Alta Interpretação

Pode-se dizer que o aprendizado de Darcy Villa Verde com Ida Presti foi o que transformou completamente a sua forma de tocar.
Ida Presti atuou no Darcy ‘músico’, como um todo.
Seu curso, junto ao esposo Alexandre Lagoya, ‘Cours Supérieur d’Interprétation Musicale-Guitare Classique’, conforme chamado, era uma espécie de ‘master classes‘, que todos nominavam internamente como ‘Cycle Supérieur d’Interprétation’, focadas na melhoria de técnicas para alta interpretação e na elaboração de uma qualidade superior de ‘ambiência’ sonora.
Para tanto, o curso que se estendia do início de julho a meados de agosto, com uma carga horária que tomava todo o dia – na parte da manhã o curso, na parte da tarde exercícios e estudo -, tinha por princípio trabalhar com profissionais que não apresentassem limitações técnicas que pudessem comprometer o amadurecimento musical interpretativo.

“Muitos profissionais trazem certos vícios de ‘aprendizados’ que são impeditivos para que possam continuar se desenvolvendo.
Não podemos tratar de alta interpretação em um concertista se ele  apresenta, 
como músico, deficiências de base em termos de técnica, dinâmica e sonoridade.
Questões a serem trabalhadas na postura, na forma de empunhar o instrumento, no posicionamento da mão, no desempenho técnico, na digitação, na qualidade sonora, no domínio das variações dos timbres, e assim por diante, são questões sérias que terminam por comprometer a música na qualidade da sua interpretação.” 

– Ida Presti.


Ida Presti

O mais importante a respeito de Ida Presti, é que a sua aparição se deu na época áurea do posicionamento da guitarra clássica como instrumento solo de concerto. Exatamente quando o violão clássico, já sob domínio de nomes extremamente reverenciados, recebe dela, ainda jovem, uma amplitude inimaginável em termos de alta interpretação e de qualidade sonora, de acordo com os próprios compositores que escreveram para ela e os músicos de seu tempo.

Apenas para situar, desde o final do séc. XVIII até o final séc. XIX, o violão adquiriu um status mais artístico, com repertório próprio, se assumindo cada vez mais como um instrumento solista de música clássica através de compositores e violonistas como Fernando Sor, Mauro Giuliani e Dionísio Aguado e muitos outros.
Este movimento foi fundamental para que concertistas virtuosos e de peso como Miguel Llobet e Andrés Segovia, pudessem lançar o violão à uma maior idade em termos musicais e de reconhecimento, mesmo que em cenários diferentes.
E é nesse início do séc. XX, meio a todo esse trabalho de resgate, mais assumidamente capitaneado por Segovia, que Ida Presti surge dando uma nova dimensão em termos de ‘musicalidade’ e ‘sonoridade’ para o violão.
Pesquisando os depoimentos daqueles que a assistiram desde criança, chama a atenção a maneira como as pessoas reagiam diante de sua forma de tocar e encantar.

Ida Presti foi considerada um fenômeno da guitarra clássica no mundo, e tocando junto a Alexandre Lagoya, formou o ‘Duo’ mais extraordinário e emblemático de violão erudito de todos os tempos, até então.

Sem desmerecer outros grandes duos de violão que se fizeram merecedores de respeito e reconhecimento internacional, e existem alguns muito impressionantes, sua musicalidade e capacidade de sonorizar suas interpretações, através das ricas e valiosas transcrições que o seu parceiro de duo, o maestro Lagoya preparava, a lançou de forma única e indelével na história da música.
Como sua trajetória profissional foi relativamente curta, pois nos deixou ainda muito jovem, sua projeção internacional, apesar de ter deixado registros de rara e grande originalidade e excepcionalidade, terminou não assumindo o grau de importância que a história da música na guitarra clássica passou a lhe dever.

Não se tratava dela tocar excepcionalmente, o que a propósito ela o fazia tanto ‘solo’ como em ‘duo’, mas de saber fazer música de maneira extraordinária e de fazê-la com uma sonoridade única.
Tratava-se de uma violonista 
incomparável que com o toque das cordas impactava e impressionava profundamente quem a assistia.

Para se ter uma vaga ideia do impacto da performance deste duo – Ida Presti e Alexandre Lagoya -, reportaremos algumas ‘notas’ a respeito de um dos seus recitais em Nova York.

…….

O sucesso estrondoso da primeira turnê do Duo Presti-Lagoya pelos EUA, se reflete na pilha de reportagens feitas e nas cartas enviadas às redações dos jornais e revistas. Considerando a relativa brevidade da turnê, o impacto deste duo de guitarras foi fantástico! Tornou necessária uma nova atitude em relação à música para guitarra. Uma espécie de ampliação da capacidade de ouvir que permita apreciar uma gama maior de timbres, de dinâmicas, de complexidades rítmicas e os aspectos mais sutis da música para guitarra em sua melhor forma. 
“Fenomenal!”, “Impressionante!”, “Dinâmico!”, entre outros equivalentes, são os superlativos usados com frequência para descrevê-la.
A apresentação que começou com uma Suíte em quatro movimentos de Marella, ao estilo de Handel, deu espaço a uma transcrição de Lagoya de quatro peças de Bach, descrita, em sua execução, pelos críticos como “irresistivelmente bela e provavelmente o ponto alto da noite”.
A Sonata para dois violões de Paginini e o Divertissement N. 1 de Sor, concluíram a primeira parte do programa. 
A música moderna que se seguiu foi toda escrita para o duo de violões e dedicada a Presti-Lagoya; aliás, o título da primeira peça, “Prestilagoyana”, de Pierre Wissmer, não deixava dúvidas a esse respeito.
Elegia (D. Lesur), Canzona e Allegro trepilante (A. Jolivet), Toccata (Pierre Petit) e Tonadilla, em três movimentos (J. Rodrigo), deram à dupla a oportunidade de demonstrar seu virtuosismo e domínio musical de todos os estilos de composição.
O bis incluiu obras de M. de Falla, Granados e muitos outros.
Andrés Segovia que estava presente, aplaudiu de forma entusiástica.”
– International Classic Guitar Association 

“Duas guitarras que tocam como uma só não faz justiça ao Duo, pois Ida Presti e Lagoya multiplicam os prazeres de uma única guitarra”.
– Ann Faber, Seattle Post-Intelligencer

