DARCY VILLA VERDE
Darcy Villa Verde é um desses casos que podemos denominar como lendário.
A Society Of The Classic Guitar, por meio de seu conselho e de seu presidente, Vladimir Bobri chegou a declará-lo, em 1971, como um dos violonistas de maior expressividade, além de no palco ser possuidor de um total domínio do instrumento e do público.
O The New York Times o apresentou como um guitarrista clássico o qual deve-se reverenciar. “Seu alto nível de sensibilidade musical somada a uma notável destreza técnica e absoluto controle do instrumento que demonstra em público, são realmente impressionantes.”
A Rolling Stone elegeu-o como uma das maiores promessas da música no violão clássico moderno, e como um dos artistas eruditos de maior carisma com o público de seu tempo.
Quem teve a oportunidade de ouvi-lo pessoalmente, relata ter guardado uma “experiência musical memorável“.
Além de um “talento raro, somado a grandes quantidades de horas de estudo que conferem a ele um domínio único do instrumento“; além de “interpretações que vêm acompanhadas de uma intensidade e expressividade quase material”; de “um extraordinário domínio técnico e estilístico, e de uma dinâmica e velocidade que se somam harmoniosamente“; de “um som limpo, forte e suave, e de sua imensa e rica variação de timbres em arranjos próprios que sempre impressionam“, Darcy Villa Verde era dotado de uma musicalidade tão singular que “fazem dele uma das maiores celebridades da música no violão por onde se apresentou”.
Assim se expressavam a crítica especializada, os músicos profissionais, a mídia e o público com relação a Darcy Villa Verde.
Isto, em uma época em que títulos como ‘virtuose’, ‘gênio’ e ‘monstro’, entre outros, era um privilégio que só chegavam às páginas dos jornais e às TVs, quando concedidos por músicos profissionais e críticos de renome que, pelo profundo conhecimento que tinham, compreendiam a gama e o espectro de riqueza e detalhes do que assistiam.
Um exemplo, foram as palavras de Duke Ellington registradas no The New York Times, após ouvi-lo no Carnegie Hall:
“Assisti a uma coisa fantástica acontecer no Carnegie Hall. Um gênio passou por lá tocando um violão divino. Foi o brasileiro Darcy Villa Verde.”
Duke Ellington
Ressalta-se a questão, uma vez que o violão é um instrumento extremamente difícil de ser dominado na parte técnica, e mais ainda no campo musical.
Com relação a sua técnica e as suas interpretações, sob o ponto de vista de quem conhece bem o instrumento, disse o violonista Sérgio Abreu com relação ao amigo:
“Com Darcy, nada na sua forma de tocar era casual. Cada coisa que ele colocava na interpretação tinha um propósito, uma razão de ser. Tudo era cuidadosamente pensado e estudado em função do som e da interpretação das peças em que trabalhava; nada ali tava fora do lugar.”
Sergio Abreu
Desde muito jovem, cada detalhe na música tinha uma razão de ser para Villa Verde.
Dessa forma, ele precisava entender o que iria fazer antes mesmo de tocar, para quando fosse tocar saber exatamente o que fazer.
Possuidor de um dom raro, inicialmente tirava tudo de ouvido.
Saber tocar não era a questão para ele, mas entender a música para poder amadurecê-la com a sua musicalidade e adquirir a técnica apropriada para interpretá-la sonora e musicalmente, sim; esta era a questão.
Para isso, estudava exaustiva e intensamente cada trecho, principalmente os mais difíceis. Resolvia a parte da dinâmica, ao mesmo tempo em que se dedicava a compreender a intenção e o sentido de cada mínimo detalhe musical, de cada fraseado. Praticava por meses, às vezes por anos, muitas horas por dia, cada intenção interpretativa, para só então poder incluí-la em seu repertório.
Isso fazia muita diferença, pois ao ouvir Darcy Villa Verde percebe-se que as peças são conduzidas ‘musicalmente’ com muita fluidez e aparente facilidade do início ao fim, não importando a complexidade que tenha, tamanho o controle da execução.
Nota-se o cuidado com que cada acorde ou determinada nota é colocada; percebe-se o desenho premeditado de cada intenção na dinâmica, a intensidade e a intencionalidade do uso do tempo trabalhando a favor de cada inflexão, respeitando cada intenção musical, tudo regido e sustentado por uma musicalidade e expressividade toda própria, mesmo nas peças que exigem grande velocidade.
Assim eram suas interpretações.
Sua capacidade de saber explorar todo o espectro de sonoridade do violão e transformá-lo numa orquestra ou até numa escola de samba ou banda marcial, se o desejasse, o lançava a níveis de consideração e admiração por parte dos ouvintes, sem precedentes.
“O que é incrível em suas apresentações não é só o domínio técnico orquestral e o brilhantismo de sua sonoridade no violão, mas a sua musicalidade que com interpretações fulgurantes mudam totalmente o clima musical dentro de um teatro, transportando você para ambientes muito próprios e distintos um do outro.
Numa hora você está envolvido por uma atmosfera da ‘Kirchemmusik’, noutra você é lançado ao espírito pujante andaluz, e logo depois, pelo clima alegre e rítmico de um samba carioca ou nostálgico de um jazz ou blues americano.”– Jacques Klein
Abaixo, algumas matérias e reportagens que demonstram como a crítica e a mídia no Brasil via Darcy Villa Verde como músico, instrumentista e intérprete, mediante o efeito que causava no público por meio de seus recitais e concertos.
Darcy Villa Verde, o músico que apresentou o violão clássico ao Brasil.
MÚSICA E CULTURA COM O PIONEIRISMO DE UM VERDADEIRO PRECURSOR.
Outro fato que caracterizou Darcy Villa Verde como músico e artista de grande importância em nossa história e cultura musical, foi o seu pioneirismo em divulgar o violão clássico, desmistificando-o como instrumento apenas de música popular, e sua iniciativa de popularização do repertório clássico em todo Brasil, a partir da década de 60.
Darcy Villa Verde assumiu esse projeto se apresentando para diferentes perfis de público em uma época na qual raríssimos violonistas faziam apresentações em formato de recital ou concerto para grandes plateias e, menos ainda, pelo interior do país.
Este foi um trabalho que se estendeu por todo o território nacional em salas e teatros de milhares de cidades e que exigiu dele e de sua equipe muito planejamento, estratégia, determinação, resistência, resiliência, humildade e, acima de tudo, paciência.
Tratava-se do Brasil, um território vastíssimo que além de culturalmente muito árido e com grande parte da população na pobreza, oferecia pouquíssima infraestrutura para este perfil de trabalho.
Em diversas cidades em que Darcy Villa Verde se apresentou, nunca havia tido um recital ou concerto de violão, ainda mais com as músicas que escolheu como repertório.
