da noite com um título de ‘Hors Concours’, um ‘Grand Prix d’Interprétation’ do qual ele tinha muito orgulho, por ser um prêmio diferenciado e correspondente ao que entregou naquela noite tão memorável.
Em seu entendimento, o fato de não lhe terem dado o primeiro lugar por se recusar a cumprir a última etapa do concurso e de terem mesmo assim criado uma menção honrosa para laureá-lo como o melhor violonista, foi para ele um marco do mais alto valor.
A mídia brasileira relatou os acontecimentos conforme se deram. Alguns jornais, contudo, afirmaram, indevidamente, que Darcy Villa Verde ganhou o 1º lugar, o que de fato não ocorreu, assim como uma revista do meio violonístico optou por registrar a versão emitida pelo produtor do evento.
Mas a mídia internacional, que vive em busca de noticiar grandes ocorrências e polêmicas, se sentiu à vontade, depois de pesquisar o ocorrido, para se expressar de acordo com os depoimentos dos presentes e do próprio júri assumindo, diante de todo o ocorrido, Darcy Villa Verde como o grande vencedor do concurso naquele ano, o que repercutiu muito positivamente na Europa e nos EUA.