“A precisão e a unanimidade de sua execução foram impressionantes em alguns momentos, e duas guitarras podem naturalmente proporcionar mais cor e maior riqueza de timbre do que uma.”
– The New York Times

“Uma característica impressionante da apresentação foi sua completa unidade externa e sua, igualmente, completa compreensão expressiva mútua. Eles tocam com total transparência de meio, uma gama de cores marcada por fina sutileza e também por uma expansividade incomum. Suas nuances dinâmicas apresentaram características semelhantes. Com fluidez, seu timbre evitou a aridez; o contraste, como o de uma longa melodia sob ornamentação rápida e leve, foi apenas um dos vários efeitos apresentados, juntamente com uma compreensão extremamente sensível da atmosfera da música.” 
– New York Herald Tribune

“Nossos guitarristas ficaram sem palavras”
– New Yorker

“Nunca ouvi guitarristas como eles.”
– Depoimento dado por guitarristas que assistiram ao recital.

“Esses dois são certamente a melhor dupla de violões do mundo. Simplesmente não consigo imaginar nenhuma dupla melhor.” 
– Los Angeles Times

…….

 

Quando questionado a respeito de Ida Presti, numa entrevista, Darcy Villa Verde respondeu:

“Minha relação com Ida Presti era de mútua admiração.
Como só fui conhecê-la musicalmente na Academie d’Été, apesar de já estar ciente de que se tratava de uma lenda, não fazia muita ideia do que me aguardava.
As pessoas falavam dela na Europa com a mesma deferência com que falavam a respeito de Segovia.

A primeira vez que ela sentou e começou a tocar para nós, quase caí pra trás! Não tem como descrever o som que ela fazia! Eu fiquei pasmo! A sonoridade dela era algo muito impressionante e totalmente diferente do que eu conhecia em termos de violão; e era muito mais impressionante ao vivo do que nas gravações que fez. Além do mais, tocava com uma elegância musical, uma segurança técnica e um controle sonoro ‘absoluto’ do instrumento! 
Quando ela deu o último acorde, estava atônito! Aliás, todo mundo ali. A maioria já a conhecia, é claro.

Entenda, não se trata de tocar muito bem o violão; tem quem toque, evidentemente. Mas, sim, de fazer soar uma música, uma sonoridade, que te deixa pasmo.
É algo que não dá para descrever, só vendo e ouvindo, camarada! 
Tinha um duo de guitarristas gregos, também casados, muito simpáticos, que tocavam muito bem e que já tinham feito curso com a Ida Presti e o Lagoya algumas vezes: Evangelos Assimakopoulos e Liza Zoe. Se tornaram grandes expoentes no violão. Me tornei, inclusive, muito amigo deles enquanto estivemos juntos. Eles me disseram em mais de uma ocasião: Não importa quantas vezes façamos o curso, ela sempre surpreende.

Foi, então, que eu perguntei a ela se ia nos ensinar como fazer aquele som.
Ela sorriu e respondeu:
“O som existe em função da interpretação, e este é o objetivo do curso. Vamos ver como se saem.”

Houve um momento em que ela me esclareceu que o que tinha me levado a ser convidado a participar do curso era o meu nível de musicalidade e a técnica interpretativa que eu já trazia.
Ela achava que com o conhecimento deles, eu amadureceria muito o meu som e que só bastaria
praticar exatamente o que ensinassem, porque eu tinha os recursos necessários para ser grande e único com a minha forma de tocar.

Esta conversa que impactou a minha autoestima e se estendeu em outras ocasiões, fez grande diferença pra mim porque me certificou de que eu já tinha um acervo musical e técnico muito rico em mãos; de que poderia enriquecê-lo ainda mais e conquistar meu próprio espaço no mundo da música concertista internacional, o que eu desejava intensamente.

Isso foi um comentário que eu também recebi da Monina Távora; ela sempre buscava trabalhar o que nos podia tornar únicos.”

Reporter: Mas você já não tinha consciência de que era bom a ponto de acreditar que poderia impressionar um juri tão seleto como o do concurso? Você não se preparou tanto para isso, por que a surpresa?

“São situações muito distintas! Uma coisa é tocar e impressionar uma banca de jurados e de um público como tinha feito no concurso em Paris. Outra coisa é ouvir o que ouvi a meu respeito de uma profissional como ela, sentada na minha frente e me olhando nos olhos! Bastou ouvir uma vez ela tocar para perceber que estava diante de uma violonista e uma musicista de um nível e dimensão sem igual. E ouvir dela que eu tinha plena condições de me destacar como um dos melhores músicos concertistas de violão, devido a minha destreza e musicalidade, isso me impactou e impactou profundamente.

Ambas as situações propõem visões e critérios muito diferentes. 

Enquanto todos me viam e me consagravam como um fenômeno ‘no concurso’, ela viu do que eu precisava e o que podia ajudar a melhorar!
A análise e a orientação dela me deu uma medida exata do que eu era como ‘músico’ frente ao que eu poderia ser!

A sensação que tive, quando me dei conta de quem era Ida Presti e do que significava ser escolhido e convidado pessoalmente por ela para me aperfeiçoar musical e profissionalmente, era a de que eu tinha sido premiado numa loteria.
Eu tinha apenas 7 anos de estudo de violão clássico e já somava 32 anos! Levando em conta que quase 3 desses 7 anos, foram só de exercícios passados pelo meu professor Oswaldo Soares.
Foi tudo muito rápido e impressionante!

Me lembro como se fosse hoje, a Ida Presti tocando e demonstrando o espectro sonoro a ser desenvolvido e o Lagoya sorrindo da minha admiração e das minhas reações.

Com as semanas, ela ia passando a técnica e seu conhecimento para todos nós, dando um acabamento maior em cada um.
O que me encantava era que tudo o que ela ensinava melhorava muito o som. Era funcional. Ela ensinava, eu praticava, meu som mudava. A sonoridade que desenvolvi ela me deu em semanas! Com ela tudo era muito fácil e fazia muito sentido. Só tinha que estudar por horas o que ela ensinava e o resultado aparecia.