Eram peças selecionadas pela grandiosidade e pela capacidade que tinham de envolver e cativar o público; peças de grande erudição e impacto, possuidoras de extrema dificuldade técnica e que exigiam, por conta disso, alta capacidade interpretativa.
Quem conseguisse ‘tocá-las’ muito bem era considerado um ‘gigante’, e se as
interpretasse magistralmente era considerado uma lenda.
Levando em conta que saber tocar não é interpretar, e que interpretar é saber fazer a música transcender e conectá-la à alma do público, seu repertório era formado de peças que, pode-se dizer, permanecem até hoje encantando o público e assombrando muitos músicos e concertistas.
Em contrapartida, Villa Verde selecionava músicas muito simples e as apresentava à público exigente, interpretando-as ao sabor da emoção, provando que musicalidade e maestria estão na alma e nas mãos de quem sabe fazer música, e não só no repertório de quem se atreve.
Darcy acreditava que o público em geral não era incapaz de desenvolver gosto pela música clássica, mas sim que o meio utilizado para isso era inadequado.
Para ele, toda essa elitização com relação ao clássico dificultava o acesso das massas populares a esse gênero de música e, por consequência, ao violão como instrumento de concerto.
Essa foi uma das razões que o levou a montar recitais com repertório de música clássica na primeira parte e de populares na segunda. Ato premeditado que descontentou uma pequena parcela de críticos mais puristas por não aceitarem essa quebra de protocolo. O público, contudo, adorava.
Darcy Villa Verde, sob a opinião de críticos e músicos, era um virtuoso.
Sua habilidade e domínio na execução e interpretação de músicas clássicas, modernas e populares, algo raro no nível alcançado por ele, aliado à ideia de escrever o seu nome na história da música do violão erudito, concedeu-lhe a oportunidade de montar repertórios que uniam diferentes gêneros com o propósito de criar seu próprio público e lotar as salas e os teatros por onde passava.
Entendendo a dificuldade que teria em ser reconhecido como músico clássico num país que ainda se ressentia de sua cultura musical erudita, ainda mais através do violão e iniciando sua carreira de concertista já adulto, viu nessa estratégia – unir diferentes gêneros musicais – a melhor forma de alcançar o objetivo a que se propunha como músico concertista.
Outra proposta inovadora para a época e que contribuiu para a desmistificação e divulgação da música erudita por todos os estados em que tocou foi a ideia de acrescentar nos seus recitais comentários para o público a respeito das peças de seu repertório.
Ilustrava algumas delas com informações e curiosidades importantes levando o público a se envolver com a apresentação e a ouvi-lo de forma mais consciente e participativa.
Divulgando a música violonística clássica, Darcy Villa Verde construía ao mesmo tempo cultura e público, uma vez que decidira viver exclusivamente dos concertos e recitais que dava.
E para transformar cada uma de suas apresentações em um evento de grande porte e engajamento, montou inicialmente um repertório formado das peças mais impactantes e desafiadoras em termos de execução e interpretação.
Eram músicas que ofereciam um grande apelo ao público pela sua estrutura melódica, harmônica e de arranjo.
No clássico, a maior parte delas do repertório de Andrés Segovia, mas somente aquelas das quais gostasse muito e que oferecessem, em sua opinião, maior capacidade de atrair público e comover a platéia.
No popular, uma seleção de peças de grande apelo emocional e regional, escolhidas a dedo pelo potencial que ofereciam junto ao público e que sob seus próprios arranjos, harmonizações e efeitos que elaborava, contagiavam a todos pelas interpretações que dava.
Desta forma, cada recital ou concerto seu, adquiria uma dimensão de alcance e envolvimento musical e cultural que agradava muito a audiência.
Era uma experiência nova e inusitada, as pessoas iam assistir a um recital que se dissolvia em um show e saíam impressionadas pelo impacto de uma mensagem musical totalmente nova para a época.
Como pode-se ver, Darcy Villa Verde pensava diferente de sua época.
Entendia que a erudição contemplava todo gênero de música; que podia, inclusive, se estender à música popular elevando-a à condição de um ‘clássico’. Apenas com a diferença de ser um clássico popular.
Bastava para isso saber escolher as peças e apresentá-las com o mesmo nível de qualidade interpretativa, técnica e de sonoridade com que se apresenta uma música erudita.
É bem verdade que isso só se deu pela sua capacidade de conseguir tocar estilos e gêneros musicais diferentes com o mesmo brilhantismo, mas teve a coragem de fazê-lo e o fez sem comprometer no mundo a sua imagem de violonista concertista clássico.
Se por um lado, como já dito, esta iniciativa de Darcy Villa Verde feriu a sensibilidade de alguns críticos mais puristas e rigorosos, por outro demonstrou sua visão estratégica e capacidade de compreender e saber atuar culturalmente com o público brasileiro, além de, com isso, sensibilizar grandes nomes do mundo da música.
Isto contribuiu para que Villa Verde viesse a ser convidado à parcerias de iniciativas culturais, como a que se deu entre Darcy Villa Verde, o grande maestro Isaac Karabtchevsky e o renomado pianista Jacques Klein.
Através do Projeto Minerva, que visava a difusão da música clássica no Brasil por meio de programas nas rádios e de apresentações em público, Darcy Villa Verde foi convidado, junto aos dois, para divulgar a música clássica em centenas de cidades do território nacional.
Isaac Karabtchevsky viu em Darcy Villa Verde um grande músico que se diferenciava completamente do esteriótipo comum do concertista clássico.
Darcy era simpático publicamente, comunicativo, sempre sorridente, conversava com a plateia e ilustrava com histórias as peças que tocava, ou seja, quebrava protocolos que distanciava o público comum da arte erudita. E apesar de fazer parte desta elite cultural tocando em grandes e importantes salas e teatros do mundo, assim como para um público muito seleto de apreciadores, assumiu este projeto como algo pessoal, até porque já vinha sozinho fazendo algo equivalente.
Essa iniciativa de buscar se aproximar do povo e levar a sua música e o seu trabalho onde quer que fosse, o fez ser muito mais respeitado ainda, em seu tempo, pelos seus pares.
Disse Karabtchevsky que Darcy tinha os ingredientes necessários para este tipo de projeto: carisma, uma grande disponibilidade musical e, acima de tudo, vontade, coragem e ideias.
Primeiro, altamente reconhecido e respeitado internacionalmente por sua habilidade no instrumento e por sua musicalidade que o levou a ser aclamado pelas interpretações totalmente maduras e envolventes que dava no repertório clássico.
Era como se o clássico com ele falasse de ‘perto’ e na alma de todo o tipo de público, os mais intelectualizados e os menos, os mais poderosos e os mais simples.