Preste atenção! [segurando e apertando o braço do repórter, que ri e ressente o aperto ao mesmo tempo] Vi de perto os melhores do mundo ao vivo. Não vi ninguém fazer o som que ela fazia, nem Segovia e nem ninguém.
Eu sempre brincava dizendo que queria aquele som pra mim! Ela ria e respondia que eu acharia o meu som e que com muito estudo e um bom instrumento chegar nele seria uma decorrência natural, apenas uma questão de tempo. E foi!

“Não basta estudar dez horas”, dizia. 
“Tem que estudar as dez horas da forma certa”. 

Ela me ensinou tudo isso fazendo, e eu aprendi vendo e fazendo junto! O que me ajudou muito é que como nos afinamos muito musicalmente, ocorreram diversos ensinamentos extraclasses em que ela me passava macetes que não dava tempo de passar nas aulas. E isso foi muito importante para o meu desenvolvimento sonoro, pois eram dicas adequadas ao meu jeito de tocar e de interpretar.
Ela modelou o meu som!

Era muito comum ela se dirigir a mim e falar “No seu caso é melhor fazer desse jeito”, e mostrava ou posicionava. Algumas orientações visavam mudar a forma como eu tocava, outras buscavam adaptar acabamentos técnicos à forma como eu tocava: “No seu caso posicione os dedos dessa maneira assim, que vai soar melhor”.
Eu fazia e melhorava! Ela via como eu tocava e adequava um complemento técnico à minha forma de tocar me mostrando como ficaria mais rico sonoramente pela maneira como eu posicionava as mãos e atacava as cordas.

O fato de eu, desde pequeno, já trazer a posição das mãos e a digitação conforme aprendi no método do que se convencionou chamar ‘Escola de Tárrega’, me deu a base necessária para poder esquecer tudo e evoluir no que desenvolvi. Sei que é complicado de entender, mas foi isso mesmo. Foi toda uma reconstrução técnico-sonora e visual que abriu um novo caminho execucional-interpretativo.

O mais incrível é que eu precisei de todos aqueles anos de exercícios e técnica de Tárrega, assim como dos anos de estudo me inspirando nas gravações de Segóvia, para depois poder substituir isso, pelo que vim a desenvolver com ela em questões de semanas! Uma técnica absolutamente exuberante em termos de ambiência sonora e tão pujante quanto delicada em termos tímbricos. Um novo mundo sonoro se abriu diante de mim e eu podia trabalhar nele registrando a minha identidade musical criativa.”

Darcy Villa Verde com um casal de amigos que fez na Academie D’Été, Evangelos Assimakopoulos e Liza Zoe. Um duo de violonistas que, a exemplo de Ida Presti e Alexandre Lagoya, se comprometeram com a excelência tornando-se músicos e instrumentistas de alcance superior, perpetuando o trabalho de seus mestres e, com isso, fazendo-se merecedores de todo o reconhecimento que alcançaram. Inclusive, tanto a Ida Presti quanto o maestro Lagoya estiveram no casamento dos dois. Darcy, sempre muito criterioso, confessou ter reconhecido o raro talento desses dois, assim que os ouviu . Na foto, os três nos jardins do claustro do Monastère du Cimiez, Nice, Academie d’Été. Todos os três, amigos próximos e integrantes do curso de Alta Interpretação de Guitarra Clássica com Ida Presti e Alexandre Lagoya em 1966, o último ano do curso. Foto tirada por Ida Presti.

Dali para à frente, o som de Darcy mudou, e segundo ele próprio, mudou por completo.

É interessante, mesmo depois de muitos anos, observar a intensidade e a forma com que um músico e concertista como Darcy Villa Verde narra esses momentos e se refere às lembranças desses aprendizados; percebe-se o quanto essa violonista, de fato, devia ser impressionante.

Apesar de ter começado o estudo do clássico com praticamente 25 anos e de ter começado a tirar o seu repertório aos 27 anos, todas as oportunidades que lhe surgiram de aprendizagem foram de grande valor. Todas as suas referências, orientadores, conselheiros, professores e tutores, estavam entre os melhores de sua época. Heitor Villa-Lobos, Oswaldo Soares, Monina Távora, Ida Presti, Alexandre Lagoya, Andrés Segovia, Leonard Bernstein, Lorin Maazel, David Oistrakh, Pablo Casals, Nicanor Zabaleta, Jean-Pierre Rampal, entre inúmeros outros na Europa e nos Estados Unidos, foram músicos e concertistas com quem teve oportunidade de se aprimorar musical e interpretativamente no clássico.

Darcy, desde muito jovem, com toda sua precocidade, talento e habilidade, pôde beber na fonte de todos eles com tempo para aprender, observar, assistir e se apresentar, se inspirando em quem o impressionava para remodelar suas interpretações. Aliás, essa já tinha sido a sua escola no mundo da música popular.
O que chama a atenção é que ele mesmo 
desde criança, já tinha, intuitivamente, noção do que queria aprender e implementar na sua forma de tocar. 

No Rio de Janeiro, por exemplo, era muito comum os violonistas se reunirem para essas reuniões que se davam em meados do séc. XX, nas casas de alguns músicos apreciadores desses encontros; músicos que patrocinavam e organizavam esses encontros em suas próprias casas ou, então, em algumas lojas de instrumentos como ‘Rabeca de Ouro’, ‘Cavaquinho de Ouro’, ‘Guitarra de Prata’ ou ‘Ao Bandolin de Ouro’; se apresentando e trocando conceitos, dicas e técnicas.
Foi um período muito rico musicalmente para quem pôde participar desse mundo do violão, até porque a maioria ali iniciou por conta própria e quando tomavam aula, o faziam com músicos que raramente tinham uma formação acadêmica mais formal ou oficial. E isso, desde os tempos de Levino da Conceição, João Pernambuco, passando por César Ayala, Dilermando Reis, entre muitos outros.

Agora fica mais fácil de entender que toda essa formação um tanto autônoma, um tanto autodidata e pouco acadêmica de Darcy em seu início, é em grande parte responsável pela sua versatilidade que dirigida pelo sua musicalidade, dom e talento, sempre muito bem orientados e trabalhados com longas horas de estudo, empolgava o público, fosse interpretando uma obra de Bach, Haydn, Albeniz, uma bossa-nova ou até mesmo um samba carioca.

Desta forma, além de ter sido reconhecido e renomado internacionalmente pelas suas interpretações no clássico, Darcy também ficou reconhecido pelos seus arranjos e harmonizações de músicas populares, que para maiores efeitos percussivos e sonoros, promovia sons especiais como toques de clarins, rufar de tambores, ruídos de cuíca, tarol, surdos e tamborins, numa sucessão harmônica que encantava e conquistava sempre os maiores aplausos em todos os teatros, não importando o país em que se apresentasse.
As técnicas e efeitos que ele tinha adquirido na sua infância assistindo outros fazerem, nas mãos dele se aperfeiçoavam e ganhavam outra dimensão musical e sonora.
E tudo numa velocidade, precisão, clareza e domínios impressionantes, de fato.
A plateia por mais solene, ortodoxa, erudita e exigente que fosse, se rendia ao talento dele e pedia bis no clássico e no popular.

Com Ida Presti não foi diferente. Ela ficou impressionada com a sua musicalidade e ambivalência de domínio nos diferentes gêneros musicais. Sua capacidade de transitar de um gênero espanhol e flamenco para um barroco e depois para um moderno, preservando o estilo, a estrutura e os apontamentos de cada peça, eram “sui generis”, segundo as palavras dela.

Durante o período do curso, Ida Presti escolheu Darcy para acompanhá-la às suas apresentações junto a Lagoya com quem tocava em duo, no intuito de Darcy amadurecer o seu aprendizado com relação a todo o processo do que consiste um recital ou concerto.

Ao fim do curso, Ida Presti selecionou Darcy Villa Verde e outros poucos alunos da turma para a cerimônia de formatura, e dentre todos o escolheu para tocar o concerto de encerramento dos cursos da ‘Academie D’Été’ naquele ano. 
A academia acolheu a indicação feita por ela, e Darcy Villa Verde, atendendo a pedidos, encerrou aquele verão com um recital, finalizando-o com suas icônicas interpretações do Prelúdio para Alaúde da Suíte N.4 in E Major BWV 1006a e da Chaconne in D Minor BWV 1004. 

A propósito, Darcy Villa Verde, sem o saber, fechou com este recital o último ano do Cours Supérieur d’Interprétation Musicale – Guitare Classique, dado por Ida Presti e Alexandre Lagoya.

Darcy se sentia pronto para seguir sua carreira de concertista internacional, ainda mais porque acabara de ser chancelado por uma ‘lenda viva’ – Ida Presti – que além de se tornar sua amiga e de dividir o seu arsenal de conhecimento e técnicas, o que transformou seu som definitivamente, declarou ser ele um violonista extraordinário, pronto para seguir carreira de músico e concertista. Bastava manter o mesmo ritmo de estudo que já trazia.

Tal declaração deu grande suporte motivacional, psicológico e emocional a Darcy Villa Verde. E deu um suporte, a tal ponto, que Villa Verde, que já tinha vindo para a Europa com uma bolsa de estudos de dois anos na Escola Superior de Música em Lipezig na Alemanha, adiou a bolsa e preferiu permanecer em Paris assumindo uma agenda de apresentações, compromissos e estudos que lhe abriram as portas à oportunidades riquíssimas que o marcaram e o amadureceram muito rapidamente.
Tal decisão, também levou Darcy a prorrogar seu encontro com Julian Bream, transformando sua bolsa numa sequência de boas conversas e de mútuas audições.

Mas antes que essa página da história se escrevesse com todo o tamanho que tomou na vida e na trajetória profissional de Darcy Villa Verde, um outro momento de peso o aguardava. 


Os três professores de Darcy Villa Verde no violão clássico: Osvaldo Soares, Monina Távora e Ida Presti.

Como parte da premiação do concurso de Paris, havia uma bolsa para ‘master classes’ com André Segovia.

Levando em conta todas as ocorrências durante o VIII Concours International de Guitare Classique da ORTF – Office de Radiodiffusion-Télévision Fraçaise em Paris, daquele ano, a agenda de recitais a serem dados pelo ganhador do primeiro prêmio ficou sem concertista para cumpri-la, uma vez que não se oficializou um 1º lugar.
As cidades estipuladas para as apresentações na Europa queriam que o concertista Darcy Villa Verde cumprisse a agenda, mesmo não tendo sido oficializado como o 1º colocado. Após insistentes solicitações, Robert Vidal terminou entrando em contato com Darcy convidando-o a cumprir a agenda dos recitais.
Avaliando a questão, Villa Verde se recusou a fazê-lo.
Primeiro, porque algumas datas agendadas para esses recitais coincidiam com a período do curso de alta interpretação de Ida Presti e Lagoya, e este curso se tornou prioridade Nº 1 em sua vida naquele momento.
Depois, ele queria, não só amadurecer sua performance musical com Ida Presti, mas também retrabalhar seu repertório e aumentá-lo a fim de assumir uma carreira e diversas tournées com uma maior e melhor sonoridade musical, o que tratou de fazer o quanto antes. 
Outro impeditivo é que começaram a surgir várias apresentações relevantes a serem feitas, em função do resultado do concurso, para algumas personalidades muito importantes do meio artístico e político de Paris que ajudariam a aumentar a sua visibilidade e notoriedade dentro dos círculos sociais que lhe interessava ingressar, o que se deu, conforme planejado.
Por fim, porque sabia que Robert Vidal estava, mais uma vez, sendo pressionado a convidá-lo e entendeu que isso poderia desfavorecer boas relações.  
Dessa forma, recusou entendendo fazer um favor a ambos. Disse a verdade a ele, contou os motivos e pediu que compreendesse recomendando um outro concorrente.

Mais tranquilo, Vidal respondeu que reconhecia o tamanho e o impacto de sua musicalidade e talento, mas que Darcy compreendesse a posição dele em querer priorizar uma imagem do concurso distante de qualquer tipo de comprometimento, uma vez que, trabalhando para a ORTF, cumpria a ele o papel de cuidar da imagem deste concurso. Parabenizou-o por ter sido escolhido por Ida Presti para fazer o curso de alta interpretação e despediram-se.