Além disso, sabia tocar e interpretar, com transcrições e arranjos próprios, e totalmente diferenciados, músicas modernas, espanholas, flamencas, populares e folclóricas que incluía na segunda parte de seu programa e que sensibilizava e emocionava o público a ponto de exceder, alguns desses recitais, em bem mais de 30 minutos, só com peças extras que eram sempre pedidas como bis, sob repetidas e infindáveis palmas.
Segundo, se destacava do perfil esteriotipado, muito comum nos musicistas clássicos que se restringem a grandes salas e teatros com apresentações extremamente formais; músicos de aparência séria, fria, silenciosa e distante.
Apresentações com esse perfil mais austero e solene, Darcy Villa Verde só fazia quando a situação assim exigia, como no Carneguie Hall, no Alice Tully Hall, no Mariinskiy Theatre, no Saint Petersburg Philharmonia ou num Gaston Hall, por exemplo.
Terceiro, tinha o dom e a habilidade de se comunicar muito bem, o que o levava a alcançar e envolver, engajando todo o tipo de público pelo Brasil, com suas abordagens e informações pertinentes a cada uma das músicas de seu repertório.
Outro fator importante, é que apesar de sempre ter sido convidado e financiado pelas Secretarias da Cultura para esses projetos e empreendimentos, também assumia tournées sem o apoio delas, financiando os custos, recorrendo a ajuda da mídia e fazendo bilheteria própria, o que muitas vezes surpreendia positivamente em termos de resultado financeiro. Aliás, essa alternativa quase sempre o levava a se envolver ainda mais com a dinâmica do projeto.
Desta forma Darcy Villa Verde ingressou junto a Isaac Karabtchevsky e o pianista Jacques Klein no Projeto Minerva, e o abraçou de corpo e de alma.
“Atuar no Projeto Minerva foi muito importante.
Sinto-me lisonjeado por Isaac karabtchevsky e Jacques Klein terem me feito este convite.
Era um trabalho que eu já vinha fazendo no Brasil, sistematicamente, desde os anos 60, por conta própria, buscando lançar a música clássica no país e apresentar o violão como instrumento de concerto. E ao ser convidado para integrar essa frente com eles, pude estender esse alcance, nos lares de todos os brasileiros, através da TV e das rádios transmissoras que desempenharam um papel capital nessa divulgação.
Me sentia parte da cultura brasileira, levando cultura através da minha música e do violão erudito.
Isaac karabtchevsky, este é um nome para não se esquecer.
Jacques Klein também.
O que eles fizeram pela cultura, pela música, pelo Brasil e também pelo violão, não está escrito.
O resultado do trabalho de Darcy na divulgação do violão como instrumento de concerto foi tão bem sucedido, presente e profundo, que segundo o depoimento de Sérgio Assad, quando ele e o irmão começaram a fazer as suas ‘tournées’ pelo país, acusaram a diferença de um público já ‘aquecido’ pela cultura violonística de concertos e recitais que tinham sido dados por Darcy Villa Verde em grande parte do país por onde se apresentaram.
“Darcy era naquela época um grande desbravador. Num País que nunca valorizou o nosso tipo de arte era necessário para que as coisas andassem que os artistas criassem a sua própria infraestrutura.
Darcy ia aos jornais, buscava as televisões, enfim, criava toda a própria divulgação para que as suas aparições tivessem êxito de publico.
Eu vi isto acontecer algumas vezes naqueles idos tempos.
Nos anos 70, quando Darcy tocava na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, a divulgação que precedia cada concerto era intensa e feita com muita antecedência.
Fizemos aparições por todas as capitais nordestinas e pra nossa surpresa, onde chegávamos, o Darcy já havia estado e encantado a plateia local.”
Sérgio Assad
Das mais importantes e imponentes salas de concertos às comunidades mais carentes do sertão e de casas de pau a pique a céu aberto no Piauí, Darcy Villa Verde se apresentou com o mesmo nível de seriedade e comprometimento. Até para comunidades indígenas no sul do país, fez recital.
Tudo no intuito de divulgar o violão e a música clássica como uma propriedade cultural universal e não restrita a uma minoria, além de com isso registrar sua marca no coração e memória das mais diferentes e exigentes plateias de todo o Brasil.
Darcy se destacou também por ser um dos poucos que se sustentou exclusivamente dos concertos e recitais de violão.
Evidentemente, o fato de ter morado no exterior fazendo tournées pelos EUA, Europa, Ásia e América do Sul, contribuiu para formação de sua estabilidade econômica, assim como para a sedimentação de seu nome.
Importante salientar que para atingir essa estabilidade financeira em sua área de atuação, Darcy Villa Verde passou por muita luta e dificuldades que, não raro, fazem parte da vida de quem se arvora a conquistar espaço próprio, do jeito próprio, sem abrir concessões a produtores e gravadoras que viessem de alguma forma cercear a sua arte e o jeito próprio de ver as coisas.
Segundo ele, no exterior esta realização econômica se efetivou mais rapidamente.
Contudo, para executar esta divulgação da música clássica e do violão como instrumento de concerto no Brasil, Darcy precisou desenvolver uma infraestrutura de apresentações e de divulgação da própria arte e marca, que se destacou pela inovação, determinação e perseverança. Algo bastante inabitual para a época, da maneira como o fez.
Muito músico brasileiro, a partir dos anos 50 e 60, decidiu ir para o EUA e a Europa e permanecer por lá. Seu ‘swing’ e criatividade musical, sua harmonia diferenciada e ritmo todo próprio, eram muito respeitados e valorizados, o que não ocorria no Brasil. Um respeito que se refletia em dólares, premiações e mídia expontânea. Luiz Bonfá, Laurindo Almeida, Sergio Mendes, Vanja Orico, João Gilberto, Astrud Gilberto, são alguns desses.
Vez ou outra, estes músicos vinham para o Brasil matar a saudade, faziam algumas apresentações – nem sempre com o mesmo reconhecimento de público – e retornavam ao exterior.
Darcy Villa Verde que também morava fora, ambicionava se estabelecer no Rio de Janeiro. Dessa forma, decidiu por dividir a sua agenda assumindo esta iniciativa de divulgação cultural do repertório clássico do violão em todo Brasil, como uma ‘missão’ que cumpriu com tamanha determinação e obstinação que, segundo relato de seus empresários, pagou um preço alto diante do esforço titânico que essa tarefa lhe exigiu, por anos, em termos de dedicação.
A QUANTIDADE DE PÁGINAS DE JORNAIS E REVISTAS JÁ CATALOGADAS DE SEU ACERVO, SOMAM-SE AOS MILHARES. A MAIORIA DELAS, REPORTAGENS, MATÉRIAS E COLUNAS COM ARTIGOS VALORIZANDO O SEU TRABALHO DE DIVULGAÇÃO DA MÚSICA CLÁSSICA NO BRASIL, E DO VIOLÃO COMO INSTRUMENTO DE CONCERTO.
Abraçando diversos projetos culturais e ao mesmo tempo criando o seu público, Villa Verde uniu em seu repertório gêneros diferentes de músicas e estilos, e criou programas que iniciavam uma 1ª parte só com músicas clássicas, e uma 2ª parte que dissolvia o mesmo nível de erudição do clássico – qualidade técnica e musical – em um repertório de músicas populares brasileiras e internacionais, muito apreciado pelo público.
Um trabalho pioneiro que o levou, quando vinha do exterior, a desbravar todo o território nacional em ‘tournées’ com milhares de recitais e concertos, enquanto se deslocava de carro pelo interior do Brasil; de grandes metrópoles a pequenos vilarejos, até a pequenos povoados nos quais os acessos se davam somente por estradas de terra, barro ou mato.
Eram os anos 60 e 70, uma época na qual a cultura e a infraestrutura social e econômica do país ainda eram muito incipientes; pouquíssimo desenvolvidas e muito ressentidas de investimentos.
Abaixo, exemplos de alguns desses materiais sobre Darcy Villa Verde.
Alguns exemplos de matérias e artigos a respeito de Darcy Villa Verde e de seu trabalho de divulgação da música clássica e do violão como instrumento de concerto. Apresentações muito bem recebidas e avaliadas pela crítica, pelos músicos da época e, o mais importante, pelo seu público que, sempre fiel, o aguardava retornar ao Brasil para poder assisti-lo.
Não se tratava só de tocar a música, mas de expressá-la, e expressá-la de maneira que o público pudesse senti-la e se conectar profundamente.
Toda a sua versatilidade e polivalência técnica, segundo ele, eram desenvolvidas a serviço da interpretação, que tomada pelo sentimento e energia presente dele e do público, fazia de cada recital uma experiência singular.
Assim foi no ‘VIII Concours International de Guitare Classique’ da ORTF – Office de Radiodiffusion-Télévision Française, na cidade de Paris em 1966, no qual foi laureado com a menção ‘Hors Concours’ em uma apresentação com 2500 pessoas na Salle Pleyel, considerada pela mídia da época e por aqueles que presenciaram e o assistiram – transmissões de tv e rádio – como uma das performances mais impressionantes da história do concurso, até então; na URSS quando arrancou, ainda no início de sua tournée, mais de dez minutos seguidos de aplausos no final da primeira parte, ou quando ao término deste, no Bolshoi Zaal, em St Petersburg, foi convidado a retornar à URSS pelo 1º Secretário do partido para outra tournée; ou no Carnegie Hall, quando alguns dias após ouvi-lo tocar, Duke Ellington afirmou na mídia ter visto um gênio tocar um violão divino, consagrando-o como um dos melhores intérpretes no violão, por ele ouvido; ou, mesmo, no jubileu de oitenta e cinco anos de Pablo Picasso em Paris, um dos maiores eventos da arte na história da França, em que Picasso tomado de surpresa e grande emoção fez questão de presenteá-lo com um de seus desenhos.
Uma questão muito singular e curiosa é que o impacto que eventos como esses tiveram e causaram na mídia e na opinião pública internacional e nacional, não encontraram em Darcy motivos pessoais para viver alardeando-os, embora a mídia espontaneamente o fizesse, e o fizesse com grande intensidade e exposição, o que sempre contribuiu para que ele se apresentasse em qualquer circunstância com grandes plateias apesar de se manter sempre próximo e descontraído à frente do seu público.
Quando amigos íntimos tomavam conhecimentos desses feitos através da mídia ou de outros profissionais que presenciaram tais eventos e apresentações, ficavam admirados de Darcy Villa Verde nunca ter comentado ou ter feito disso assunto de conversa, o que o tornava mais querido ainda pela simplicidade e acessibilidade com que tratava a todos.
Outro fato que merece destaque é que nesta época áurea, suas apresentações lotavam os teatros e as salas de recitais a ponto de centenas de pessoas ficarem mantendo a expectativa de uma nova apresentação ou aguardando autorização do lado de fora dos teatros para poderem entrar nos concertos e recitais que deu.
Ficaram registrados, nos teatros e na memória de muitos que o acompanhavam nas apresentações que fazia, alguns desses casos, como o que ocorreu na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, depois de Darcy Villa Verde ter voltado dos Estados Unidos. Impossibilitado de ter o silêncio que exigia para se apresentar frente ao público que reclamava do lado de fora, autorizou a entrada de todos, lotando os corredores, as escadas e todo o palco. Ou em uma outra ocasião em que o concerto, última apresentação de sua temporada na cidade, se deu em um teatro para lotação de quinhentas pessoas e que juntou mais de mil do lado de fora. O público que se recusava a ir embora começou a causar tumulto. A polícia foi chamada para conter os ânimos daqueles que exaltados reclamavam pelo fato da mídia ter anunciado ingressos disponíveis até o dia do evento; o concerto atrasou quase uma hora e só depois de tudo acalmado é que Darcy Villa Verde pôde se apresentar. Tais ocorrências que estão nas matérias dos jornais aqui apresentados, merecem nossa atenção por se darem em uma época, como já dito, em que concerto de violão clássico não dava quase bilheteria.
Contudo, mesmo conhecido e admirado pelo público e por músicos e violonistas de seu tempo , a ausência de gravações e de divulgação de um acervo, contribuíram para levar seu nome, sua biografia e trajetória profissional ao esquecimento.
Apesar de na atualidade ser citado esporadicamente em algumas matérias e sites sobre violão e música, seu nome e trabalho vem se apagando com o tempo.
A carência de informações deu origem a muitas histórias e suposições que pouco incidem com a verdade, a respeito de Darcy Villa Verde, e que mais reforçam a ideia de uma figura lendária.
Muito carismático e simpático, autônomo e independente musicalmente, era possuidor de forte temperamento e opiniões diretas no trato pessoal de suas relações, assim como com relação ao que pretendeu com o seu trabalho, frente às políticas sociais, culturais e corporativas empregadas na indústria da música que considerava inflexíveis, desrespeitosas ou abusivas.
Tais características, somadas ao fato de que na época não havia internet e de que Villa Verde, como pessoa e músico, era extremamente reservado, impedia até os que eram muito próximos de saberem dos fatos por inteiro. Principalmente no que se refere à sua trajetória profissional e a detalhes de sua vida, seus pensamentos e de suas grandes realizações.