Meses depois, Darcy Villa Verde, através de seus empresários, assumiu uma tournée nessas mesmas cidades que faziam parte das apresentações contempladas ao ganhador do 1º lugar do concurso.
Atendendo a expectativa daqueles que o tinham escolhido para se apresentar em nome do concurso, obteve, além dos teatros lotados, um enorme reconhecimento por parte do público que estava ansioso por ver o músico que se consagrou no concurso de uma forma tão inusitada. 

Abordamos a questão porque tendo em vista seu encontro com Segovia, as notícias voaram rápido e quando Darcy chegou para as aulas, tais circunstâncias já eram de conhecimento da maioria presente. 

“ Difícil aquilatar o que é poder se apresentar para quem foi a sua inspiração e referência na decisão de sua vida profissional. Foi uma expectativa e sensação muito boa, mas que durou menos tempo do que eu esperava.”

Darcy chegou e ficou aguardando a sua vez de tocar para Segovia.
Enquanto os outros profissionais se apresentavam e Darcy aguardava a sua vez de tocar, foi percebendo que o tratamento dispensado pelo mestre espanhol para com alguns alunos que iam se apresentando, além de não valorizar as partes boas, desmerecia o violonista como um todo. Constrangia-os de tal maneira que parte deles ficavam muito nervosos para tocar. Isso, evidentemente, não se dava quando as ‘master classes‘ eram televisionadas.

Tal comportamento, já de conhecimento de Darcy por histórias contadas, fez ele refletir duas coisas:

A primeira, é que apesar de situações como essas fazerem parte da condição humana, é preciso saber lidar com isso de forma amadurecida, mesmo que se desaprove tais circunstâncias.
A segunda coisa, é que o fato de outros gigantes da música, como inúmeros que Darcy já conhecera e viria a conhecer, não agirem assim, ficava evidente que situações como aquela são totalmente desnecessárias.

Talvez, pensou Darcy, fosse um dia atípico, algum problema pessoal. A questão é que houve uma espécie de desencanto com relação ao momento, e quando Darcy foi chamado para tocar, seu espírito já era outro.

 

Entrevista no BRASIL

 

 

Entrevistador: Nosso interesse aqui é preencher uma lacuna em sua trajetória profissional no que diz respeito, acreditamos, a uma pequena parte da sua formação musical. Segóvia, qual a sua importância e como foi este encontro?

Segovia é a razão de eu me tornar concertista de violão clássico. Então, nem preciso comentar o grau de importância que ele teve em minha carreira profissional.
Comecei copiando as interpretações dos discos dele, imagina!
Mas é importante ressaltar que minha trajetória foi muito rápida.
Desde o momento que o vi tocando em 58, que decidi seguir os seus passos como violonista clássico, que o tomei como modelo de interpretação, que me desenvolvi musicalmente, que me aperfeiçoei com Ida Presti e que me apresentei a ele, muita coisa tinha mudado. Inclusive minha forma de ver a música pelo ponto de vista interpretativo e de ambiência sonora.
Em 8 anos de violão clássico, que foi o tempo que levei desde as primeiras aulas com Oswaldo Soares até me apresentar a ele, eu já tinha amadurecido uma outra ideia instrumental. 

Construí o meu trabalho e uma visão própria de violão erudito em cima daquilo que desenvolvi a partir dele.
O mais importante é que tive professoras que me exigiram assumir uma identidade própria o quanto antes, e foi o que fiz. Monina Távora e Ida Presti me prepararam muito bem.

Mas o meu primeiro contato com ele, devo admitir, foi diferente do que imaginei que seria.

Quando ele me chamou em meio a toda a classe de alunos, vi que o clima estava um tanto tenso. Tinha reparado que os alunos não se sentiam nada à vontade, diante dele. Ele era um tanto rude. Eu, com meu temperamento que não lida bem com destrato, me senti um pouco incomodado.

Então me preparei, peguei o violão e me aprontei. Olhei fixamente para ele e aguardei. Muita coisa me passava pela cabeça na hora. Afinal, estava sentado diante do Segovia.

Ele me olhou e disse:

– Darcy, né? Você é o violonista brasileiro que ganhou a menção de ‘Hors concours’ em Paris este ano, fez excluírem a primeira colocação e impressionou a todos com a performance da Chaconne, não? Sim, Sr. Darcy, as notícias voam rápido aqui no velho continente, e sorriu.

Entrevistador: E você, disse o que para ele?

Honestamente, com um comentário desses, não havia o que dizer. Difícil definir o que ele queria passar com esse tipo de introdução. A situação em si, em Paris, foi um grande acontecimento, mas, convenhamos, foi fora do protocolo. E isso dá margem a ser visto positivamente, como ocorreu por parte do público, do júri, da mídia e da própria ORTF que, a propósito, logo depois abriu um contrato comigo, a pedido do presidente, e, negativamente, como ocorreu por parte do produtor do concurso, e, posteriormente, vim a saber, até de alguns violonistas no Brasil.
Então, diante disso, não respondi nada. Continuei olhando pra ele.

Ele pegou o violão dele, deu dois acordes, um arpejo, se apoiou nele e perguntou:

– Vai tocar o que pra nós, senhor Darcy?
– Respondi: 
Giga de Ponce/Weiss.

Ele parou de sorrir, ficou olhando pra mim enquanto os alunos ao redor se mantinham em silêncio e disse que eu podia começar quando quisesse:

Quando acabei de tocar, aguardei que ele comentasse alguma coisa.

Ele sorriu, ficou me olhando fixamente e disse que dali pra frente eu só precisava seguir o meu próprio caminho.”

Entrevistador: E o que você achou do comentário?

“Achei bom. Tirava as interpretações dos discos dele que ouvia em uma vitrola portátil que meu pai mandou trazer da Suécia e me deu de presente. Eu ouvi as peças tantas vezes que precisei comprar LPs novos. Tecnicamente eu estava com a música debaixo dos dedos, e mesmo já imprimindo o meu temperamento e dinâmica na interpretação, eu mantinha as mesmas inflexões e marcações que ele recomendava, porque de fato, achava devido, naquela época.

Monina Távora me orientara muito bem nesse sentido, e eu não via, no momento, mais o que acrescentar a uma obra desse porte, além do que já tinha acrescentado, principalmente depois de Ida Presti.

Anos mais tarde alterei a minha visão interpretativa de algumas peças. Na Chaconne, por exemplo, criei uma tradução de solenidade mais de acordo com o propósito da peça. Isso, em meados dos anos 70.