Um de seus filhos, ao qual Darcy Villa Verde permaneceu vinculado ao longo de toda a vida, o acompanhou de perto profissional e pessoalmente, testemunhando e registrando – Entrevistas de TV e rádio, matérias de jornais e revistas, depoimentos gravados e alguns documentos – pormenores de sua trajetória profissional; de como via a música, a arte, o violão e a própria musicalidade como meio de expressão e realização.
No intuito de trazer a público sua arte, resolvemos documentá-la e trazer junto sua história. Uma sem a outra não existiria e deixaria para trás muitos esclarecimentos importantes a respeito de Darcy Villa Verde e da identidade de seu trabalho.
Com relação a documentação, está sendo feito um levantamento criterioso e cuidadoso no Brasil e no exterior, assim como com relação às gravações de seus concertos e recitais. Contudo, até o momento, apesar do grande volume de material levantado, bem poucos se encontram em bom estado de conservação. Os que existem estão sendo recuperados porque, como já dito, Darcy Villa Verde nunca teve a preservação de seu próprio registro histórico como uma prioridade.
Intenso e muito dedicado no que podia oferecer em cada apresentação que fazia, viveu focado totalmente em preservar o seu melhor para cada um desses momentos que ficaram vivos na memória da cultura brasileira e no coração de quem teve o privilégio de assisti-lo.
Duplo compacto gravado em 1965, sob a insistência de Jacob do Bandolim para que ficassem registradas no ‘tempo’, algumas das músicas e interpretações que o emocionaram profundamente no dia em que assistiu Darcy Villa Verde pela primeira vez na sua casa, em um dos seus saraus. Trata-se da única gravação comercial brasileira de Darcy de que se tem notícia; músicas populares em arranjos próprios.
Os visitantes terão a oportunidade, aqui no site, de ouvir estas mesmas músicas – do disco – gravadas ao vivo na casa de Jacob do Bandolim com a presença de inúmeros músicos da época, em uma recepção conferida a Darcy. Apesar do som baixo e da qualidade comprometida das reproduções, notam-se interpretações consideradas por alguns como mais sensíveis e etéreas. Motivo que justificava a resistência de Darcy Villa Verde com relação a estúdios de gravação. A conexão ao vivo com o público o estimulava a se expressar emocionalmente de uma forma que não ocorria dentro de um estúdio de som, cercado de equipamentos, fones e fios.
……….
Com relação a deixar registros de seu trabalho, Darcy Villa Verde gravou no Brasil um disco compacto de música popular, sob muita insistência de seu amigo e admirador, Jacob do Bandolim, depois que ele o ouviu tocar em um de seus famosos saraus.
Posteriormente, já que fazia parte da ‘Ordem dos Compositores de Paris’, foi convidado a compor para uma série de programas da RTF – Radiodiffusion-Télévision Française escrito por Françoise Sagan, passando também a dirigir musicalmente alguns participantes como a cantora, apresentadora e empresária Régine (Regina Zylberberg) – que lançou na época o ‘Chez Régine’, boate que contava com a presença da ‘High Society’ francesa e internacional, frequentada por príncipes, playboys milionários e as mais importantes personalidades do mundo do cinema, da política e das artes.
Regina Zylberberg foi uma pessoa importante para Darcy Villa Verde, pois após se tornarem amigos, o aproximou de pessoas-chave, muito importantes e relevantes no mundo da música, aumentando sua rede de contatos, o que rapidamente, pela sua simpatia e carisma, o ajudou a abrir muitas portas no universo da música clássica e das artes.
Logo após, convencido pela produtora musical Renée Lebbas que pessoalmente passou a empresariá-lo pela Europa, fechou um contrato de 3 anos e foi convidado para a gravação de três discos – LPs – de obras barrocas, clássicas e modernas pela gravadora Pathé-Marconi.
Em meio as gravações, um súbito acometimento familiar trouxe-o de volta ao Brasil interrompendo o trabalho que lamentavelmente não se concluiu.
Seu filho estava morrendo.
Tempos depois recebeu insistentes propostas para gravar nos Estados Unidos. Mas por desacordo com as gravadoras e com os produtores quanto à forma de selecionar repertório, se recusou a fazê-lo.
Apesar de utilizar desde cedo um repertório que unia música clássica na primeira parte com popular na segunda, desde que saíra da França tinha o firme propósito de registrar um material exclusivamente clássico.
Contudo, suas interpretações e sonoridade no clássico que tanto impressionava, cativava também no popular quando se permitia tocar, conquistando o entusiasmo e a admiração de todos que o ouviam.
Os produtores da William Morris Agency, agência de talentos americana sediada em Hollywood que representava alguns dos grandes nomes do séc. XX no cinema, na televisão e na música, depois de convidados por Harry Belafonte a assistir Villa Verde se apresentar numa casa de jazz com músicas populares, e posteriormente no Carnegie Hall com um repertório todo clássico, viram nele um grande diferencial musical e comercial, uma vez que executava e interpretava ambos os gêneros musicais com grande maestria.
Movidos pelo interesse de comercializarem este diferencial, pressionaram-no para que a gravação também incluísse as músicas populares.
Darcy, diante da posição insistente da gravadora respondeu que nesses termos não gravaria. Tomado pela ideia de se perpetuar como violonista clássico, pelas orientações de seus professores e tutores, e pela crença, da época, de que o mundo erudito não devia conviver com o popular, manteve sua posição de gravar apenas músicas clássicas.
Em alguns recitais e apresentações privadas, até fazia concessões, mas numa gravação não caberia.
De nada adiantaram as rogativas dos empresários e produtores que ajudaram a intermediar todo o processo. Frustração para todos os envolvidos.
Conta Darcy, que chegaram até a apresentar um layout para a capa do disco, o que ajudou a agravar ainda mais a situação, por acentuar a ambivalência de gêneros musicais.
Página virada.
Em diversas entrevistas Darcy deixou claro de que tinha reservas com relação a gravação. Entendia todo o processo de gravação – tocar dentro de um estúdio sem a emoção do público presente -, com exigências de produtores e editores que terminam por comprometer a interpretação ou alterar a música, o que aliás se deu com sua primeira gravação quando adicionaram uma percussão totalmente desnecessária em dois de seus arranjos – como um processo um tanto artificial, não autêntico.
Além do mais, dizia que achava a maioria das gravações que ouvia muito ruins em termos de captação se comparadas com o som ao vivo.
Nas gravações ao vivo, então, era da opinião de que a coisa toda piorava e ele não queria deixar um registro de algo que não representasse o tamanho real de seu trabalho.
Conta seu filho que quando Darcy Villa Verde viu Andrés Segovia tocando diante dele e se lembrou da qualidade das gravações em que se espelhara, selou seu ponto de vista.
De fato, de lá para cá, a tecnologia de gravação e reprodução evoluiu muito.
Um outro fator que também pesava contra a decisão de gravar era que queria considerar tal possibilidade quando estivesse mais maduro. Sabia que estava pronto técnica e musicalmente mas queria que todo o processo já conquistado ganhasse ainda mais com o tempo e a serenidade pessoal.
Conta, Darcy Villa Verde, que até o início dos anos 70 precisou adequar sua forma de tocar, pois costumava ‘atacar’ as cordas com muita intensidade devido a sua preocupação em projetar o som por toda a extensão dos teatros em que tocava, pois era comum ser convidado a se apresentar em ambientes para mais de 1000 pessoas.
Sua preocupação com a qualidade e o alcance da própria sonoridade nas salas de concerto, fizeram-no perceber a importância de testar cada ambiente antes de seus recitais. No Carnegie Recital Hall, em Nova York, por exemplo, foi informado após o término da primeira parte de seu recital que poderia atenuar o volume, o que fez prontamente.
Esses testes passaram a ajudá-lo a encontrar o ponto de equilíbrio dessa projeção de volume em conformidade ao perfil acústico de cada um desses grandes teatros em que tocou.
Um processo que exigia tempo e que o levava a chegar com horas de antecedência para as suas apresentações.
Com o passar dos anos foi adquirindo experiência e aprendendo a dosar o volume em função da qualidade de som que não podia comprometer suas interpretações.
Ouvir as gravações de violão feitas ao vivo o levou a se preocupar muito com esta questão.
Então, porque diante de tantas considerações, aceitou fazê-lo na França?
Podemos dizer que naquele momento, toda sua conjuntura de vida e o fato de poder fazer a gravação da forma como desejava pesou muito para que Darcy cedesse.
E aqui vale, com relação ao fato, um depoimento do próprio, extraído de uma entrevista no início do ano de 82:
REPÓRTER: Senhor Villa Verde, tantas considerações e receio de gravar, por que então resolveu fazê-lo na França e justamente com poucos anos de carreira como concertista clássico, se sua preocupação era dar este passo mais tarde e amadurecido?
“A França exerceu em mim um fascínio que me impactou e marcou, profunda e emocionalmente, pelo resto da minha vida.
Difícil traduzir isso em palavras.
Primeiro me deslumbrei com a cidade; segundo tinha sido laureado em Paris em um concurso que era o mais importante do mundo na época, e de uma maneira completamente inusitada, o que me colocou em alta evidência na mídia; depois, o reconhecimento que adveio disso, e que somado ao meu espírito e temperamento, me lançou para dentro de um convívio com personalidades importantíssimas nas altas camadas sociais.
Conheci umas senhoras muito simpáticas de uma associação que me entrosaram com gente muito importante, com diretores de grandes teatros e conservatórios, salas de concerto, que vieram, posteriormente, me ajudar dando acesso às agendas mais disputadas entre os nomes internacionais para apresentações importantíssimos que me projetaram muito.De uma hora para a outra, recebia convites para recitais e apresentações que jamais poderia imaginar um dia fazer!
Eram apresentações privadas em casas de pessoas muito ricas, de magnatas, daquelas que só se vê em filmes.
Alguns desses encontros me pagaram cachês inimagináveis para apresentações de 7 ou 8 peças musicais.
Esses encontros sociais, aos quais passei a ser convidado a participar ou a me apresentar, contavam com a presença de duques, condes, princesas, chefes de estado, artistas e empresários importantíssimos e personalidades de todo o mundo.
Essas pessoas queriam me ver, me assistir, me aplaudiram de uma maneira que me surpreendia e me encantava.
Percebi que minha arte, meu carisma, minha forma de tocar exercia uma emoção, um impacto, uma espécie de poder nas pessoas.
Isso me deu uma autoconfiança e um controle emocional sobre meu instrumento no palco com relação ao clássico, que eu só conhecia tocando música popular; uma segurança, que me conscientizou de que eu não precisava provar mais nada a mim nem e a ninguém.Foram uma sequência de acontecimentos e eventos tão incríveis nessa época da minha vida que resolvi postergar uma série de concertos que estavam programados e que me foram cobrados pela organização do concurso de Paris, coisa que aliás deixou o produtor do evento ainda mais inconformado do que já estava pela forma como tudo se deu.
Resolvi apostar no resultado do impacto que causei, ao invés de sair fazendo uma tournée com uma série de apresentações formais, que é o convencional, e que era o esperado. Não sou convencional e precisava compensar o início mais tardio que tive no violão clássico.
As festas, os jantares e as reuniões que me eram oferecidas por celebridades, as pessoas que conheci, os relatos que se deram com relação ao meu trabalho em todas as mídias e que testemunhei pessoalmente, olho no olho, da boca de alguns dos maiores músicos e personalidades da época, personalidades que eu só vira no cinema e em revistas; os concertos que dali surgiram e as plateias que me aclamaram, me tomaram o espírito de uma tal maneira que quando uma de minhas empresárias me pressionou com a proposta de registrar meu trabalho, cedi.
Para alguém como eu, que tinha vindo da zona norte do Rio de Janeiro e que nunca tinha saído do Brasil, proveniente de uma família de grande cultura mas simples, descer no aeroporto de Orli e encantar Paris com minha arte, e com música clássica ainda por cima, foi um divisor de águas.Alguns amigos brasileiros que presenciaram os fatos ou tomaram conhecimento pelos jornais da época, não acreditaram.
Pessoas muitos importantes, da realeza até, se encantavam com meu trabalho e queriam estar próximos.
Isso mexeu comigo, eu era jovem, fiquei deslumbrado, essa é a verdade.E Quando Renée Lebbas, minha empresária, diante disso tudo, me acompanhando nesses recitais e apresentações, me colocou o contrato na frente, numa mesa do ‘La Coupole’, em que estavam várias personalidades do cinema e da música, todos comemorando, e disse ‘Darcy pode assinar porque aceitaram os nossos termos!’, imagina, assinei na hora!
Belmondo que estava sentado na minha frente, sorriu simpaticamente, levantou uma taça e brindou o contrato na frente de todos!Entendia que essa gravação, apesar de poder não registrar uma maturidade que só vim a adquirir com o passar dos anos, seria uma amostra histórica de tudo o que eu já era capaz de oferecer e interpretar musicalmente, e que nomes importantes da arte e da cultura chancelavam.
Meu nome virou assunto nos centros de conversas de um público muito seleto intelectualmente e isso me passou tranquilidade quanto a aceitar gravar naquele momento.Só que as circunstâncias que adviram mudaram tudo. Me ligaram do Brasil dizendo que meu filho estava com uma doença desconhecida e que tinha pouco dias de vida.”
REPORTER: Mas surgiram outras oportunidades maestro, por que, então, o senhor não o fez?