Entrevistador: E ele – Segovia – teceu algum comentário a você?

“Perguntou se eu permaneceria no curso, e eu respondi que gostaria, se pudesse.

Comentou que eu era muito musical e que meu domínio técnico e sonoro facilitava expressar toda a minha musicalidade. 
Comentou também sobre minha técnica que não perdia ‘brilho’, ‘clareza’ e ‘tempo’ com a velocidade, e depois teceu alguns comentários sobre a minha sonoridade, elogiando meu som ‘aveludado’ e ‘cantado’; (Darcy sussurra ‘Ida Presti’) [risos] 
Disse que eu precisava adquirir um violão profissional.
Que um violonista como eu não podia tocar ‘naquilo’.
Espinafrou o meu violão, camarada!
Era meio ordinário mesmo. (Darcy murmura confessando)

Por fim, me chamou à atenção dizendo que eu deveria parar de tocar música popular pois tinha me visto tocando para alguns alunos da classe algumas peças populares americanas em estilo de Jazz e de bossa nova. Afirmou que isso poderia me comprometer como concertista; que se eu quisesse ser levado a sério devia parar com isso e arrematou dizendo, ao final, que me faria bem ser mais calmo.” 

O que eu posso fazer, sou agitado!”  [risos]

O Segovia além de muito reservado era solicitado todo o tempo. Então não nos falamos tanto. Mas comentou que tomara conhecimento do quanto Ida Presti tinha gostado de minha musicalidade e interpretações.

Eu notava que às vezes ele ficava me olhando, sem dizer nada, só observando. Isso, não só a mim, a outros também. Estranho.

Entrevistador: Temos informação de fonte confiável de que você o impressionou muito bem.

“Eu soube depois, através de uma violonista e professora amiga, comum a nós dois, – não sei se trata-se da mesma fonte – que ele tinha comentado com ela que nunca tinha visto nada igual, que eu era bem incomum e que ficou bem impressionado e tal.
Apesar de considerá-la idônea e de ter todo o meu respeito, como ele não falou isso diretamente comigo e nem vi esta declaração por escrito em lugar nenhum, não comento.”

Entrevistador: E com relação ao curso em si?

“Com exceções dessas que eram televisionadas e que faziam parte de um programa de masters classes da época, uma coisa mais para divulgação, tinham essas outras, da qual participei, menos formais e mais raras; eram mais extensas e mais completas.
Minha expectativa com relação a elas eram altas. 
Eram dirigidas a violonistas profissionais, o que não significava necessariamente que o profissional iria investir sua vida toda nisso. 
Assim que iniciamos, perguntou quem dali pretendia viver exclusivamente do violão. Só eu e mais uns três, de uma turma inteira, levantamos a mão, e isso, visivelmente, não o agradou. Perguntou, então, por que os outros estavam ali. 
Acredito que isso contribuiu para ele ficar mais áspero no trato com os alunos.

Foi tudo um tanto diferente do que imaginei que seria.
Fui esperando um curso de refinamento, nos moldes do que tinha feito com a Ida Presti em Nice, e isso não aconteceu.
Não eram classes para potencializar e inovar sobre o material que cada um trazia. 
Eram classes para tocar dentro do que ele entendia como devido, e isso eu já fazia.

O curso em si tinha uma dinâmica mais passiva por parte dos alunos, de buscar correção, e mais verticalizada e formal por parte dele.
Totalmente diferente da experiência em Nice que era horizontal, moderna, estimulante, inclusiva, rica de ideias e de novos aprendizados.
Com ele, isso não ocorreu. 

Outra coisa que me chamou a atenção é que se a interpretação de alguém não tivesse alinhada com a forma que ele pretendia como certa, ele não aprovava.
Sendo assim, o foco dele na aula se mantinha muito na parte execucional da interpretação, sem dar espaço para outras concepções de se ver e interpretar a música.

O curso em si é ele, é preciso entender isso. E de tanto ouvi-lo e conhecê-lo musicalmente, sabia o que ele pensava e esperava.

A questão é que cada um é cada um, e eu tinha o meu jeito e temperamento, minha forma de tocar.
Dava uma direção de dinâmica narrativa mais pessoal no violão; tocava o que sentia; já vinha fazendo isso no erudito e tinha a chancela de mestres respeitáveis de que isso era devido e esperado de um verdadeiro músico e intérprete.
Claro que eu trazia um sentido interpretativo que conjugava com a forma dele ver a peça, me inspirei nele! O que ele ia fazer, criticar ele mesmo? [risos]

Mesmo assim, foi importante ser visto, ouvido e avaliado por quem foi minha inspiração e o motivador de eu me tornar concertista de violão.

Suas gravações e interpretações dos anos 40 foram minha fonte de inspiração e referência. Meu ponto de partida.

De fato, achava ele incrível pelo que fazia e representava, enobrecendo e divulgando o violão no mundo.”

Entrevistador: Uma última pergunta: Chaconne, [risos] tocou para ele?

“Ele me pediu para que eu tocasse, e pelo sorriso gostou. [risos]

Apesar de ser um evento que não deixou muitos registros na mídia, o Jubileu de 85 anos de Picasso, intitulado ‘Hommage a Pablo Picasso’, foi o ápice de um grande marco no mundo da arte e da cultura, e, por consequência, na carreira de Darcy Villa Verde.

Dentre os inúmeros acontecimentos de relevo que ocorreram na cidade de Paris nas últimas décadas, até então, a comemoração dos 85 anos de Pablo Picasso em 1966, foi um evento de proporção sem igual.

Pela primeira vez, uma mostra ocupou simultâneamente o ‘Grand Palais’, o ‘Petit Palais’ – Musée de Beaux-Arts de la Ville des Paris’ e a ‘Bibliothèque Nationale de France’, reunindo quase 1000 obras de uma única vez. A última mostra que tinha intentado algo semelhante, tinha sido a Tate Gallery de Londres, poucos anos antes, com 289 pinturas.

‘Hommage a Pablo Picasso’ foi a maior exposição jamais feita do gênio espanhol, reunindo 60 anos de seu trabalho.