“Complicado responder isso, rapaz, e olha que sempre me fazem esta pergunta. [risos]
Foram tantas as questões e considerações na minha cabeça, naquela época, e tudo tão rápido que é difícil entender.
Primeiro, a qualidade ‘musical’ do que era registrado num estúdio em comparação ao que se ouvia ao vivo.
Em termos de som, dependendo da captação, podia ser superior, mais presente e pujante, mas em termos musicais ficava inferior.
Não dá para comparar! Eu sou músico e a música prevalece sempre pra mim.
Fora o fato que aquilo que eu coloco no palco, nas minhas interpretações e que me conecta com o público, não pode ser registrado dentro de um estúdio.Segundo, o meu desejo de me firmar como concertista clássico porque era o que realmente idealizava.
As propostas que surgiram nos EUA, a partir de então, eram para gravações das minhas interpretações do clássico mas também do popular, e esta era uma condição contratual.
Isso ia na contramão do que eu almejava profissionalmente.Todos os conselhos que recebi na época, de Monina Távora, Ida Presti e Segovia, por exemplo, era de evitar isso a todo o custo, que me concentrasse exclusivamente na música clássica.
Todo esse direcionamento que me influenciou, ainda foi reforçado pela aclamação do público e dos depoimentos de críticos e músicos importantes como a própria Ida Presti, Pablo Casals, Nicanor Zabaleta e muitos outros, com relação às minhas interpretações do repertório clássico.
Eram opiniões de nomes sagrados e consagrados da música erudita enaltecendo o meu trabalho.
É difícil descrever o impacto e o peso disso em um artista como eu, que ascendeu muito rápido.A questão é que ao longo de todo esse período em que permaneci em Paris, eu terminei, em situações mais especiais e reservadas, dando alguns recitais em que toquei ambos os gêneros. E foram apresentações que contaram com a presença de produtores e empresários do ramo da música clássica e popular.
Essas apresentações, que ocorriam fora dos grandes teatros e que contemplavam, além das músicas clássicas, alguns dos meus arranjos de músicas populares, impressionaram muito esse público mais privado.
O impacto que eu causei musicalmente por conta desta ambivalência foi muito grande, inclusive entre os críticos e músicos ditos mais puristas e tradicionais.
Isso chamou ainda mais a atenção de todos para a minha capacidade de traduzir minha musicalidade em diferentes gêneros de música.Entendam que personalidades como Mireille Mathieu, Françoise Sagan, Jean Paul Belmondo, Alain Delon, Michel Legrand, Charles Aznavour, e concertistas internacionais iam me assistir e se encantavam com os recitais e apresentações que eu dava nesses eventos.
Alguns deles passaram a fazer parte das minhas relações e eu do círculo de convívio e amizade deles.
Isso me impressionava muito porque eram pessoas do mundo da arte ‘reconhecendo’ a minha arte e que terminaram por divulgar essa minha habilidade.Quando a oportunidade surge novamente nos EUA, surge ‘reforçada’ como uma proposta, dita ‘inovadora’ em unir 2 gêneros de música em um mesmo LP; algo como ‘A Alta Interpretação do Clássico e a Erudição do Popular Brasileiro e Internacional’, o que não me interessou; recusei na hora.
Por conta de uma apresentação na casa do Tom Jobim no Rio, em que toquei peças clássicas e, ao final, alguns arranjos meus de música popular, Harry Belafonte que estava presente e se encantou com a apresentação, teve a ideia de me levar a residir nos EUA e se comprometeu em me dar apoio e ajudar com as agendas das grandes salas e teatros.
Logo depois, terminei fechando contrato com uma agencia americana que passou a me empresariar, e fui imediatamente convidado por uma gravadora para fazer um LP com clássicos de um lado e populares de outro – como fazia em minhas apresentações de difusão da música erudita no Brasil pra chamar público. E com o agravante de que alguns dos produtores envolvidos neste processo me viram tocar essas músicas populares com os arranjos que fiz no estilo jazzístico, em uma casa de Jazz em Nova York.
Estavam muito determinados nesse propósito, e a conjunção desses fatores todos, complicou tudo ainda mais.Diante da minha recusa, até sugeriram a proposta de fazer dois LPs separados em um mesmo álbum e, posteriormente, gravar 2 álbuns separados, mas eu, naquele momento, só queria vincular o meu nome ao repertório clássico.
Que ironia! Negava registrar um dom que me diferenciava e que não me depreciava em nada musicalmente, muito pelo contrário. Mas era tudo muito inusitado pra mim. Tratava-se de um caminho que apontava no sentido oposto ao que eu tinha como orientação e propósito profissional.Não me dei conta que o valor e o reconhecimento que eu tinha conquistado, pelas execuções e interpretações que dava no repertório clássico, me permitiam ir além, pois meu jeito de interpretar e expressar a minha musicalidade no popular encontrava conexão com todo tipo de público, inclusive o erudito.
Me expressava com muita maturidade em diferentes gêneros musicais, no clássico, no espanhol, no moderno e no popular. Não são todos que têm condições de fazer isso, e eu tenho.Admito que, nesta época, a crença de que músico clássico não se envolve com música popular me fez recusar essa proposta.
Mas as circunstâncias se repetiam.
Ao final dos recitais e concertos, e isso em apresentações nos grandes teatros, me pediam para tocar, de ‘bis’, os meus arranjos do popular.
Foram tantas as vezes, que resolvi acrescentar uma última parte de músicas populares. Uma 1ª parte de músicas clássicas com peças do barroco e do classicismo, intervalo, uma 2ª parte de clássicos com peças do romantismo espanhol e modernismo, intervalo menor, e uma terceira parte com músicas populares.Esse paradoxo, ou seja, esses músicos e críticos que se afeiçoavam à minha arte e que eram ‘tocados’ pela erudição das minhas interpretações no clássico e que recriminavam a presença de músicas populares mesmo como peças de ‘bis’, quando assistiam as minhas interpretações do popular ‘caíam para trás’ e se encantavam com as interpretações. Mas o preconceito de ver esse repertório popular como complemento de um programa em um recital erudito era maior, mesmo eles gostando.
Isso, porque naquela época, no Brasil e em alguns lugares no mundo, música popular no violão carregava um estigma de boemia e malandragem que não compactuava com o universo de uma música tida como séria.A questão é que muitos músicos que eram extremamente consagrados no mundo do clássico não pensavam assim. Ao contrário, me valorizavam ainda mais dizendo que eu tinha a capacidade de quebrar esse paradigma no violão e sobrepor a minha musicalidade aos preconceitos culturais; que isso em nada me diminuía como músico e concertista, só me valorizava, mesmo que ferindo certos protocolos.