A exposição contava com as mais importantes obras trazidas de todo o mundo. Do New York Museum of Modern Art, como também da União Soviética – URSS. Oportunidade rara de se poder ver reunidas todas as fases de sua produção.
Esta mostra cultural somou mais de 700 obras do próprio acervo do artista, entre pinturas, desenhos, cerâmicas, com mais de 200 esculturas e inúmeros outros trabalhos inéditos e, por esta razão, desconhecidos para a maioria dos presentes.

Não se tratava de mais uma exibição de seu trabalho, mas sim de um legado de obras, as mais representativas de sua trajetória artística; selecionadas e reunidas pelo que entregavam em termos de inovação e quebra de paradigmas, representando naquele momento um marco, uma reflexão diante da necessidade que o país – França – ressentia de algo ‘novo’, de reinício social e cultural.

Mesmo com a política da contracultura chegando e esboçando seus primeiros passos, levando os jovens a assumirem um perfil político e social mais engajado, a França, e Paris principalmente, viviam um grande momento de prosperidade e estabilidade nos anos 60, no qual a música popular, o cinema e a televisão buscavam nas novas gerações sua maior audiência e seu principal mercado de consumo.

Já em 1966, programas de rádio e televisão, revistas, lojas, produtos e indústrias, inteiramente voltadas para as novas gerações e seu poder de consumo econômico e cultural, tomavam conta da mídia em contraposição a toda uma herança de uma época de pós-guerra, com uma aparente estagnação de valores, estilos e normas que não se afinavam com as aspirações as quais os jovens ambicionavam para o futuro.
Todo um novo ecossistema cultural se desenvolvia mais rapidamente do que no passado, e a distância que separava a geração mais jovem, – mais numerosa, próspera, autoconfiante, exigente e culturalmente autônoma – da geração anterior, era muito evidente e aumentava cada vez mais.

Dentro de toda essa nova realidade e espírito, a iniciativa tomada pelo Ministro da Cultura da França, André Malraux, em fazer deste evento um marco para a cidade que a reafirmasse como o farol da cultura e da arte no mundo.
Um evento que em sua inauguração reuniu mais de 1 milhão de pessoas, e que atraiu os maiores nomes de representantes da arte e da cultura de todo o mundo.

Para a época, este número de pessoas era algo sem precedentes. Tratava-se, praticamente, do equivalente à metade da população de Paris presente num único dia. Os hotéis da cidade de Paris estavam todos lotados. 

Todo este grande acontecimento que perdurou por quase 4 meses na cidade de Paris, teve seu ápice em uma noite de gala com um concerto no palco do ‘Palais Des Sports’ em 1 de dezembro de 1966, reunindo toda a alta sociedade para uma apresentação que atraiu os maiores expoentes da arte no mundo.
Personalidades do mundo do cinema, da música, da dança, da pintura, da literatura, da televisão, da arquitetura, da economia e da política viajaram à ‘Cidade Luz’ para este grande acontecimento.
A ideia era reunir em uma noite os maiores expoentes da arte moderna e contemporânea, e apresentá-los em um só espetáculo.

Representando a arte da dança foi trazida da URSS aquela que era considerada a mais importante e imponente bailarina do corpo do Bolshoi, a renomada Maya Plisetskaya, que interpretou a Morte do Cisne como ‘bis’, confirmando-se como o grande destaque da noite. Também se apresentou, o bailarino russo Nikolai Fadeychev e a representante do corpo de balé da França, a bailarina Claire Motte.

Representando a arte da música, o Ministro da Cultura e sua equipe contemplaram a noite com a apresentação de grande nomes da música moderna internacional com destaque, segundo o Le Monde, para a execução da obra Palais Royal, de Georges Auric, sob regência do eminente maestro francês, George Sébastian com a Orchestre Concerts Colonne, e o violonista brasileiro Darcy Villa Verde para a execução e interpretação de peças clássicas e flamencas, que segundo uma nota do Le Parisien Libéré, o fez com uma alma que não podia lhe pertencer, por não ser espanhol.

Apesar da crítica da época ter considerado este evento, como um todo, um tanto ‘excessivo’ pelas proporções que tomou, a ponto do grande homenageado, do topo dos seus 85 anos, ter escolhido se preservar em função da quantidade de gente presente e do impacto que a comemoração assumiu como espetáculo, Darcy Villa Verde o considerou de suma importância por reafirmá-lo como músico reconhecido internacionalmente, e por consagrá-lo por definitivo como uma das maiores expressões do violão clássico e moderno na Europa, em seu tempo.
Não era mais o restrito universo de apreciadores da música violonística que o consagrava, mas a aclamação de todo um universo da arte e da cultura, através de artistas, de críticos e de personalidades, ali presentes, numa plateia lotada com de mais de 5.000 pessoas vindas de todo o mundo.                             

Importante pontuar que Darcy, pelo o que idealizava e pelo temperamento que tinha, passou a protagonizar, em função dos acontecimentos em sua vida, um caminho próprio, mais autoral que destoava do academicismo um tanto protocolar e característico de algumas produtoras, associações, sociedades e instituições relacionadas ao violão clássico.
Isso, por um lado, lhe dava mais espaço para atuar como o músico e artista que era, maior liberdade em termos de agenda, maior autonomia na definição de suas remunerações, mas por outro lado limitava seu acesso em certos grupos do meio artístico violonístico, por não aceitar se submeter a certas condições, as quais tinha reserva e fazia severas críticas. 

Estavam presentes na platéia os seus professores Ida Presti e Lagoya, juntos a outros músicos, violonistas, empresários, produtores e personalidades como Geraldine Chaplin e a excepcional Lucero Tena que, por sua vez, também participou da apresentação da noite, impressionando Villa Verde com o seu espírito rítmico Mexicano-Espanhol. Fizeram-se amigos.

 
 

Sobre Darcy Villa Verde e Julian Bream, não há muito em termos de registros, apenas conversas entre ambos, recolhidas de cartas a ele endereçadas, rememorando tempos de encontros e passagens regadas com intensas doses de irreverência, excessiva informalidade e muito malte escocês.

Darcy decidiu não fazer a master class que estava programada para ele. 

Mas vieram a se encontrar posteriormente, por meio de um amigo em comum, o Sr. Bobri, que promoveu um encontro inicial entre os dois. 

Foram poucos os encontros e as conversas que sempre rodearam mais sobre a postura de cada um diante da própria vida e sofrimentos enfrentados para chegarem até a posição em que cada um se encontrava, do que a respeito de música e guitarra, propriamente.

Darcy Villa Verde não gostava de formalismos e quando vinha se encontrar com alguma personalidade que se interessava musicalmente, e com a qual teria alguns momentos de convívio, tendia a quebrar protocolos e relaxar o ambiente falando de tudo, menos de música.

Sagaz pela capacidade de observar, avaliar e apurar as pessoas, puxava assuntos que eram o foco do interesse pessoal delas, e entre risadas e bons momentos, viajavam mentalmente pelas histórias da vida que sempre escondiam mais do que queremos mostrar.
Assim era com ele. Em questão de minutos seu jeito irreverente e carismático destravava as pessoas e faziam-nas confessar o inconfessável.
Rapidamente se inteirava dos pontos em comum que dividiriam e daqueles que jamais compartilhariam.

Somente quando, meio a toda a descontração, lhe era pedido para ver um pouco de seu trabalho, é que pegava o violão e envolvido pela emoção da conversa e do ambiente, mergulhava musicalmente em um mundo todo próprio que encantava e surpreendia, mesmo a um gigante como Julian Bream.

Pelo profundo respeito e admiração que Darcy Villa Verde sempre nutriu pelo trabalho de Julian Bream, resolvemos incluir apenas algumas dessas conversas rápidas entre ambos, ocorrida na década de 70, que sinaliza a grande empatia existente entre os dois.

Dividindo opiniões de como alguns críticos viam suas contribuições, Julian Bream ciente da história de Darcy Villa Verde e de algumas críticas dirigidas a ele por ser um músico clássico que se permitia tocar o popular, disse a Darcy que eles dois tinham muito em comum, pois ele também era alvo de críticas duras por conta de algumas de suas decisões.

Chegou a ler que como violonista era um bom alaudista. E isso dito por alguém que ambos respeitavam. Riram muito. 
Disse que por tocar alaúde e violão, e por ter ideia muito próprias sobre ambos, parte da crítica não reagiu bem. Sabe o que fiz? disse ele: “Não dei a mínima.”  
Um homem precisa seguir o caminho que acredita.

Disse a Darcy que ele realmente impressionava quanto a sua musicalidade e a forma de tocar, principalmente Bach, as músicas espanholas e Villa-Lobos. Aliás, disse, que se tratava de um caso raro, um músico ser capaz de interpretar tão bem dois gêneros de música, de estilos e universos tão distintos um do outro. Recomendou que Darcy nunca parasse de buscar realizar os seus ideais. E que o mundo da música, como qualquer universo da arte, sempre teria espaço para quem é muito bom, diferenciado e determinado; e concluiu dizendo para seguir em frente oferecendo sua música ao mundo porque ela era muito bonita.

Sempre atento quanto a qualidade sonora de um instrumento, o senhor Bream ao conhecer o violão de Darcy, comentou: 

“Como uma guitarra tão desconhecida pode fazer um som tão familiar?”

A conversa dos dois sempre foi muito espirituosa e divertida, regadas a gargalhadas, pode-se dizer, mas uma pergunta que Julian Bream fez a Darcy e que o levou a considerações muito sérias sobre si mesmo, foi como ele via a própria contribuição no mundo da guitarra em seu país, atuando na divulgação e formação de novos violonistas, pois essa era uma condição importante para músicos com a responsabilidade e o tamanho que ele tinha.

Darcy comenta que até ali, tudo na vida dele tinha sido tão rápido e emoldurado com tanta dor, luta e tragédia que, além do trabalho que já havia iniciados de divulgação da música clássica no violão em seu país, ainda não tinha refletido mais profundamente sobre o assunto. E agradeceu a pergunta.

Foi uma pergunta muito delicada e importante, pois para respondê-la precisava começar a olhar a própria vida a longo prazo e a buscar uma adequação emocional a este propósito, o que lhe exigiria um reajustamento à própria realidade de ser.
Ter começado profissionalmente bem mais tarde, com um curto tempo de realização, forçosamente o obrigaria a ter de começar a pensar seu futuro o quanto antes.

Uma semana após Darcy Villa Verde se apresentar no Carnegie Hall, em Nova York, Darcy foi indicado para substituir Julian Bream em um concerto no Alice Tully Hall, quando um imprevisto de saúde o impediu de poder cumprir a agenda.

Viram-se muito poucas vezes, quando as agendas coincidiam, mas sempre encontros informais, rápidos, e segundo relatos, memoráveis, uma vez que ambos tinham muita opinião, personalidade forte, empatia mútua e nenhum tipo de receio ou pudor em falar abertamente o que pensavam sobre violão, críticas musicais ou o que quer que fosse.

Não sou de endeusar ninguém, nunca fui, até porque quando conheço alguém, meu jeito despojado de ser me leva sempre a conhecer primeiro a pessoa antes daquilo que ele representa profissionalmente como músico e artista. E no fundo, são todos seres humanos cheios de humanidade, se é que me entendem.
Mas penso ser muito importante dizer que músicos como Segovia, Ida Presti e Julian Bream, jamais podem ser esquecidos ou então creditados apenas como artífices do passado da guitarra.
A exemplo das academias de ciência em que grandes nomes do passado figuram sempre como a base do aprendizado de uma nova era, estes violonistas precisam e devem ser estudados profundamente. Pois foram eles, cada um a seu turno, que iniciaram e deram a continuidade na tarefa de elevar o violão ao estado de seriedade e consideração; que com as suas técnicas e interpretações brilharam em estado de igualdade com outros instrumentistas concertistas, e que nos estimularam a nos tornar o que nos tornamos e a chegar onde chegamos.
Devem, todos eles, ser estudados técnica e musicalmente em qualquer escola que busque se considerar séria, isso no intuito de evitar uma geração de violonistas que obstinados por uma melhor qualidade de som venham negligenciar a construção de uma musicalidade, de uma técnica apropriada e de interpretações que deem alma e história à própria música. 

Todos eles tiveram e sempre terão, para o violão, uma razão presente de ser. E diante do que tenho assistido mais recentemente, penso que deveriam pensar muito seriamente no que acabo de dizer.

DVV

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