Todos eles recomendaram que eu mantivesse a coerência com o meu propósito de me apresentar como concertista clássico nas grandes salas e teatros do mundo, claro, mas que não ferisse minha identidade em negar a apresentar ao mundo a minha arte e minha música em toda a sua extensão.
Que oferecesse ao público o melhor da música erudita no clássico e, porque não, no popular.Foi o que eu fiz.
Me tornei um concertista de violão clássico e levei ao mundo a música popular brasileira com o que eu podia oferecer musicalmente de melhor quando achasse necessário, ou quando meu público pedisse.Essa a razão de ter recusado a gravar na época.
Depois, outras oportunidades até surgiram, mas eu já não queria tanto. Percebi que essa necessidade de gravar não era minha, mas sim dos outros que me cobravam isso o tempo todo.Avaliando hoje, vejo que poderia ter gravado, mas agora esse tempo se foi e não me interesso mais.“
Darcy Villa Verde com o contrato para gravação de 3 álbuns de música clássica. Contrato intermediado por uma de suas empresárias, a cantora e produtora Renée Lebas. Paris, 1966.
Em meados da década de 80, depois de ter tocado em algumas das salas de concertos e teatros mais representativos e inusitados do mundo, Darcy Villa Verde começou a diminuir um pouco a frequência de suas apresentações.
Nessa época, o agravamento da doença STC – Síndrome do Túnel do Carpo que o acometeu por LER – Lesão por Esforço Repetitivo – uma outra síndrome constituída por um grupo de doenças – tendinite, tenossinovite, bursite, mialgia – ou seja, toda um comprometimento dos nervos e tendões alterando a sua capacidade funcional.
Essa nova realidade decorrente da quantidade de horas de estudo a que se submetia, e que atingiu seu polegar, o indicador e, posteriormente, o dedo médio, começou por comprometer sua habilidade e performance.
O histórico genético familiar de doenças reumáticas era grande, e tantas horas impostas de esforço repetitivo cobrou o seu preço, e cobrou mais cedo do que ele esperava.
Aos poucos começou a sentir uma espécie de dormência na mão direita, – polegar, indicador e médio – que subtraindo a sua sensibilidade tátil o impedia de sentir as cordas.
Desde então, com as crises constantes e intermitentes passou a tocar apenas com a memória procedural, ou seja, com a memória do movimento muscular e dos nervos dos dedos; guiando-se apenas pelas lembranças da correlação corda-som que mantinha arquivadas na sua memória.
Darcy Villa Verde relatou que no início era muito estranho, que ele precisou desenvolver todo um acabamento de como atacar e manobrar as cordas, tendo como guia apenas o retorno sonoro. Aliás, há muito a se dizer em termos de aprendizado a esse respeito, até porque seu trabalho se valia de um grande acabamento no controle tímbrico e sonoro.
Com o passar dos anos, a doença estendendo-se ao cotovelo e ombro acabou por revogar-lhe a surpreendente destreza que lhe concedia o brilhantismo e uma superioridade técnica sobre o instrumento, fruto de muitos anos de trabalho.
Uma destreza que impressionou os maiores músicos do mundo, como o próprio David Oistrakh que, em Paris, diante do corpo de estado da França e de um público composto de artistas, músicos, produtores, críticos musicais e formadores de opinião, declarou a Darcy Villa Verde, após a sua apresentação na casa do Sr. Gérard, diretor geral da editora Hachette:
“Nunca me emocionei tanto ouvindo um guitarrista como hoje.
Você me parece a própria encarnação do Paganini, apenas com a diferença do instrumento.”– David Oistrakh, 1966
Muitos anos depois, como última recordação, atendendo aos insistentes e ininterruptos pedidos do filho, o mesmo que com três anos contornou a morte ao lado do pai, rendeu-se à gravação para que nunca perdessem o contato.
Mais um grande desafio.
Aposentado, com praticamente 70 anos de idade, sem praticar, doente, cansado, 15 anos afastado dos palcos e sem nenhuma sensibilidade na ponta dos dedos da mão direita, retomou o violão. Durante cinco anos trabalhou os dedos dormentes e comprometidos pela doença, com oito horas de estudo diário.
A dor insuportável, aplacada unicamente com doses intensas de cortizona e, posteriormente, morfina, levavam-no a reflexões – confessou mais tarde – de que talvez a única prova que restasse do seu legado fosse o que ele pudesse extrair de melhor naqueles últimos momentos de estudo de sua vida, e na pior fase de sua doença degenerativa. Isso o afligia profundamente, vaidoso que era com o seu trabalho, levando-o a superar as dores com horas e mais horas de exercícios que cada vez mais agravavam o seu quadro de sintomas.
Com as dificuldades parcialmente vencidas, gravou um par de CDs, e logo após aposentou o violão para sempre.
Em casa, após retornar do último dia de gravação, totalmente extenuado e abraçado ao filho, confessou de forma profundamente sentida e discreta:
“Desculpa meu filho, com tantas limitações não posso mais do que fiz, me perdoe! Tanto esforço e deixo a você apenas a sombra do que já fui como músico!”
5 anos de estudos diários, 8 horas por dia, para ao fim, depois de ouvir o resultado de todo o seu esforço, dizer o que disse.
Sua seriedade com relação ao violão era algo realmente de outro mundo, de um mundo só dele, assim como de tantos outros que se abdicam de tudo pela arte e pela música.
Darcy Villa Verde viveu, respirou e transpirou música e violão durante toda a sua existência.
Apesar de uma carreira de concertista relativamente curta, uma vez que começou a tocar profissionalmente música clássica a partir dos seus 28 anos e precisou diminuir a intensidade de suas apresentações a partir de meados dos anos 80, nunca deixou de nos agraciar com sua contagiante musicalidade, simpatia e alegria de viver e sentir a música.
Consciente de suas escolhas e sereno quanto a inevitabilidade de não poder mais se apresentar em palco, seguiu novos rumos após quase 60 anos de violão, sendo praticamente 30 deles, de apresentações como violonista profissional clássico.
Partiu deixando a pequena mostra de um legado, de uma escola de violão e de música na qual pode-se perceber nitidamente o que o levou a ser merecedor, em seu tempo, do título que o destacou e o consagrou como um “Gênio e o seu violão divino”.
No intuito de ajudar a entender o ‘sentido’ das interpretações registradas nas gravações que aqui estão disponibilizadas, convidamos a todos para uma leitura prévia de algumas poucas passagens de sua vida que o influenciaram a se tornar quem se tornou, e a tocar como tocou.
Acreditamos, sinceramente, que tomar conhecimento de alguns fatos importantes de sua vida fará diferença porque, segundo o próprio Villa Verde, suas interpretações materializaram o que ele viveu como homem, transformou como músico e apresentou como artista.


